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terça-feira, 4 de novembro de 2014
Sambas - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 123 (2014)
E prossegue a gloriosa trajetória do Grand Record Brazil. Já estamos na edição de número 123, e nela estamos apresentando uma seleção especialmente dedicada ao samba. São 15 gravações, com sambas de autores consagrados do gênero, interpretados pelos melhores cantores de sua época. Abrindo esta edição, temos “Capital do samba”, de José Ramos (1913-2001), fluminense de Campos, que ajudou a fundar a ala de compositores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, na interpretação do sempre notável Gilberto Alves. Gravação Odeon de 9 de setembro de 1942, lançada em outubro do mesmo ano, disco 12214-A, matriz 7053. Dos cariocas João da Baiana (João Machado Guedes, 1887-1974) e Babaú da Mangueira (Waldomiro José da Rocha, 1914-1993) é “Sorris de mim”, a faixa seguinte, interpretada por Odete Amaral, “a voz tropical do Brasil”. Ela o gravou na Victor em 9 de julho de 1940,com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34657-B, matriz 33463. De Paquito (Francisco da Silva Fárrea Júnior, 1915-1975) e do lendário Paulo da Portela (Paulo Benjamin de Oliveira, 1901-1949), foi escalado “Arma perigosa”, na interpretação de Linda Rodrigues (Sophia Gervasoni, 1919-1995). É o lado A de seu terceiro 78, o Continental 15423, lançado em setembro de 1945, matriz 1136. Na quarta faixa, um clássico indiscutível do mestre Ary Barroso: é “Morena boca de ouro”, na interpretação de Sílvio Caldas, que o imortalizou na Victor em 4 de julho de 1941, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34793-A, matriz S-052259. Foi várias vezes regravado,inclusive por João Gilberto, que o incluiu em seu primeiro LP, “Chega de saudade”, em 1959. O dito popular “Quem espera sempre alcança” dá título à nossa quinta faixa, mais uma composição do lendário Paulo da Portela. Quem canta este samba é Mário Reis, em gravação lançada pela Odeon em setembro de 1931, disco 10837-B, matriz 4272, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, do palestino Simon Bountman. “Quem mandou, Iaiá?” é de Benedito Lacerda (também no acompanhamento com sua flauta mágica e inconfundível) e Oswaldo “Baiaco” Vasques, e foi lançado pela Columbia para o carnaval de 1934, em janeiro desse ano, na voz de Arnaldo Amaral, disco 22262-A, matriz 1005. Também de Baiaco, em parceria com João dos Santos, é nossa sétima faixa, “Conversa puxa conversa”, gravação Victor de Almirante (“a maior patente do rádio”) em 24 de abril de 1934, lançada em julho do mesmo ano com o n.o 33800-A, matriz 79615, com acompanhamento da orquestra Diabos do Céu, formada e dirigida por Pixinguinha. Babaú da Mangueira volta em nossa faixa 8, “Ela me abandonou”, samba do carnaval de 1949, em parceria com Taú Silva. Novamente aqui comparece Gilberto Alves, em gravação RCA Victor de 23 de dezembro de 48, lançada um mês antes da folia,em janeiro,disco 80-0591-B, matriz S-078852. Autor de clássicos do samba, Ismael Silva (1905-1978) mostra seu lado de intérprete em “Me deixa sossegado”, que assina junto com Francisco Alves e Nílton Bastos, e foi lançado pela Odeon em dezembro de 1931, disco 10858-B,matriz 4281. De família circense, sobrinho do lendário palhaço Piolim, o comediante paulista Anchizes Pinto, o Ankito (1924-2009), considerado um dos cinco maiores nomes da era das chanchadas em nosso cinema, bate ponto aqui com “É fogo na jaca”, samba de Raul Marques, Estanislau Silva e Mateus Conde. Destinado ao carnaval de 1954, foi lançado pela Columbia (depois CBS e hoje Sony Music) em janeiro desse ano, sob n.o CB-10017-B, matriz CBO-152. Paulo da Portela volta na faixa 11, assinando com Heitor dos Prazeres “Cantar pra não chorar”, do carnaval de 1938. Quem canta é Carlos Galhardo, “o cantor que dispensa adjetivos”, em gravação Victor de 15 de dezembro de 37, lançada um mês antes da folia, em janeiro, disco 34278-B, matriz 80634. Na faixa 12, volta José Ramos, agora assinando com o irmão, Marcelino Ramos, “Jequitibá”. Gravação de Zé e Zilda (“a dupla da harmonia”), em 1949, na Star, disco 151-B, por certo visando o carnaval de 50. A eterna “personalíssima”, Isaura Garcia, vem com o samba “Mulher de malandro”, de Hervê Cordovil. Gravado na Victor em 23 de outubro de 1945, seria lançado apenas em setembro de 46, sob n.o 80-0431-B, matriz S-078380. Ernani Alvarenga, o Alvarenga da Portela, assina “Fica de lá”, samba do carnaval de 1939, em gravação Odeon de Francisco Alves, datada de 16 de dezembro de 38 e lançada bem em cima da folia,em fevereiro, disco 11700-A,matriz 5995. Por fim, temos o samba “Não quero mais”, samba de autoria de Zé da Zilda (também conhecido por Zé com Fome e José Gonçalves) e Carlos Cachaça (Carlos Moreira de Castro, que apareceu no selo com o sobrenome errado, “da Silva”), gravado na Victor por Aracy de Almeida em 9 de setembro de 1936 e lançado em dezembro do mesmo ano, disco 34125-A, matriz 80214, certamente com vistas ao carnaval de 37. Note-se, a respeito deste samba, que Cartola tinha feito duas segundas partes, mas Zé da Zilda fez uma outra segunda parte por conta própria e, assim, eliminou Cartola da co-autoria. Enfim, é uma excelente seleção de sambas que o GRB nos oferece, para apreciação de todos aqueles que apreciam o melhor de nossa música popular.
Texto de Samuel Machado Filho
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Ismael Silva & Noel Rosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol.87 (2014)
Estamos de volta com o Grand Record Brazil, agora em sua
edição de número 87, apresentando a terceira e última parte de nosso
retrospecto sobre Ismael Silva (1905-1978), um dos grandes nomes do samba.
Focalizamos aqui o Ismael intérprete, apresentando sete gravações , com seis
músicas de outros autores ( em 78 rpm Odeon) e uma regravação de samba dele
próprio (em LP Sinter). Nossa primeira faixa é “Louca”, samba de Bucy Moreira, neto
da lendária Tia Ciata, gravado por Ismael na “marca do templo” em 3 de setembro de 1931, disco 10835-B, matriz
4297. Na faixa 3 está o lado A, “Samba
raiado”, de Marcelino de Oliveira, matriz 4296. Em seguida temos outro samba,
“Escola de malandro”, um dueto de Ismael Silva com Noel Rosa, feito pelo Poeta
da Vila em parceria com Orlando Luiz Machado (só este foi creditado como autor
no selo). Gravação de 15 de setembro de 1932, disco 10949-B, matriz 131447 (por
esse número, a matriz é certamente é uma “sobra” da Parlophon, subsidiária da
Odeon, desativada naquele ano). O lado
A, matriz 131292, gravado em 25 de novembro de 1931, é outro samba, que desta
vez Ismael canta solo, “Carinho eu tenho”, de autoria do lendário Sylvio
Fernandes, o Brancura, célebre malandro do Estácio. Em seguida, mais um dueto
de Ismael Silva com Noel Rosa, a marchinha ‘Seu Jacinto”, composição só de
Noel, gravada na “marca do templo” em 27 de outubro de 1932 e lançada em
janeiro de 33 para o carnaval, disco 10953-A, matriz 4534. No lado B, Ismael e
Noel também cantam juntos “Quem não dança”, samba só do Poeta da Vila, gravado
dias mais tarde, em 17 de novembro de 1932, matriz 4552. Em ambas as faixas,
com acompanhamento do Grupo Gente Boa, está bem destacada no coro a voz de
Francisco Alves.
Em seguida, uma regravação de Ismael Silva para um hit seu
de 1932, em parceria com Noel Rosa e
Francisco Alves, lançada originalmente
pela dupla Jonjoca-Castro Barbosa: o samba “Adeus”, faixa 2. Teria sido
composto em homenagem póstuma a Nílton Bastos, falecido pouco antes, mas a
dúvida fica por conta dos versos “Sem teu amor/ esta vida não tem mais valor”.
Este registro foi lançado pela Sinter em novembro de 1955, no primeiro LP-solo
do compositor, o 10 polegadas “O samba na voz do sambista”. E, para completar este programa, já que Ismael
canta três faixas em dueto com Noel Rosa (1910-1937), ele aqui aparece como
nosso “convidado especial”, com cinco antológicas gravações Columbia, todas
elas sambas, feitos por ele com a maestria e a genialidade de sempre. Pra começar, “Felicidade”, parceria de Noel
com Renê Bittencourt, lançado em fevereiro de 1932, disco 22083-B, matriz
381159. Na edição impressa, levou o subtítulo “Que bom, felicidade, que vai
ser!”, verso final do estribilho. Em seguida, temos o magnífico e não menos
genial “Coisas nossas”, em que Noel sintetiza e apreende a alma e os costumes
do povo de seu Rio de Janeiro natal,
Teria sido apresentado também no filme “Coisas nossas”, um musical de sucesso
de bilheteria, cujo título teria sido
tirado exatamente deste samba (informação esta passível de confirmação), e do qual não restaram cópias. Saiu pela
Columbia em março de 1932, sob n.o 22089-B, matriz 381168. O verso, matriz
381176, é ‘Mulher indigesta”, que, se fosse lançado hoje, provocaria a
indignação de muitas feministas... Noel
é aqui acompanhado pelo misterioso grupo Os Sete Diabos, nome talvez
aleatório. “Mentiras de mulher” é o
outro lado de “Felicidade”, matriz 381158, e é cantado por Noel, que o fez sem
parceria, junto com Artur Costa, ator de revistas e também compositor, que no
entanto só participa do estribilho, e Noel o interpreta praticamente sozinho.
Finalizando a especialíssima participação de Noel nesta edição, ele canta sua
obra-prima em parceria com Orestes Barbosa, “Positivismo”, que a Columbia pôs
nas lojas em setembro de 1933 sob n.o 22240-B, matriz 381530. Não poderia
encerramento com melhor chave de ouro do que este, para esta edição do GRB. Até
o nosso próximo encontro, amigos cultos, ocultos e associados!
*Texto de Samuel Machado Filho
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
A Música de Ismael Silva Na Voz De... - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 86 (2014)
Chegamos à edição de número 86 do Grand Record Brazil,
apresentando a terceira parte de nossa retrospectiva da obra do compositor
Ismael Silva (1905-1978). São mais dezessete composições deste notável mestre
do samba, cantadas por intérpretes diversos, inclusive ele mesmo. Para começar,
temos um dos mais expressivos intérpretes da obra de Ismael, Mário Reis. Ele interpreta aqui, como solista, as quatro
primeiras faixas deste volume do GRB,
todas elas sambas e em gravações Odeon, a saber: “Novo amor”, de Ismael
sem parceiro, gravação de 27 de fevereiro de 1929, lançada em abril do mesmo
ano com o n.o 10357-A, matriz 2400; “Sofrer é da vida”, parceria de Ismael com
Francisco Alves e Nílton Bastos, gravado em 28 de novembro de 1931 com vistas
ao carnaval, mas só lançado em julho de 32 (deveria, pela lógica, ter saído em
janeiro) com o n.o 10872-A, matriz 4375; “Ao romper da aurora”, parceria de
Ismael e Francisco Alves com outro mestre, Lamartine Babo, também do carnaval de 1932, disco 10881-A,
matriz 4398; e “Uma jura que fiz”, da parceria de Ismael Silva com Noel Rosa e
Francisco Alves, que Mário gravou em 12 de julho de 1932, disco 10928-A, matriz
4482. Na faixa seguinte, volta a dupla Francisco Alves-Mário Reis, de quem
apresentamos alguns registros na edição
anterior, agora interpretando uma obra-prima do samba, “Arrependido”, da
santíssima trindade Ismael Silva-Chico Viola-Nílton Bastos, gravação Odeon de
28 de fevereiro de 1931, lançada em abril do mesmo ano sob n.o 10780-A, matriz
4163 (em nosso volume anterior apareceu o outro lado, “O que será de mim?”). Sílvio Caldas, o eterno “caboclinho querido”,
aqui comparece com duas faixas assinadas exclusivamente por Ismael Silva, que
gravou na Odeon em 14 de dezembro de
1934 com lançamento em fevereiro de 35 (claro que para o carnaval) sob n.o
11194, o samba ‘Agradeças a mim” (lado B, matriz 4974) e a marchinha “Cara feia
é fome” (lado A, matriz 4972). Jonjoca (João de Freitas Ferreira) vem em
seguida com outro samba só de Ismael, ‘Não te dou perdão”, lançado pela Odeon
em fevereiro de 1930 para o carnaval, disco 10579-A, matriz 3366. J. B. de
Carvalho, que se converteu à umbanda e gravou
por toda a carreira a música de sua religião (teve até terreiro e programa de
rádio do gênero), aqui comparece com outro samba de Ismael Silva sem parceiro,
“Com a vida que pediste a Deus”, gravação Odeon de 26 de outubro de 1939,
lançada em janeiro de 40 para o carnaval, “of course”, sob n.o 11803-B, matriz
6237. “Fã”, outro samba de Ismael sem parceria, foi gravado na mesmíssima Odeon
por Gilberto Alves em 14 de julho de
1942, com lançamento em setembro do mesmo ano sob n.o 12189-B, matriz 7015.
Compositor e humorista de rádio, Silvino Neto, pai do comediante Paulo Silvino,
aqui interpreta uma marchinha de Ismael Silva sem parceiro, “Boa boca”, gravada
na Victor em 18 de fevereiro de 1941 e lançada bem em cima do carnaval de 42,
em fevereiro, disco 34873-B, matriz
S-052447. Nélson Gonçalves, o eterno “metralha do gogó de ouro”, vem com o
samba “Não tenho queixa”, parceria de Ismael Silva com David Raw, gravação
também da Victor, datada de 15 de
dezembro de 1942 com lançamento bem cima do carnaval de 43, em fevereiro,
disco 80-0050-A, matriz S-052678.
Orlando Silva, o sempre lembrado “cantor das multidões”, comparece com um samba
que Ismael fez com Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr., “Se eu tiver que escolher”, gravação Odeon de
12 de dezembro de 1945, editada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro,
sob n.o 12672-B, matriz 7958. A faixa seguinte é “Antonico”, samba com o qual
Ismael Silva retornou às paradas de sucesso, depois de anos no ostracismo. Foi
imortalizado na Odeon por Alcides Gerardi em 19 de janeiro de 1950, com lançamento
em abril do mesmo ano sob n.o 12993-B,
matriz 8625. É um samba pungente que foge à linha tradicional do autor, pelo
andamento um pouco mais lento (o personagem Nestor, de que fala a letra, é o
próprio Ismael Silva, na época enfrentando problemas financeiros). Clássico
inúmeras vezes regravado. Cyro “Formigão” Monteiro, “o cantor das mil e uma
fãs”, comparece aqui com a marchinha “Eu sou um”, também de Ismael sem
parceiro, do carnaval de 1940. Gravação Victor de 11 de outubro de 39, lançada
ainda em dezembro sob n.o 34529-A, matriz 33184. O Ismael Silva intérprete dá
as caras nesta seleção com seu samba “Me diga o teu nome”, lançado pela Odeon
em dezembro de 31 (lógico, para o carnaval de 32) sob n.o 10858-A, matriz 4280.
No selo original, Francisco Alves e Nílton Bastos aparecem como co-autores,
mas, em regravações posteriores, só Ismael aparece como autor deste samba. Conhecido como
“a voz de dezoito quilates”, João Petra de Barros aqui interpreta outro samba
só de Ismael, “Não é tanto assim”, gravação Odeon de 18 de dezembro de 1933,
lançada em janeiro de 34 para o carnaval, disco 11089-B, matriz 4771,
finalizando a terceira parte de nossa retrospectiva. Enfim, mais uma contribuição do GRB à
preservação de nossa memória musical. Até a semana que vem!
*Texto de Samuel Machado Filho
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
A Música De Ismael Silva Na Voz De... - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 85 (2014)
Olá,
amigos cultos, ocultos e associados do TM!
Esta semana, o Grand Record Brazil apresenta a segunda parte da
retrospectiva que está dedicando à obra musical de Ismael Silva (1905-1978), um
grande expoente do samba e da música popular brasileira. Na semana passada,
apresentamos composições de Ismael na voz de Francisco Alves (1898-1952), o
eterno Rei da Voz. A seleção desta semana tem 14 faixas com intérpretes
diversos, e nela Francisco Alves também está presente em duetos. Para começar,
e muito bem, apresentamos duetos de Chico Alves com Mário Reis. Eles formaram
uma dupla que gravou um total de 12 discos com 24 músicas, todos pela Odeon,
legado esse imprescindível para quem estuda a história do samba e da MPB. Desse legado, ouviremos seis peças simplesmente
antológicas, autênticas joias do samba, com acompanhamento da Orquestra
Copacabana, dirigida pelo palestino Simon Bountman: na faixa 1, “Não há”, da santíssima trindade Ismael
Silva-Francisco Alves-Nílton Bastos, gravado em 5 de dezembro de 1930 e lançado
em janeiro de 31 para o carnaval, disco 10747-A, matriz 4079. O lado B, na
faixa seguinte, matriz 4080, é um autêntico clássico assinado pela mesma trinca
de autores: o inesquecível “Se você jurar”, que atravessou os anos e até hoje é
muito lembrado, e com justiça. Teve regravação inclusive pelo próprio Ismael
Silva, em 1955. “O que será de mim?”, logo em seguida, e dos mesmos autores, é
gravação de 28 de fevereiro de 1931, lançada em abril do mesmo ano pela “marca
do templo” sob n.o 10780-B, matriz 4162, outra demonstração de bossa da dupla
Chico Alves-Mário Reis (que, durante a gravação, chama o Rei da Voz para cantar
com ele, no que, claro, é prontamente atendido). “Ri pra não chorar” é da parceria Ismael
Silva-Francisco Alves, que na edição homenageiam Nílton Bastos, que falecera.
Gravação da notável dupla Chico Viola-Mário Reis, de 20 de agosto de 1931,
lançada pela Odeon em dezembro do mesmo ano sob n.o 10850-B, matriz 4292. De
Chico e Ismael é também “Liberdade”, gravação de 20 de novembro de 1931 lançada
em janeiro de 32, evidentemente para o carnaval, disco 10871-B, matriz 4363,
citando inclusive o “Hino da Proclamação da República, de Leopoldo
Miguez-Medeiros e Albuquerque. O samba saiu na segunda tiragem desse disco, que
trouxe no lado A, também cantada em dueto por Chico e Mário, a “Marchinha do
amor”, de Lamartine Babo (na primeira, saiu um outro samba, “Oh! Dora”, de
Orlando Vieira, com Chico Viola sozinho).
Terminando esse verdadeiro show de interpretação sambística da dupla
Francisco Alves-Mário Reis, temos “A razão dá-se a quem tem”, já com Noel Rosa
como parceiro de Ismael Silva e Chico Viola, gravação feita na “marca do
templo” em 2 de julho de 1932 e lançada em dezembro seguinte com o n.o 10939-A,
matriz 4472. A faixa 7 é um outro dueto de Francisco Alves, agora com Sílvio
Caldas: “Tristezas não pagam dívidas”, gravado na Odeon em 23 de junho de 1932,
e lançado com o n.o 10922-A, matriz 4463. Temos aqui duas curiosidades: no selo
original, aparece como autor um certo Manoel Silva (havia na época um
compositor com esse nome, cujo nome completo era Manoel dos Santos Silva). Mas,
segundo depoimento de Sílvio Caldas ao pesquisador Abel Cardoso Júnior, o samba
é mesmo de Ismael Silva. Sílvio não teve crédito no selo como intérprete por ser
na época contratado da Victor, mas achou a omissão natural, “apenas uma
colaboração”. O samba também foi
apresentado por Chico Alves no segundo espetáculo da série “Broadway Cocktail”,
um espetáculo palco-tela apresentado no Cine Broadway. Aracy Cortes, grande
estrela dos tempos áureos do teatro de revista, aqui comparece com o samba
“Quero sossego”, da parceria Ismael Silva-Nílton Bastos (na edição Francisco
Alves também aparece como co-autor), Lançado pela Brunswick por volta de março
de 1931, sob n.o 10158-A, matriz 602, foi um dos derradeiros discos lançados no
Brasil por essa gravadora, de origem norte-americana, que logo cerraria as
portas da filial brazuca, levando para a sede, nos EUA, todas as matrizes de
cera que gravou entre nós em pouco mais de um ano de atividades. Da parceria de
Ismael Silva com Noel Rosa e Francisco Alves é a marchinha “Assim sim”, gravada
na Victor por Cármen Miranda em 31 de maio de 1932 e lançada em dezembro desse
ano sob n.o 33581-A, matriz 65502, claro que para o carnaval de 33. No
acompanhamento, Harry Kosarin e seus Almirantes (o maestro, então vindo anos
antes dos EUA, é considerado o introdutor do jazz no Brasil). Em 1930, a
“pequena notável” vira e ouvira Noel com o Bando de Tangarás, no Cinema
Eldorado, e, dois anos mais tarde, teria ocasião de trabalhar com o Poeta da
Vila, Francisco Alves e Almirante no “Broadway Cocktail”. Cármen não teve
oportunidade de solicitar um número especial para gravar. Porém, não ia passar
muito tempo para isso acontecer, nascendo daí este “Assim, sim”. Dando um ligeiro salto no tempo, apresentamos
outra marchinha, “Ninguém faz fé”, de Ismael e Paulo Medeiros, com Linda
Batista, então no auge da carreira, para o carnaval de 1953, em gravação RCA
Victor de 19 de setembro de 52, lançada ainda em dezembro sob n.o 80-1039-A,
matriz SB-093478. Aurora Miranda, irmã de Cármen, apresenta mais outras duas
marchinhas, ambas de Ismael Silva sem parceiro: “Não vejo jeito”, gravação
Victor de 3 de outubro de 1939, lançada em novembro do mesmo ano, por certo
para o carnaval de 40, sob n.o 34519-B, matriz 33170, e “Não apoiado”, gravação
Odeon de 7 de janeiro de 1936 lançada
bem em cima do carnaval desse ano, em fevereiro, disco 11327-B, matriz 5240.
Ainda no campo da marchinha carnavalesca, e também só de Ismael, temos “Macaco
me lamba”, da folia de 1951, lançada pela Sinter ainda em dezembro de 50 sob
n.o 00-00.026-A, matriz S-50. A última
faixa desta seleção, o samba “Fama sem proveito”, parceria de Ismael Silva com
Heitor Catumbi, é um mistério. Quem o canta é a carioca Odaléa Sodré (1924-?), acompanhada
por Netinho, Antônio Souza e regional, e que teve curtíssima carreira no disco.
São conhecidos dois discos comerciaisda cantora, gravados na Columbia em
1936-37, e esta é uma gravação RCA Victor sem data, registrada no acervo do
Instituto Moreira Salles com o número 196, o que leva a crer que se trate de
disco particular, não comercializado (será que foi para as lojas?). Enfim, uma
incógnita. Mas, de qualquer forma, aí vai mais uma contribuição do GRB para a
preservação de nossa memória musical. Até a próxima!
*Texto de SAMUEL MAChADO FILHO
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A Música De Ismael Silva Na Voz De Francisco Alves - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 84 (2013)
Olá, amigos cultos, ocultos e associados do Toque Musical! É
com muita alegria que apresentamos nesta semana a primeira edição do Grand
Record Brazil de 2014, a de número 84. Nela, apresentamos a primeira parte de
uma série dedicada à obra musical de um dos maiores expoentes do samba, Ismael
Silva.
Batizado como Mílton de Oliveira Ismael Silva, o compositor
nasceu em Niterói, na praia de Jurujuba, em 14 de setembro de 1905, filho do
cozinheiro Benjamin de Oliveira Chaves e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, e era o caçula de um
grupo de cinco irmãos. Aos três anos de idade, em decorrência de complicações
financeiras enfrentadas após a morte do pai, mudou-se com a mãe para o Rio de
Janeiro, estabelecendo-se no bairro do Estácio de Sá. Ismael frequentou a
escola primária e concluiu o ginásio aos 18 anos, após residir em outros
bairros cariocas, tais como o Rio
Comprido e o Catumbi. Sua primeira composição, feita quando tinha 15 anos de
idade, foi um samba chamado “Já desisti”, nunca levado ao disco. E foi em 1928
que teve seu primeiro samba gravado, “Me faz carinhos”, na voz de Francisco
Alves (nesta seleção, juntamente com outras 14 faixas também gravadas por ele).
Ambos formaram, ao lado de Nílton Bastos, um trio conhecido como Bambas do
Estácio. Em 1928, constituiu-se em um dos fundadores do bloco precursor da
primeira escola de samba de que se tem notícia: a Deixa Falar, que desfilou
entre 1929 e 1931, e acabou por causa da mudança de Ismael para o centro do
Rio, após as mortes de Nílton Bastos e Edgar Marcelino dos Passos, o Mano
Edgar. Com a morte de Nílton, passou a compor com Noel Rosa, parceria esta que
resultou em 18 músicas, fazendo de Ismael o mais constante parceiro do Poeta da
Vila. Mais tarde, porém, acontece uma virada radical na vida de Ismael Silva.
Envolvendo-se numa briga do bar, por razões controversas (ou por ciúme ou para
defender sua irmã Orestina), atira em Edu Motorneiro, cidadão conhecido nas
rodas boêmias cariocas, sem no entanto matá-lo.
Condenado a cinco anos de prisão, cumpriu apenas dois, por bom
comportamento. Depois, tornou-se recluso, passando por dificuldades
financeiras, só voltando à cena artística em 1950 com o samba “Antonico”,
sucesso na voz de Alcides Gerardi. Como intérprete, Ismael Silva gravou três
discos de 78 rpm com seis músicas, e mais quatro LPs reunindo suas composições, um pela Sinter, outro pela
Mocambo e outros dois pela RCA. Em 1960, por iniciativa do jornalista Sérgio
Cabral, recebeu o título de Cidadão Samba e, da Câmara Municipal do Rio, o de
Carioca Honorário, provas de reconhecimento
de sua arte como verdadeiro sambista. Participou dos shows “O samba
nasce do coração”, na boate Casablanca (1954) e “O samba pede passagem” (1965),
este ao lado de Aracy de Almeida, no Teatro Opinião, além de se apresentar no
restaurante Zicartola. Em 1970, recebeu homenagem da boate Jogral, de São
Paulo. Um de seus últimos shows foi “Se você jurar”, em 1973, ao lado de Cármen
Costa, com produção de Ricardo Cravo Albim. Este também é o título de um de seus
sambas mais conhecidos, lista que inclui
“Novo amor”, “Me diga o teu nome”, a já citada “Antonico”, “Ao romper da
aurora” (este feito com o grande Lamartine Babo), “Tristezas não pagam
dívidas”, “Uma jura que eu fiz”, “Sofrer é da vida”, “Nem é bom falar” (nesta
seleção), “O que será de mim?”, “Contrastes” etc. Ismael Silva faleceu no Rio
de Janeiro, em 14 de março de 1978, de um infarto causado por complicações
surgidas após uma cirurgia para tratar de uma úlcera varicosa que tinha em uma
das pernas.
A presente seleção nos traz quinze composições
de Ismael Silva interpretadas pelo Rei da Voz Francisco Alves (1898-1952),
várias delas em que o cantor figura como parceiro, e a maior parte sambas. A primeira faixa, porém, é de Ismael sem
parceiro: “Choro, sim”, gravação Victor de 21 de novembro de 1934, e, apesar de
constar na edição ter sido feita para o carnaval de 35, só lançada em julho
desse ano sob n.o 33946-B, matriz 79784.
“Ando cismado” é uma parceria de Ismael com Noel Rosa, gravação Odeon de 27 de
outubro de 1932, lançada em dezembro seguinte com o n.o 10936-A, matriz 4532.
Um pouco antes, a 29 de junho de 32, e também pela “marca do templo”, Chico
gravara uma autêntica obra-prima dos mesmos parceiros, “Para me livrar do mal”,
disco 10922-B, matriz 4467. Da parceria Ismael-Chico Viola é “Gandaia”, lado B
do disco Odeon 10906, gravado em 23 de março de 1932 e lançado em maio
seguinte, matriz 4420. Ambos também fizeram a marchinha ‘Você gosta de mim”,
lançada pela Parlophon em dezembro de 1931, visando, claro, o carnaval de 32,
sob n.o 13377-B, matriz 131307. Logo em seguida você encontrará o lado A, o
samba “Sonhei”, de Chico, Ismael e Nílton Bastos (não creditado na edição),
matriz 131306. Também da folia de 1932 são as faixas do Parlophon 13375,
lançado junto com o anterior, em dezembro de 31, e que temos logo em seguida: o
samba “Amar”, também da santíssima trindade Chico Alves-Ismael Silva-Nílton
Bastos, no lado B, matriz 131308, e, no
lado A, matriz 131302, a divertida marchinha “Gosto mas não é muito”, inspirada
num fato real acontecido após a subida de Getúlio Vargas ao poder: muitos de
seus adeptos, antigos e de última hora, almejavam cargos públicos, em tempo de
crise braba, e para amenizar a coisa, passou-se a exigir, dos postulantes a
tais cargos, requerimento estampilhado, com foto e selo (“Traz o retrato e a
estampilha”). Obviamente, aqueles mais chegados ao círculo do poder, os “adeptos
do Gegê”, passavam longe de tais exigências, sendo nomeados militares. Aqui, Ismael e Chico são parceiros de Noel
Rosa, que fez a segunda parte mas não foi creditado no selo do disco e na
partitura impressa. Em seguida, outro produto da santíssima trindade Ismael
Silva-Francisco Alves-Nílton Bastos, o samba “É bom evitar”, lançado pela Odeon
por volta de outubro de 1931 sob n.o 10837-A, matriz 4271. Eles assinam ainda
as faixas seguintes: “Ironia”, lançada pela “marca do templo” em março de 1931,
disco 10767-B, matriz 4136, com provável participação ao bandolim de Luperce
Miranda, “Meu batalhão”, em que Chico Alves é acompanhado de seu “Esquadrão”,
lançada pela Odeon em janeiro de 1931, claro que para o carnaval, com o n.o
10748-B, matriz 4091, “Olê-leô”, para a mesma folia, gravação de 27 de novembro
de 1930 também saída em janeiro de 31 pela “marca do templo” (10745-B, matriz
4068) e o lado A desse disco, o conhecidíssimo “Nem é bom falar”, matriz 4067.
Comenta-se que Roquette Pinto, criador do radiodifusão brasileira, ao ouvir o
verso “Eu quero uma mulher bem nua”, declarou:
“Todos nós queremos, mas não é preciso dizer”... “Não é isso que eu procuro”, parceria de
Chico Alves e Ismael Silva, gravado na mesma Odeon em 10 de agosto de 1928 e
lançado em setembro do mesmo ano com o n.o 10251-B, matriz 1876, foi
interpretado pelo Rei da Voz, em dupla com Célia Zenatti, na revista “Eu quero
é nota”, encenada no Teatro Carlos Gomes do Rio, e depois incluída em outra
revista ali encenada, também com o nome de “Não é isso que eu procuro”. E, para encerrar, justamente o primeiro samba
que Ismael Silva teve gravado: “Me faz carinhos”, que a Odeon de sempre lançou
em janeiro de 1928 com o n.o 10100-B, matriz 1480 (diz-se que teria sido antes
gravado instrumentalmente pelo pianista Cebola, mas esse disco nunca foi
localizado). A autoria de “Me faz carinhos”, no selo e na edição, é atribuída
apenas a Francisco Alves, que o comprou de Ismael mais por necessidade imediata
de dinheiro por parte do compositor, sem esperar o resultado das vendas dos
discos e das partituras. Entretanto, por mais que Chico Viola comprasse
parcerias, contribuía, e muito, para o aprimoramento das composições de Ismael
quando as gravava e, sem o Rei da Voz, é pouco provável que o sambista niteroiense
surgisse na MPB de maneira tão decisiva. Chico Viola também cantou ”Me faz
carinhos” numa revista muito adequadamente chamada “Você quer é carinho”, igualmente
encenada no Teatro Carlos Gomes. Enfim, uma amostra da genialidade de Ismael
Silva, a primeira que o GRB oferece para
deleite de tantos quanto apreciem o melhor do samba e da MPB. Semana que vem
teremos mais Ismael Silva. Encontro marcado! Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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