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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Linda Batista, Elizeth Cardoso, Onilda Figueiredo & Carmen Barbosa - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 118 (2014)




E vai para o ar mais uma edição do Grand Record Brazil, a de número 118. É mais um volume dedicado às cantoras, apresentando quatro grandes intérpretes que fizeram história em nossa música popular.
Para começar, temos Linda Batista (Florinda Grandino de Oliveira, São Paulo, 14/6/1919-Rio de Janeiro,  17/4/1988),que marca presença no GRB desta semana com quatro faixas bastante expressivas, todas em gravações Victor. A primeira é a divertida marchinha “No boteco do José”, sucesso do carnaval de 1946, alusivo à conquista do campeonato carioca de futebol pelo Vasco da Gama (o time era então chamado “expresso da vitória”), no ano anterior, invicto, fazendo menção inclusive ao atacante Lelé (Manuel Pessanha, 1918-2003), artilheiro do certame, de chute fortíssimo.  Flamenguista convicto, Wilson Batista fez a marchinha em parceria com Augusto Garcez, e Linda a gravou em 21 de setembro de 1945, sendo lançada ainda em  novembro com o n.o 80-0348-A, matriz S-078294. Logo depois,ao lado das Três Marias, com acompanhamento da orquestra do maestro Passos,  Linda interpreta o clássico samba-canção “Bom dia”, de Herivelto Martins e Aldo Cabral, em gravação de 2 de julho de 1942, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em setembro do mesmo ano, disco 34962-A, matriz S-052569. “Bom dia” tem inúmeras regravações, destacando-se as de Dalva de Oliveira e Maria Bethânia. Ruço do Pandeiro e Alfeu de Brito assinam o samba “Quem sabe da minha vida sou eu”, que Linda gravou em 13 de agosto de 1941, com lançamento em outubro seguinte sob n.o 34814-A, matriz S-052327. Linda Batista encerra sua participação neste volume com o divertido samba-de-breque “Eu fui à Europa”, de Chiquinho Sales. No enredo, Linda é uma cantora brasileira que vai se apresentar numa rádio europeia, mas é presa, confundida com uma espiã, e levada para a execução. Porém... tudo não passou de um sonho! Gravação de 10 de junho de 1941, lançada em agosto do mesmo ano com o n.o 34785-A, matriz S-052241. Nestas duas últimas faixas,o acompanhamento é creditado aos Diabos do Céu, mas estes não eram mais os integrantes da orquestra formada e dirigida por Pixinguinha, e sim os do regional de Benedito Lacerda, como sempre fazendo maravilhas com sua flauta inconfundível.  Como a denominação era de propriedade da Victor, outros grupos também podiam aparecer nos selos dos discos como Diabos do Céu, caso do regional de Benedito.
 A eterna “Divina”, “Enluarada” e “Magnífica” Elizeth Cardoso, nascida (16/7/1020) e falecida (7/5/1990) no Rio de Janeiro, intérprete de uma longa e vitoriosa carreira, bate ponto aqui com outras quatro faixas,todas gravadas em seu início de carreira. Primeiro, temos seu primeiro  sucesso maiúsculo, “Canção de amor”, samba do comediante Chocolate (Dorival Silva, 1923-1989) em parceria com Elano de Paula, que se tornaria para sempre carro-chefe de Elizeth. Saiu no disco de estreia da cantora na Todamérica, n.o TA-5010-B, gravado em 27 de julho de 1950 e lançado em outubro seguinte, matriz TA-20, do qual também apresentamos logo depois o lado A, “Complexo”, samba de Wilson Batista e Magno de Oliveira, matriz TA-19. Meses antes, porém, Elizeth  havia gravado seu primeiro disco na Star, futura Copacabana, número 202, do qual apresentamos o samba do lado B, “Mensageiro da saudade”, composto por Ataulfo Alves e José Batista, com acompanhamento da orquestra de Acyr Alves. Esse disco, lançado provavelmente em março de 1950, seria logo retirado das lojas pela gravadora, que alegou “problemas técnicos”, jamais esclarecidos devidamente. Por fim, Elizeth canta “Venho de longe”, samba-canção de Dermeval Fonseca e Alberto Ribeiro, gravação Todamérica de 25 de janeiro de 1952, lançada em abril do mesmo ano, disco TA-5145-B, matriz TA-238.
Natural do Recife, a capital pernambucana, Onilda Figueiredo, a cantora que apresentamos a seguir, deixou, segundo consta,  uma escassa discografia. Gravou, em 78 rpm, quatro discos com oito músicas, entre 1956 e 1958, todos pela Mocambo, gravadora que por sinal tinha sede no Recife, e pertencia aos irmãos Rozenblit.  Foi também contratada da Rádio Jornal do Commércio, e era presença constante nos programas de auditório da emissora recifense, cujo slogan era “Pernambuco falando para o mundo”.  Fez ainda uma participação na coletânea “Catorze maiorais em boleros” (Copacabana, 1964), interpretando “Duas cruzes”. Ei-la aqui com as faixas de seu 78 de estreia, o Mocambo 15094, lançado em junho de 1956, com dois boleros. Primeiro, o lado B, matriz R-695, “Desespero”, de autoria de Ângelo Iervolino. E, em seguida, o lado A, o clássico “Nunca! Jamais! (Nunca! Jamás!)”, matriz R-694, de autoria do mexicano Lalo Guerrero, em versão de Nélson Ferreira, também notável compositor e então diretor artístico da Mocambo. Enorme sucesso, “Nunca! Jamais!” seria mais tarde faixa de abertura do único LP da cantora, o 10 polegadas “A voz de Onilda Figueiredo”, sendo também gravado por outros intérpretes (Ivon Cúri, Ângela Maria, Rosa Pardini, Zezé Gonzaga etc.).
Finalmente, lembramos de uma cantora expressiva, que infelizmente partiu muito cedo: Cármen Barbosa. Carioca do bairro do Catumbi, nascida em 4 de setembro de 1912, ela faleceria em 3 de setembro de 1942, um dia antes de fazer trinta anos, vítima de grave doença. Ela aqui comparece com as quatro faixas finais de nossa seleção desta semana. De início tem “Banalidade”, samba de Gilberto Martins (nada banal,apesar do título), gravação Columbia de 19 de junho de 1939, lançada em julho seguinte sob n.o  55073-A, matriz 165. O samba-canção “Carnaval que passou” é do mestre Benedito Lacerda, que muito incentivou Cármen Barbosa em sua carreira e por sinal a acompanha com sua flauta mágica em todas as quatro faixas que ela interpreta aqui, à frente de seu regional.  Gravação Victor de 30 de abril de 1937, lançada em agosto do mesmo ano, disco 34192-A, matriz 80390 (aqui, o regional de Benedito Lacerda aparece com o nome de Boêmios da Cidade). O samba “Depois que ele partiu” é também de Benedito, agora em parceria com Gilberto Martins, e Cármen o gravou na Columbia em 8 de agosto de 1939, com lançamento em setembro sob n.o 55157-B, matriz 187. Por fim, temos outro bom samba, “Adeus, Favela”, de Nélson Trigueiro e Paulo Pinheiro, gravação Columbia de 13 de maio de 1939, lançada em junho seguinte sob n.o  55069-A, matriz 152. Enfim, uma edição em que o GRB revive quatro grandes cantoras da MPB, cujo legado é sempre desfrutável e imperdível. Até a próxima! 

Texto de Samuel Machado Filho

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A Música De Alvaiade E De Djalma Mafra - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 108 (2014)



Dois grandes compositores cariocas abrilhantam a centésima-oitava  edição do Grand Record Brazil: Alvaiade e Djalma Mafra. Alvaiade, na pia batismal Oswaldo dos Santos,  nasceu na Estrada da Portela, no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz, a 21 de dezembro de 1913. Órfão de pai aos cinco anos, começou a trabalhar aos treze, como empregado de uma tipografia, assim sustentando a família. Desde criança interessou-se por música, e sua primeira composição data de 1926: o choro “O que vier eu traço”,em parceria com Zé Maria, só gravado em 1945 por Ademilde Fonseca.  Em 1928, a convite de Paulo da Portela, deixou o pequeno bloco carnavalesco  de que participava em Oswaldo Cruz para integrar a escola de samba dirigida por Paulo, a Vai Como Pode, que mais tarde se transformou na atual Portela. Inicialmente, Alvaiade (apelido que recebeu de companheiros de futebol, tendo jogado no time da própria Portela e na Associação Atlética Portuguesa) apresentava-se fazendo um cavaquinho (que tocava de ouvido) de centro,  acompanhando o samba, e mais tarde passou a compor para a escola. Era também percussionista. Na Portela, desempenhou funções várias, inclusive administrativas, e tendo também lançado compositores como Manaceia, Walter Rosa, Candeia e Chico Santana. Apresentou-se nas rodas de samba do Teatro Opinião, na década de 1970, fez parte da ala de compositores da Portela e foi um dos fundadores da UBC (União Brasileira de Compositores). Alvaiade faleceu em seu Rio natal em 23 de junho de 1981, já aposentado da UBC e dos serviços tipográficos, e seu corpo permaneceu dois dias no IML (Instituto Médico Legal), antes de ser reconhecido, sendo depois sepultado no cemitério do Irajá. E foi justamente o bairro carioca do Irajá o berço natal de Djalma Mafra, que veio ao mundo no dia 2 de novembro de 1916, e faleceu, também no Rio de Janeiro, em plena véspera de Natal de 1974, ou seja, a 24 de dezembro. Djalma sempre esteve muito ligado ao carnaval, especialmente de Madureira, do qual foi grande folião. Teve inúmeras composições gravadas, especialmente sambas e marchinhas,  em parceria com outros nomes de prestígio:  Geraldo Pereira, o próprio Alvaiade, que também abordamos aqui, Ataulfo Alves, Joel de Almeida, etc. Nesta edição do GRB, um pouco do expressivo legado de Alvaiade e Djalma Mafra, em catorze preciosas gravações. Abrindo-a, o samba “O coração ordena”, de Alvaiade e Paquito, do carnaval de 1939, gravação Victor de J. B. de Carvalho, em 27 de setembro de 38, lançada ainda em dezembro sob n.o 34392-A, matriz 80906. Do carnaval seguinte é outro samba de Alvaiade, agora em parceria com Alcides Lopes, “Eu chorei”, gravado na Odeon por Joel e Gaúcho em 4 de dezembro de 1939 e lançado um mês antes da folia de 40, em janeiro, disco 11820-B, matriz 6286. De ambos os nossos focalizados, Alvaiade e Djalma Mafra, em parceria, é o samba-canção “Brigas de amor”, gravado na Sinter por Flora Matos (não confundir com a “rapper” brasiliense), com lançamento em maio-junho de 1955, disco 00-00.400-A,matriz S-889. Flora, também compositora, gravou 16 discos 78 com 32 músicas, entre 1946 e 1960, e participou de LPs coletivos. De Alvaiade e Ari Monteiro é o samba “De sol a sol”, do carnaval de 1942, gravação Victor de Linda Batista em  12 de novembro de 41, lançada um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, com o n.o 34860-B, matriz S-052419. De Djalma Mafra sem parceiro é o samba “Banco de réu”, que o mestre de Miraí, Ataulfo Alves, com suas Pastoras a tiracolo, lança pela Star em  maio de 1949, disco 132-B. Logo em seguida, acompanhado por sua Academia de Samba, Ataulfo interpreta outro samba, “Deus me ajude”, do carnaval de 1943, de autoria de Alvaiade, Estanislau Silva e Humberto de Carvalho, gravação Odeon de 11 de setembro de 42, lançada ainda em dezembro, disco 12232-A, matriz 7063. Novamente com as Pastoras, Ataulfo interpreta em seguida “Brasil”, outro samba de Alvaiade, agora com a parceria de Nílson Gonçalves, do carnaval de 1945, também gravado na “marca do templo” em 19 de outubro de 44 e lançado ainda em dezembro, disco 12525-A,matriz 7682. O paulista Risadinha (Francisco Ferraz Neto, 1921-1976), interpreta depois um samba só de Alvaiade, “Eu ainda sou eu”,  outra gravação Odeon, esta de 14 de abril de 1952, lançada em maio do mesmo ano com o n.o 13292-B, matriz 9282. Na faixa 9, volta Ataulfo Alves, com sua Academia de Samba, agora para interpretar o samba “Leonor”, dele próprio com Djalma Mafra, em registro Odeon de 9 de setembro de 1943, lançada em novembro seguinte sob n.o 12372-B, matriz 7376. Djalma Mafra assina em seguida,com Joel de Almeida, a marchinha ‘Cavalinho bom”, do carnaval de 1944, que Joel grava com Gaúcho na mesmíssima Odeon em 5 de agosto de 43 com lançamento ainda em novembro, disco 12373-B, matriz 7354. Marilu (Maria de Lourdes Lopes), carioca da Vila Isabel, aqui comparece com o samba “Réu primário”, de Djalma Mafra e Amaro Silva, também destinado ao carnaval de 1944. Gravação Victor de 12 de outubro de 43, lançada ainda em dezembro com o n.o 80-0137-A,matriz S-052854. O eterno ‘Formigão”, Cyro Monteiro,  interpreta em seguida o samba “Dentro da capela”, parceria de Djalma Mafra com Alcides Rosa, gravado na RCA Victor ao apagar das luzes de 1946, 20 de dezembro, indo para as lojas em março de 47 com o n.o 80-0502-B, matriz S-078703. O cantor José Ribamar, que deixou uma escassa discografia (apenas cinco discos 78 com dez músicas, entre 1954 e 1958), vem aqui com o lado B de seu primeiro disco, o Todamérica TA-5479: o samba “Falsidade”, de Djalma Mafra e João Pereira de Lucena, gravado em 17 de agosto de 1954 e lançado em outubro do mesmo ano, matriz TA-720. Para encerrar, o  trombonista  e maestro Astor Silva, à frente do grupo Rio Melodian’s, executa o choro “Comprando barulho”, de Djalma Mafra e Jorge Tavares, gravação da marca Rio, de existência efêmera, disco 10-0034-B, datado de 1951. Aqui fica a homenagem do GRB a estes compositores que muito contribuíram para nossa música popular, Alvaiade e Djalma Mafra, para a alegria e o deleite de todos os que apreciam o que é bom! 

Texto de Samuel Machado Filho

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A Música De Ismael Silva Na Voz De... - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 85 (2014)

Olá, amigos cultos, ocultos e associados do TM!  Esta semana, o Grand Record Brazil apresenta a segunda parte da retrospectiva que está dedicando à obra musical de Ismael Silva (1905-1978), um grande expoente do samba e da música popular brasileira. Na semana passada, apresentamos composições de Ismael na voz de Francisco Alves (1898-1952), o eterno Rei da Voz. A seleção desta semana tem 14 faixas com intérpretes diversos, e nela Francisco Alves também está presente em duetos. Para começar, e muito bem, apresentamos duetos de Chico Alves com Mário Reis. Eles formaram uma dupla que gravou um total de 12 discos com 24 músicas, todos pela Odeon, legado esse imprescindível para quem estuda a história do samba e da MPB.  Desse legado, ouviremos seis peças simplesmente antológicas, autênticas joias do samba, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, dirigida pelo palestino Simon Bountman:  na faixa 1,  “Não há”, da santíssima trindade Ismael Silva-Francisco Alves-Nílton Bastos, gravado em 5 de dezembro de 1930 e lançado em janeiro de 31 para o carnaval, disco 10747-A, matriz 4079. O lado B, na faixa seguinte, matriz 4080, é um autêntico clássico assinado pela mesma trinca de autores: o inesquecível “Se você jurar”, que atravessou os anos e até hoje é muito lembrado, e com justiça. Teve regravação inclusive pelo próprio Ismael Silva, em 1955. “O que será de mim?”, logo em seguida, e dos mesmos autores, é gravação de 28 de fevereiro de 1931, lançada em abril do mesmo ano pela “marca do templo” sob n.o 10780-B, matriz 4162, outra demonstração de bossa da dupla Chico Alves-Mário Reis (que, durante a gravação, chama o Rei da Voz para cantar com ele, no que, claro, é prontamente atendido).  “Ri pra não chorar” é da parceria Ismael Silva-Francisco Alves, que na edição homenageiam Nílton Bastos, que falecera. Gravação da notável dupla Chico Viola-Mário Reis, de 20 de agosto de 1931, lançada pela Odeon em dezembro do mesmo ano sob n.o 10850-B, matriz 4292. De Chico e Ismael é também “Liberdade”, gravação de 20 de novembro de 1931 lançada em janeiro de 32, evidentemente para o carnaval, disco 10871-B, matriz 4363, citando inclusive o “Hino da Proclamação da República, de Leopoldo Miguez-Medeiros e Albuquerque. O samba saiu na segunda tiragem desse disco, que trouxe no lado A, também cantada em dueto por Chico e Mário, a “Marchinha do amor”, de Lamartine Babo (na primeira, saiu um outro samba, “Oh! Dora”, de Orlando Vieira, com Chico Viola sozinho).  Terminando esse verdadeiro show de interpretação sambística da dupla Francisco Alves-Mário Reis, temos “A razão dá-se a quem tem”, já com Noel Rosa como parceiro de Ismael Silva e Chico Viola, gravação feita na “marca do templo” em 2 de julho de 1932 e lançada em dezembro seguinte com o n.o 10939-A, matriz 4472. A faixa 7 é um outro dueto de Francisco Alves, agora com Sílvio Caldas: “Tristezas não pagam dívidas”, gravado na Odeon em 23 de junho de 1932, e lançado com o n.o 10922-A, matriz 4463. Temos aqui duas curiosidades: no selo original, aparece como autor um certo Manoel Silva (havia na época um compositor com esse nome, cujo nome completo era Manoel dos Santos Silva). Mas, segundo depoimento de Sílvio Caldas ao pesquisador Abel Cardoso Júnior, o samba é mesmo de Ismael Silva. Sílvio não teve crédito no selo como intérprete por ser na época contratado da Victor, mas achou a omissão natural, “apenas uma colaboração”.  O samba também foi apresentado por Chico Alves no segundo espetáculo da série “Broadway Cocktail”, um espetáculo palco-tela apresentado no Cine Broadway. Aracy Cortes, grande estrela dos tempos áureos do teatro de revista, aqui comparece com o samba “Quero sossego”, da parceria Ismael Silva-Nílton Bastos (na edição Francisco Alves também aparece como co-autor), Lançado pela Brunswick por volta de março de 1931, sob n.o 10158-A, matriz 602, foi um dos derradeiros discos lançados no Brasil por essa gravadora, de origem norte-americana, que logo cerraria as portas da filial brazuca, levando para a sede, nos EUA, todas as matrizes de cera que gravou entre nós em pouco mais de um ano de atividades. Da parceria de Ismael Silva com Noel Rosa e Francisco Alves é a marchinha “Assim sim”, gravada na Victor por Cármen Miranda em 31 de maio de 1932 e lançada em dezembro desse ano sob n.o 33581-A, matriz 65502, claro que para o carnaval de 33. No acompanhamento, Harry Kosarin e seus Almirantes (o maestro, então vindo anos antes dos EUA, é considerado o introdutor do jazz no Brasil). Em 1930, a “pequena notável” vira e ouvira Noel com o Bando de Tangarás, no Cinema Eldorado, e, dois anos mais tarde, teria ocasião de trabalhar com o Poeta da Vila, Francisco Alves e Almirante no “Broadway Cocktail”. Cármen não teve oportunidade de solicitar um número especial para gravar. Porém, não ia passar muito tempo para isso acontecer, nascendo daí  este “Assim, sim”.  Dando um ligeiro salto no tempo, apresentamos outra marchinha, “Ninguém faz fé”, de Ismael e Paulo Medeiros, com Linda Batista, então no auge da carreira, para o carnaval de 1953, em gravação RCA Victor de 19 de setembro de 52, lançada ainda em dezembro sob n.o 80-1039-A, matriz SB-093478. Aurora Miranda, irmã de Cármen, apresenta mais outras duas marchinhas, ambas de Ismael Silva sem parceiro: “Não vejo jeito”, gravação Victor de 3 de outubro de 1939, lançada em novembro do mesmo ano, por certo para o carnaval de 40, sob n.o 34519-B, matriz 33170, e “Não apoiado”, gravação Odeon  de 7 de janeiro de 1936 lançada bem em cima do carnaval desse ano, em fevereiro, disco 11327-B, matriz 5240. Ainda no campo da marchinha carnavalesca, e também só de Ismael, temos “Macaco me lamba”, da folia de 1951, lançada pela Sinter ainda em dezembro de 50 sob n.o  00-00.026-A, matriz S-50. A última faixa desta seleção, o samba “Fama sem proveito”, parceria de Ismael Silva com Heitor Catumbi, é um mistério. Quem o canta é a carioca Odaléa Sodré (1924-?), acompanhada por Netinho, Antônio Souza e regional, e que teve curtíssima carreira no disco. São conhecidos dois discos comerciaisda cantora, gravados na Columbia em 1936-37, e esta é uma gravação RCA Victor sem data, registrada no acervo do Instituto Moreira Salles com o número 196, o que leva a crer que se trate de disco particular, não comercializado (será que foi para as lojas?). Enfim, uma incógnita. Mas, de qualquer forma, aí vai mais uma contribuição do GRB para a preservação de nossa memória musical. Até a próxima!

*Texto de SAMUEL MAChADO FILHO


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dalva De Oliveira, Dolores Duran, Lana Bittencourt, Linda Batista, Neide Fraga, Nora Ney - Seleção 78 RPM Do Toque Musical (2012)

Após uma semana de ausência (involuntária, pelos motivos conhecidos de todos), aqui está a décima-oitava edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Desta vez apresentamos cantoras que deixaram sua marca na história de nossa música popular, em alguns de seus melhores momentos.

Abrindo nossa seleção desta semana, temos a grande Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, Rio de Janeiro, 1922-idem, 2003), uma das precursoras da bossa nova, com seu canto quase falado e sua voz calma e grave. E em um de seus melhores discos, o Continental 16728, gravado em 23 de janeiro de 1953 e lançado em março-abril do mesmo ano, com dois sambas-canções clássicos. No lado A, a matriz C-3043 apresenta esta obra-prima de Luiz Bonfá, “De cigarro em cigarro”, uma das mais apreciadas páginas do repertório de Nora, e que foi gravada até em Espanhol por Gregório Barrios. No verso, matriz C-3044, “Onde anda você?”, assinada por um mestre da dor-de-cotovelo, Antônio Maria, junto com Reinaldo Dias Leme. No acompanhamento, a orquestra do maestro Copinha.

A sempre lembrada Linda Batista (Florinda Grandino de Oliveira, São Paulo, 1919-Rio de Janeiro, 1988) dá prosseguimento a esta seleção com dois discos. Primeiro, um do auge de sua carreira, o RCA Victor 80-0802, gravado em 19 de maio de 1951 e lançado em agosto seguinte, com dois sambas-canções do mestre Lupicínio Rodrigues e acompanhamento do conjunto do violinista Fafá Lemos. O lado A, matriz S-092961, é o famoso “Vingança”, uma verdadeira coqueluche na interpretação de Linda. Já havia sido gravado anteriormente pelo Trio de Ouro, já sem Dalva de Oliveira, substituída por Noemi Cavalcanti e mantendo Nilo Chagas e Herivelto Martins, seu fundador, porém o sucesso foi mesmo de Linda. E acredite: teve gente que até se suicidou ao som de “Vingança”! No verso, a matriz S-092962 nos traz “Dona Divergência”, parceria de Lupi com Felisberto Martins, também sucesso, embora um pouquinho menor que o de “Vingança”. Em seguida, seremos transportados para o início de carreira de Linda, mais exatamente sua estreia fonográfica, na Odeon, com o disco 11631, gravado em dupla com Fernando Alvarez no dia 20 de junho de 1938, com acompanhamento orquestral do palestino Simon Bountman, e lançamento em agosto do mesmo ano, trazendo duas rumbas de Djalma Esteves, um especialista nesse gênero cubano. No lado A, matriz 5868, “Churrasco”, de Djalma com Augusto Garcez, e no verso, matriz 5869, “Chimarrão”, só de Djalma. Bah, tchê!

A carioca Irlan Figueiredo Passos, aliás Lana Bittencourt (n. 1931), aqui comparece com o disco Columbia CB-10388, lançado ao apagar das luzes de 1957. Abrindo o disco, a matriz CBO-902 apresenta sua personalíssima interpretação de “Little darlin'”, de Maurice Williams, em ritmo de rumba, que fez muito mais sucesso que o registro original americano, em ritmo de calipso, com o grupo The Diamonds, sendo depois incluída no LP “Lana em musicalscope”. No verso, matriz CBO-1206, uma regravação em ritmo de fox da canção “Feliz Natal”, da dupla Klécius Caldas-Armando Cavalcanti, originalmente lançada por Dick Farney em 1949. Este registro de Lana também saiu no LP-coletânea “Nosso Natal”. Passado o dito cujo, o 78 de “Little darlin”” foi relançado com o número CB-10395, e no verso foi relançado o baião “Zezé”, de Humberto Teixeira.

Embora mais conhecida como compositora, a carioca Dolores Duran (Adiléa Silva da Rocha, 1930-1959) foi também uma intérprete versátil, cantando em todos os idiomas (até mesmo em esperanto!). É o que comprova o disco desta seleção, o Copacabana 5917, lançado em junho de 1958, com acompanhamento do conjunto de Severino Filho, fundador do grupo Os Cariocas. O lado A, matriz M-2236, apresenta o clássico fox italiano “Nel blu dipinto di blu”, mais conhecido como “Volare”, primeira palavra do estribilho, com o qual Domenico Modugno venceu o Festival de San Remo daquele ano. No verso, matriz M-2237, o clássico samba-canção 'Quem foi?”, de Nestor de Holanda e Jorge Tavares, originalmente lançado em 1947 por Aracy de Almeida, ao lado dos Vocalistas Tropicais. As duas faixas saíram também em LP (era uma época de transição de formatos), ou seja, nos dois volumes de “Dolores Duran canta para você dançar”, sendo “Quem foi?” do primeiro e “Nel blu dipinto di blu” do segundo.

A sempre lembrada Dalva de Oliveira (Vicentina de Paula Oliveira, Rio Claro, SP, 1917-Rio de Janeiro, 1972) comparece aqui com uma marcha-rancho de Pereira Mattos e Mário Rossi, composta em homenagem a Francisco Alves, morto em trágico acidente automobilístico na Via Dutra, em 27 de setembro de 1952. Seis dias depois, a 3 de outubro, Dalva, recém-chegada de uma longa excursão à Europa, compareceu ao estúdio da Odeon para gravar “Meu rouxinol”, matriz 9451, e o disco chegou às lojas em dezembro com o número 13350, sem gravação no lado B, em sinal de luto pela morte de Chico Viola, com direitos revertidos a instituições de caridade auxiliadas pelo cantor, se houvesse registro dele nesse disco.

Neide Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987) nos apresenta sua gravação da “Canção de aniversário”, de Joubert de Carvalho, feita na Odeon em 16 de outubro de 1953 e lançada em dezembro seguinte com o número 13562-B, matriz 9919. Originalmente a música saiu em 1950, pela Sinter, com a orquestra e o coral de Lírio Panicalli. Quatro versos apenas, mas isso é apenas um detalhe, pois afinal boa música não é Lusíadas.

Finalmente, temos a paulistana Vitória de Martino Bonaiutti, aliás, Marlene, interpretando um baião junino de Rômulo Paes e Haroldo Lobo, “Canção das noivas”, lançado em maio-junho de 1952 pela Continental com o número 16556-B, matriz C-2843. No acompanhamento, o conjunto do sempre eficiente Radamés Gnatalli. Mais uma diversão garantida para nossos amigos cultos e ocultos!

* TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO