Bom dia, amigos cultos e ocultos! Hoje, dia 29 de julho, o blog Toque Musical está completando 6 anos de atividades. Ao longo desse tempo muita água boa rolou. A fonte aqui é natural e da melhor qualidade e talvez por isso mesmo é que saímos do 'badalado' para o 'cultuado', para poucos. Tivemos aqui várias mudanças, inclusive de endereço por conta de algumas perseguições. Quando se chega ao topo ficamos também sujeitos a muita exposição. Percebo também que o Toque Musical fez escola, muitos outros blogs surgiram buscando um mesmo formato, usando uma mesma forma de apresentação e publicando inclusive muito do que já postei aqui. Acho isso muito legal, pois vejo o quanto o TM foi influente.
Mas, se é bom por um lado, por outro nem sempre. Muitas vezes o TM se tornou alvo do despeito, da falta de compreensão e de algumas baixarias. Tivemos momentos que eu realmente fiquei desanimado, mas não vacilei, mantive o blog e as postagens diárias. Por conta dos boicotes, das denúncias infundadas, das perseguições num geral, criei outras versões do blog e as mantive abertas ao público. Hoje temos três versões do Toque Musical, as quais os amigos podem recorrer: "Toque Musical Refinado", onde são postadas as produções exclusivas do TM; o "Toque Musical Galeria", que é a versão blogspot da matriz atual, o "TM site".
Tem muita gente que acha complicado o funcionamento do Toque Musical, mais ainda depois que criei o GTM (Grupo do Toque Musical). Sinceramente, eu não queria complicar, mas diante à perseguição aos meus links, me vi obrigado a criar esse grupo que tem a função única de preserva-los. Limitei o meu público, mas mantive a minha rotina. Por conta também de denúncias, praticamente quase todos os meus arquivos foram perdidos. Até hoje ainda estou fazendo a reposição. Os pedidos não param de chegar e como sou sozinho nessa empreitada, tudo acaba sendo muito devagar. Não tenho como atender a todos de imediato. Além do mais, tem as postagens diárias, essas são prioritárias!
Infelizmente a maioria dos visitantes no blog não tomam o trabalho de ler as postagens e muito menos as orientações para se ingressarem no GTM. Daí, me trazem mais trabalho tendo que explicar repetidas vezes a mesma coisa. De uns tempos pra cá passei a não mais responder perguntas cujas respostas são óbvias e se encontram explícitas no TM.
Continuo a peleja, mas sempre preservando o essencial prazer de fazer o blog como eu gosto e posso. Não mais estou interessado em atingir um grande público e nem peço mais um 'feedback' em comentários.
O Toque Musical é apenas um local onde se escuta música com outros olhos. Infelizmente, poucos são aqueles que conseguem ouvir isso. Mas tá valendo...
segunda-feira, 29 de julho de 2013
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Francisco Alves 2:2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 62 (2013)
Estamos de volta com a segunda parte da retrospectiva que o Grand Record Brazil
dedica ao inesquecível Francisco Alves, o Rei da Voz (1898-1952). Desta feita,
mais treze gravações preciosas e imprescindíveis para colecionadores,
pesquisadores e apreciadores em geral.
Abrindo nosso roteiro, três sambas de Sílvio Fernandes, o
Brancura, histórico malandro carioca, de quem falamos na edição anterior. O
primeiro é “Coração volúvel”, lançado pela Odeon em junho de 1929, disco
10399-A, matriz 2532, do qual também foi escalado o lado B, matriz 2531,
“Mulher venenosa”, na faixa 3, ambas com acompanhamento da Orquestra Pan
American de Simon Bountman. Antes dele virá “Você chorou”, subintitulado “Me
admiro é você”, primeiro verso da letra, gravação Victor de 8 de julho de 1935
(ano do falecimento de Brancura), lançado em agosto seguinte com o número
33959-A, matriz 79968, e incluído na burleta teatral “Da Favela ao Catete”, de
Freire Júnior. O acompanhamento é da Orquestra Diabos do Céu, formada e
dirigida pelo mestre Pixinguinha.Voltando à Odeon, o samba “Olê-lê-ô”, da
santíssima trindade Francisco Alves-Ismael Silva-Nílton Bastos, gravado em 27
de novembro de 1930 e lançado em janeiro de 31 para o carnaval, disco 10745-B,
matriz 4068 (o lado A é “Nem é bom falar”, da nossa edição anterior). Ismael e
Nílton faziam parte do grupo Bambas do Estácio, que acompanha Chico Alves neste
registro. Neto da lendária Tia Ciata,
Bucy Moreira assina em parceria com Norival Reis, o Nazinho (ou
Nozinho), o samba “Em uma linda tarde”, que Chico Alves gravou com os Diabos do
Céu na Victor em 16 de abril de 1935, com lançamento em julho seguinte sob n.o
33946-B, matriz 79877. Autêntica raridade vem em seguida, o samba “Meu
batalhão”, também da trindade Chico (acompanhado de seu “Esquadrão”)-Ismael
Silva-Nílton Bastos, lançado pela Odeon em janeiro de 1931 para o carnaval com
o n.o 10748-B, matriz 4091. E quem não conhece a marchinha junina “Pula a
fogueira”? Só quem nunca foi numa festa junina... Da parceria Getúlio “Amor”
Marinho-João Bastos Filho, foi imortalizada pelo Rei da Voz na Victor em 21 de
maio de 1936, matriz 80163, com lançamento em julho seguinte (o que tem sua
lógica, pois as festas juninas em algumas cidades costumam se estender até esse
mês) sob n.o 34068-A. A marchinha “Você gosta de mim”, da parceria Francisco
Alves-Ismael Silva, saiu pela Parlophon em dezembro de 1931, disco 13377-B,
matriz 131307, visando o carnaval de 32. Outro clássico é o samba “Para me
livrar do mal”, da parceria de Ismael Silva com Noel Rosa, imortalizado por
Chico Alves na Odeon em 29 de junho de 1932, disco 10922-B, matriz 4467, e que
ele também interpretou no segundo show da série “Broadway cocktail”, um
espetáculo palco-tela encenado no recém-inaugurado Cine Broadway, do qual
também participaram Cármen Miranda, Almirante e Noel. Destaque, na gravação,
para o piano de Nonô (Romualdo Peixoto), tio dos cantores Cyro Monteiro e Cauby
Peixoto. “Choro, sim”, samba de Ismael Silva sem parceiro, foi gravado por
Chico na Victor com os Diabos do Céu em 21 de novembro de 1934, matriz 79784.
Destinava-se ao carnaval de 1935,
segundo consta da edição, mas só foi para as lojas em julho desse ano,
com o número 33946-B. Dando um salto no tempo, vem em seguida outro samba, “Cidade
de São Sebastião”, de Wilson Batista e Nássara, gravação Odeon de 10 de julho
de 1941, lançada em agosto do mesmo ano com o número 12028-A, matriz 6710, com
acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon (Otaviano Romero Monteiro,
1908-1951). A música fez parte do segundo espetáculo da série “Joujoux e
Balangandãs”, levado à cena no Teatro Municipal do Rio, no qual a então
primeira-dama da Nação, Darcy Vargas, convocava a alta-sociedade carioca a
apresentar seus dotes artísticos no palco e demonstrar generosidade na
bilheteria, em prol de suas obras assistenciais. Nele, “Cidade de São
Sebastião” foi interpretado por Jenny Hime e Roberto Rocha. “Fica de lá” é de
Ernâni Alvarenga, “o samba falado da Portela”, e este aqui destinou-se ao
carnaval de 1939, lançado pela Odeon bem em cima da folia, em fevereiro, com o
número 11700-A, tendo sido gravado em 16 de dezembro de 38, matriz 5995. Por
fim, uma marcha natalina do mestre Ary Barroso em parceria com nosso Chico
Alves, “Meu Natal”, da safra do Rei da Voz na Victor, com o devido apoio instrumental
dos Diabos do Céu de Pixinguinha & Cia., gravada em 19 de outubro de 1934 e
lançada, claro, em dezembro, com o número 33857-A, matriz 79762. Ela encerra, e
com chave de ouro, esta retrospectiva que o GRB dedica ao imortal Francisco de
Moraes Alves, e entrega com muita alegria aos amigos cultos, ocultos e
associados do GRB. Até a próxima e obrigado pelo prestígio!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
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Francisco Alves,
Selo Grand Record Brazil
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Francisco Alves 1:2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 61 (2013)
Vejam vocês, amigos cultos, ocultos e associados do TM: já
estamos na sexagésima-primeira edição do Grand Record Brazil! Sinceramente, eu
e o Augusto não esperávamos que a coisa fosse tão longe, o que muito devemos ao
apoio e ao prestígio de vocês. Esta semana, apresentamos a primeira de duas
partes de uma nova retrospectiva dedicada ao eterno Rei da Voz, Francisco de
Moraes Alves.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de agosto de 1898 e
tragicamente falecido em acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra,
na altura de Pindamonhangaba, SP (seu carro, um Buick, chocou-se com um
caminhão que entrara na contramão, e se incendiou), em 27 de setembro de 1952,
Francisco Alves deixou a maior discografia em 78 rpm da história de nossa
música popular, e gravou somente nesse formato: foram 524 discos com 983
fonogramas! Uma carreira que começou em 1919, numa modesta gravadora de fundo
de quintal, a Disco Popular, para a qual foi levado pelo compositor Sinhô. Em
sua estreia, Chico gravou três músicas de Sinhô: a marchinha “O pé de anjo”
(sucesso no carnaval de 1920) e os sambas “Fala, meu louro” e “Alivia estes
olhos”. O cantor só teria nova oportunidade em disco na Odeon, em 1924,
gravando quatro músicas, também carnavalescas, que não obtiveram êxito. E é a
partir de 1927, com a implantação do sistema elétrico de gravação, substituindo
o mecânico, que Chico Viola desponta de vez para a popularidade. Aliás, gravava
na Odeon como Francisco Alves e na Parlophon, sua subsidiária, como Chico
Viola. É na “marca do templo” que se passará quase toda a sua carreira
fonográfica, com breves saídas para a RCA Victor (1934 a 1937) e para a
Columbia, futura Continental (1939 a 1941).
Desta longa e vitoriosa trajetória de Chico Alves em disco,
foram escaladas para este primeiro volume catorze joias de seu repertório.
Abrindo-a, o samba “Me faz carinhos”, lançado pela Odeon em janeiro de 1928
para o carnaval, disco 10100-B, matriz 1480, dado como sendo de exclusiva
autoria de Chico, mas que na verdade é de Ismael Silva, de quem o Rei da Voz o
comprou (Ismael queria o dinheiro no ato, por necessidade imediata), e ele
também o interpretaria na revista “Você quer é carinho”, encenada no Teatro
Carlos Gomes. No acompanhamento, a Orquestra Pan American do Cassino Copacabana,
dirigida pelo palestino Simon Bountman, e também conhecida como Orquestra
Copacabana, Simão Nacional Orquestra e Orquestra Parlophon (tudo a mesma
coisa...). A faixa 2 é “Não é isso que eu procuro”, outra parceria de Chico
Alves com Ismael Silva,dedicada ao maestro Martinez Grau, lançada em setembro
do mesmo ano com o número 10251-B, matriz 1876, tendo no acompanhamento a
Orquestra Rio Artists. O cantor também interpretou esse samba em duas revistas
encenadas no Teatro Carlos Gomes: “Eu quero é nota”, em dueto com Célia
Zenatti, sua primeira mulher, e outra também chamada “Não é isso que eu
procuro”. “Deixa essa mulher chorar” faz parte da antológica série de gravações
que Chico fez em dupla com Mário Reis, datada de 9 de setembro de 1930 com
lançamento em dezembro do mesmo ano, disco 10715-A, matriz 3969. Oficialmente o
samba é de Sílvio Fernandes, o Brancura (c.1908-1935), malandro histórico do
Estácio, que ganhou seu apelido por sua cor negra reluzente, mas segundo Bucy
Moreira, era de Maciste da Mangueira, que deu parceria a Brancura. “Apanhando
papel”, gravação de 30 de janeiro de 1931, lançada em março do mesmo ano com o
número 10767-A, matriz 4124, é de Getúlio Marinho da Silva, o Amor (Salvador,
BA, 1889-Rio de Janeiro, 1964) e Ubiratan da Silva. Foi escalado também o lado
B, “Ironia”, do próprio Chico Alves em parceria com Ismael Silva e Nílton
Bastos, matriz 4136. Nesse disco, o acompanhamento é dos Bambas do Estácio, e o
bandolim é provavelmente do mestre Luperce Miranda. “Nem é bom falar”, que vem
antes de “Ironia” em nossa seleção, é do mesmo trio de autores e com o mesmo
acompanhamento, gravação de 27 de novembro de 1930, lançada em janeiro de 31
com o número 10755-A, matriz 4067, e um dos hits do carnaval desse ano. Ao
ouvir o verso “Eu quero uma mulher bem nua”, durante apresentação do cantor na
Rádio Sociedade, seu proprietário, Roquette Pinto, também pioneiro da
radiodifusão no Brasil, comentou: “Todos nós queremos, mas não é preciso
dizer”... A santíssima trindade Chico
Alves-Ismael Silva-Nílton Bastos também assina “É bom evitar”, samba lançado
pela “marca do templo” em setembro de 1931 com o número 10837-A, matriz 4271. A
marchinha “Gosto mas não é muito” saiu pela Parlophon em dezembro de 1931, com
vistas ao carnaval de 32, com o número 13375-A, matriz 131302. É creditada a
Francisco Alves e Ismael Silva, mas sua segunda parte foi composta por Noel
Rosa, não creditado nem no disco nem na edição. Nessa época, o governo
provisório de Getúlio Vargas admitia milhares de correligionários no serviço
público, a ponto de, para brecar novos pedidos, em tempos de crise profunda,
ser exigido dos postulantes requerimento estampilhado, com foto e selos, daí o
verso “Traz o retrato e a estampilha”. Temos também o lado B, matriz 131308:
“Amar”, samba do próprio Chico mais Ismael Silva e Nílton Bastos, este último
não creditado na edição. Do Parlophon 13377, também lançado em dezembro de 1931
para o carnaval de 32, temos o lado A, matriz 131306: o samba “Sonhei”, do
mesmo trio de autores da faixa anterior. Chico Alves e Ismael Silva assinam a
faixa seguinte, o samba “Gandaia”, gravação Odeon de 23 de março de 1932,
lançada em maio do mesmo ano, disco 10906-B, matriz 4420. Da parceria Noel
Rosa-Ismael Silva é o samba “Ando cismado”, gravação de 27 de outubro de 1932,
lançada em dezembro seguinte com o número 10936-A, matriz 4532. Para encerrar,
duas faixas do período final de Chico Alves na Odeon, ambas canções visando as
festas natalinas, e gravadas em 5 de dezembro de 1950, porém só lançadas um ano
mais tarde, dezembro de 51, com o número 13198: “Sinos de Natal” (lado B,
matriz 8877), de Victor Simon (autor dos clássicos “Bom dia, café” e “O
vagabundo”) e Wilson Roberto, e a “Canção de Natal do Brasil”, parceria do
próprio Rei da Voz com David Nasser e Felisberto Martins, na época diretor
artístico da “marca do templo” (lado A, matriz 8876). Embora ainda estejamos
longe do Natal, as faixas são apropriadas para encerrar a primeira parte deste
nosso retrospecto. Semana que vem a gente se encontra com mais Chico Alves. Até
lá!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Januário E Luiz Gonzaga - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 60 (2013)
O Grand Record Brazil chega à sua sexagésima edição
apresentando uma seleção musical com dois grandes nomes da cultura popular
nordestina: Luiz Gonzaga e seu pai Januário.
Lavrador, sanfoneiro e consertador de sanfonas, Januário
José dos Santos, autêntico rei dos oito baixos, nasceu em 25 de setembro de
1888, não se sabe se em Flores ou Pajeú das Flores, em Pernambuco. Adolescente,
fugindo da seca, ele chegou, em 1905, à Fazenda Caiçara, nascente do Riacho da
Brígida, a 12 quilômetros de Exu, na Serra do Araripe, bem na divisa Norte de
Pernambuco com o Ceará, ao lado de seu irmão Pedro Anselmo. Era motivo de
alegria e admiração para quem escutava a sua sanfona, sendo sempre respeitado
por onde quer que passasse. Só falava o necessário e tinha grande entendimento
intelectual, apesar de nunca ter sentado em um banco de escola. Além de exímio
sanfoneiro, foi durante toda a vida um homem dedicado à família. Ao lado da
primeira esposa, Dona Santana, soube muito bem educar seus nove filhos
(Gonzagão foi o segundo) na tradição religiosa e no respeito humano.
O “Vovô do Baião” sempre amou seu querido Araripe. Prova
disso é que, em 1960, com o falecimento de Dona Santana e já com os nove filhos
radicados no Rio de Janeiro, ficou morando sozinho por lá de junho a novembro,
quando contraiu segundas núpcias com Dona Maria Raimunda de Jesus. O novo casal
adotou, em 1962, um bebê com três dias de nascido, e registrado como filho
legítimo com o nome de João Batista Januário, ainda hoje residindo em Exu.
Grande exemplo de pai e bom vizinho, “seu” Januário partiu
para a eternidade no dia 11 de junho de 1978, deixando imensa saudade em todos
que o conheceram lá em Exu, apreciando suas performances sanfoneiras todo final
de tarde. As tradições religiosas do município forma preservadas por muito
tempo recebendo a colaboração do “Vovô do Baião”.
Já Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu, a 13 de dezembro de
1912, lá mesmo na Fazneda Caiçara, onde ele e seus irmãos foram criados, e
ainda menino se interessou pelos oito baixos do pai, a quem ajudava na animação
de forrós e festas. Aos 17 anos, saiu de casa e se alistou como voluntário no
Exército, em Fortaleza, Ceará, e em 1930 rumou com seu batalhão de caçdores, o
22, para a Paraíba, agitada com a revolta de Princesa. Com a vitória de Getúlio
Vargas, a tropa se desloca para Belém do Pará, Teresina, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, a fim de pacificar os resistentes. Corneteiro, recebeu em BH o
apelido de “Bico de Aço”. E soprando a corneta seguiu para São Paulo, em 1932,
no movimento constitucionalista, e para Mato Grosso, a fim de proteger nossa
fronteira da Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia. Já em tempos mais
clamos, Gonzagão serviu em Juiz de Fora e Ouro Fino, em Minas Gerais, e deu
baixa em 1939, após dez anos de Exército (uma nova lei impedia o reengajamento
além desse tempo). Em vez de voltar a sua Exu, resolve ficar no Rio de Janeiro,
onde desembarcara na companhia de uma sanfona branca comprada em São Paulo
pouco antes. Nas ruas, nos bares e no Mangue, passando o pires, apresentava um
repertório bem ao gosto dos marinheiros e suas acompanhantes: tangos, boleros,
valsas, canções, foxes. Certa noite, um grupo de universitários cearenses pede
para ele tocar alguma coisa lá do Nordeste. Aí, Gonzagão tira da memória
xaxados, cocos, xotes, xamegos, e é aí que alimenta o ideal de um dia tocar
tudo isso para todo o povo do Sul. Inscreve-se no programa de calouros do
temível Ary Barroso tocando seu xamego “Vira e mexe”, sendo aplaudidíssimo pela
plateia e obtendo nota máxima! Em 1941, é levado à RCA Victor para acompanhar
Genésio Arruda na gravação de “A viagem do Genésio”, e tem a oportunidade de
tocar seu “Vira e mexe” para o diretor artístico, sendo de pronto escalado para
gravar dois discos como acordeonista-solo: “Véspera de São João”/”Numa
serenata” e “Saudades de São João del Rey”/”Vira e mexe”. A oportunidade de
gravar como cantor só aparece em 1945, com “Dança, Mariquinha”, mazurca sua e
de Miguel Lima. Em pouco tempo tornou-se ídolo nacional, de ponta a ponta,
também como compositor, tendo parceiros expressívos: Miguel Lima, Humberto
Teixeira, Zé Dantas, e sucessos sem conta, seja como autor, seja apenas como
intérprete: “Baião”, “Asa branca”, 'Vozes da seca”, “Chofer de praça”,
“Paraíba”, “Macapá”, “Lorota boa”, “Riacho do Navio”, “Boiadeiro”, “Cigarro de
páia”, “Xanduzinha” e muitos, muitos mais. Com o aparecimento do rock e da
bossa nova, Gonzagão ficou praticamente esquecido no Sul do País, sobretudo no
eixo Rio-São Paulo, mas continuou a se apresentar pelo interior do Brasil, onde
sempre teve grande público. Em 1968, o espertíssimo Carlos Imperial planta um
boato de que o quarteto britânico The Beatles iria gravar “Asa branca”. Isso,
claro, não aconteceu, mas chamou a atenção das novas gerações de então para sua
obra, sendo então redescoberto e novamente experimentando o sucesso em discos e
shows nos grandes centros urbanos, tendo inclusive se apresentado no exterior.
O trono de Rei do Baião é e sempre será seu. Gonzagão morreu em 2 de agosto de
1989, no Recife, de osteoporose seguida de pneumonia (sofria também de câncer
na próstata), deixando um legado imortal que até hoje influencia a MPB. Seu
corpo foi sepultado, conforme seu desejo, ao lado de seus pais, em Exu.
Nesta edição do GRB, apresentamos uma seleção dedicada a
Januário e Gonzagão, pai e filho, com oito fonogramas originais RCA Victor.
Para começar, quatro gravações do mestre Januário, com participação expressiva
dos filhos, inclusive, claro, Luiz Gonzaga: o xote dele mesmo “Januário vai
tocar”, gravação de 3 de agosto de 1955, lançada em outubro do mesmo ano com o
número 80-1498-A, matriz BE5VB-0823. No verso, matriz BE5VB-0824, o “Calango do
Irineu”, também do próprio Januário, que apresentamos logo em seguida. Depois,
as faixas do disco 80-1322, gravado em 18 de maio de 1954 e lançado em agosto:
o baião “O balaio de Veremundo”, da parceria Luiz Gonzaga-Zé Dantas,
espirituosa alusão a um “coronel” da
cidade pernambucana de Salgueiro, famosa por suas carnes de bode salgadas, e
inventor da dança do balaio. Da mesma parceria é o lado B, matriz BE4VB-0456,
outro baião: “Pronde tu vai. Luí?”, com solo vocal do próprio Gonzagão, “of
course”. Completando este pequeno grande programa, quatro expressivas gravações
de Gonzagão de seu início como cantor-solo. Na faixa seis, exatamente sua
estreia nessa área, após 24 discos como solista de sanfona: a mazurca “Dança,
Mariquinha”, gravada em 11 de abril de 1945 e lançada em maio seguinte, matriz
S-078152. Luiz Gonzaga chegou a dizer ao então diretor artístico da RCA Victor,
Vittorio Lattari, brincando, que a Odeon queria lançá-lo como cantor em disco.
Mas Vittorio, claro, decidiu que ele ficaria na Victor, e perguntou: “Como é?
Já tem repertório pra cantar?” Isso, claro, não faltava... Na faixa oito, o
chamego “Penerô xerem”, chamego da parceria Luiz Gonzaga-Miguel Lima, gravação
de 13 de junho de 1945, lançada em agosto do mesmo ano (80-0306-A, matriz
S-078189). A 6 de setembro do mesmo ano, Gonzagão grava, de sua autoria mais
Miguel Lima e J. Portela (o jota é de Jeová), outra mazurca de sucesso,
“Cortando pano”, expressiva homenagem aos alfaiates, que a Victor lançara em
novembro seguinte com o número 80-0344-B, matriz S-078283. Nessa época, quase
todos os cantores brasileiros costumavam lançar músicas para o carnaval, pois,
como então se dizia, eram “da fuzarca”. E mostrando o lado carnavalesco do Rei
do Baião, foi escalada a faixa 7 desta nossa edição do GRB, a marcha-tarantela
“Festa napolitana”, do compositor Sereno, para a folia de 1946, que a Victor
lançou em janeiro desse ano, em gravação de 14 de novembro de 45, disco
80-0374-A, matriz S-078389. Enfim, uma pequena grande amostra que certamente
irá agradar aos fãs de Luiz Gonzaga, de seu pai Januário e da boa música nordestina,
deixando na boca aquele irresistível gostinho de quero-mais...
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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