

Fratura no joelho é um troço bem complicado... O nosso
Augusto TM que o diga! Mas depois de mais um período de ausência forçada (até
eu senti saudades), eis aqui a vigésima-oitava edição do meu, do seu, do nosso
Grand Record Brazil, apresentando mais dez preciosos fonogramas da era das 78
rotações por minuto para enriquecer os acervos de nossos amigos cultos e
associados. E começamos com um sucesso de Patrício Teixeira (1893-1972),
carioca da Rua São Leopoldo, na lendária Praça Onze, que começou a gravar ainda
pelo processo mecânico e continuou de maneira bem sucedida na fase elétrica,
até quando saiu seu último disco, em 1944. (depois disso, ainda gravaria a
canção “Azulão”, de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, para um LP da Sinter). Foi até professor de violão, e entre suas
alunas mais ilustres estão Nara Leão e as irmãs Linda e Dircinha Batista. E
Patrício aqui comparece com um clássico: o samba “Gavião calçudo”, do mestre
Pixinguinha, com letra de Cícero “Baiano” de Almeida, cujo sucesso desaguaria
no carnaval de 1930. Saiu em duas gravações de Patrício: a primeira no selo
Parlophon, em março de 1929, e esta segunda, com o selo Odeon, lançada em
agosto do mesmo ano com o n.o 10436-A, matriz 2685, na qual o intérprete canta
a letra completa, acompanhado de piano e violão (no registro original era com
orquestra, e nele só foram apresentados o estribilho e uma das estrofes).
“Azulão” também está aqui, mas no registro original do “cantor das noites
enluaradas”, Paraguassu (Roque Ricciardi, 1894-1976), lançado pela Columbia em
fevereiro de 1930, disco 5141-A, matriz 380474.
Em seguida, um monólogo divertidíssimo interpretado pelo
ator Pinto Filho. Trata-se de “Guerra ao mosquito”, de Luiz Peixoto e Marques
Porto, lançado pela Parlophon em agosto de 1929 com o n.o 12989-A, matriz 2670.
Mais atual impossível, uma vez que o Brasil tem sido, nos últimos tempos,
atingido por endemias tropicais como a dengue, especialmente no verão. Não
faltam farpas a políticos de prestígio na época, como o então candidato a
presidente da República Júlio Prestes.
A próxima faixa vem a ser o primeiro grande sucesso nacional
de Ary Barroso como compositor: a marchinha “Dá nela”, interpretada por
Francisco Alves com a Orquestra Pan American de Simon Bountman, e um dos hits
do carnaval de 1930. Gravação de 9 de janeiro daquele ano, lançada pouco depois
sob n.o 10558-A, matriz 3258. No dia 18, a música venceu um concurso promovido
no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, e com o dinheiro ganho (cinco contos de
réis!), Ary Barroso teve condições de se casar (com Yvonne Belfort Arantes) e
ainda recebeu seu diploma de advogado. De letra extremamente machista
(característica da época), “Dá nela” também deu nome a uma revista do Teatro
Recreio, nela interpretada (de calça comprida!) por Zaíra Cavalcanti.
Um dos clássicos de Ary Barroso em parceria com Luiz
Peixoto, o samba-canção “Na batucada da vida” (subintitulado “A canção da
enjeitada”) tornou-se inovador na época do lançamento, pelo realismo com que
tratava uma temática de cunho social. Originalmente saiu em 1934, na voz de
Cármen Miranda, e aqui é apresentada no registro de Dircinha Batista, feito na
Odeon em 14 de abril de 1950 e lançado em agosto seguinte, disco 13031-B,
matriz 8685, com acompanhamento de piano do próprio mestre de Ubá. Como bem sabem
os fãs de Elis Regina, em 1974 ela também fez um registro memorável desta
composição.
O inesquecível Kid Morenguera, o grande Moreira da Silva
(1902-2000), insubstituível rei do samba de breque, aqui comparece com o
raríssimo disco Star 225, datado de 1951, com acompanhamento do conjunto do
violonista Claudionor Cruz, destacando-se o saxofone de Portinho (Antônio Porto
Filho), também maestro e arranjador de prestígio. De um lado, o samba-choro
“Entrevista”, do próprio Moreira, e no verso, nesse mesmo ritmo, a homenagem do
GRB aos motoristas na semana do dia deles e de seu santo padroeiro, São
Cristóvão: “Sou motorista”!
Humberto Marsicano fez parte da geração de artistas
paulistas surgidos no final dos anos 1920. De sua escassa discografia como
cantor (apenas 16 fonogramas distribuídos em nove 78 rpm), apresentamos o disco
Columbia 5051, lançado em julho de 1929, com acompanhamento da orquestra de
Álvaro Ghiraldini. Abrindo-o, matriz 380143, o samba-choro “Mulher sem
coração”, composto por um nome que iniciava então sua carreira, José Maria de
Abreu (1911-1966), paulista de Jacareí, responsável por sucessos inesquecíveis,
tais como “E tome polca”, “Alguém como tu”, “Dançando com você” e muitos
outros. No verso, matriz 380144, o delicioso “sambinha-embolada” Tico-tico
vuô”, de Juca Paulista e Juvenal de Abreu.
Para encerrar, uma marchinha do carnaval de 1957,
lançada pela Continental em janeiro desse mesmo ano, com o n.o 17375-B, matriz
C-3912. É “Seu Romeu”, de João Rosa, Arnaldo Moraes e do paulistano Ruy Rey
(1915-1995), sendo este último o intérprete. Ruy, que se chamava Domingos
Zeminian, foi também exímio “bandleader”, e especializou-se em ritmos
hispano-americanos, precursores da atual salsa. Enfim, um belo apanhado com o
qual o GRB mata as saudades de todos que estavam aguardando esta retomada.
Divirtam-se e recordem!
* TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO