Em sua edição de número 49, o Grand Record Brazil inicia uma
retrospectiva dedicada àquele que, certamente, foi um dos maiores bandolinistas
brasileiros, senão o maior: o carioca Jacob Pick Bittencourt, que ganhou a
imortalidade como Jacob do Bandolim.
Nascido no Rio de Janeiro em 14 de fevereiro de 1918, de pai
capixaba e mãe polonesa, Jacob estudou no Colégio Anglo-Americano e serviu no
CPOR. Quando já “arranhava” o bandolim, trabalhou no arquivo do Ministério da
Guerra, e depois fez carreira como serventuário da Justiça do Rio, onde chegou
até mesmo a ser escrivão de vara criminal. Sua casa no bairro de Jacarepaguá,
avarandada e com jardim, era palco de memoráveis rodas de choro (os “saraus”),
e nelas Jacob recebia seus grandes amigos chorões. Entre seus ídolos estavam
Almirante, Noel Rosa, o pianista Nonô, Luiz Vieira, Pixinguinha e Ernesto
Nazareth. Mesmo não sendo lá grande entusiasta do carnaval, gostava bastante de
frevo. Foi “guru” de Sérgio Cabral (pesquisador e produtor musical, pai do
governador do Rio, Sérgio Cabral Filho), Hermíno Bello de Carvalho e Ricardo
Carvo Albim. Autor de clássicos do choro (“Vale tudo”, “Noites cariocas”,
“Assanhado”, “Doce de coco” e muitos mais), Jacob formou, nos anos 1960, o
conjunto Época de Ouro, que mesmo após sua morte, em 13 de agosto de 1969,
permaneceu na ativa, e existe até hoje. Seu último espetáculo público aconteceu
em 1968, no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, onde se apresentou ao lado
de Elizeth Cardoso e do Zimbo Trio, além, é claro, do Época de Ouro. Teve dois
filhos: Sérgio Bittencourt (jornalista e também compositor, sendo inclusive
autor do clássico “Naquela mesa”, em homenagem ao pai) e Elena Bittencourt, que
tornou-se depois presidente do Instituto Jacob do Bandolim.
As gravações de Jacob do Bandolim que compõem esta
retrospectiva são do acervo do pesquisador Sérgio Prata, e abrangem o período
de 1947 a 1959. Nesta primeira parte, composta de doze fonogramas, apresentamos
as músicas de seus quatro primeiros discos, gravados na Continental. Jacob
estreou com o 78 de número 15825, gravado em 9 de julho de 1947 e lançado entre
agosto e outubro desse ano. Abrindo-o, matriz 1693, um choro dele mesmo,
“Treme-treme” (a faixa 11 da nossa sequência), e no verso, matriz 1686, a bela valsa
“Glória”, de Bomfiglio de Oliveira (faixa 12), lançada originalmente em 1931
por Gastão Formenti, com letra de Branca Coelho. O segundo disco de Jacob levou
o número 15872, sendo lançado em março de 1948. No lado A, gravado em 23 de
junho de 47, matriz 1687, a bela valsa, dele próprio, “Salões imperiais” (que
abre a sequência). No lado B, gravado em 9 de julho de 47, matriz 1694, outra
composição do trompetista Bomfiglio de Oliveira, o conhecido choro “Flamengo”
(a faixa 2), originalmente gravado pelo autor em 1931, sendo este registro de
Jacob também muitíssimo apreciado. Curioso é que, nessas quatro primeiras
gravações, Jacob é acompanhado pelo conjunto do violonista César de Faria, pai
do grande Paulinho da Viola. Em seguida, do terceiro disco, número 15957,
gravado em 18 de setembro de 1948 e lançado entre outubro e dezembro seguintes,
outras duas composições do próprio Jacob: o choro “Remelexo” (faixa 4), matriz
1943, e a valsa “Feia” (faixa 3), matriz 1944 (vocês vão perceber que a música
não faz nenhuma jus ao título, sendo de fato primorosa). Do quarto e último
disco de Jacob na Continental, número 16011, lançado em março-abril de 1949, o
choro “Cabuloso”, de sua autoria (faixa 5), matriz 1942, e a conhecida “Flor
amorosa”, matriz 1945, de Joaquim Antônio da Silva Callado, originalmente polca
e aqui choro, cujos primeiros registros, no início do século passado (fase
mecânica de gravação) foram apenas instrumentais, apesar de Catulo da Paixão
Cearense ter lhe posto versos em 1880, mesmo ano da morte de Callado.
As outras quatro faixas foram gravadas por Jacob do Bandolim
já na RCA Victor, onde o mestre passa a registrar praticamente toda a sua
discografia. Sua primeira sessão de estúdio na “marca do cachorrinho” dá-se em
12 de maio de 1949, com o disco 80-0602, lançado em julho daquele ano, e do
qual apresentamos a faixa de abertura: o famoso tango “O despertar da
montanha”, de Eduardo Souto, matriz S-078881. Temos depois “Sorrir dormindo”,
ou “Por que sorris”, valsa de Juca Kalut lançada ainda nos tempos do disco
mecânico, levada a disco por Jacob em 9 de janeiro de 1950 com lançamento em
junho do mesmo ano (80-0653-B, matriz S-092605), uma valsa do próprio Jacob,
“Encantamento”, por ele gravada na mesma sessão e lançada em julho de 1950
(80-0667-B, matriz S-092607), e uma deliciosa polca também de autoria do
próprio mestre Jacob, “Mexidinha”, gravação de 30 d ejunho de 1950 e lançada em
setembro seguinte com o número 80-0688-A, matriz S-092699. Está muito bom para
começar, não é mesmo? Então aguardem que vem mais por aí, tá combinado? Então
até lá...
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.