Esta semana,o Grand Record Brazil apresenta a primeira de três partes de uma retrospectiva que homenageia um dos mais queridos cantores da música popular brasileira, considerado um dos “quatro grandes” da década de 1930, ao lado de Francisco Alves, Sílvio Caldas e Orlando Silva, e de carreira lôngeva e expressiva. Falamos, evidentemente, de Carlos Galhardo. Na pia batismal, nosso biografado recebeu o nome de Catello Carlos Guagliardi, e era filho de italianos,Pedro Guagliardi e Savéria Novello. Segundo Norma Hauer em seu livro “Uma voz que é um poema”, sua mãe engravidou no Rio de Janeiro, mas ele veio ao mundo na capital argentina, Buenos Aires, para onde toda a sua família se deslocou em busca de melhor sorte, em 24 de abril de 1913. Quando Galhardo tinha apenas dois meses de nascido, ele e seus familiares (também tinha dois irmãos, nascidos na Itália, e uma irmã, nascida no Rio) mudaram-se para São Paulo, onde permaneceriam apenas outros dois meses, transferindo-se definitivamente para o Rio, e fixando-se no Estácio de Sá, bairro da primeira escola de samba, a Deixa Falar. Enquanto fazia o grupo escolar, o pequeno Catello foi encaminhado para a batalha da vida, como aprendiz de alfaiate. Por algum tempo, trabalhou como balconista de charutaria, ali cultivando uma amizade que seria útil para a primeira oportunidade de sua carreira, como veremos a seguir. Voltando à tesoura e à agulha, em seguida, chega a ser oficial de paletó, a ponto de confeccionar um jaquetão para Getúlio Vargas,quando chefe do governo provisório, logo que assumiu o poder pela primeira vez, em 1930. Aos oito anos, Galhardo perde a mãe, e o pai, que trabalhava no ramo lotérico, casa-se de novo, tendo mais cinco filhos! Galhardo não conheceu dificuldade alguma na carreira artística. Já vinha cantando para os amigos, principalmente músicas italianas, fiel às origens. Numa festa familiar, a que compareceu Francisco Alves, canta exatamente uma página do repertório do Rei da Voz, a canção “Deusa”, de Freire Júnior. Foi devidamente aprovado por Chico Viola,mas precisava de uma oportunidade mais concreta. Aí é que entra em cena Maria Rita de Carvalho, a Mariazinha, manicura que conhecera em um salão de beleza, que funcionava em conjunto com a charutaria em que ele havia trabalhado. Mariazinha, por sua vez, conhecia uma pessoa relacionada com o compositor e violonista Bororó, que então trabalhava na Rádio Educadora do Brasil. Por esse intermédio, Galhardo foi ouvido por Bororó num ambiente inusitado e o mais sossegado naquele momento: o banheiro da rádio! E foi logo escalado para cantar ao microfone da emissora. Nessa apresentação, para sua sorte, estava Leslie Robert Evans, o Mister Evans da Victor, então diretor e engenheiro de gravações no selo do cachorrinho Nipper, que logo manda seu assistente, João Martins, em busca do futuro astro. E Galhardo, com apenas 19 anos de idade, é desigando pela Victor para cantar no coro das gravações e ganhar alguma experiência. Finalmente, em janeiro de 1933, grava seu primeiro disco-solo, interpretando dois frevos para o carnaval recifense desse ano: “Você não gosta de mim” e “Que é que há?”. No final desse ano, Galhardo obtém seu primeiro grande hit nacional: a marcha natalina “Boas festas”, de Assis Valente. Grava também na Columbia (futura Continental), e na Odeon, retornando à RCA Victor. Com voz emotiva e bem timbrada, revestida de uma maciez incomum, Galhardo brilhou por décadas em nosso cenário musical, atuando em emissoras de rádio, cassinos, cinema e televisão, percorrendo todo o Brasil, e, em 1952, fez uma vitoriosa excursão a Portugal. Sem contar os LPs, foram cerca de 580 gravações em 78 rpm, e numerosos sucessos. Como “Rei da Valsa” e “O Cantor que Dispensa Adjetivos”, foi grande em todos os gêneros, na canção romântica, nos sambas e nas marchinhas, tanto no meio-de-ano como no carnaval, além de ter gravado as chamadas datas festivas (Natal, aniversários de nascimento e casamento, Dia dos Pais e das Mães, festas juninas...) mais do que qualquer outro intérprete de seu tempo. Residindo no Estácio, Galhardo era evidentemente torcedor do América Futebol Clube. Também teve cavalos no Jockey Club e um sítio, onde descansava da agitação do meio artístico. Casou-se com Eulália, em 1955, na maturidade dos seus 42 anos, dessa união nascendo três filhos: Carla Maria, Sandra Maria e Eduardo César. Era responsável e tranquilo, como ser humano, o que só fazia aumentar a simpatia e a admiração de seus milhões de fãs, que até hoje cultuam carinhosamente sua memória. Foi um dos fundadores, em 1962, e presidente da Socinpro (Sociedade Brasileira de Administração e Proteção dos Direitos Intelectuais). Seu último trabalho em disco foi o LP “Parabéns a mim por ter você”, lançado pela EMI-Odeon em 1978. Em 1983, Galhardo faz sua última apresentação artística, no espetáculo “Alá-lá-ô”, de Ricardo Cravo Albim, dedicado ao compositor Nássara (parceiro de Haroldo Lobo na marchinha homônima, um dos inúmeros sucessos carnavalescos do intérprete, em 1941), realizado na Sala Funarte-Sidney Miller. Carlos Galhardo faleceu em 25 de julho de 1985, no Rio de Janeiro, aos 72 anos. De seu imenso legado na cera, o Grand Record Brazil oferece, para começar, 12 expressivas páginas, a maior parte gravadas na Victor, mais tarde RCA Victor. Abrindo esta seleção, “Linda butterfly”, fox-canção de Georges Moran (russo radicado no Brasil) e Oswaldo Santiago, registro de 26 de janeiro de 1939, que imediatamente vai para as lojas, em fevereiro, sob n.o 34415-A, matriz 80994. Revelando uma postura crítica em relação ao saudosismo de que as épocas sempre padeceram, a valsa ”Antigamente era assim”, de Custódio Mesquita e Ari Monteiro,é levada a disco por Galhardo em 11 de fevereiro de 1943, e a Victor a lança em maio do mesmo ano, disco 80-0076-A, matriz S-052718. Galhardo depois interpreta o fox “Sombras ao luar”, de José Maria de Abreu e Francisco Matoso, em gravação de 9 de abril de 1941, editada em junho do mesmo ano com o n.o 34752-A, matriz 52174. Um dos maiores violonistas brasileiros, Dilermando Reis assina, em parceria com Jair Amorim, a valsa “Se ela perguntar”, imortalizada por Galhardo na já então RCA Victor em 18 de janeiro de 1952, e lançada em abril do mesmo ano com o número 80-0865-B, matriz S-093172. O disco vendeu cerca de duzentas mil cópias, principalmente porque do lado A estava “Mãezinha querida”, outro clássico do repertório de Galhardo, o que por certo ajudou “Se ela perguntar” a ser igualmente sucesso. Na quinta faixa, outro fox, “Perfil”, da festejada parceria Roberto Martins-Mário Rossi (responsável também por outra famosa composição do gênero, “Adeus”, na voz de Gilberto Alves), que Galhardo grava em 16 de abril de 1943 e a Victor lança em junho com o número 80-0089-A, matriz S-052756. “Que importa?” é uma valsa do mesmo Mário Lago que deu a Galhardo os hits “Devolve”, “Não quero saber” e “Será?”, gravação Victor de 13 de julho de 1942, lançada em setembro do mesmo ano, disco 34961-A, matriz S-052580. “Cerejeira do Japão”, fox-canção de Paulo Barbosa e Jorge Ronaldo, é uma nostálgica lembrança da terra do sol nascente bem antes das bombas atômicas que cairiam sobre Hiroshima e Nagasaki, pondo fim (embora trágico) à Segunda Guerra Mundial. Galhardo o imortalizou na Victor em 16 de julho de 1940, com lançamento em outubro do mesmo ano, disco 34659-A,matriz 33472. “Beija-flor”, de Roberto Martins e Torres Homem, é outra das inúmeras valsas que Galhardo tornou clássicas, em gravação Victor de 25 de março de 1940, lançada em maio do mesmo ano, disco 34606-A, matriz 33360. Provando que era também o “Cantor das Efemérides”, Galhardo apresenta a seguir “Bodas de prata”, valsa até hoje lembrada e conhecida, de Roberto Martins e Mário Rossi, gravação de 23 de março de 1945 que a Victor lança em julho do mesmo ano, disco 80-0291-A,matriz S-078140. Tem inúmeras regravações, inclusive do próprio Carlos Galhardo. “Indiferença” é outra valsa, esta de Georges Moran e J. G. de Araújo Jorge (escritor discutido mas muito lido), imortalizada por Galhardo na marca do cachorrinho Nipper em 4 de maio de 1944 e lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0191-A, matriz S-052956. “Linda borboleta”, de João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro,é outra bela e graciosa valsa que Galhardo tornou célebre, em gravação Victor de 9 de agosto de 1938, lançada em outubro do mesmo ano com o n.o 34365-B, matriz 80859. Tão famosa a ponto de certa vez, quando Galhardo estava se apresentando em seu programa de rádio, alguém lembrar a ele:”Se você não cantar ‘Linda borboleta’, os ouvintes vão telefonar aqui pra emissora reclamando!” Por fim, o primeiro grande êxito romântico de Galhardo, a valsa-canção “Cortina de veludo”, de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago, gravada na Columbia em 15 de maio de 1935, sendo lançada com o número 8156-A, matriz 1092, e ganhando mais tarde reedições com os números 55118 (ainda pela Columbia) e 15013 (já pela Continental). Em sua primeira fase na Victor, Carlos Galhardo só podia gravar sambas e marchinhas, e por isso transferiu-se para a Columbia, onde gravaria 20 discos com 19 músicas. Foi quando teve a oportunidade, negada na marca do cachorrinho Nipper, de se lançar como cantor romântico, lançando justamente “Cortina de veludo”. Galhardo, um ano mais tarde, retornaria à Victor, agora registrando também hits românticos, sem se descuidar do samba e da marchinha. Nas próximas duas semanas, teremos mais páginas do repertório do inesquecível Carlos Galhardo. Aguardem!
*Texto de Samuel Machado Filho
terça-feira, 19 de agosto de 2014
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Luiz Americano - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 112 (2014)
E prossegue a brilhante trajetória do Grand Record Brazil,
agora em sua edição de número 112. Nela, apresentamos significativa parcela do
legado de um clarinetista e saxofonista cuja história se confunde com o
desenvolvimento de nossa música popular: Luiz Americano Rego. Nascido em 27 de
fevereiro de 1900,em Itabaiana, Sergipe (e não na capital do Estado, Aracaju,
como divulgado em sua biografia conhecida), Luiz Americano teve toda a sua
cultura musical criada no seio de uma geração de grandes músicos de sopro. A
começar por seu pai, professor e incentivador, o mestre de banda Jorge
Americano (1860-1926), e seu primo, o maestro Antônio Melo (1902-2002, membro
da renomada Filarmônica de Nossa Senhora da Conceição, hoje também conhecida
como Orquestra Sinfônica de Itabaiana. Iniciou seus estudos de clarinete com o
pai, aos 13 anos. Em 1920, o Sr. Jorge traz
a família (esposa e quatro filhos) para o Rio de Janeiro, em busca de um futuro
melhor para todos, face à arte musical que ele e o filho Luiz (então já casado
com Dulcineia Costa Rego) dominavam, além de fugir das péssimas condições de
saneamento de Itabaiana. Por essa época,
Luiz Americano já estava no Exército,como músico instrumentista, largando a
farda os 22 anos.Luiz faz suas cinco
primeiras gravações em 1925, ainda no processo mecânico, todas elas
maxixes: três de sua autoria (“Gozando a
vida”, “Me deixa, Donzela” e ‘Tico-tico”), um de Freire Júnior (“Coração que
bate, bate”) e outro do baterista Júlio Casado (“Nacionalista”). Foi um pioneiro na utilização da clarineta no
choro, angariando prestígio como solista durante as décadas de 1920, 30 e 40.
Tornou-se o músico mais requisitado da época, inclusive para participar em
inúmeras gravações, atuando, em discos e shows, com as mais importantes orquestras
do período (Simon Bountman, Justo Nieto, Romeu Silva, Raul Lipoff etc.) e
inúmeros grupos regionais. Após uma temporada de trabalho na Argentina, de
volta ao Rio, Luiz Americano funda um dos primeiros conjuntos brasileiros de
jazz. Não gostava de viajar, e por isso não acompanhou Cármen Miranda nos EUA.
Ainda assim, ganhou elogios de Benny Goodman, outro mestre da clarineta.
Afinal, o prazer de Luiz Americano era mesmo tocar, e a clarineta nunca foi um
instrumento desafiador para ele, que impressionava com sua excepcional
habilidade de improvisação e respiração. Também dominava o sax-alto, seu leal
companheiro durante anos, com
virtuosismo, soprando-o com vigor e elegância, e produzindo um som claro e
distinto, tendo deixado inúmeras obras inesquecíveis como compositor.
Verdadeiro fenômeno! Além de vasta
discografia em 78 rpm, gravou dois LPs: “Chora, saxofone” (1958) e “Luiz
Americano e seu Conjunto” (1959), ambos pela RCA Victor. Teve três filhas, todas
do primeiro casamento, com Dulcineia:
Leda, Lysses e Iolanda. Após enviuvar, contraiu segundas núpcias com Érika Romminger (que assim passou a ser Érika Rego), para quem compôs um belo choro, “Linda Érika”,
já executado por músicos diversos, mas nunca se encontrou a gravação do autor.
Por outro lado, ele e seu pai já vieram de Itabaiana contaminados pelo vírus da
hepatite. E foi a evolução da hepatite (guloso, devorava os banquetes das
festas em que tocava, mas nunca ingeria bebida alcoólica) que causou sua morte
prematura (60 anos), no Rio de Janeiro,
em 29 de março de 1960, de cirrose, causando uma perda irreparável para
a MPB.
Nesta edição do GRB, um pouco da magia e da arte de Luiz
Americano, em 15 preciosas gravações. Abrindo-a, temos seu choro “Alma do
Norte”, gravação Odeon de 3 de outubro de 1936, só lançada em abril de 37,
disco 11459-A, matriz 5389. Depois, a bela valsa ‘Teu olhar”, de Getúlio “Amor”
Marinho e João Bastos Filho, lado B da faixa anterior, matriz 5390. Um dos
choros mais conhecidos de Luiz Americano, “É do que há” é apresentado nas duas
gravações que ele fez do mesmo em 78 rpm: a primeira no lançamento, pela Odeon
(faixa 3), de 5 de março de 1931, disco 10797-A, matriz 4169, e a segunda
encerrando esta seleção, feita na Todamérica em 7 de abril de 1953 e lançada em
junho do mesmo ano, disco TA-5298-B, matriz TA-442. A quarta faixa é a conhecida valsa “Lágrimas
de virgem”, gravação Odeon do mesmo disco original de “É do que há”, de
1931,sendo seu lado B, matriz 4168. Foi igualmente regravada por Luiz na
Todamérica, na mesma sessão de 7 de abril de 53 em que reviveu “É do que há”, e
este registro está na faixa 12, disco TA-5297-B, matriz TA-440, indo para as
lojas igualmente em junho daquele ano.
Foi com o dinheiro resultante dos direitos de “Lágrimas de virgem”,
inclusive, que Luiz Americano pôde comprar a casa em que morou, no bairro
carioca de Brás de Pina. O choro
“Lysses” (faixa 5) homenageia a segunda filha do compositor-instrumentista, e
saiu pela Odeon em abril de 1929, sob n.o 10362-B, matriz 2313. Na sexta faixa,
um choro literalmente “das Arábias”: “Luiz Americano de passagem pela Arábia”,
que ele gravou na mesma Odeon em 5 de setembro de 1933, mas só saiu em março
de34, disco 11075-A,matriz 4721. Radamés Gnattali, pianista e maestro de
renome, assina a faixa 7, o primoroso choro “Serenata no Joá”, executado por
Americano em gravação Odeon de 24 de agosto de 1934, editada em novembro
seguinte com o n.o 11171-A, matriz 4900. Depois temos outro choro do próprio
executante, ‘Luiz Americano no Lido”, também registro Odeon, este de 8 de
dezembro de 1934,que foi para as lojas em abril de 35 sob n.o 11212-A, matriz
4966. Violonista consagrado nos EUA,onde desenvolveu carreira de muito
prestígio e prêmios, Laurindo de Almeida assina a faixa 9,o choro “Última
lágrima”, da safra de Luiz Americano na Victor, gravação de 25 de julho de
1939, lançada em outubro do mesmo ano, disco 34499-B, matriz 33130. De outro
músico renomado, o bandolinista Luperce Miranda, é o choro ‘Caboclo
brasileiro”, que Americano, ao sax-alto,
grava na marca do cachorrinho Nipper em 11 de julho de 1940, com
lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34649-A, matriz 33468. ‘Sossega,
Juca” , choro do próprio Americano, é gravação Odeon de 19 de abril de 1940,
disco 12133-B, matriz 6348, ao que parece, lançada apenas em 1942. “Sorriso de
cristal” (faixa 13) é um choro de autoria da segunda mulher de Luiz Americano,
Érika Rego, e ele o grava na Todamérica em
11 de maio de 1954, com lançamento em agosto seguinte sob n.o TA-5455-B,
matriz TA-649. Por fim, na penúltima faixa (a última é a regravação de “É do
que há”), Luiz Americano presta homenagem a outro grande compositor e
saxofonista, Severino Rangel, o Ratinho (da dupla humorística com Jararaca),
revivendo seu choro “Saxofone,por que choras?”, originalmente registrado pelo
autor em 1930. A regravação de Americano é da Todamérica, datada de 7 de abril
de 1953 e lançada em junho do mesmo ano, disco TA-5297-A, matriz TA-441. Enfim,
uma amostra expressiva da arte, do talento e da versatilidade de Luiz
Americano, clarinetista e saxofonista como poucos, merecendo por isso um lugar
de destaque entre os grandes mestres da música instrumental do Brasil.
Texto de Samuel Machado Filho
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Selo Grand Record Brazil
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Castro Barbosa - Seleção 78 RPM DO Toque Musical Vol. 111 (2014)
Já estamos na centésima-primeira edição do Grand Record
Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical, dedicado à era das 78 rotações por
minuto. E nela oferecemos uma significativa amostra do trabalho de um
expressivo cantor, compositor e também humorista da era de ouro do rádio:
Castro Barbosa. Ele veio ao mundo na cidade de Sabará, interior de Minas
Gerais, a 7 de maio de 1905 (ou 1909, não há certeza), batizado com o nome
completo de Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Era irmão do cantor Luiz
Barbosa e do humorista e igualmente cantor Barbosa Júnior, sendo que os três eram filhos de um engenheiro que
participara da construção da antiga estrada de ferro Rio-São Paulo. Ainda
durante a infância de nosso Joaquim Silvério, a família se transfere para a
então Capital da República, o Rio de Janeiro. Em 1924, ele passa a cursar uma
escola comercial, formando-se em Contabilidade. Entre 1926 e 1928, trabalha na
livraria Braga & Cia., mas em virtude de um acidente ferroviário que sofreu
em Teresópolis, fica inativo por alguns meses.
Restabelecido, foi trabalhar na Companhia de Navegação Lóide Brasileiro,
e nessa ocasião nem pensava em seguir carreira artística. Em 1930, porém, o
cantor João Athos, que Castro Barbosa conhecera no Lóide, escutou-o cantarolar
e viu que ele levava jeito. Athos o indica para um teste na Rádio Educadora (PRB-7),
onde é apresentado a Almirante (“a maior patente do rádio”) , que o leva a seu
programa. Castro também participa do ‘Programa Casé”, apresentado por Ademar
Casé, avô paterno da atriz e apresentadora de TV Regina Casé. Na emissora, Castro Barbosa trava
conhecimento com os maiores cartazes da época, entre eles, Noel Rosa, Custódio
Mesquita, Nonô e Francisco Alves. No
início de 1931, a convite do compositor André Filho (autor dos clássicos
‘Cidade maravilhosa” e “Alô,alô”), grava seu primeiro disco, na Parlophon,
lançado em março desse ano, com o samba-canção “Tu hás de sentir”, de Heitor
dos Prazeres, e a marcha “Uvinha”, de André. Nessa ocasião, grava com o Bando
da Lua, na Brunswick, o samba “Tá de mona”, de Maércio e Mazinho. No carnaval
de 1932, obtém seu primeiro grande sucesso, em gravação Victor (devidamente
aprovado em teste pelo então diretor artístico da gravadora,o violonista
Rogério Guimarães): a marchinha “Teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo e dos
irmãos Raul & João Victor Valença, hoje um clássico, vendendo quinze mil
cópias (cifra considerável para a época,
na qual os grandes cantores vendiam, em média, até mil discos). Mais tarde, conhece João de Freitas Ferreira,
o Jonjoca, e em uma festa na casa do cantor Jorge Fernandes, ambos fizeram um
dueto de brincadeira, com Barbosa imitando Francisco Alves, o eterno Rei da
Voz. Nascia a dupla Jonjoca e Castro Barbosa, que a Victor lança para competir
com Chico Alves e Mário Reis, da Odeon, e grava inúmeros hits. Barbosa gravaria, até 1954, 83 discos de 78
rpm com 150 músicas, várias delas de sucesso, mas, em 1937, foi convidado por Renato Murce para
substituir o ator Artur de Oliveira no “Programa Palmolive”, da lendária Rádio
Nacional, atuando como cantor e humorista ao lado de Jorge Murad e Dircinha
Batista. A partir daí, sua atuação como locutor e humorista passa a sobrepujar
a carreira de cantor. Em 1939, é convidado por Lauro Borges para atuar no
humorístico “PRV-8 Rádio X” (com o pseudônimo de Vasco Ferreira), embrião do
que, em poucos anos, viria a ser a notória “PRK-30”, estreada em 1944 na Rádio
Mayrink Veiga. Nos primeiros programas, porém, foi Pinto Filho quem atuou ao
lado de Lauro Borges, e Castro Barbosa (ex-Vasco Ferreira) só entraria em cena
a partir do programa de número 25 da série, interpretando o locutor português
Megatério Nababo d’Alicerce, com Lauro no papel de Otelo Trigueiro, o
“porigrota da voz lantijolada”. Em 1946,
a “PRK-30” transfere-se para a Rádio Nacional, tornando-se uma das maiores audiências da emissora
estatal da Praça Mauá,indo depois para a Tupi, sendo, a partir de 1951,
apresentado também em São Paulo. Foram muitos anos de absoluto sucesso, e o
programa iria inevitavelmente para a televisão, transmitido pelas TVs Rio e
Paulista, repetindo o êxito no rádio. Em 1967, com a trágica morte do parceiro
Lauro Borges (ele foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, na garagem do
edifício em que morava,no bairro paulistano da Vila Mariana), Castro Barbosa
(mais tarde nome de rua no bairro carioca da Vila Isabel) decide deixar a vida
artística, vindo a falecer no dia 30 de abril de 1975, no Rio de Janeiro, de
aneurisma no estômago, deixando a viúva, Guilhermina Mendes, três filhos e
cinco netos, entre estes últimos a hoje também atriz Renata Castro Barbosa,
contratada da Rede Globo de Televisão.
Nesta edição do GRB,
apresentamos 19 exemplos notáveis e expressivos da arte musical de Castro
Barbosa, solo ou em dupla com outros. Abrindo a seleção, a clássica rumba
“Aqueles olhos verdes (Aquellos ojos verdes)”, de Nilo Menéndez (cubano
radicado nos EUA) e Adolfo Utrera, em versão de João de Barro, o Braguinha. Gravação Parlophon de 30 de
julho de 1932, matriz 131430, inicialmente lançada com o número 13431-A e, em
março de 33, reeditada pela Odeon sob número 11005-A. Braguinha também é
responsável pela faixa seguinte, a marchinha “Escravos de Jó”, adaptando famosa
cantiga de roda, que Barbosa lança na Columbia em janeiro de 1942, para o carnaval
desse ano, disco 55323-B, matriz 502. O fox “Julieta” é uma das raras exceções
na obra essencialmente sambística de Noel Rosa, em parceria com Eratóstenes
Frazão. Castro Barbosa o gravou na Odeon em 3 de agosto de 1933, com lançamento
em outubro seguinte sob número 11063-B, matriz 4703. A marcha “Paris sorrirá
outra vez” é de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago, e a Columbia o lança em novembro de 1942
(época em que a capital francesa era impiedosamente bombardeada, durante a
Segunda Guerra Mundial), sob n.o 55382-A,matriz 565. Castro Barbosa demonstra
em seguida seu talento de compositor no samba-canção ‘Tudo que a boca não
disse”, que gravou na Victor em 13 de abril de 1937, com lançamento em julho do
mesmo ano, disco 34182-B, matriz 80361, que apresentava do outro lado ‘Tua
partida”, com Francisco Alves, então retornando à Odeon. A marcha “Asas do Brasil”, da fértil parceria
Braguinha-Alberto Ribeiro,é o lado B do disco Columbia de “Paris sorrirá outra
vez”, de 1942, matriz 564, e aproveita a melodia de outra composição da dupla,
a marcha-rancho “A flor e o vento”, que Francisco Alves lançara na mesma marca
dois anos antes. Em seguida, a bela valsa “Dona Felicidade”, do flautista
Benedito Lacerda em parceria com Nélson Tangerine, que Barbosa grava na Victor
em 19 de abril de 1937, e é lançada em junho do mesmo ano com o n.o 34170-B,
matriz 80371. O samba “Vou pegá Lampião”, de J. Thomaz (aquele maestro que
regia de luvas brancas sem saber música, e teve de largar a bateria por se
queimar com fogos de artifício), faz referência ao famoso e então temido
cangaceiro, e Castro Barbosa o grava na mesma Victor em 3 de julho de 1931, com
lançamento em agosto do mesmo ano, disco 33451-A, matriz 65183. Em dueto com
Almirante, Castro Barbosa interpreta em seguida “A maior descoberta”, rara
incursão carnavalesca de Cãndido “Índio” das Neves, compositor essencialmente
romântico (“Noite cheia de estrelas”, “A última estrofe”, “Lágrimas”, “Dileta”
etc.. Exaltando a mulata, “que venceu mais uma vez”, e é tida como a maior descoberta
depois da do Brasil, é lançada pela Victor em fevereiro de 1934, em pleno
carnaval, tendo a gravação sido feita a 12 de janeiro, disco 33758-A, matriz
65934. Em seguida, Barbosa interpreta, ao lado de Francisco Alves e Murilo
Caldas (irmão de Sílvio), o samba “Desacato”, parceria de Murilo com Wilson
Batista e Paulo Vieira, gravado na Odeon em 18 de julho de 1933, e lançado em
agosto seguinte sob n.o 11042-B,matriz 4699, obtendo sucesso “desacatador”,
segundo a edição impressa. Em seguida
vem o lado A, matriz 4693, gravado ainda em 7 de julho, dueto de Castro Barbosa
com Francisco Alves: o clássico samba “Feitio de oração”, primeira música da
parceria Noel Rosa-Vadico, que tornou antológicas os versos“Ninguém aprende
samba no colégio” e “Quem suportar uma paixão/sentirá que o samba então/ nasce
no coração”. Note-se o andamento mais rápido que o adotado em gravações posteriores.
Depois, Barbosa, agora em dueto com Déo, “o ditador de sucessos”, interpreta o
“Frevo n.o 1”, que na verdade, é o famoso “Vassourinhas”, de autoria de Matias
da Rocha e Joana Batista Ramos, em adaptação de Almirante. Foi lançado pela
Continental em pleno carnaval de 1945, em fevereiro,com o número 15279-B,
matriz 1032. O clássico frevo, porém, ficaria mais conhecido a partir de 1950,
numa gravação instrumental da Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Da dupla
de Castro Barbosa com Jonjoca vêm três sambas notáveis. O primeiro é o clássico
“Adeus”, de Ismael Silva, Noel Rosa e
Francisco Alves, gravação Victor de 12 de abril de 1932, lançada em maio
seguinte sob n.o 33548-B,matriz 65451. Da mesma santíssima trindade é “Dona do
lugar”, gravação Odeon de 23 de dezembro de 1932, lançada um mês antes do
carnaval de 33, janeiro, com o n.o 10966-B, matriz 4562. Em seguida, “Sinto
falta de você”, de Jonjoca sem parceiro, gravado na Victor em 12 de junho de
1931 e lançado em julho do mesmo ano, disco 33447-A, matriz 65162. Vêm logo em
seguida dois sambas de Raul Marques e Ernâni Silva, gravados por Castro Barbosa
em dueto com Aracy de Almeida na Victor em 21 de dezembro de 1936, com
lançamento em janeiro de 37, claro que para o carnaval: ‘Eu e você”, matriz 80303,
e ‘Helena”, matriz 80304. Em dueto com Sônia Barreto, também radialista e
atriz, Castro Barbosa interpreta o fox
“Você me enlouquece (You drive me crazy/What did I do?)”, de Walter Donaldson e
Franz Skinner, em versão de Lamartine Babo (editada como “Estou ficando maluco
por ti”), gravação Victor de 13 de janeiro de 1932, lançada em fevereiro
seguinte sob n.o 33526-A,matriz 65360, e também gravado na Odeon por Francisco
Alves dias depois. Para terminar, no maior alto astral, a divertida marchinha
“Vou espalhando por aí”, de Assis Valente, um dueto de Castro Barbosa com
Cármen Miranda, também gravação Victor, esta de 23 de abril de 1934,porém só
lançada em junho de 35, quando Cármen já se transferira para a Odeon, sob n.o
33936-A, matriz 79612. Não poderia haver melhor final para esta expressiva
retrospectiva que o GRB faz do trabalho musical de Castro Barbosa. Divirtam-se!
* Texto de Samuel Machado Filho
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