Olá amigos cultos e ocultos! Carnaval acabou, vamos retornando à realidade, trocando as máscaras e fantasias. 2013 nos espera. Ainda há muito o que rolar por aí, inclusive os discos do Toque Musical. Este é o primeiro post do ano para as nossas produções exclusiva. Vamos com um registro de show do grupo Tarancón realizado em 2009 no bar Villaggio Café, em São Paulo. Esta gravação me foi enviada pelo amigo Daniel Vergueiro há mais de uns três anos. Não fosse eu buscar em meus arquivos os discos do Tarancón para reposição de novos links, nem lembraria desta gravação. Daniel, demorou, mas chegou! Com direito a capa e contracapa ;)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
sábado, 22 de dezembro de 2012
Boa noite a todos! Como estamos encima do Natal, eu vou logo
buscando algo condizente com a data. Mas como vocês sabem, estou meio sem tempo
para procurar e preparar alguma coisa que me tome mais de cinco minutos. Assim,
recorro ao que está mais fácil.
Encontrei este arquivo, que me foi enviado por um de nossos
amigos há algum tempo atrás. Trata-se de um compacto de jingles da Rádio
Nacional, utilizado em suas saudações de fim de ano. Não sei precisar a data,
mas creio que seja da década de 60. Uma curiosidade para não deixarmos o dia de
hoje passar em branco. Vamos fazer isso na passagem do ano :)
hino da rádio
nacional
jingle bells
noite feliz
natal alegre
natal religioso
ano novo luar do sertão
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Jacob Do Bandolim 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 48 (2012)
Em sua edição de número 49, o Grand Record Brazil inicia uma
retrospectiva dedicada àquele que, certamente, foi um dos maiores bandolinistas
brasileiros, senão o maior: o carioca Jacob Pick Bittencourt, que ganhou a
imortalidade como Jacob do Bandolim.
Nascido no Rio de Janeiro em 14 de fevereiro de 1918, de pai
capixaba e mãe polonesa, Jacob estudou no Colégio Anglo-Americano e serviu no
CPOR. Quando já “arranhava” o bandolim, trabalhou no arquivo do Ministério da
Guerra, e depois fez carreira como serventuário da Justiça do Rio, onde chegou
até mesmo a ser escrivão de vara criminal. Sua casa no bairro de Jacarepaguá,
avarandada e com jardim, era palco de memoráveis rodas de choro (os “saraus”),
e nelas Jacob recebia seus grandes amigos chorões. Entre seus ídolos estavam
Almirante, Noel Rosa, o pianista Nonô, Luiz Vieira, Pixinguinha e Ernesto
Nazareth. Mesmo não sendo lá grande entusiasta do carnaval, gostava bastante de
frevo. Foi “guru” de Sérgio Cabral (pesquisador e produtor musical, pai do
governador do Rio, Sérgio Cabral Filho), Hermíno Bello de Carvalho e Ricardo
Carvo Albim. Autor de clássicos do choro (“Vale tudo”, “Noites cariocas”,
“Assanhado”, “Doce de coco” e muitos mais), Jacob formou, nos anos 1960, o
conjunto Época de Ouro, que mesmo após sua morte, em 13 de agosto de 1969,
permaneceu na ativa, e existe até hoje. Seu último espetáculo público aconteceu
em 1968, no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, onde se apresentou ao lado
de Elizeth Cardoso e do Zimbo Trio, além, é claro, do Época de Ouro. Teve dois
filhos: Sérgio Bittencourt (jornalista e também compositor, sendo inclusive
autor do clássico “Naquela mesa”, em homenagem ao pai) e Elena Bittencourt, que
tornou-se depois presidente do Instituto Jacob do Bandolim.
As gravações de Jacob do Bandolim que compõem esta
retrospectiva são do acervo do pesquisador Sérgio Prata, e abrangem o período
de 1947 a 1959. Nesta primeira parte, composta de doze fonogramas, apresentamos
as músicas de seus quatro primeiros discos, gravados na Continental. Jacob
estreou com o 78 de número 15825, gravado em 9 de julho de 1947 e lançado entre
agosto e outubro desse ano. Abrindo-o, matriz 1693, um choro dele mesmo,
“Treme-treme” (a faixa 11 da nossa sequência), e no verso, matriz 1686, a bela valsa
“Glória”, de Bomfiglio de Oliveira (faixa 12), lançada originalmente em 1931
por Gastão Formenti, com letra de Branca Coelho. O segundo disco de Jacob levou
o número 15872, sendo lançado em março de 1948. No lado A, gravado em 23 de
junho de 47, matriz 1687, a bela valsa, dele próprio, “Salões imperiais” (que
abre a sequência). No lado B, gravado em 9 de julho de 47, matriz 1694, outra
composição do trompetista Bomfiglio de Oliveira, o conhecido choro “Flamengo”
(a faixa 2), originalmente gravado pelo autor em 1931, sendo este registro de
Jacob também muitíssimo apreciado. Curioso é que, nessas quatro primeiras
gravações, Jacob é acompanhado pelo conjunto do violonista César de Faria, pai
do grande Paulinho da Viola. Em seguida, do terceiro disco, número 15957,
gravado em 18 de setembro de 1948 e lançado entre outubro e dezembro seguintes,
outras duas composições do próprio Jacob: o choro “Remelexo” (faixa 4), matriz
1943, e a valsa “Feia” (faixa 3), matriz 1944 (vocês vão perceber que a música
não faz nenhuma jus ao título, sendo de fato primorosa). Do quarto e último
disco de Jacob na Continental, número 16011, lançado em março-abril de 1949, o
choro “Cabuloso”, de sua autoria (faixa 5), matriz 1942, e a conhecida “Flor
amorosa”, matriz 1945, de Joaquim Antônio da Silva Callado, originalmente polca
e aqui choro, cujos primeiros registros, no início do século passado (fase
mecânica de gravação) foram apenas instrumentais, apesar de Catulo da Paixão
Cearense ter lhe posto versos em 1880, mesmo ano da morte de Callado.
As outras quatro faixas foram gravadas por Jacob do Bandolim
já na RCA Victor, onde o mestre passa a registrar praticamente toda a sua
discografia. Sua primeira sessão de estúdio na “marca do cachorrinho” dá-se em
12 de maio de 1949, com o disco 80-0602, lançado em julho daquele ano, e do
qual apresentamos a faixa de abertura: o famoso tango “O despertar da
montanha”, de Eduardo Souto, matriz S-078881. Temos depois “Sorrir dormindo”,
ou “Por que sorris”, valsa de Juca Kalut lançada ainda nos tempos do disco
mecânico, levada a disco por Jacob em 9 de janeiro de 1950 com lançamento em
junho do mesmo ano (80-0653-B, matriz S-092605), uma valsa do próprio Jacob,
“Encantamento”, por ele gravada na mesma sessão e lançada em julho de 1950
(80-0667-B, matriz S-092607), e uma deliciosa polca também de autoria do
próprio mestre Jacob, “Mexidinha”, gravação de 30 d ejunho de 1950 e lançada em
setembro seguinte com o número 80-0688-A, matriz S-092699. Está muito bom para
começar, não é mesmo? Então aguardem que vem mais por aí, tá combinado? Então
até lá...
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Noel Rosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 47 (2012)
Nascido a 11 de dezembro de 1910, em um chalé da Rua Teodoro
da Silva, no bairro carioca de Vila Isabel (onde atualmente está erguido um
edifício residencial que leva seu nome), Noel de Medeiros Rosa viveu pouco,
apenas 26 anos e quase cinco meses (morreu em 4 de maio de 1937, vitimado pela
tuberculose), mas deixou uma obra musical extensa (quase 260 composições!),
criativa e cheia de sucessos. E o impressionante é que as composições do Poeta
da Vila são sempre atualíssimas, nunca passam de época. Um legado que tem
atravessado os anos, com muita justiça, e faz a gente se sentir grato por ele
ter existido, ainda que por pouco tempo, e deixado coisas tão eternas, tão
permanentes.
Pois nesta sua quadragésima-sétima edição, o Grand Record
Brazil reverencia o talento de Noel Rosa como autor e também intérprete,
através de 14 preciosos fonogramas. E ele só levou a disco música sua, com e/ou
sem parceria (aqui todas as músicas são dele sozinho). Quem mais gravou músicas
de Noel, por sinal, acabou sendo ele próprio: 33 ao todo.
Noel deixou gravações nos selos Parlophon, Odeon, Columbia
(futura Continental) e Victor. Sua primeira gravação como intérprete, aqui
incluída, foi a toada “Festa no céu”, lançada pela Parlophon em agosto de 1930,
disco 13185-A, matriz 3320. No verso, matriz 3654, a embolada “Minha viola”, a
faixa seguinte. Depois temos um autêntico clássico noelino: o samba “Com que
roupa?”, um eufemismo da época para “Com que dinheiro?”, traduzindo a crise
econômica causada pelo “crack” da Bolsa de Nova York, em 1929. Outro registro
Parlophon, datado de 30 de setembro de 1930 e lançado em novembro seguinte sob
n.o 13245-A, matriz 4007. Um autêntico estouro no carnaval de 1931! Quase ao
final do registro, o maestro e compositor Eduardo Souto diz de improviso: “Vai
de roupa velha e tutu, seu trouxa!” (Noel depois fez nova gravação de “Com que
roupa?”, com outra letra e em dueto com Inácio Guimarães de Loyola, o Ximbuca).
No verso, matriz 4008, outro samba interessante, “Malandro medroso”. “Gago
apaixonado” é um samba muito apreciado principalmente por sua originalidade, e
o próprio Noel declarou ser esta sua melhor composição, pois além de original,
não conseguia ser cantada por seus vizinhos e respectivos papagaios de
estimação... A gravação, lançada pela Columbia em março de 1931 (disco 22023-B,
matriz 381007), tem um atrativo à parte: o solo de lápis nos dentes do cantor
Luiz Barbosa, abrindo e fechando a boca para alterar o timbre! “Cordiais
saudações” é um “samba epistolar”, que surgiu na revista “Mar de rosas”, e nela
foi interpretado por Sílvio Caldas. Noel gravou a música duas vezes na
Parlophon, e esta é a primeira versão, com acompanhamento da Orquestra
Copacabana, do palestino Simon Bountman, matriz 131170, não lançada
comercialmente, uma vez que foi desaprovada pelo próprio compositor, que fez
outro registro dias depois, com o Bando de Tangarás, sendo esse último o que
foi para as lojas, em julho de 1931, com o número 13327-A. E é do lado B,
matriz 131185, um outro bom samba do mestre Noel por ele próprio cantado,
“Mulata fuzarqueira” (ser “da fuzarca” era o mesmo que farrear). O “samba
fonético” “Picilone”, subintitulado “Yvone”, é uma alusão à reforma ortográfica
que aboliu do alfabeto brasileiro a letra “y”, agora reconduzida ao mesmo.
“Dizer um picilone” era a mesma coisa que elogiar. Noel canta junto com João
“Braguinha” de Barro, seu colega no Bando de Tangarás, nesta gravação lançada
pela Parlophon em setembro de 1931, com o n.o 13344-B, matriz 131208. Há também
referência à Kananga do Japão, uma “sociedade familiar dançante e carnavalesca”
então existente no Rio. “O pulo da hora” saiu pela mesma gravadora um mês mais
tarde, em outubro de 31, disco 13350-A, matriz 131241, tendo no verso, matriz
131242, “Vou te ripar”, que também apresentamos aqui. Foram incluídas,
igualmente, as duas músicas do único disco-solo de Noel na Victor, o de n.o
33488, gravado em 10 de outubro de 1931 e lançado em novembro seguinte.
Abrindo-o, matriz 65252, “Por causa da hora”, referência ao horário de verão,
adotado pela primeira vez naquele ano para economizar luz elétrica e que
voltaria em outros anos, sendo adotado ininterruptamente no Brasil a partir de
1985. Mais atual impossível... No verso, matriz 65251, saiu “Nunca... jamais”.
Em “Mentiras de mulher”, Noel canta junto com Artur Costa, ator do teatro de
revista. Gravação lançada pela Columbia em fevereiro de 1932, sob n.o 22083-A,
matriz 381158. Para encerrar, apresentamos “Espera mais um ano”, também cantado
em dueto por Noel e Arthur em registro Columbia, de novembro de 1931, mas, ao
que parece, não lançado comercialmente na época, sendo o disco de prova
encontrado nos arquivos do pesquisador Eduardo Corrêa de Azevedo. Em 1983,
“Espera mais um ano” foi registrado na Eldorado pelo Conjunto Coisas Nossas
para o LP “Noel Rosa inédito e desconhecido”, aproveitando no início parte
deste registro original. Enfim, uma pequena amostra da genialidade do grande
Noel Rosa, que, mesmo tendo voz pequena, agradava bastante como intérprete,
pois tinha muita bossa e talento!
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Nelson Cavaquinho - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - vol. 46 (2012)
Em sua edição de número 46, o Grand Record Brazil reverencia
um dos maiores sambistas que o Brasil já teve: o carioca e mangueirense Nélson
Antônio da Silva, que ganhou a imortalidade com o pseudônimo de Nélson
Cavaquinho (1911-2002). Filho de músico da Banda da Polícia Militar e sobrinho
de violinista, Nélson deixou um acervo de mais de quatrocentas composições, com
letras quase sempre remetendo a temas como o violão, mulheres, botequins e em
especial a morte. Entre suas músicas mais conhecidas estão “Rugas”, “A flor e o
espinho”, “Quando eu me chamar saudade”, “Juízo final”, “Luz negra”, “Pranto de
poeta”, “Cuidado com a outra” e “Degraus da vida”.
A seleção aqui
contida reúne 14 preciosas gravações, todas elas sambas, e foi feita pelo blog
Coisa da Antiga, do grande Ary do Baralho. Ciro Monteiro aqui comparece com
quatro gravações Victor: “Apresenta-me aquela mulher”, parceria de Nélson com
Augusto Garcez e G. de Oliveira, de 25 de maio de 1943, lançada em setembro do
mesmo ano (80-0107-B, matriz S-052779), “Não te dói a consciência”, em que
Nélson Cavaquinho tem a parceria também de Augusto Garcez mais Ari Monteiro,
também de 1943, gravada em 6 de julho daquele ano com lançamento em outubro
(80-0119-B, matriz S-052799), “Aquele bilhetinho”, que Nélson e Garcez assinam
com Arnô Canegal, de 13 de abril de 1945, lançada em maio seguinte (80-0282-A,
matriz S-078154), e por fim o clássico “Rugas”, da mesma tríade de “Apresenta
aquela mulher”, gravado pelo “Formigão” em 21 de março de 1946 e lançada em maio
do mesmo ano (80-0406-A, matriz S-078450). “Rugas” tem vários registros
posteriores, entre eles os de Roberto Silva, Jair Rodrigues e Luiz Cláudio. Em
“O fruto da maldade”, Nélson Cavaquinho tem a parceria de César Brasil, e o
lançamento deu-se pela Continental, na voz de Jorge Veiga, entre julho e
setembro de 1951, disco 16434-B, matriz 2632. “Minha fama”, parceria de Nélson
com Magno de Oliveira, foi gravado na Odeon por Risadinha, em 4 de setembro de
1952, mas só saiu em junho de 53 com o n.o 13455-B, matriz 9413. Do carnaval de
1954, “Amor que morreu”, parceria de Nélson Cavaquinho com Roldão Lima e
Gilberto Teixeira, foi gravado por Elizeth Cardoso na Todamérica em 12 de
novembro de 53 e lançado ainda em novembro (TA-5380-B, matriz TA-591). E
Elizeth seria mais tarde uma das mais assíduas divulgadoras da obra de Nélson.
Da parceria dele com César Brasil também é “Não brigo mais”, gravado também na
Todamérica por Vítor Bacelar (Salvador, BA, 1911-Rio de Janeiro, 2005) em 23 de
agosto de 1954, com lançamento em setembro seguinte (TA-5471-B, matriz TA-723),
visando a folia de 55. Em seguida uma curiosa incursão de Nélson pelo
samba-canção, em parceria com Guilherme de Brito: “Garça”, com Ruth Amaral
(também compositora e intérprete de marchinhas carnavalescas), lançado pela
Columbia em agosto de 1955, disco CB-10192-A, matriz CBO-547. Ruth também
interpreta “Cinzas”, dos mesmos autores mais Renato Gaetani, que a mesma
Columbia lançou em novembro de 55, sob n.o CB-10210-A, matriz CBO-584. Foi
também incluída a gravação de Nerino Silva, que a Chantecler lançou em janeiro
de 1963, disco 78-0677-B, matriz C8P-1354, e depois incluída no LP “Arroz de
festa”. Em seguida, Nélson assina com seu inseparável parceiro Guilherme de
Brito o samba “Palavras malditas”, gravado na Todamérica por Ary Cordovil em 6
de setembro de 1957, disco TA-5724-B, matriz TA-100091, visando o carnaval de
58, e que foi regravado por Beth Carvalho em 2011, no CD “Nosso samba tá na
rua”. O mesmo Ary Cordovil canta “Cheiro de vela”, de Nélson com José Ribeiro,
em gravação do extinto selo Vila, disco 10003-A, que o Instituto Memória
Musical Brasileira diz ser de 1961. E o cantor Orlando Gil encerra nossa
seleção com “Negaste um cigarro”, parceria de Nélson Cavaquinho com José
Batista, gravação de 1962 para outro selo extinto, o Albatroz, disco A-121-B. É
a homenagem do Coisa da Antiga e do Toque Musical, através do GRB, a este
grande compositor e poeta que foi Nélson Cavaquinho!
Texto
de SAMUEL MACHADO FILHO.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
It's Rock 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 45 (2012)
E chegamos esta semana à quadragésima-quinta edição do meu,
do seu, do nosso Grand Record Brazil, apresentando a segunda parte de uma
seleção dos primórdios do rock brasileiro, feita e digitalizada pelo amigo
Chico, administrador do blog Sintonia Musikal, que gentilmente a liberou para
os amigos cultos, ocultos e associados do nosso TM, e a quem mais uma vez
agradecemos a cortesia.
Abrindo a seleção desta semana, que perfaz um total de 13
fonogramas, o mambo-rock (ou rumba-rock) “Cha-hua-hua”, de Joe Lubin e Irving
J. Roth, na execução de Luizinho e seu Conjunto, gravação lançada pela Columbia
em 1958 com o n.o CB-11044-A, matriz CBO-1630, e que também integrou o LP “Um
baile com Luizinho”, reedição ampliada de um álbum de dez polegadas com o mesmo
título, editado um ano antes. Guitarrista, o músico teve também a banda
Luizinho e seus Dinamites, e faleceu na década de 1990. Em seguida outra faixa
instrumental, lançada pela mesma gravadora e também em 58, um pouco antes: o
rock “Short shorts”, de Tom Austin, Bob Gaudio, Billy Dalton e William
Crandall, integrantes do grupo americano Royal Teens, aqui na interpretação de
Bolão e seus Rockettes, disco CB-11035-A, matriz CBO-1556, sendo também faixa
do LP “Rock sensacional” (ironicamente reeditado mais tarde como “Viva a
brotolândia”, mesmo título do primeiro LP de Elis Regina!). Saxofonista,
clarinetista e flautista, Isidoro Longano, o Bolão (1925-2005)
profissionalizou-se como músico em 1944, integrando várias orquestras e, como
roqueiro, também gravou discos com os pseudônimos de Edward Long e Bob Longano,
além de ter também integrado os Jet Blacks.
O pianista Aldovrando de Castro, o popular Mestre Duda, foi durante anos muito popular na noite
paulistana, teve conjunto próprio e gravou diversos discos de cunho dançante.
Ele aqui comparece com “The Tennessee
rock and roll”, de Larry Coleman e Irving Reid, lançado em janeiro-fevereiro de
1958 pela Continental com o n.o 17514-B,
matriz 12017, faixa depois
incluída em seu segundo LP, “Vai
começar o baile”.
A faixa 4 é “Ski rock, ski roll”, de autoria de “Louis
Oliveira and friends”, interpretada pelo grupo Os Cometas, gravação Odeon de 29
de janeiro de 1957, lançada em abril seguinte com o n.o 14185-B, matriz 11520.
Na faixa 5, “A zoo rock”, composição e interpretação de Luiz de França, um
autêntico zoológico musical, com imitações de animais diversos. Foi o primeiro
lançamento, em 1959, de uma gravadora que durou pouco tempo, a Discobrás
(0001-A).
Cantor e compositor paulistano, Osvaldo Rodrigues (n.1920)
era linotipista nas oficinas de impressão do “Diário Oficial” de São Paulo
antes de seguir carreira musical, e os colegas de trabalho o incentivaram a
cantar. Gravou seus primeiros discos no selo Carnaval, da Star (futura
Copacabana) em 1951, com músicas para a folia de Momo. Sua discografia, também
nos selos Continental, Odeon e Philips, é bastante extensa: algo em torno de 50
discos 78, além de um compacto duplo e participações em LPs-coletâneas. Aqui,
Osvaldo interpreta “Personality”, grande sucesso de Lloyd Price, composto por
ele e Harold Logan, em versão de Sérgio Galvão e Neide Garcia. A gravação saiu
em outubro de 1959 pela Continental, com o n.o 17740-A, matriz 12359. A versão
teve também registros de Regina Célia e dos Golden Boys, na mesma ocasião.
Paraibano de João Pessoa, Jayro Aguiar (n. 1937) gravou seu primeiro disco em 1956, na
Copacabana, interpretando o samba “Uma noite no Rio” e a valsa “Sussu”. Tem
também nove Lps, vários 78 rpm e alguns compactos em sua discografia. Seu
último trabalho em disco foi o CD independente “Ontem, hoje e sempre”, nos anos
1990. Jayro Aguiar aqui comparece com o calipso “O herói da lambreta”, dele
próprio em parceria com o acordeonista Mário Mascarenhas, lançado pela
Copacabana em novembro de 1959 com o n.o 6051-A, matriz M-2508.
Liderado por Renato Barros, o grupo Renato e seus Blue Caps
foi um dos mais populares dos anos 1960/70, e também um dos ícones da Jovem
Guarda. Eis aqui uma faixa rara, em que eles aparecem com o nome de Os
Adolescentes, lançada em 1960 pela modesta gravadora Ciclone, com o número
12015-A: “Espante a tristeza (Shoo ya blues)”, de Luther Dixon e Smith, em
versão de Pedro Leandro Nunes. Foi aliás a estreia do grupo em disco.
Humorista e entrevistador de televisão, tendo criado tipos
inesquecíveis, o carioca Jô Soares (n. 1938) mostra aqui seu lado roqueiro com
a divertida “Volks do Ronaldo”, que ele mesmo lançou no compacto simples de
selo Farroupilha n.o FA-103-B, em 1963. Naquele tempo, é bom que se frise, o
Volkswagen 1300 ainda não era chamado de Fusca. Logo em seguida vem outro
comediante famoso, Tutuca, pseudônimo de Usliver João Baptista Linhares
(n.1934), famoso pelo bordão “Xiiiiiiii.....”. Ele aqui interpreta, de sua
autoria, “Playboy maluco”, gravação de 12 de maio de 1960, lançada em julho
seguinte, que inaugurou o selo Camden, da RCA Victor, com o n.o CAM-1001-A,
matriz 13-L3PB-0966. E olha só quem vem depois: José Messias. Sim, ele mesmo,
aquele jurado do Raul Gil! Admirado por uns, detestado por outros, ele aqui
interpreta, de sua autoria, o “Rock do Cauby”, satirizando a popularidade do
grande Cauby Peixoto, em gravação lançada pela Philips em abril de 1961, sob
n.o P-61088-H-A. Nascido em Bom Jardim de Minas, no ano de 1928, Messias tem
mais de duzentas composições gravadas, nas vozes de inúmeros intérpretes, como
Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Roberto Carlos e José Ricardo,
entre outros.
Outro comediante querido, este lembrado com saudade pelo
público, Walter d'Ávila (Porto Alegre, RS, 1911-Rio de Janeiro, 1996) aqui
comparece com o “Rock do vovô”, de Bruno Marnet e Ari Monteiro, que gravou na
Odeon em 30 de junho de 1961, com lançamento em novembro seguinte sob n.o
14744-B, matriz 14802.
E encerramos esta seleção com chave de ouro, trazendo nada
mais nada menos que o futuro “Rei”, Roberto Carlos! Ele aqui interpreta, de
Hélio Justo e Erly Muniz, “Triste e abandonado”, lançada pela CBS em outubro de
1962 com o número 3239-B, matriz CBO-3495, e depois disponibilizada em compacto
duplo. Não poderia haver encerramento melhor para esta seleção, vocês não
acham? Pois então, divirtam-se!
sábado, 24 de novembro de 2012
Pedro Sorongo - Sorongando - Uma Coletânea Toque Musical (2012)
Boa noite, amigos cultos e ocultos! Hoje eu atrasei, mas não
vacilei. Ainda no último momento do dia, aqui estou trazendo sempre uma boa
surpresa. Passei duas horas preparando esta coletânea especial e exclusiva em
homenagem ao grande músico, o compositor e percussionista Pedro Santos, ou mais
conhecido como Pedro ‘Sorongo’.
Ao ler uma mensagem postada hoje no blog pela Lys Araújo,
filha de Pedro, acabei me empolgando e passando a tarde toda ouvindo diversos
discos onde o artista deu lá a sua contribuição. Discos de diversos e
diferentes artistas e também trabalhos seus. Não foi fácil selecionar apenas 35
gravações. Aliás, difícil foi reduzir a apenas esse número. O cara gravou muito
e com muita gente. Separei aqui o que me pareceu mais interessante. Gosto pessoal,
mas com toda certeza irá agradar a muita gente. Como são muitas músicas,
podemos considerar este ‘webdisco’ um álbum duplo, ou triplo se fosse o caso de
ser vinil. Para embrulhar o presente, fiz também a capa e contracapa. Como
todos sabem, gosto de serviço completo. O bom de coletâneas como essa é que ela
só seria possível nessas circunstâncias. Comercialmente isso nunca iria
acontecer. Então, não percam tempo, vamos a mais “Uma Coletânea Toque Musical”.
São tantas as músicas que eu fiquei com preguiça de lista-las como de costume.
Mas vocês poderão checar na contracapa, ok? Vamos lá...
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Pedro Sorongo
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
It's Rock 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 44 (2012)
Esta semana, em sua quadragésima-quarta edição, o Grand
Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma seleção de rock (ou
coisa parecida) produzida e digitalizada pelo blog Sintonia Musikal, na pessoa
de seu administrador Chico, um autêntico especialista em resgatar o passado de
nossa música dita “jovem”, e seguidor de carteirinha do TM. Aquele abraço,
Chico!
Permitam-me os amigos cultos, ocultos e associados começar
minha resenha desta primeira parte pela faixa 5. Ela foi justamente o começo, o
pontapé inicial do rock tupiniquim. Estou falando da gravação feita pela
carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, 1922-2003) de “Rock around the
clock”, de Jimmy de Knight e Max C. Freedman. A música era sucesso com Bill
Haley e seus Cometas, e fazia parte do filme “Sementes da violência (The
blackboard jungle)”, da MGM. Em 24 de outubro de 1955, Nora compareceu ao
estúdio da Continental, no Edifício Cineac-Trianon (Avenida Rio Branco, esquina
com Rua Bittencourt da Silva, em frente ao lendário Café Nice) para gravar sua
personalíssima versão deste rock pioneiro, lançada em novembro-dezembro do
mesmo ano com o n.o 17217-A, matriz C-3730. Foi assim que o rock and roll
começou a balançar a juventude brasileira!
No restante do programa que o Chico nos oferece, outras doze
peças raras, curiosas e interessantes do início do rock brasileiro, a chamada
“pré-Jovem Guarda”. Nem mesmo a pianista Carolina Cardoso de Menezes (Rio de
Janeiro, 1916-idem, 1999) resistiu aos encantos do chamado “ritmo alucinante”,
compondo e executando o seu “Brasil rock”, em gravação Odeon de 14 de março de
1957 (14191-B, matriz 11601), lançada em maio daquele ano. Em seguida vem a
faixa mais antiga desta seleção do amigo Chico: uma versão em português de
“Jambalaya (On the bayou)”, clássico country de Hank Williams, assinada pelo
comediante Edair Badaró, então atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record
de São Paulo). Na interpretação, Neyde
Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987), então também atuando na Record.
Gravado pela Odeon em 4 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano
(13527-A, matriz 9873), este é considerado o maior sucesso da cantora. Em
seguida, a versão de Aloysio de Oliveira para “In the mood”, clássico da big
band de Glenn Miller, de Joe Garland e Andy Razaf, interpretada pelo Bando da
Lua, formado e dirigido por Aloysio, com o nome de “Edmundo”. Gravação de 8 de
junho de 1954, feita nos EUA pela Decca (hoje Universal Music), mas só lançada
no Brasil vinte anos mais tarde, no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por
João Luiz Ferrete para a Chantecler, então representante da Decca/MCA. Depois,
o curioso “rock-baião-samba” “Eu sou a tal”, de Murilo Vieira, Edel Ney e
O.Vargas, interpretado por Mara Silva (Isabel Gomes da Silva, Campos, RJ,
n.1930), em gravação lançada pela RGE em dezembro de 1957 (10076-A, matriz
RGO-335). A faixa 6 traz aquele que é considerado o primeiro rock cem por cento
brasileiro, letra e música: “Rock and roll em Copacabana”, assinado por esse
verdadeiro cronista que foi Miguel Gustavo, e gravado na RCA Victor por Cauby
Peixoto em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em maio seguinte (80-1774-A,
matriz 13-H2PB-0043). Temos depois a versão feita pelo radialista Paulo Rogério
para o conhecido mambo-rock “Tequila”, de Chuck Rio, originalmente
instrumental. A gravação coube à carioca Araci Costa (1932-1976) e saiu pela
Continental em setembro-outubro de 1958, com o número 17595-A, matriz C-4123.
“Tequila” era um dos números mais apreciados da orquestra do “bandleader” e
vibrafonista Sylvio Mazzucca (São Paulo, 1929-idem, 2003), que curiosamente vem
aqui com o chá-chá-chá “Cerveza”, de Boots Brown, em gravação lançada pela
Columbia no mesmo ano de 1958 (CB-11079-A, matriz CBO-1767). O cantor Mário
Augusto, criador de hits como “O amor de Terezinha” e “Calcutá”, aqui comparece
com a versão de Fred Jorge para “Claudette”, de Roy Orbison, extraída de seu
segundo disco, o Odeon 14372-B, gravado em 26 de agosto de 1958 e lançado em
setembro do mesmo ano, matriz 12848. “A minha, a sua, a nossa favorita” (como
César de Alencar a anunciava em seu programa na Rádio Nacional) Emilinha Borba
vem aqui com a versão do misterioso A.Bourget para o chá-chá-rock “Patrícia”,
de Pérez Prado, lançada pela Columbia também em 1958 (CB-11070-B, matriz
CBO-1766). Marita Luizi, um daqueles nomes atualmente relegados ao mais
completo esquecimento, apesar de terem tido sua época, aqui comparece com o
calipso “Sonho maluco”, de Elzo Augusto e Miranda, lançado pela Copacabana em
dezembro de 1959 com o n.o 6086-B, matriz M-2590, o segundo de seus três discos
nesse formato. Marita também deixou um LP intitulado “Os grandes momentos”
(Alvorada/Chantecler, 1978), ao que parece coletânea, e participou do álbum
“Cinco estrelas apresentam Inara” (Copacabana, 1958), reunindo músicas de Inara
Simões de Irajá (suas faixas nesse disco são”E ele não vem” e “Boca da noite”).
Outro nome da pré-história de nosso rock and roll, Regina Célia, comparece aqui
com a divertida “Aula de inglês em rock”, de Canarinho e Kid Sax, gravada na Polydor
em 9 de dezembro de 1959 e lançada em janeiro de 60 no 78 rpm n.o 342-B, matriz
POL-3774. Encerrando esta primeira seleção do amigo Chico, Cizinha Moura, que
deixou apenas dois discos 78 com quatro músicas, aqui interpretando, do segundo
e último deles, o Chantecler 78-0134-B, lançado em junho de 1959, o fox
“Brotinho Lili”, de Alberto Roy e Domingos Paulo, matriz C8P-268. Enfim, um
interessante panorama dos primórdios do rock and roll no Brasil, que
continuaremos na próxima semana, sempre agradecendo ao Chico do Sintonia
Musikal pela gentileza de permitir o aproveitamento desta seleção no GRB. Até
lá!
SAMUEL
MACHADO FILHO.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Toque Importante Aos Associados GTM
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Nilo Sérgio, Dick Farney, Lúcio Alves, Tito Madi, Bill Farr, Johnny Alf - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 43 (2012)
E chegamos à quadragésima-terceira edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Esta semana, apresentamos gravações de alguns intérpretes considerados precursores da bossa nova, e feitas antes da eclosão oficial do movimento, em 1958, com o LP “Canção do amor demais”, de Elizeth Cardoso, e o 78 rpm “Chega de saudade”/”Bim bom”, com João Gilberto.
Começamos com Nilo Sérgio, pseudônimo de Nilo Santos Pinto. Também compositor, arranjador e maestro, iniciou sua carreira nos áureos tempos da lendária Rádio Nacional, e gravou seus primeiros discos em 1943/44, com músicas americanas. Após gravar na RCA Victor, onde se iniciou, na Continental e na Todamérica, fundou, em 1953, sua própria gravadora: a Musidisc, por sinal uma das pioneiras do LP no Brasil. Embora pequena, a gravadora tornou-se notável no período em que atuou, e por lá passaram nomes do quilate de Ed Lincoln, Orlandivo, Eliana Pittman e o também maestro Léo Peracchi. Teve também o selo Nilser (iniciais de seu nome artístico). A Musidisc notabilizou-se por álbuns temáticos tipo “Música para adormecer”, “Datas felizes”, etc., e lançou orquestras ditas “grandiosas”, como Violinos Mágicos e Românticos de Cuba (ambas, na verdade, eram a Tabajara de Severino Araújo), esta última a de maior êxito, que executava versões aboleradas de hits nacionais e internacionais, até mesmo de Roberto Carlos. Este último álbum, de 1979, foi a última produção de Nilo, que faleceria dois anos mais tarde. Para esta seleção, o GRB escalou seu primeiríssimo disco interpretado em português, o Continental 16085, lançado entre julho e setembro de 1949. No lado A, matriz 2122, a “Canção de aniversário” (“Hoje é o dia do teu aniversário, parabéns, parabéns”...), de José Maria de Abreu e Alberto Ribeiro. No verso, matriz 2123, o samba (que na verdade é samba-canção) “Falta-me alguém”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz. No acompanhamento, a mesma Tabajara de Severino Araújo que se converteria na Violinos Mágicos (também conhecida como “Orquestra Romântica de Severino Araújo”) e na Românticos de Cuba, anos mais tarde.
Farnésio Dutra e Silva, aliás Dick Farney (Rio de Janeiro, 1921-São Paulo, 1987) é outro que também começou em disco interpretando músicas americanas, tendo inclusive feito longas temporadas nos EUA. Foi o primeiro, inclusive, a gravar um clássico da música popular americana, o fox 'Tenderly”. E o disco escalado para esta edição do GRB, também da Continental, é o primeiro no qual interpretou música brasileira, com o número 15663, gravado em 2 de junho de 1946 e lançado em agosto do mesmo ano, com dois sambas. A faixa de abertura, matriz 1509, é o clássico “Copacabana”, de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, e justamente a que chamou mais atenção, principalmente pela maneira de interpretar, calcada em cantores americanos como Bing Crosby (inevitavelmente criticada por conservadores da época), e pelo acompanhamento de orquestra de cordas, no caso a de Eduardo Carmelo Patané (São Paulo, 1906-idem, 1969), que passaram, desde então, a constituir modelo de sofisticação para a MPB. O verso, matriz 1508, é “Barqueiro do São Francisco”, também de Alberto Ribeiro, agora em parceria com Alcyr Pires Vermelho, que também teve repercussão, ainda que um pouquinho menor que a de “Copacabana”. Ambas as músicas seriam regravadas por Dick Farney inúmeras vezes ao longo de sua carreira, assim como outras expressivas páginas de seu repertório: “Marina”, “Alguém como tu”, “Somos dois”, “Ponto final” etc.
Lúcio Ciribelli Alves (Cataguazes, MG, 1927-Rio de Janeiro, 1993), de longa e vitoriosa carreira como intérprete, começou a tocar seu violão na mais tenra idade, estimulado pelo pai, maestro da banda de música de sua cidade natal, mudando-se com a família para o Rio de Janeiro quando tinha sete anos. Foi ironicamente apelidado pelo compositor e humorista Silvino Neto de “cantor das multidinhas” (em comparação a Orlando Silva, “o cantor das multidões”). Aos 14 anos, fundou o conjunto Namorados da Lua, do qual era cantor, violonista e arranjador, que fez grande sucesso e desfez-se em 1947 (já sem Lúcio Alves, passaria a chamar-se Os Namorados). Como compositor, seu maior hit foi o samba “De conversa em conversa”, em parceria com Haroldo Barbosa, que gravou junto com os Namorados da Lua mais Isaura Garcia. Outras páginas expressivas de seu repertório são “Nunca mais” (Dorival Caymmi), “Reverso” (Gilberto Milfont e Marino Pinto), “Valsa de uma cidade” (Ismael Neto e Antônio Maria), “Tereza da praia” (dueto com Dick Farney, de Tom Jobim e Billy Blanco), etc. De Lúcio, eis aqui o disco Continental 16730, gravado em 25 de fevereiro de 1953 e lançado em maio-junho do mesmo ano. Abrindo-o, matriz C-3056, o beguine “Cedo para amar”, dos compositores americanos Sidney Lippman e Sylvia Dee, em versão de Bruno Gomes, no original intitulado 'Too young”e sucesso dois anos antes com Nat King Cole. Esta mesma versão teve outro registro em seguida, com Dóris Monteiro, na Todamérica. Bruno também assina, em parceria com Fernando Lobo, a música do lado B, matriz C-3057, o samba “Procurando meu bem”. Ambas as faixas com acompanhamento dirigido pelo notável maestro gaúcho Radamés Gnattali, com o pseudônimo de Vero.
Radamés também acompanha Chaiki Madi, aliás Tito Madi, paulista de Pirajuí (n.1929), em outro disco Continental, o de número 17416, gravado em 4 de setembro de 1956, porém só lançado em março-abril de 57, apresentando dois clássicos do repertório de Tito. No lado A, matriz C-3917, a valsa “Chove lá fora”, que mereceria inúmeras outras gravações, inclusive do próprio compositor, tendo até uma versão em inglês com os Platters, “It's raining outside”. No verso, matriz C-3916, o samba-canção, com tendência mais para toada, “Gauchinha bem querer”, composto por Tito quando participou de festejos promovidos pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Tito Madi teve inúmeros outros sucessos como compositor e intérprete, destacando-se “Não diga não” (dele com Georges Henry), “Sonho e saudade”, “Carinho e amor”, “Balanço Zona Sul” e “Menina moça” (esta última de Luiz Antônio).
Em seguida temos Bill Farr, pseudônimo de Antônio Medeiros Francisco (Sapucaia, RJ, 1925-Rio de Janeiro, 2010). Passou a infância em Petrópolis, e organizou um grupo vocal quando ainda estudava no Colégio Werneck, ingressando na carreira artística ao terminar o curso científico. Começou como vocalista no Hotel Quitandinha, e depois passou a atuar na Rádio Nacional carioca, por intermédio de César de Alencar. Gravou seu primeiro disco na Sinter, em 1952, com o samba-canção “Abraça-me”, de Luiz Bittencourt, e o bolero “Depois do amor”, de José Maria de Abreu e Oswaldo Santiago. Nos anos 1960, deixou a carreira de cantor, mudando-se para Madri, capital da Espanha, onde trabalhou em um escritório de comércio exterior. De Bill Farr apresentamos o disco Continental 16941, lançado em abril de 1954. No lado A, matriz C-3334, aquele que foi certamente o maior sucesso de sua carreira: o fox “Oh!”, de Byron Gay e Arnold Johnson, em versão de Haroldo Barbosa. No verso, matriz C-3335, um samba-canção do então estreante Billy Blanco, “Maria Tereza”.
E para encerrar com chave de ouro, apresentamos Johnny Alf, pseudônimo de Alfredo José da Silva (Rio de Janeiro, 1929-Santo André, SP, 2010). Cantor, compositor, pianista, autor de inúmeras músicas de sucesso (quem não se lembra, por exemplo, de “O que é amar” e “Eu e a brisa”?), gravou seu primeiro disco, apenas instrumental, em 1953, na Sinter, exectando ao piano com seu trio o samba-canção “De cigarro em cigarro” (Luiz Bonfá) e o choro “Falseta”, dele mesmo. De Alf apresentamos o disco Copacabana 5568, de 1956, com duas composições próprias. Abrindo-o, a matriz M-1392 traz o samba “Rapaz de bem”, autêntico precursor da bossa nova, não só pela maneira de Alf interpretá-lo, como também pela letra, que traduzia bem o modo de vida da juventude da Zona Sul do Rio de Janeiro. A música daria título, em 1961, ao primeiro LP do compositor, lançado pela RCA Victor. No verso desse 78 da Copacabana, matriz M-1391, o samba-canção “O tempo e o vento”, que aproveita apenas o título da famosa trilogia de romances do escritor gaúcho Érico Veríssimo, na época com dois volumes já publicados (“O continente”, de 1949, e “O retrato”, de 1951, sendo o terceiro e último, “O arquipélago”, de 1961). Um fecho realmente de ouro para esta edição do GRB, focalizando intérpretes precursores da bossa nova, inovadores para a época em que surgiram. Bom divertimento!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Orlando Silva / Nelson Gonçalves - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 42 (2012)
Já em sua quadragésima-segunda edição, o meu, o seu, o nosso
Grand Record Brazil homenageia dois intérpretes inesquecíveis que deixaram
inestimável contribuição para a história de nossa música popular: Orlando Silva
e Nélson Gonçalves.
Orlando Garcia da Silva era carioca do Engenho de Dentro,
nascido a 3 de outubro de 1915 na Rua General Clarindo, hoje Rua Augusta. Era
filho do violonista José Celestino da Silva, que participou de serenatas,
peixadas e feijoadas junto com o mestre Pixinguinha, ambiente em que também
viveu Orlando por três anos, até o falecimento do pai, vitimado pela gripe
espanhola. Orlando teve uma infância normal, sempre gostando muito de violão e
já fã, na adolescência, de Carlos Galhardo e Francisco Alves. Seu primeiro emprego
foi como estafeta da Western, indo depois para o comércio, onde foi sapateiro,
vendedor de roupas e tecidos e trocador de ônibus. Quando era “office-boy”, ao
saltar de um bonde para entregar uma encomenda, sofreu grave acidente que
causou o amputamento de parte de um dos pés, ficando inativo por um ano.
Estimulado por amigos, Orlando começou sua peregrinação pelas rádios, querendo
ao menos ser ouvido, sem conseguir, dada sua aparência de moço pobre e mal
trajado, que mancava. Quando já estava a ponto de desistir, foi ouvido pelo
compositor Bororó (autor do clássico “Da cor do pecado”) nos corredores da
Rádio Cajuti. Impressionado, Bororó arranjou uma audição com Francisco Alves,
que aconteceu dentro de seu carro! E Chico, encantado com a voz de Orlando, o
escalou imediatamente para seu programa dominical na Cajuti, e sua estreia
aconteceu em 24 de junho de 1934. Em janeiro do ano seguinte, lançava seu
primeiro disco, pela Columbia, para o carnaval, interpretando a marchinha
“Ondas curtas” e o samba “Olha a baiana”. Ainda em 1935, foi para a RCA Victor,
onde ficaria até 1942, lançando sucessos sobre sucessos ('A última estrofe”,
“Lábios que beijei”, “Carinhoso”, “Rosa”, “Abre a janela”, “A jardineira”, “Meu
consolo é você”, recebendo do locutor esportivo Oduvaldo Cozzi o apelido de
“cantor das multidões”, após o retumbante êxito de sua primeira apresentação em
São Paulo, em janeiro de 1938. Um fenômeno de popularidade como poucos. Gravou
também na Odeon, na Copacabana e na Mocambo, voltando definitivamente à RCA
Victor em 1960. Morreu em 7 de agosto de 1978, em seu Rio natal, vitimado por
uma trombose.
Para esta edição do GRB, foram selecionadas gravações de
Orlando na Odeon, na Victor e na Copacabana. Da Copacabana temos: do disco
5067, lançado em maio-junho de 1953, os dois lados: no lado A, faixa 8 de nossa
sequência, matriz M-392, o samba-canção “Meu lampião”, de Alberto Ribeiro e
Alcyr Pires Vermelho e, no verso, matriz M-393 e faixa 7 de nossa sequência, o
samba “Escravo do amor”, de J. Cascata, Leonel Azevedo (autores dos clássicos
“Lábios que beijei” e “Juramento falso”, também gravados por Orlando) e Lilinha
Fernandes. Ainda dessa marca, o lado B do disco 099, lançado em agosto de 1952
e faixa 9 de nossa sequência, apresentando o choro cantado “Moreninha”, de
autoria do descobridor de Orlando, Bororó (de quem o cantor também gravou o hit
“Curare”, em 1940). A faixa 10, da primeira fase de Orlando na Victor, tem
outro choro cantado: “Mentirosa”, de Custódio Mesquita e Mário Lago, gravado em
9 de junho de 1941 e lançado em agosto seguinte, disco 34783-B, matriz
S-052240. Por fim, apresentamos, da Odeon, a canção-marcha “A carta”, de
Custódio Mesquita, que é, como o nome indica, uma carta escrita por um
expedicionário da FEB, então lutando na Itália durante a Segunda Guerra
Mundial, a sua mãe no Brasil. Gravação de 21 de julho de 1944, lançada em
setembro seguinte com o número 12487, ocupando os dois lados do disco, matrizes
7613 e 7614.
As 6 primeiras faixas desta nossa edição foram destinadas a
Nélson Gonçalves, nome artístico de Antônio Gonçalves. O “gogó de ouro” nasceu
na cidade gaúcha de Santana do Livramento, em 25 de junho de 1919, filho dos
portugueses Manoel e Libânia, que ganhavam a vida vendendo cortes de tecidos a
domicílio, de porta em porta. Era o irmão mais velho de Joaquim, o Quincas, que
também seria cantor, gravando alguns discos de fados lusitanos. Conforme
documentos disponíveis, a família mudou-se para São Paulo em 1926, morando
primeiro no Canindé, e depois fixando-se no Brás. Ali Nélson e o irmão
começaram a estudar, no Liceu Eduardo Prado. Para reforço da economia familiar,
“seu” Manoel levava os filhos para cantar nas feiras livres, em cima de
caixotes, acompanhando-os ao violão. Nélson (para a família apenas Nico) , apesar
de ser gago (ou “taquilárico”), cantava com dicção normal, desenvolvendo seus
dotes em bares, restaurantes, festas e rodas de amigos. Logo ele iria conhecer
momentos de trabalho duro: primeiro como operário numa fábrica de tamancos e
depois como polidor de metais na Wolff, atividades de fato insalubres, chegando
até a praticar pugilismo amador. Em 1937, numa festa de casamento no Brás, é
ouvido pela cantora Sônia Carvalho, que deixara a carreira para se casar, e,
encantada, deu-lhe o nome artístico que o eternizou: Nélson Gonçalves. Sônia
deu-lhe aulas de canto em sua casa por cerca de 4 meses, e o levou para um
teste na Rádio São Paulo, PRA-5 (“a voz amiga”), então dirigida pelo maestro
Gabriel Migliori, sendo aprovado e contratado, pedindo dispensa da Wolff. Em um
período que ficou afastado do rádio, Nélson foi garçom no bar do irmão Quincas,
na Avenida São João e, em 1940, cantou em programas da PRE-4, Rádio Cultura (“a
voz do espaço”), com auditório na mesma avenida. Em 1941, vai ao Rio de Janeiro
tentar a sorte em programas de calouros, sendo várias vezes reprovado. Dois
meses mais tarde, volta ao Rio, agora com um acetato gravado na Rádio Record,
onde cantava a valsa “Se eu pudesse um dia” e a canção “Os anos carregaram”,
ambas de Orlando Monello e Oswaldo França, aprovado pelo diretor da Cássio
Muniz, então representante da RCA Victor em São Paulo. Nélson vai até à
gravadora apresentar o acetato para o diretor artístico Vittório Lattari, que o
ouve mas não acredita ser ele o cantor, e que ele tinha “roubado” essa prova de
alguém, dada sua gagueira. Com o ambiente pesado, Nélson só volta para pegar o
acetato de volta no dia seguinte, e para sua sorte lá estava o compositor e
flautista Benedito Lacerda, que resolve tirar a prova acompanhando Nélson com seu
regional. Provado que o cantor era ele mesmo, e com a profecia de Benedito
(“esse vai ser o maior cantor do Brasil!”), Nélson Gonçalves é finalmente
contratado pela RCA Victor, que seria sua primeira, única e última gravadora.
Sua primeira sessão de gravação acontece em 4 de agosto de 1941, com as músicas
“Se eu pudesse um dia”, “Sinto-me bem” (primeiro disco), “Formosa mulher” e “A
mulher dos sonhos meus” (segundo disco). Em quase 60 anos de atividade, Nélson
gravaria 869 músicas, e seria um dos maiores vendedores de discos da RCA Victor
em todo o mundo: mais de 50 milhões de cópias! Apresentou-se também nos EUA,
mais precisamente em Nova York, no Radio City Music Hall, em novembro de 1960.
Entre seus maiores sucessos estão: “Quem mente perde a razão”, “Deusa do
Maracanã”, “Maria Betânia”, “Normalista”, “A volta do boêmio” (certamente o
maior de todos), “Deusa do asfalto”, “Escultura”, “Fica comigo esta noite” e
muitos, muitos mais. O envolvimento com cocaína prejudicou em muito sua
carreira, mas ele conseguiu se recuperar do vício após um tratamento de choque
no qual ficou quatro meses enclausurado em seu quarto (até batia na mulher!).
Seu último trabalho em disco foi o CD “Ainda é cedo”, uma homenagem a cantores
e compositores de nossa música pop surgidos nos anos 1980, lançado em 1997.
Nélson morreria em 18 de abril do ano seguinte, 1998, no Rio de Janeiro, e
vários episódios de sua vida e carreira só se esclareceram com a publicação, em
2002, do livro “A revolta do boêmio – A vida de Nélson Gonçalves”, escrito por
Marco Aurélio Barroso.
Nesta edição do GRB, temos seis gravações de Nélson
Gonçalves, todas, claro, pela RCA Victor:
“Primeira mulher”, de Kid Pepe e Theo Magalhães, gravado em 30 de maio
de 1944 e lançado em agosto seguinte (80-0198-B, matriz S-052969), “Ciúme”, de
Nóbrega de Macedo e José Batista, gravação de 4 de março de 1947 lançada em
maio seguinte (80-0511-A, matriz S-078729), “Dona Rosa”, nostálgico e divertido
dueto com Isaura Garcia, de autoria dos irmãos Aloysio e Armando Silva Araújo,
gravação de 21 de novembro de 1946, lançada em março de 47 (80-0493-B, matriz
S-078644), sendo as três músicas sambas. Depois, vem a canção “Os anos
carregaram”, de Oswaldo França e Orlando Monello, que Nélson gravou em seu
acetato de apresentação e registraria comercialmente em 13 de janeiro de 1942
com lançamento em seu quinto disco, em maio seguinte, com o número 34879-A,
matriz S-052452. Para encerrar, mais dois sambas: “Seus olhos na canção”, de
Marino Pinto e Waldemar Gomes, gravação de 29 de janeiro de 1946 lançada em
maio seguinte (80-0400-A, matriz S-078427) e “Ela me beijou”, de Herivelto
Martins e Artur Costa, gravado em 10 de agosto de 1944 e lançado em outubro
seguinte sob número 80-0218-B, matriz S-078033. Desta gravação participa o Trio
de Ouro original (Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas), não
creditado no selo certamente por serem então contratados da Odeon.
Enfim, dois cantores inesquecíveis, de vozes
privilegiadas, que o GRB agora oferece para os amigos cultos, ocultos e
associados do TM. Ouçam e recordem!
TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Vários Cantores - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 41 (2012)
E chegamos à quadragésima-primeira edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Desta vez, apresentamos uma seleção de sambas, do acervo do blog Coisa da Antiga (http://coisadaantiga.blogspot.com.br), pertencente ao grande Ary do Baralho, dono de um autêntico tesouro do gênero, cheio de raridades absolutas. A você, Ary, os nossos mais sinceros agradecimentos.
Esta seleção, com doze preciosas gravações, dá bem uma ideia do que o Ary tem no Coisa da Antiga, autênticas joias do samba. E começamos com o carioca Moreira da Silva (1902-2000), o eterno rei do samba de breque, de vida (98 anos) e carreira lôngevas. O eterno Kid Morenguera se faz presente através do disco Columbia 22165, lançado em dezembro de 1932, com vistas ao carnaval de 33. A faixa de abertura, matriz 381362, apresenta este que foi o primeiro grande sucesso do Moreira: “Arrasta a sandália”, de Aurélio Gomes e Osvaldo Vasques, este último conhecido como Baiaco (Rio de Janeiro, c.1913-idem, c.1935), ritmista e um dos fundadores da primeira escola de samba, a Deixa Falar, no bairro carioca do Estácio. Entoado num esquema pergunta-resposta típico do partido alto, caiu no agrado popular e tornou-se um clássico. No verso, matriz 381363, outra composição do Baiaco, agora em parceria com Ventura: “Vejo lágrimas”.O acompanhmento neste disco é do grupo Gente do Morro, liderado por Benedito Lacerda, com sua flauta inconfundível.
Patrício Teixeira (1893-1972) era também carioca, da Rua Senador Eusébio, no coração da lendária Praça Onze, autêntico reduto de sambistas e boêmios, e onde aconteciam os desfiles da escolas de samba cariocas até sua demolição, para dar lugar à Avenida Presidente Vargas. Cantor e violonista, também foi professor de violão, e entre suas alunas mais famosas estão Linda Batista, Aurora Miranda e as irmãs Danusa e Nara Leão. Dele apresentamos, inicialmente, outra composição de Osvaldo “Baiaco” Vasques, em parceria com o grande flautista Benedito Lacerda: “Tenho uma nêga”, gravação Victor de 14 de novembro de 1932, lançada em dezembro seguinte com o número 33600-B, matriz 65535, também para a folia de 1933. Em seguida, de Max Bulhões e Mílton de Oliveira, outro samba bastante conhecido: “Sabiá-laranjeira” (“ouvi teu cantar bem perto”...), de Max Bulhões e Mílton de Oliveira, gravação Victor de 13 de maio de 1937, lançada em agosto seguinte com o número 34137-B, matriz 80404. Apesar de ser o outro lado do clássico “Não tenho lágrimas”, dos mesmos autores, este “Sabiá” também fez sucesso, e ambas as músicas seriam bastante cantadas no carnaval de 1938.
No disco seguinte, o Columbia 22238, de 1933, mais uma vez Osvaldo Vasques, o Baiaco, se faz presente, com dois sambas interpretados em dueto por Léo Vilar (futuro líder do conjunto vocal Anjos do Inferno) e Arnaldo Amaral (que também foi galã de cinema): de um lado, matriz 381527, “Rindo e chorando”, parceria de Baiaco com Bucy Moreira (1909-1982), neto da Tia Ciata, em cuja residência aconteciam rodas de samba na qual se reuniam autênticos bambas da MPB no início do século XX, como Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Bucy também fundou uma escola de samba de nome pitoresco: Vê se Pode! No verso, matriz 381526, “Se passar da hora”, em que Baiaco tem a parceria de Boaventura dos Santos.
Relembramos depois o grande Ciro Monteiro (1913-1973), o “cantor das mil e uma fãs”, também conhecido como “Formigão”, sem dúvida um dos maiores expoentes de nosso samba, com uma carreira repleta de sucessos. Ele comparece aqui com dois sambas de Djalma Mafra (Rio de Janeiro, c.1900-idem, 1974), gravados na Victor: “Obrigação”, parceria de Djalma com Alcides Rosa, registrado em 3 de maio de 1945 e lançado em julho seguinte sob n.o 80-0294-B, matriz S-078163, e “Oh seu Djalma”, parceria de Mafra com Raul Marques (1913-1991), gravado em 13 de outubro de 1943 e lançado em dezembro seguinte com o n.o 80-0138-A, matriz S-052856.
Apresentamos em seguida duas composições de Geraldo Pereira (Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955), responsável por clássicos como “Falsa baiana”, “Sem compromisso”, “Escurinha” e “Escurinho”, interpretadas por Roberto Paiva (pseudônimo de Helim Silveira Neves). Primeiro, “Se você sair chorando”, de Geraldo com Nélson Teixeira, gravação Odeon de 26 de setembro de 1939, lançada em novembro seguinte com o n.o 11788-B, matriz 6206, visando ao carnaval de 1940. Depois Roberto canta “Tenha santa paciência”, parceria de Geraldo com Augusto Garcez, em gravação Victor de 6 de março de 1942, lançada em maio seguinte, disco 34923-A, matriz S-052489.
Para encerrar, o notável Otávio Henrique de Oliveira, aliás, Blecaute (Espírito Santo do Pinhal, SP, 1919-Rio de Janeiro, 1963), detentor de inúmeros êxitos no meio de ano e no carnaval (quem nunca cantou “Maria Candelária”, “General da banda”, “Papai Adão”, “Pedreiro Valdemar” e tantas outras?), e que recebeu esse apelido do Capitão Furtado (Ariowaldo Pires), por causa dos blecautes (apagões) que havia em toda a orla marítima do Brasil na época da Segunda Guerra Mundial durante a noite, a fim de evitar ataques inimigos. Blecaute aqui comparece com dois clássicos de Geraldo Pereira, gravados na Continental: Primeiro o delicioso “Chegou a bonitona”, de Geraldo com José Batista, gravado em 11 de agosto de 1948, com lançamento entre outubro e dezembro do mesmo ano, disco 15954-A, matriz 1922. Depois outro clássico do Geraldo Pereira, agora em parceria com Arnaldo Passos, o famoso “Que samba bom”, lançado em janeiro de 1949 para o carnaval daquele ano com o número 15981-B, matriz 2002. Um fecho realmente de ouro para esta sambística seleção do GRB, para enriquecer os acervos de muitos amigos cultos, ocultos e associados. E olha: pretendemos aproveitar muito mais coisas do blog Coisa da Antiga, pois o Ary do Baralho tem bastante coisa boa nele. Aguardem!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Várias Cantoras - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 40 (2012)
As vozes femininas sempre têm lugar reservado no Grand
Record Brazil. E nesta quadragésima edição não poderia ser diferente, posto que
temos mais uma compilação dedicada às cantoras, com 14 faixas.
Relembramos, mais uma vez, para começar, Aracy Cortes (Zilda
de Carvalho Espíndola), nascida (31/3/1904) e falecida (8/1/1985) no Rio de
Janeiro, filha de um “chorão”, Carlos Espíndola, e que morou até os 12 anos no
bairro do Catumbi, onde teve um ilustre vizinho: nada mais menos que
Pixinguinha. Foi Luiz Peixoto quem a descobriu, quando ela se apresentava no
Circo Democrata interpretando e dançando maxixes, e seu nome artístico lhe foi
dado por Mário Magalhães, crítico teatral do jornal “A Noite”. Sua estreia em
teatro deu-se em 1921, na revista “Nós, pelas costas”. Em disco, suas primeiras
gravações saíram em 1925, ainda no processo mecânico. Entre os anos 1950/60
afastou-se do meio artístico, voltando em 1965 no histórico show “Rosa de
ouro”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho e Kleber Santos, onde também atuavam
Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Aracy aqui comparece com três
ótimas faixas: “Você não era assim”, samba de Ary Barroso e Aricles França,
lançado pela Odeon em junho de 1930 (10619-A, matriz 3592), mais os clássicos
“Jura”, samba de Sinhô que ela mesma lançou na revista “Microlândia” (Parlophon
12868-A, lançado em novembro de 1928, matriz 2071) e “Iaiá”, que ficou mais
conhecido como “Ai, Ioiô”, e é considerado o primeiro samba-canção brasileiro
(Parlophon 12926-A, lançado em março de 1929, matriz 2366). Com música de
Henrique Vogeler, teve antes duas letras: por Cândido Costa (“Linda flor”) e
Freire Júnior (“Meiga flor”), mas a que pegou mesmo foi esta, assinada pelo
descobridor de Aracy, Luiz Peixoto, e Marques Porto, e que ela também cantou na
revista “Miss Brasil”. Nas três faixas, a cantora é acompanhada pela orquestra
do palestino Simon Bountman, que tinha diversos nomes: Pan American,
Copacabana, Simão Nacional Orquestra,
Orquestra Parlophon, todas na verdade a mesmíssima orquestra. Quando
gravava na Columbia, aparecia nos selos como “Simão e sua Orquestra Columbia”.
Elisa de Carvalho Coelho (Uruguaiana, RS, 1909-Volta
Redonda, RJ, 2001) era filha de um tenente do Exército e da jornalista e
escritora Acy Carvalho, que redigia a seção feminina de “O Jornal”, matutino
carioca. Passou a infância e a adolescência em Florianópolis, considerando-se
por isso catarinense. Ao voltar para o Rio, cantava acompanhando-se ao piano em
reuniões familiares nas quais compareciam jornalistas e poetas, amigos de seu
pai. Numa dessas reuniões, em 1929, foi convidada pelo diretor da Rádio Clube
do Brasil, um coronel amigo de seu pai, para apresentar-se lá, e agradou logo
de saída. Excursionou pela Bahia e pelo restante do Nordeste em 1930, ao lado do
compositor Hekel Tavares, passando a interpretar composições suas. Em 1935-36
esteve por duas vezes na Argentina e no Uruguai, e atuou no rádio até o final
dos anos 1940. Era mãe do jornalista e apresentador de TV Goulart de Andrade,
aquele do bordão “Vem comigo”, e sua discografia, gravada entre 1930 e 1934,
compreende 15 discos com 30 músicas. Desse repertório, o GRB apresenta duas
gravações Victor: o samba-canção “Tenho saudade”, de Ary Barroso (disco
33480-A, gravado em 14 de julho de 1931 e lançado em novembro do mesmo ano,
matriz 65195), e a toada “Ciúme de caboca” (no mais puro caipirês), de Josué de Barros, descobridor de Cármen
Miranda, e Domingos Mangarinos, gravação de 11 de junho de 1930, porém só lançada
em agosto de 31 (disco 33444-A, matriz 50308).
Por falar na
luso-brasileira Cármen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha, Marco de
Canavezes, Portugal, 1909-Los Angeles, EUA, 1955, ela aqui comparece com outra
composição de Ary Barroso, o samba “Nosso amô veio dum sonho”, gravação Victor
de 10 de março de 1932 lançada a toque de caixa (disco 33537-A, matriz 65404).
Na verdade, já tinha sido gravada como canção por Gastão Formenti, em 1930,
como canção e o nome de “Teus óio”, tendo sido a primeira composição do mestre
de Ubá, feita quando ele tinha seus quinze anos, com o título “De longe”. O
estribilho e a melodia são iguais, mas a segunda parte é diferente.
Olga Praguer Coelho (Manaus, AM, 1909-Rio de Janeiro, 2008),
pertencente à gloriosa dinastia das cantoras-folcloristas, e com vitoriosa
carreira internacional, comparece aqui com três faixas gravadas na Victor: o
ponto de macumba “Estrela do céu”, por ela própria adaptado (disco 34325-B,
gravado em 30 de julho de 36 mas só lançado em junho de 38, matriz 80182), a
modinha “Mulata”, também chamada de “Mucama” ou “Mestiça”, versos de Gonçalves
Crespo e autor da melodia desconhecido (lado A desse mesmo disco, gravado em 22
de abril de 1936, matriz 80137) e a modinha “Róseas flores”, adaptação da
própria Olga (disco 34042-A, gravado em 29 de novembro de 1935 e só lançado em
abril de 36, matriz 80024).
Laís Marival, paulista de Taquaritinga (1911-?), deixou uma discografia escassa: apenas 7
discos com 14 músicas, todos pela Columbia, futura Continental, entre 1936 e
1938. Dela, aqui está uma música de seu segundo disco, o de número 8210-B,
matriz 3314, de 1936: é o samba “Cada um dá o que tem”, de autoria de Raul
Torres, grande expoente da chamada música caipira ou sertaneja de raiz, mas que
também era de samba.
Autêntica “garota de Ipanema” por sua origem (foi eleita
miss desse bairro em 1929), a carioquíssima Laura Suárez (1909-c.1990), também
atriz de teatro (no qual atuou por mais de meio século) e cinema, só gravou na
Brunswick, selo americano que durou menos de dois anos no Brasil:13 discos com
26 músicas: em 1930/31, inclusive com músicas de autoria própria. E é dela
mesma o samba que apresentamos aqui, “Você... você”, lançado em setembro de
1930 com o número 10103-A, matriz 500.
Outra cantora-folclorista de carreira internacional, a também
carioca Elsie Houston, aqui se apresenta com o samba “Morena cor de canela”,
motivo popular adaptado por Ary Kerner (autor também de “Na Serra da
Mantiqueira” e “Trepa no coqueiro”, entre outras), em gravação lançada pela
Columbia em junho de 1930 sob número 5217-A, matriz 380649. Um mês depois saiu
pela Victor o registro de Helena Pinto de Carvalho, sendo o original do cantor
Sílvio Salema, um ano antes. A morte prematura de Elsie Houston, aos 40 anos,
ainda é um mistério: ela foi encontrada morta em seu apartamento em Nova York,
EUA, no dia 20 de fevereiro de 1943, e ainda hoje existem dúvidas se foi
suicídio ou assassinato.
A respeito da cantora Neide Martins, quase nada se sabe. Sua
escassa discografia compreende seis discos com doze músicas, entre 1937 e 1939,
nos selos Victor (dois), Odeon (três) e Columbia (o último). Aqui, um
frevo-canção de seu disco de estreia, o Victor 34142-A, gravado em 10 de
dezembro de 1936 e lançado em janeiro de 37, matriz 80293: “Que fim você
levou?”, do mestre Nélson Ferreira.
Encerrando esta edição, apresentamos a carioca Zezé Fonseca
(Maria José González). Nascida em 5 de agosto de 1915, começou sua carreira na
“Hora da arte”, do Tijuca Tênis Clube. Em 1932, levada por Paulo Bevilacqua,
foi contratada pela Rádio Philips, PRAX, onde apresentava o programa “Fox tarde
demais”, depois atuando como produtora de programas femininos na Rádio Cruzeiro
do Sul. Integrou a companhia teatral de Procópio Ferreira, atuando com sucesso
na peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo. Abandonou o rádio em 1935, nele
reingressando em 1939, através da lendária Rádio Nacional, onde trabalhou por
seis anos. Em 1945 foi para a Rádio El Mundo, de Buenos Aires (Argentina),
transferindo-se um ano depois, ao voltar ao Rio, para a Globo, passando pela
Mayrink Veiga e depois retornando à Nacional, sendo uma das pioneiras da
radionovela no Brasil, e uma das melhores atrizes do gênero.. Ficou famosa, a
partir de 1942, por manter um tórrido romance com Orlando Silva, cujos altos e
baixos causaram sério desequilíbrio emocional no “cantor das multidões”, que se
viciou em morfina e afastou-se do meio artístico por alguns anos. Deixou, como
cantora, entre 1933 e 1940, sete discos com catorze musicas, os cinco primeiros
pela Columbia e os dois últimos pela Victor. Aqui, de seu quarto disco, o
Columbia 22224-B, matriz 381502, apresentamos a marchinha “Casar não é pra
mim”, de Alberto Ribeiro, lançada para o carnaval de 1933. Zezé Fonseca morreu
de forma trágica, em 16 de agosto de 1962, aos 47 anos, durante um incêndio em
seu apartamento no Rio.
Enfim, mais uma edição do GRB que por certo ocupará lugar de
destaque no acervo de nossos amigos cultos, ocultos e associados!
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Vários Cantores - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 39 (2012)
E chegamos à trigésima-nona edição do meu, do seu, do nosso
Grand Record Brazil. Esta semana, estaremos apresentando seis cantores de
prestígio popular, cada um comparecendo com duas gravações.
O primeiro deles é José Alcides Gerardi, nascido na cidade
gaúcha de Rio Grande em 15 de maio de 1918. Ainda muito jovem, Alcides mudou-se
para Porto Alegre, onde começou seus estudos, e logo depois para o Rio de
Janeiro, onde concluiu a escola primária e começou a trabalhar com o pai, que
era comerciante, o que faria até 1935, quando iniciou sua carreira de cantor
numa orquestra de dancing. Sua primeira gravação comercial deu-se em 1945,
interpretando a valsa “Lourdes”, de Mário Rossi e George Brass, que o
acompanhou ao acordeão. Entre seus maiores sucessos estão “Pergunte a ela”,
“Abaixo de Deus”, “Antonico”, “Seu nome não é Maria”, “Marise”e muitos outros.
Alcides Gerardi morreu de acidente automobilístico, ao voltar de um show, em 3
de janeiro de 1978, no Rio de Janeiro. Dele o GRB apresenta o disco Columbia
CB-10370, lançado no ano de 1957. Abrindo-o, matriz CBO-1093, o bolero “Não”,
de Renê Bruxelas e Belony de Carli, e no verso, matriz CBO-1092, um rasqueado
de Paulo Borges que até hoje todos conhecem: o famoso “Cabecinha no ombro”
('Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”...), um sucesso de fato
estrondoso, e que tem merecido inúmera regravações. As duas faixas também foram
incluídas no LP de dez polegadas “Encantamento”, refletindo uma época de
transição de formatos, da cera para o vinil.
O seguinte é João Dias Rodrigues Filho, ou simplesmente João
Dias. Paulista de Campinas, onde nasceu em 12 de outubro de 1927, começou sua
carreira em 1948 na PRA-5, Rádio São Paulo (“a voz amiga”), levado por Cardoso
Silva. Um ano depois já estava na Bandeirantes (então “a mais popular emissora
paulista”) e, em uma apresentação na boate Cairo, foi descoberto por Francisco
Alves, que o levou para o Rio de Janeiro (e o apontou como seu sucessor, porque
a voz era praticamente igual). Lá, João gravou seu primeiro disco, na Odeon,
lançado em fevereiro de 1951, interpretando “Guacira” (Hekel Tavares e Joracy
Camargo) e “Canta, Maria” (Ary Barroso). Entre seus maiores hits estão “Sinos
de Belém” (versão de “Jingle bells”), “Fim de ano” (o famoso “Adeus, ano
velho”), “O velhinho” (“Botei meu sapatinho na janela do quintal”...), “Mamãe”
(clássico dueto com Ângela Maria), “Milagre da volta”, “Poema das mãos”, “É o
pau”, etc. Faleceu em 27 de novembro de 1996, no Rio de Janeiro, época em que
dirigia a Socimpro (Sociedade Brasileira de Intérpretes e Produtores
Fonográficos). João Dias é aqui lembrado com o disco Odeon 13679, gravado em 17
de maio de 1954 e lançado em julho do mesmo ano. Abrindo-o, matriz 10130, a
valsa “É o amore” (“That's amore”), de Harry Warren e Jack Brooks, em versão de
Haroldo Barbosa, e no verso, matriz 10131, o samba-canção “Falso amigo”, de
Herivelto Martins (compositor cujo centenário de nascimento é relembrado neste
ano de 2012) e Benedito Lacerda.
Francisco Rodrigues Filho, aliás, Francisco Carlos, nasceu
no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1928, mas foi criado no Recife, capital
pernambucana, para onde sua família se transferiu, lá morando até 1939. De
volta ao Rio natal, apresentou-se ainda estudante no programa de Ademar Casé
(avô da Regina), na Rádio Mayrink Veiga, e diplomou-se em pintura pela Escola
Nacional de Belas Artes. Ao longo de sua vida dedicou-se à música e à pintura
(inclusive foi pintor premiado no Brasil e fora dele) e, em 1946, assinou seu
primeiro contrato profissional, com a Rádio Tamoio. Seu primeiro disco saiu
pela Star, em 1949, interpretando os sambas-canções “Abandono”, de César
Formenti Neto”, e “Distância”, de Fernando Lobo. Mas seu primeiro grande
sucesso aconteceu quando ele se transferiu para a RCA Victor: a marchinha “Meu
brotinho”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira”, estrondoso sucesso na folia
momesca de 1950 e por ele também interpretada no filme “Carnaval no fogo”, da
Atlântida. Nesse lendário estúdio, participou de inúmeras chanchadas como ator
e cantor, e também foi contratado da não menos lendária Rádio Nacional, onde
foi campeão absoluto de correspondência durante anos. Entre seus sucessos
destacamos “Rio de Janeiro (Isto é o meu Brasil)”, de Ary Barroso, “Vestido de
noiva” (Francisco Alves e David Nasser), “Você não sabe amar” (Dorival Caymmi,
Carlos Guinle e Hugo Lima), “Minha prece” (Haroldo Eiras e Ciro Cunha), o
frevo-canção “Nos cabelos de Rosinha” (Capiba) e muitos mais. Faleceu em 19 de
março de 2003, em seu Rio de Janeiro natal, de câncer. De Francisco Carlos
apresentamos o disco RCA Victor 80-1967, gravado em 6 de maio de 1958 e lançado
em agosto do mesmo ano. Abrindo-o, matriz 13-J2PB-0403, o clássico choro-canção
(originalmente polca) “Flor amorosa”, de Joaquim Antônio da Silva Callado, com
letra escrita por Catulo da Paixão Cearense no mesmo ano do falecimento de
Callado, em 1880, e cuja primeira gravação cantada deu-se em 1913, por
Aristarco Dias Brandão. Francisco Carlos também o interpretou no filme “Esse
milhão é meu”, da já mencionada Atlântida, e sua inclusão deu-se por sugestão
de Paulo Tapajós, cantor, compositor e radialista. No verso, matriz
13-J2PB-0402, o bolero “Cuando tu me quieras”, de Raul Shaw Moreno e Mario
Barrios, em versão de Geraldo Serafim. Das
duas, só “Flor amorosa” chegou ao LP, em álbum sem título.
Em seguida, vem um dos mais queridos cantores populares que
o Brasil já teve: José Adauto Michiles, aliás Orlando Dias, nascido no Recife
em 1.o de agosto de 1923 e falecido no Rio de Janeiro em 11 de agosto de 2001.
Ele tinha como marca registrada interpretações cheias de estilo, exageradas,
acenando lenços, fazendo gestos teatrais, ajoelhando-se no palco, declamando
versos emocionados, agradecendo às fãs, usando roupas espalhafatosas... Enfim,
o mais polêmico cantor de sua época, mas ainda assim verdadeiro ídolo popular,
com sucessos sem conta, principalmente no gênero romântico, interpretando
boleros e sambas-canções. No disco que incluímos aqui, o Odeon 14538, gravado
em 2 de outubro de 1959 e lançado a toque de caixa, vem dois boleraços de sucesso
por ele interpretados: “Vem pra junto de mim”, de William Duba e Nahum Luiz,
matriz 13837, e “Tu hás de pensar de mim”, de Waldir Machado, matriz 13838.
Esta última seria faixa-título de um LP lançado por Orlando em 1960, no qual
também saiu “Vem pra junto de mim”. Outros hits do cantor foram “Perdoa-me pelo
bem que te quero”, “Minha serás eternamente”, “Tenho ciúme de tudo” e muitos e
muitos mais...
Em seguida
relembramos Roberto Vidal, nome artístico de Pedro Sidnei Grigoletto. Membro de
uma tradicional família do bairro paulistano do Ipiranga, foi finalista de um
concurso promovido pela TV Record para descobrir novos talentos, logo passando
a se apresentar com frequência no programa “Astros do disco”. Porém, sua
carreira artística foi curta e a discografia escassa: apenas oito discos de 78
rpm com 16 músicas (o primeiro deles, em 1959,
apresentando o samba-canção “Botequim da vida” e o samba”Violão amigo”),
e um LP, todos pela RCA, selos Victor e Camden, o do LP. Dele apresentamos seu
segundo 78, o RCA Victor 80-2159, gravado em 28 de outubro de 1959 e lançado em
janeiro de 60. E ele abre, na matriz 13-K2PB-0805, com um verdadeiro clássico
do samba-canção: nada mais nada menos que “Negue”, de Adelino Moreira em
parceria com o radialista Enzo de Almeida Passos, que marcou época no rádio
paulistano com os programas “Telefone pedindo bis” e “A grande parada Brasil”.
“Negue” foi inúmeras vezes regravado, inclusive por Maria Bethânia, que o
incluiu em seu LP “Álibi”, de 1978,
renovando-lhe o êxito, e seu criador foi justamente Roberto Vidal. No
verso, matriz 13-K2PB-0806, o samba “Triste coração”, do carioca de Botafogo
Aldacir Louro (Aldacir Evangelista de Mendonça, 1926-1996) em parceria com a
cantora Linda Rodrigues, depois regravado por Anísio Silva no LP “Alguém me disse”. Das duas, só “Negue” saiu
no único LP de Roberto, sem título, lançado em 1961 com o selo RCA Camden.
Por fim, apresentamos Cláudio de Barros, nascido na cidade
mineira de Itanhandu em 24 de outubro de 1932. Antes da fama, trabalhou como
comissário de bordo e redator de jornal. Gravou sue primeiro disco na Columbia,
em 1954, interpretando o samba-canção “Espiritualmente” (Antônio Bruno) e a
toada “Amor, ilusão” (dele próprio com Fenando Lacerda). Mas foi na Chantecler,
para onde foi levado pelo cantor e compositor sertanejo Diogo Mulero, o
Palmeira, que Cláudio de Barros despontou para o estrelato, e justamente com o
disco que o GRB apresenta aqui, de número 78-0132, lançado em junho de 1959. O
lado A, matriz C8P-263, é um tango dele mesmo, “Cinzas do passado”, ainda hoje
bastante conhecido. No verso, matriz C8P-264, outra composição sua, agora em
parceria com Mário Zan (o acordeom que o acompanha nas duas faixas é certamente
dele), o rasqueado “Meu primeiro beijo”, que um mês depois teve outro registro
na mesma gravadora, selo Sertanejo, pelas Irmãs Celeste. “Cinzas do passado”
também foi faixa-título e de abertura do primeiro LP de Cláudio de Barros, no
qual também saiu “Meu primeiro beijo”, é claro. Outros sucessos do cantor: “Teu
desprezo”, “Bonequinha da noite”, “Taça da amargura”, etc. Com 20 álbuns
gravados, Cláudio de Barros também compôs para outros artistas e se apresentou
com sucesso na América Latina e em Portugal, onde cantou inúmeras vezes no
famoso Cassino Estoril. Segundo Robertinho do Acordeom, foi o primeiro cantor a
migrar do gênero romântico para o sertanejo, bem antes de Sérgio Reis. Faleceu em 22 de agosto de 2009, em
Mairiporã, na Grande São Paulo, após sofrer o quarto infarto.
Enfim, mais uma edição do GRB que é entregue aos amigos
cultos, ocultos e associados do TM, relembrando intérpretes e músicas que, se
depender da gente, dificilmente serão esquecidos!
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