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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ismael Silva & Noel Rosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol.87 (2014)


Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua edição de número 87, apresentando a terceira e última parte de nosso retrospecto sobre Ismael Silva (1905-1978), um dos grandes nomes do samba. Focalizamos aqui o Ismael intérprete, apresentando sete gravações , com seis músicas de outros autores ( em 78 rpm Odeon) e uma regravação de samba dele próprio (em LP Sinter). Nossa primeira faixa é “Louca”, samba de Bucy Moreira, neto da lendária Tia Ciata, gravado por Ismael na “marca do templo” em  3 de setembro de 1931, disco 10835-B, matriz 4297. Na faixa  3 está o lado A, “Samba raiado”, de Marcelino de Oliveira, matriz 4296. Em seguida temos outro samba, “Escola de malandro”, um dueto de Ismael Silva com Noel Rosa, feito pelo Poeta da Vila em parceria com Orlando Luiz Machado (só este foi creditado como autor no selo). Gravação de 15 de setembro de 1932, disco 10949-B, matriz 131447 (por esse número, a matriz é certamente é uma “sobra” da Parlophon, subsidiária da Odeon, desativada naquele ano).  O lado A, matriz 131292, gravado em 25 de novembro de 1931, é outro samba, que desta vez Ismael canta solo, “Carinho eu tenho”, de autoria do lendário Sylvio Fernandes, o Brancura, célebre malandro do Estácio. Em seguida, mais um dueto de Ismael Silva com Noel Rosa, a marchinha ‘Seu Jacinto”, composição só de Noel, gravada na “marca do templo” em 27 de outubro de 1932 e lançada em janeiro de 33 para o carnaval, disco 10953-A, matriz 4534. No lado B, Ismael e Noel também cantam juntos “Quem não dança”, samba só do Poeta da Vila, gravado dias mais tarde, em 17 de novembro de 1932, matriz 4552. Em ambas as faixas, com acompanhamento do Grupo Gente Boa, está bem destacada no coro a voz de Francisco Alves.
Em seguida, uma regravação de Ismael Silva para um hit seu de 1932, em parceria com Noel Rosa  e Francisco Alves, lançada  originalmente pela dupla Jonjoca-Castro Barbosa: o samba “Adeus”, faixa 2. Teria sido composto em homenagem póstuma a Nílton Bastos, falecido pouco antes, mas a dúvida fica por conta dos versos “Sem teu amor/ esta vida não tem mais valor”. Este registro foi lançado pela Sinter em novembro de 1955, no primeiro LP-solo do compositor, o 10 polegadas “O samba na voz do sambista”.  E, para completar este programa, já que Ismael canta três faixas em dueto com Noel Rosa (1910-1937), ele aqui aparece como nosso “convidado especial”, com cinco antológicas gravações Columbia, todas elas sambas, feitos por ele com a maestria e a genialidade de sempre.  Pra começar, “Felicidade”, parceria de Noel com Renê Bittencourt, lançado em fevereiro de 1932, disco 22083-B, matriz 381159. Na edição impressa, levou o subtítulo “Que bom, felicidade, que vai ser!”, verso final do estribilho. Em seguida, temos o magnífico e não menos genial “Coisas nossas”, em que Noel sintetiza e apreende a alma e os costumes do povo de seu Rio de Janeiro natal,  Teria sido apresentado  também no  filme “Coisas nossas”, um musical de sucesso de bilheteria, cujo título  teria sido tirado exatamente deste samba (informação esta passível de confirmação),  e do qual não restaram cópias. Saiu pela Columbia em março de 1932, sob n.o 22089-B, matriz 381168. O verso, matriz 381176, é ‘Mulher indigesta”, que, se fosse lançado hoje, provocaria a indignação de muitas feministas...  Noel é aqui acompanhado pelo misterioso grupo Os Sete Diabos, nome talvez aleatório.  “Mentiras de mulher” é o outro lado de “Felicidade”, matriz 381158, e é cantado por Noel, que o fez sem parceria, junto com Artur Costa, ator de revistas e também compositor, que no entanto só participa do estribilho, e Noel o interpreta praticamente sozinho. Finalizando a especialíssima participação de Noel nesta edição, ele canta sua obra-prima em parceria com Orestes Barbosa, “Positivismo”, que a Columbia pôs nas lojas em setembro de 1933 sob n.o 22240-B, matriz 381530. Não poderia encerramento com melhor chave de ouro do que este, para esta edição do GRB. Até o nosso próximo encontro, amigos cultos, ocultos e associados!

*Texto de Samuel Machado Filho


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Noel Rosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 47 (2012)

Nascido a 11 de dezembro de 1910, em um chalé da Rua Teodoro da Silva, no bairro carioca de Vila Isabel (onde atualmente está erguido um edifício residencial que leva seu nome), Noel de Medeiros Rosa viveu pouco, apenas 26 anos e quase cinco meses (morreu em 4 de maio de 1937, vitimado pela tuberculose), mas deixou uma obra musical extensa (quase 260 composições!), criativa e cheia de sucessos. E o impressionante é que as composições do Poeta da Vila são sempre atualíssimas, nunca passam de época. Um legado que tem atravessado os anos, com muita justiça, e faz a gente se sentir grato por ele ter existido, ainda que por pouco tempo, e deixado coisas tão eternas, tão permanentes.
Pois nesta sua quadragésima-sétima edição, o Grand Record Brazil reverencia o talento de Noel Rosa como autor e também intérprete, através de 14 preciosos fonogramas. E ele só levou a disco música sua, com e/ou sem parceria (aqui todas as músicas são dele sozinho). Quem mais gravou músicas de Noel, por sinal, acabou sendo ele próprio: 33 ao todo.
Noel deixou gravações nos selos Parlophon, Odeon, Columbia (futura Continental) e Victor. Sua primeira gravação como intérprete, aqui incluída, foi a toada “Festa no céu”, lançada pela Parlophon em agosto de 1930, disco 13185-A, matriz 3320. No verso, matriz 3654, a embolada “Minha viola”, a faixa seguinte. Depois temos um autêntico clássico noelino: o samba “Com que roupa?”, um eufemismo da época para “Com que dinheiro?”, traduzindo a crise econômica causada pelo “crack” da Bolsa de Nova York, em 1929. Outro registro Parlophon, datado de 30 de setembro de 1930 e lançado em novembro seguinte sob n.o 13245-A, matriz 4007. Um autêntico estouro no carnaval de 1931! Quase ao final do registro, o maestro e compositor Eduardo Souto diz de improviso: “Vai de roupa velha e tutu, seu trouxa!” (Noel depois fez nova gravação de “Com que roupa?”, com outra letra e em dueto com Inácio Guimarães de Loyola, o Ximbuca). No verso, matriz 4008, outro samba interessante, “Malandro medroso”. “Gago apaixonado” é um samba muito apreciado principalmente por sua originalidade, e o próprio Noel declarou ser esta sua melhor composição, pois além de original, não conseguia ser cantada por seus vizinhos e respectivos papagaios de estimação... A gravação, lançada pela Columbia em março de 1931 (disco 22023-B, matriz 381007), tem um atrativo à parte: o solo de lápis nos dentes do cantor Luiz Barbosa, abrindo e fechando a boca para alterar o timbre! “Cordiais saudações” é um “samba epistolar”, que surgiu na revista “Mar de rosas”, e nela foi interpretado por Sílvio Caldas. Noel gravou a música duas vezes na Parlophon, e esta é a primeira versão, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, do palestino Simon Bountman, matriz 131170, não lançada comercialmente, uma vez que foi desaprovada pelo próprio compositor, que fez outro registro dias depois, com o Bando de Tangarás, sendo esse último o que foi para as lojas, em julho de 1931, com o número 13327-A. E é do lado B, matriz 131185, um outro bom samba do mestre Noel por ele próprio cantado, “Mulata fuzarqueira” (ser “da fuzarca” era o mesmo que farrear). O “samba fonético” “Picilone”, subintitulado “Yvone”, é uma alusão à reforma ortográfica que aboliu do alfabeto brasileiro a letra “y”, agora reconduzida ao mesmo. “Dizer um picilone” era a mesma coisa que elogiar. Noel canta junto com João “Braguinha” de Barro, seu colega no Bando de Tangarás, nesta gravação lançada pela Parlophon em setembro de 1931, com o n.o 13344-B, matriz 131208. Há também referência à Kananga do Japão, uma “sociedade familiar dançante e carnavalesca” então existente no Rio. “O pulo da hora” saiu pela mesma gravadora um mês mais tarde, em outubro de 31, disco 13350-A, matriz 131241, tendo no verso, matriz 131242, “Vou te ripar”, que também apresentamos aqui. Foram incluídas, igualmente, as duas músicas do único disco-solo de Noel na Victor, o de n.o 33488, gravado em 10 de outubro de 1931 e lançado em novembro seguinte. Abrindo-o, matriz 65252, “Por causa da hora”, referência ao horário de verão, adotado pela primeira vez naquele ano para economizar luz elétrica e que voltaria em outros anos, sendo adotado ininterruptamente no Brasil a partir de 1985. Mais atual impossível... No verso, matriz 65251, saiu “Nunca... jamais”. Em “Mentiras de mulher”, Noel canta junto com Artur Costa, ator do teatro de revista. Gravação lançada pela Columbia em fevereiro de 1932, sob n.o 22083-A, matriz 381158. Para encerrar, apresentamos “Espera mais um ano”, também cantado em dueto por Noel e Arthur em registro Columbia, de novembro de 1931, mas, ao que parece, não lançado comercialmente na época, sendo o disco de prova encontrado nos arquivos do pesquisador Eduardo Corrêa de Azevedo. Em 1983, “Espera mais um ano” foi registrado na Eldorado pelo Conjunto Coisas Nossas para o LP “Noel Rosa inédito e desconhecido”, aproveitando no início parte deste registro original. Enfim, uma pequena amostra da genialidade do grande Noel Rosa, que, mesmo tendo voz pequena, agradava bastante como intérprete, pois tinha muita bossa e talento!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.