O Grand Record Brazil está de volta, após uma semana de
recesso, desta vez trazendo de volta os “milionários do riso”: Alvarenga e
Ranchinho, sem dúvida uma das duplas sertanejas mais famosas e queridas do
Brasil. A dupla era formada por Murilo Alvarenga, nascido na cidade mineira de
Itaúna, em 22 de maio de 1912, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista de Jacareí,
nascido em 23 de maio de 1913. Após o falecimento de sua mãe, Murilo passou a
residir no Brás, bairro italiano de São Paulo. Trabalhava em circos como
trapezista ao lado de seus tios, e ainda cantava tangos. Diésis atuava como
cantor na Rádio Clube de Santos, apresentando um repertório romântico, e uma de
suas músicas prediletas era “No rancho fundo”, de Ary Barroso e Lamartine Babo,
sendo por isso apelidado de “Rancho”. Em 1928, durante uma seresta em Santos,
Murilo e Diésis resolveram cantar juntos. Murilo aproveitou o sobrenome
Alvarenga, e Diésis, conhecido como “baixinho” em função do porte físico,
aproveitou o apelido das serestas e pôs no diminutivo – Ranchinho. De início apresentavam-se em circos, com um
repertório variado (valsas, modinhas, tangos, chorinhos), contando “causos” e
piadas entre uma música e outra, sempre
garantindo o riso e a diversão do público. É em 1933 que a dupla começa efetivamente sua
carreira, atuando no Circo Pinheiro, em Santos. Mais tarde, seguem para São
Paulo, apresentando-se na Companhia Bataclã. Um ano depois, ingressam na PRA-5,
Rádio São Paulo (“a voz amiga”), a convite do maestro da orquestra da emissora,
Brenno Rossi. Em 1935, Alvarenga e
Ranchinho venceram o concurso de músicas carnavalescas da prefeitura de São Paulo com a marchinha
“Sai, feia”, gravada por Raul Torres. Mais tarde, conhecem o compositor Silvino
Neto e formaram o trio Mosqueteiros da Garoa, de curta duração. Um dia, a dupla
passeava pelas ruas de violas na mão, quando foi vista pelo Capitão Furtado e,
a convite deste, participou do primeiro
filme falado produzido em São Paulo, “Fazendo fita”, substituindo Mariano e
Caçula, que desistiram de atuar no mesmo em virtude do atraso nas filmagens. Em
1936, a dupla chega ao Rio de Janeiro para uma temporada na Casa de Caboclo,uma
casa noturna erguida no lugar do antigo Teatro São José,e ingressam na Rádio
Tupi, com apresentações no programa “Hora do Guri”. Nesse ano, gravam seu
primeiro disco, na Odeon, com a moda de
viola “Itália e Abissínia” e o cateretê “Liga das Nações”. Em 1937, já consagrados, Alvarenga e
Ranchinho são contratados pelo Cassino da Urca, onde permanecem até a proibição
do jogo no Brasil, em 1946. Em 1938, obtêm êxito no carnaval com a marchinha
“Seu condutor”, deles com Herivelto Martins, e nesse ano Ranchinho se desliga
pela primeira vez da dupla. Alvarenga passa a cantar com Bentinho e forma o
grupo Alvarenga e sua Gente. Mas, em 1939, Alvarenga e Ranchinho recompõem a
dupla, que um ano mais tarde grava um de seus maiores hits, “Romance de uma
caveira”. Em suas apresentações, o forte da dupla eram as sátiras políticas, com
a diversão do público e o consequente descontentamento de alguns políticos
atingidos. Inclusive o então presidente Getúlio Vargas, e a dupla passou a
enfrentar problemas com o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de
censura do Estado Novo. Porém, certa vez, no dia do aniversário de Getúlio, 19
de abril, sua filha Alzira Vargas
convidou Alvarenga e Ranchinho para cantar no Palácio do Catete. Após
ouvir a dupla, inclusive as sátiras que o atingiam diretamente, Getúlio acabou
gostando e decidiu liberar suas músicas. Após uma excursão pelo Rio Grande do
Sul, são contratados pela Rádio Mayrink Veiga, onde recebem o título de
“Milionários do Riso”, tendo atuado também na lendária Rádio Nacional. Em 1950,
apresentaram-se no Cassino Estoril, dePortugal, e, nessa época, são contratados
pela Rádio e Televisão Tupi, juntamente com seu descobridor, o Capitão Furtado,
“a trinca do bom humor”. Na década de 50, Diésis novamente deixa de cantar com
Alvarenga por dois meses, desta vez substituído por Delamare de Abreu, irmão de Alvarenga por parte de mãe, que mais
tarde deixou a carreira artística e virou pastor protestante. Em 1965, Diésis,
o primeiro Ranchinho, abandona definitivamente Alvarenga, sendo substituído por
Homero de Souza Campos, que já integrara o Trio Mineiro, ao lado de Bolinha
(Euclides Pereira Rangel) e Cosmorama. A 18 de janeiro de 1978, em São Paulo,
Alvarenga falece, encerrando definitivamente a dupla. Diésis dos Anjos Gaia, o
primeiro Ranchinho, continuou a se apresentar solo, inclusive participando, em
1981-82, do programa “Som Brasil”, apresentado por Rolando Boldrin na TV Globo.
Diésis faleceu em 5 de julho de 1991. Nesta edição do GRB, apresentamos alguns
dos melhores momentos da vitoriosa carreira de Alvarenga e Ranchinho,
perfazendo um total de dezesseis faixas, todas em gravações Odeon. Abrindo esta
seleção, justamente o lado A do primeiro disco da dupla, a moda de viola
“Itália e Abissínia”, deles mesmos mais o Capitão Furtado, abordando o conflito
entre os dois países, que precederia a Segunda Guerra Mundial. Histórica gravação de 16 de março de 1936,
lançado em maio do mesmo ano, disco 11342-A, matriz 5286. “O divórcio vem aí”,
de Alvarenga, Ranchinho e mais ninguém, reflete uma das muitas ocasiões em que
o tema estava na pauta das discussões, em gravação datada de 11 de julho de
1939 e lançada em setembro do mesmo ano sob n.o 11757-A,matriz 6153. Em seguida
temos o lado B desse disco, o cateretê “Nóis em Buenos Aires”, também de
composição própria, matriz 6154, concebido após uma temporada de sucesso na
capital argentina. A moda de viola
“Racionamento de gasolina”, de Palmeira e do Capitão Furtado, retrata uma
situação decorrente da Segunda Guerra Mundial, com o uso pelos automóveis de
gasogênios (aparelhos que substituíam gasolina por gás). Alvarenga e Ranchinho a gravaram na ”marca do
templo” em 13 de julho de 1942, com lançamento em setembro do mesmo ano sob n.o
12195-B, matriz 7013. Também do Capitão Furtado e Palmeira, agora com a
companhia de Piraci (Miguel Lopes Rodrigues), é a moda de viola “Você já viu o
cruzeiro?”, outra crônica musical em que
se aborda a implantação do cruzeiro como moeda nacional (após frustrada
tentativa no governo de Washington Luís), gravação de 15 de setembro de 1943,
lançada em novembro do mesmo ano, disco 12376-B, matriz 7384. Uma das muitas
homenagens musicais prestadas à capital paulista, o samba “Eh! São Paulo”, da
própria dupla, é conhecido até hoje, e foi gravado em 13 de dezembro de 1943,
com lançamento em março de 44, disco 12423-B, matriz 7449. A divertida moda de
viola “Liga dos bichos”, dos próprios Alvarenga e Ranchinho mais o Capitão
Furtado, foi lançada originalmente na
Victor, em 1936. Aqui,a segunda gravação, feita na Odeon em 27 de fevereiro
de1948 e só lançada em maio de 49 sob n.o 12933-A, matriz 8322. Composta e
gravada na época do Estado Novo, a moda de viola “História de um soldado”, de
Alvarenga sem parceria, foi vetada pela censura na época. Mas, em 5 de fevereiro de 1953, Alvarenga e Ranchinho
fazem nova gravação, esta sim lançada em disco, em maio do mesmo ano, com o n.o
13437-B, matriz 9615, e com o título alterado para “História de um palhaço’
(!). “Dança do chegadinho” é uma
marchinha do carnaval de 1942. Assinada pelos próprios Alvarenga e Ranchinho,
foi por eles gravada em 19 de novembro de 41, com lançamento pela “marca do templo” um mês antes dos festejos de
Momo, em janeiro, sob n.o 12102-A, matriz 6857. A rancheira “As três festas”,
também composição própria da dupla, é gravada em 16 de abril de 1941, mas só
chega as lojas em março de 42, no disco Odeon 12124-B, matriz 6614. Em seguida,
temos o clássico “Tico-tico no fubá”, “choro sapeca” de Zequinha de Abreu,
originalmente lançado em 1932 pela Orquestra Colbaz, apenas instrumentalmente.
Com o subtítulo de “Vamos dançar, comadre” e com letra de Alvarenga, é por ele
gravado com Ranchinho na Odeon em 27 de julho de1942, com lançamento em outubro
do mesmo ano sob n.o 12202-A, matriz
7021 (a letra mais conhecida, porém, é a de Eurico Barreiros, gravada no mesmo
ano por Ademilde Fonseca). A “Valsa do assobio”, dos próprios Alvarenga e
Ranchinho, é por eles gravada em 16 de abril de1941, mas só sai em março de 42
sob n.o 12124-A,matriz 6615. O cateretê “Fogo no canaviar”, outra composição
própria da dupla, é gravação de 13 de dezembro de 1943, só lançada em junho de
44, disco 12449-B, matriz 7450. “Vamos arrastar o pé”, de Alvarenga e Chiquinho
Sales, é uma marchinha do carnaval de 1943, que os “milionários do riso” gravam
na “marca do templo” em 13 de novembro
de 42 com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 12248-B, matriz
7140. As duas últimas faixas mostram a veia romântica de Alvarenga e
Ranchinho. A rancheira “Adeus,
Mariazinha”, de Fausto Vasconcelos, é gravada pela dupla em 25 de janeiro
de1944,com lançamento em maio do mesmo ano, disco 12442-B, matriz 7480. E, por
fim, encerrando esta seleção do GRB, a valsa “Aquela flor”, da própria dupla,
gravação de 13 de julho de 1942, lançada somente em outubro de 44, disco
12498-A, matriz 7011. Enfim,uma retrospectiva bastante expressiva da carreira
de Alvarenga e Ranchinho, os eternos e insubstituíveis “Milionários do Riso”! -
*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO