Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua
edição de número 87, apresentando a terceira e última parte de nosso
retrospecto sobre Ismael Silva (1905-1978), um dos grandes nomes do samba.
Focalizamos aqui o Ismael intérprete, apresentando sete gravações , com seis
músicas de outros autores ( em 78 rpm Odeon) e uma regravação de samba dele
próprio (em LP Sinter). Nossa primeira faixa é “Louca”, samba de Bucy Moreira, neto
da lendária Tia Ciata, gravado por Ismael na “marca do templo” em 3 de setembro de 1931, disco 10835-B, matriz
4297. Na faixa 3 está o lado A, “Samba
raiado”, de Marcelino de Oliveira, matriz 4296. Em seguida temos outro samba,
“Escola de malandro”, um dueto de Ismael Silva com Noel Rosa, feito pelo Poeta
da Vila em parceria com Orlando Luiz Machado (só este foi creditado como autor
no selo). Gravação de 15 de setembro de 1932, disco 10949-B, matriz 131447 (por
esse número, a matriz é certamente é uma “sobra” da Parlophon, subsidiária da
Odeon, desativada naquele ano). O lado
A, matriz 131292, gravado em 25 de novembro de 1931, é outro samba, que desta
vez Ismael canta solo, “Carinho eu tenho”, de autoria do lendário Sylvio
Fernandes, o Brancura, célebre malandro do Estácio. Em seguida, mais um dueto
de Ismael Silva com Noel Rosa, a marchinha ‘Seu Jacinto”, composição só de
Noel, gravada na “marca do templo” em 27 de outubro de 1932 e lançada em
janeiro de 33 para o carnaval, disco 10953-A, matriz 4534. No lado B, Ismael e
Noel também cantam juntos “Quem não dança”, samba só do Poeta da Vila, gravado
dias mais tarde, em 17 de novembro de 1932, matriz 4552. Em ambas as faixas,
com acompanhamento do Grupo Gente Boa, está bem destacada no coro a voz de
Francisco Alves.
Em seguida, uma regravação de Ismael Silva para um hit seu
de 1932, em parceria com Noel Rosa e
Francisco Alves, lançada originalmente
pela dupla Jonjoca-Castro Barbosa: o samba “Adeus”, faixa 2. Teria sido
composto em homenagem póstuma a Nílton Bastos, falecido pouco antes, mas a
dúvida fica por conta dos versos “Sem teu amor/ esta vida não tem mais valor”.
Este registro foi lançado pela Sinter em novembro de 1955, no primeiro LP-solo
do compositor, o 10 polegadas “O samba na voz do sambista”. E, para completar este programa, já que Ismael
canta três faixas em dueto com Noel Rosa (1910-1937), ele aqui aparece como
nosso “convidado especial”, com cinco antológicas gravações Columbia, todas
elas sambas, feitos por ele com a maestria e a genialidade de sempre. Pra começar, “Felicidade”, parceria de Noel
com Renê Bittencourt, lançado em fevereiro de 1932, disco 22083-B, matriz
381159. Na edição impressa, levou o subtítulo “Que bom, felicidade, que vai
ser!”, verso final do estribilho. Em seguida, temos o magnífico e não menos
genial “Coisas nossas”, em que Noel sintetiza e apreende a alma e os costumes
do povo de seu Rio de Janeiro natal,
Teria sido apresentado também no filme “Coisas nossas”, um musical de sucesso
de bilheteria, cujo título teria sido
tirado exatamente deste samba (informação esta passível de confirmação), e do qual não restaram cópias. Saiu pela
Columbia em março de 1932, sob n.o 22089-B, matriz 381168. O verso, matriz
381176, é ‘Mulher indigesta”, que, se fosse lançado hoje, provocaria a
indignação de muitas feministas... Noel
é aqui acompanhado pelo misterioso grupo Os Sete Diabos, nome talvez
aleatório. “Mentiras de mulher” é o
outro lado de “Felicidade”, matriz 381158, e é cantado por Noel, que o fez sem
parceria, junto com Artur Costa, ator de revistas e também compositor, que no
entanto só participa do estribilho, e Noel o interpreta praticamente sozinho.
Finalizando a especialíssima participação de Noel nesta edição, ele canta sua
obra-prima em parceria com Orestes Barbosa, “Positivismo”, que a Columbia pôs
nas lojas em setembro de 1933 sob n.o 22240-B, matriz 381530. Não poderia
encerramento com melhor chave de ouro do que este, para esta edição do GRB. Até
o nosso próximo encontro, amigos cultos, ocultos e associados!
*Texto de Samuel Machado Filho