quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
A Música De Dunga - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 143 (2015)
E aí vai mais uma edição do Grand Record Brazil, o “braço de
cera” do TM, com o número 143, para seus amigos, cultos e associados. Desta
vez, focalizamos a obra musical do compositor e pianista Waldemar de Abreu, o
Dunga. Nosso focalizado veio ao mundo no dia 16 de dezembro de 1907, no Rio de
Janeiro. Ganhou o apelido de Dunga aos sete anos de idade, de sua professora,
que o considerava o mais querido da turma. Fez o curso primário na escola pública
do subúrbio de Haddock Lobo, e o ginásio (até o quarto ano) no Instituto
Matoso. Em 1928, começou a jogar futebol, em Petrópolis, região serrana
fluminense. Em 1930, ingressou na
Leopoldina Railways, trabalhando como conferente, e sempre jogava nos times de
futebol e basquete da companhia, sendo campeão da Liga Bancária diversas
vezes. Em janeiro de 1935, sai a
primeira música gravada de Dunga, para o carnaval do mesmo ano: o samba “Amar
pra quê?”, na voz de Sílvio Pinto. Ainda em 35, acontece o enlace matrimonial
de Dunga com Zaíra Moreira, que tiveram dois filhos. Em 1940, entrou para a
SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), exercendo a função de cobrador
junto aos teatros, e , um ano depois, ingressou na UBC (União Brasileira de
Compositores), onde permaneceria durante anos. Em 1960, assumiu a
vice-presidência da ADDAF (Associação Defensora de Direitos Autorais e
Fonomecânicos), sem no entanto abandonar a atividade musical. Ao longo de sua
carreira, teve mais de oitenta músicas gravadas, nas vozes de grandes astros da
MPB, tais como Orlando Silva, Jamelão, Dircinha Batista, Cyro Monteiro, Déo, etc. Basta lembrar, por exemplo, de
“Conceição” (1956), eterno sucesso de Cauby Peixoto, cuja melodia é de Dunga,
com letra de Jair Amorim. Eles também fizeram juntos “Maria dos meus pecados”,
hit de Agostinho dos Santos em 1957. E Dunga continuaria compondo até sua
morte, em 5 de outubro de 1991, aos 83 anos, em seu Rio de Janeiro natal.
Para esta edição do GRB, foram escolhidas
músicas de exclusiva autoria de Dunga, ou seja, obras que ele compôs sem
parceria. São 29 faixas, interpretadas pelos melhores cantores e
instrumentistas de sua época, quase todas sambas. Para começar, temos “Antes
tarde do que nunca”, do carnaval de 1940, gravado na Victor por Odete Amaral em
23 de outubro de 39 e lançado ainda em dezembro, disco 34537-B, matriz 33187.
Em seguida, um sucesso inesquecível de Orlando Silva, “Chora, cavaquinho”,
outra gravação Victor, esta de 27 de agosto de 1935, lançada em dezembro do
mesmo ano, disco 33998-B, matriz 80011. Edna Cardoso, cantora que só gravou
dois discos com quatro músicas, pela Continental, aqui comparece com as três
obras de Dunga que constam dos mesmos. Para começar, temos “Confessei meu
sofrer”, lado A do disco 15428, o segundo e último de Edna, lançado em setembro
de 1945, matriz 1199. Depois desta faixa, Aracy de Almeida comparece com “Dizem
por aí”, gravação Victor de 20 de abril de 1938, lançada em junho seguinte sob
número 34321-B, matriz 80761. Em seguida, o delicioso arrasta-pé “Espiga de
milho”, executado pelo regional do violonista Canhoto (Waldiro Frederico
Tramontano), em gravação RCA Victor de 21 de maio de 1954, lançada em agosto do
mesmo não, disco 80-1325-B, matriz BE4VB-0462. Depois, mais três imperdíveis
faixas com Orlando Silva. “Esquisita” é da safra do Cantor das Multidões na
Odeon, por ele gravado em 23 de junho de 1947 e lançado em setembro do mesmo
ano, disco 12797-A, matriz 8246. Voltando à Victor, temos um verdadeiro
clássico da carreira de Orlando: o samba-canção “Eu sinto vontade de chorar”,
que ele canta acompanhado pela Orquestra Carioca Swingtette, sob a direção de
Radamés Gnattali. Gravação de 13 de junho de 1938, lançada em setembro seguinte
sob número 34354-B, matriz 80826. “Foi você”, outra das melhores gravações de
Orlando, foi feita em 17 de setembro de 1936 e lançada pela marca do
cachorrinho Nipper em outubro seguinte com o número 34100-A, matriz 80221. O
samba-canção “Justiça”, grande sucesso na voz de Dircinha Batista, foi por ela
gravado na Odeon em 20 de junho de 1938,
com lançamento em agosto do mesmo ano, disco 11628-B, matriz 5871. Logo depois,
temos “Meu amor”, samba do carnaval de 1949, na interpretação de Jorge Goulart,
lançada pela Star em fins de 48 sob número 79-A. Nuno Roland interpreta, em
seguida, o samba-canção “Meu destino”, gravação Todamérica de 8 de março de
1951, lançada em abril do mesmo ano, disco TA-5053-A, matriz TA-101. Dircinha
Batista volta em seguida com “Moleque de rua”, lançado pela Continental em
setembro de 1946, disco 15691-A, matriz 1639. Roberto Paiva interpreta depois
“Não sei se voltarei”, em gravação Victor de 13 de julho de 1944, lançada em
setembro do mesmo ano, disco 80-0211-A, matriz S-078018. Déo lançou em janeiro
de 1945, na Continental, para o carnaval desse ano, o samba “Nunca senti tanto
amor”, matriz 912. Em junho do mesmo ano, ele lançou pela mesma marca outro
samba de Dunga, “Orgulhosa”, disco 15356-A, matriz 1128. Em seguida, volta Edna
Cardoso, desta vez cantando “Pandeiro triste”, lançado em agosto, também de
1945, e pela mesma Continental, abrindo seu disco de estreia, número 15408,
matriz 1201. Alcides Gerardi aqui comparece com “Perdoa”, gravado por ele na
Odeon em 29 de agosto de 1946, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco
12730-A, matriz 8092. “Quando alguém me pergunta”, samba destinado ao carnaval
de 1939, tornou-se um clássico na voz de
Castro Barbosa, que o gravou na Columbia em 12 de janeiro desse ano, com
lançamento bem em cima da folia, em fevereiro, disco 55015-B, matriz 125. Cyro
Monteiro, em seguida, interpreta “Que é isso, Isabel?”, gravação Victor de 3 de
junho de 1942, lançada em agosto do mesmo ano, disco 34950-B, matriz S-052544.
Poderemos apreciá-lo ainda em “Quem gostar de mim”, que gravou na mesma Victor
em 8 de julho de 1940, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34646-B,
matriz 33461. Janet de Almeida, irmão de Joel de Almeida, falecido ainda jovem,
interpreta depois “Quem sabe da minha vida”, batucada do carnaval de 1946,
lançada pela Continental em janeiro desse ano, disco 15582-B, matriz 1397. Em
seguida, Aracy de Almeida interpreta “Remorso”, gravação Odeon de 30 de março
de 1943, lançada em maio do mesmo ano, disco 12305-B, matriz 7244. Temos depois
novamente Edna Cardoso, desta vez interpretando “Se ele me ouvisse”, lado B de
seu segundo e último disco, o Continental 15428, lançado em setembro de 1945,
matriz 1198. Orlando Silva registrou “Soluço de mulher” na Odeon em 6 de agosto
de 1944, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 12503-B, matriz 7645. A
bela valsa “Sonho” é executada pelo clarinetista Luiz Americano, acompanhado
por Pereira Filho ao violão elétrico, em gravação lançada pela Continental em
maio de 1945, disco 15337-B, matriz 1105. O choro “Tic tac do meu relógio” foi
lançado pela Continental, na interpretação de Carmélia Alves, ao lado do
Quarteto de Bronze, acompanhados por Fats Elpídio e seu Ritmo, em março-abril
de 1949, sob número de disco 16048-B, matriz 2067, por sinal marcando o início
definitivo da carreira fonográfica de Carmélia, seis anos após sua estreia na
Victor. O samba “Trapaças de amor” foi gravado na RCA Victor por Linda Batista
em 5 de maio de 1947, com lançamento em junho do mesmo ano, disco 80-0519-A,
matriz S-078750. Primeiro ídolo country brasileiro, Bob Nélson aqui comparece
com “Vaqueiro apaixonado”, marchinha do carnaval de 1951, devidamente
acompanhado de “rancheiros” músicos que, mais competentes, não existiam nem
mesmo no Texas ou na Califórnia. Gravação RCA Victor de 12 de outubro de 50,
lançada ainda em dezembro, disco 80-0726-A, matriz S-092786. Para encerrar,
temos “Zaíra”, valsa cuja musa inspiradora foi certamente a esposa de Dunga. É
executada ao saxofone por Luiz Americano, em gravação Continental de 5 de abril
de 1948, só lançada em março-abril de 49, disco 16015-A, matriz 1831. Enfim,
esta é uma justa homenagem do GRB a um dos maiores compositores que o Brasil já
teve: Waldemar “Dunga” de Abreu!
* SAMUEL MACHADO FILHO
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Luely Figueiró - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 142 (2015)
Estamos
de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 141, apresentando a
segunda parte do retrospecto que dedicamos a Paraguassu, “o cantor das noites
enluaradas”. São mais dezessete
gravações de inestimável valor histórico e artístico que oferecemos aos amigos
cultos, ocultos e associados do TM. Abrindo esta seleção, o tango-canção “Tenho
pena dos meus olhos”, de Angelino de Oliveira, gravação Columbia de 1931,
lançada provavelmente no mês de maio, disco 22016-A, matriz 380982. Em seguida,
a bela canção “Todo poeta nasceu para sofrer”, de Mílton Amaral, lançada pela
Columbia em fevereiro de 1932, disco 22093-A, matriz 381122. “O violero do luá”
(assim mesmo, em caipirês), é outra primorosa canção, do próprio Paraguassu com
versos de Assumpção Fleury, e a Columbia a editou em janeiro de 1933, sob
número 22183-A, matriz 381408. Ainda de 33 é “Esse boêmio sou eu”, outra
canção, esta de Paraguassu sem parceiro, que abre o Columbia 22209, matriz
381409. “Portera véia” (também com
título em caipirês) é mais uma canção do próprio Paraguassu sem parceiro, em
gravação Columbia de 1934, disco 22255-A, matriz 3003. Em seguida temos o
clássico “Luar do sertão”, com versos de Catulo da Paixão Cearense e melodia
também a ele creditada, mas que teria sido feita pelo violonista João
Pernambuco a partir do tema folclórico nordestino “É do Maitá”. Lançada por
Mário Pinheiro em 1914, como “toada sertaneja”, a canção tem várias gravações,
e Paraguassu aqui a revive em registro Columbia de 1936, disco 8196-A, matriz
3261. “Zabumbo do bombo” é uma toada de Roberto de Andrade, que ele mesmo canta
junto com Paraguassu em outra gravação Columbia de 1936, disco 8208-B, matriz
3315. Em seguida, outra modinha clássica, “Talento e formosura”, com versos de
Catulo da Paixão Cearense e melodia de Edmundo Otávio Ferreira, também lançada
originalmente por Mário Pinheiro, em 1904. A gravação de Paraguassu abre o
disco Columbia 8280, de 1937, matriz 3430. A seguir, um outro clássico: a toada
“Tristeza do jeca”, obra máxima de Angelino de Oliveira, verdadeiro hino do
caipira paulista. Surgiu em disco pela primeira vez em 1925, na execução da
Orquestra Brasil-América, e, um ano depois, Patrício Teixeira a gravou cantada,
com sucesso. Merecedora de inúmeras gravações, é interpretada aqui por
Paraguassu em registro Columbia de 1937, disco 8287-A, matriz 3431. No verso,
matriz 3433, uma regravação da canção “A choça do monte”, outra obra totalmente
creditada a Catulo da Paixão Cearense. Foi lançada por Eduardo das Neves em
1913, e Paraguassu já havia feito gravação anterior, pela Odeon, em 1927. Apresentamos
em seguida as duas músicas do disco gravado por Paraguassu em dueto com Nhá
Zefa (Maria di Léo), considerada a caipira mais preferida de Cornélio Pires,
embora fosse paulistana do Brás, onde também nasceu Paraguassu, e, como ele,
filha de imigrantes italianos. São duas batucadas que a Columbia editou sob
número 8328, por certo visando o carnaval de 1938: “Baiana dengosa”, motivo
popular adaptado pelo próprio Paraguassu, matriz 3581, e “Olá, seu Barnabé”,
dele mesmo sem parceria, matriz 3582. Da curta passagem de Paraguassu pela
Victor é a rancheira “Natal dos caboclos”, dele próprio em parceria com o já
mencionado Capitão Furtado (Ariowaldo Pires), com participação vocal do
Quarteto Tupã, formado pelo compositor Georges Moran, russo radicado no Brasil,
e integrado pelas então jovenzinhas
Salomé Cotelli, Consuelo, Hedymar Martins (irmã de Herivelto Martins)
e Lourdes, que mais tarde fariam parte
de outros grupos mais famosos. Gravação de 26 de setembro de 1938, lançada pela
marca do cachorrinho Nipper em dezembro do mesmo ano, disco 34397-B, matriz
80904. É nesse período que, como já informamos, as gravações de Paraguassu
ficam cada vez mais espaçadas. Tanto que as duas faixas seguintes são de 1945,
na Continental, ambas com acompanhamento do conjunto do violonista Antônio
Rago, e gravadas em 12 de julho desse ano. “Perdão, Emília”, outra famosa
modinha brasileira, tem versos de José Henriques da Silva (1855-1930), poeta e
jornalista português radicado desde menino na cidade de São João da Barra (RJ).
Ele os escreveu em 1874, com apenas 19 anos, com o título de “Vingança no cemitério”,
sendo musicada depois pelo sanjoanense Juca Pedaço (“Perdão, Emília foi título
dado por batismo popular). O registro de
Paraguassu, o único feito na fase elétrica de gravação, foi lançado pela
Continental em agosto de 1945, sob número 15411-A, matriz 10444. “Estela” é
outra modinha clássica, com versos de Adelmar Tavares e melodia de Abdon Lyra.
Feito na mesma sessão de “Perdão, Emília”, a 12 de julho de 1945, o registro de
Paraguassu foi lançado pela Continental
em setembro do mesmo ano sob número 15419-A, matriz 10445. A moda campeira
“Gaúcho guapo”, do próprio Paraguassu, foi por ele gravada na mesma Continental
em 16 de abril de 1948, matriz 10849, mas o disco só saiu em março-abril de 49,
sob número 16064-A. Por fim, apresentamos “Janela fechada”, valsa-canção do
próprio Paraguassu, lado B de seu derradeiro disco 78, o Chantecler 78-0303-B,
lançado em agosto de 1960, matriz C8P-606. Enfim, é a homenagem do GRB ao
notável e legendário Paraguassu, que através
de seu canto resgatou inúmeras páginas musicais genuinamente nossas e lançou
outras tantas, e deve ser sempre enaltecido pela contribuição preciosa que deixou para a MPB.
* Texto de Samuel Machado Filho
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