O carnaval continua aqui no Grand Record Brazil.
Apresentamos nesta semana mais 14 músicas destinadas à folia de Momo, gravadas
na era das 78 rotações por minuto. Várias delas clássicos inesquecíveis. E
começamos com o pé direito, apresentando um clássico inesquecível:
“Pastorinhas”, de João “Braguinha” de Barro e Noel Rosa. Esta composição havia
sido lançada originalmente para o carnaval de 1935, na voz de João Petra de
Barros, com o nome de “Linda pequena”, sem no entanto repercutir. Após o
falecimento prematuro de Noel, em 1937, Braguinha resolveu relançar esta bela
marcha-rancho para a folia do ano seguinte, fazendo uma ou outra alteração na
letra e rebatizando-a “Pastorinhas”. Sílvio Caldas a imortalizou na Odeon em 13
de dezembro de 1937, com lançamento em janeiro de 38 sob n.o 11567-A, matriz
5733. E “Pastorinhas”, além de ser um sucesso inesquecível, venceria o concurso
oficial de carnaval da prefeitura do Rio de Janeiro. A vencedora na categoria
marcha tinha sido “Touradas em Madri”, também de Braguinha com Alberto Ribeiro,
mas acabou sendo desclassificada sob a alegação de que se tratava de um
passo-doble espanhol. Evidentemente, Braguinha não ficou sem o primeiro lugar
entre as marchas, pois “Pastorinhas” subiu do segundo para o primeiro lugar! A
faixa seguinte é mais uma clássica marchinha, esta do carnaval de 1932: “Teu
cabelo não nega”, adaptação feita por Lamartine Babo para o frevo-canção
“Mulata”, dos irmãos Raul e João Valença. Castro Barbosa levou a música a
disco, tornado-a um sucesso permanente da folia de Momo, e a regravaria outras
vezes. A versão desta edição, também gravada na RCA Victor, é de 17 de outubro
de 1952, lançada em dezembro do mesmo ano sob n.o 80-1072-A, matriz SB-093524,
e mantém sua famosa introdução instrumental. E tome marchinha clássica! Agora é
“Mamãe, eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, do carnaval de 1937, um sucesso
que é lembrado até hoje e ultrapassou as fronteiras do Brasil (tocou até em
desenho animado de Tom e Jerry!). O próprio Jararaca imortalizou a marchinha na
Odeon em 17 de dezembro de 1936, com lançamento um mês antes da folia, em
janeiro, sob n.o 11449-A, matriz 5499. Destaque, na gravação, para o hilariante
diálogo inicial, em que o papel da mãe é feito por Almirante. Prosseguindo
nosso desfile de clássicos carnavalescos, Orlando Silva, o eterno “cantor das
multidões”, nos brinda com a impecável
marcha-rancho “Malmequer”, de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar, o “amigo
velho”, hit inesquecível do carnaval de 1940. Gravação Victor de 4 de novembro de
1939, lançada um mês antes do tríduo momesco, em janeiro, sob n.o 34544-A,
matriz 33248. O eterno e sempre bem-humorado Lamartine Babo volta à cena neste
retrospecto carnavalesco, agora com a marchinha “Linda morena”, absoluta no
carnaval de 1933, que ele próprio interpreta ao lado de Mário Reis. Gravação
Victor de 26 de dezembro de 1932, lançada bem em cima da folia, em fevereiro,
sob n.o 33614-A, matriz 65631. Destaca-se no coro, deste registro, uma voz
feminina que parece ser a de Cármen Miranda. E falando em Cármen Miranda, ela
aqui comparece com duas faixas. A primeira, da parceria Braguinha-Alberto
Ribeiro, muitos conhecem na
interpretação de Gal Costa: é a famosa marchinha “Balancê”, de João
“Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, do carnaval de 1937. Cármen a gravou na
Odeon em 19 de novembro de 1936, com lançamento um mês antes do carnaval, em
janeiro, sob n.o 11430-A, matriz 5457.
Apesar de ter obtido alguma aceitação, “Balancê” ficou esquecida com o passar
do tempo, até que Gal Costa, mais de 40
anos depois, a tirasse do esquecimento no LP “Gal tropical” e a transformasse
em hit permanente de todos os carnavais a partir de 1980. A outra marchinha com
Cármen Miranda nesta edição é a maliciosa “Eu dei...” (“O que foi que você deu,
meu bem?”), do carnaval de 1938. Gravação Odeon de 21 de setembro de 1937,
lançada ainda em dezembro com o número 11540-B, matriz 5670. No fim, descobre-se que a personagem
havia dado um beijo, e quem canta os versos finais (“guarde para mim unzinho,
que mais tarde pagarei com um jurinho”) é o próprio Ary Barroso! Aurora
Miranda, irmã de Cármen, aqui comparece com outras duas marchinhas, ambas do
carnaval de 1940, e em gravações Victor. A primeira é “Que horas são estas?”,
de Antônio Almeida e Oswaldo Santiago, do carnaval de 1940. Foi gravada em 18
de outubro de 1939, e lançada ainda em dezembro sob n.o 34530-A, matriz 33191. Dias antes, a 3 de
outubro de 39, Aurora já havia gravado “Não vejo jeito”, de Ismael Silva,
lançada em novembro seguinte com o n.o 34519-B, matriz 33170. A carioca Dora
Lopes (1922-1983), grande compositora e intérprete de sambas, comparece aqui
com a divertida marchinha “Fila do gargarejo”, dela própria em parceria com
José Batista e Nilo Viana. É do carnaval de 1958, lançada em fins do ano anterior
pela Mocambo, gravadora do Recife que pertencia aos irmãos Rozenblit, sob n.o
15196-A, matriz R-910. As Irmãs Pagãs (Elvira e Rosina, esta falecida
recentemente, anos depois de Elvira) apresentam-nos “Água mole em pedra dura”,
marchinha do carnaval de 1940, de autoria de Sátiro de Melo e Manoel Moreira.
Foi gravada na Columbia em 24 de outubro de 1939, e lançada ainda em dezembro
com o número 55181-A, matriz 224. Dois inesquecíveis intérpretes se reúnem na
faixa seguinte: Francisco Alves, o Rei da Voz, e Dalva de Oliveira, o Rouxinol
do Brasil, interpretam a belíssima marcha-rancho “Andorinha”, de Herivelto
Martins (então marido de Dalva) e Haroldo Barbosa, um dos sucessos do carnaval
de 1946, conhecido como o “carnaval da vitória” por ter acontecido após o
término da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos países aliados sobre os do
Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A dupla a imortalizou na Odeon em 5 de
dezembro de 1945, e o lançamento se deu um mês antes da folia, em janeiro, sob
n.o 12660-A, matriz 7954. Para finalizar, trazemos a cantora Lolita França,
sobre a qual pouquíssima coisa se sabe. Aqui ela revive a “marcha-canção” (como
foi editada originalmente)“Taí” (cujo título original era “Pra você gostar de
mim”), de Joubert de Carvalho, com a
qual Cármen Miranda despontou para o estrelato em 1930. A regravação de Lolita
é de 7 de julho de 1939, lançada pela Victor em setembro do mesmo ano,
disco 34486-B, matriz 33116. Lolita
França gravou, entre 1939 e 1942, onze discos com vinte e duas músicas, e suas
gravações obtiveram algum sucesso na Argentina. Enfim, esta é a segunda e
última parte do retrospecto carnavalesco do Grand Record Brazil, por certo
expressiva contribuição para a preservação da memória musical do Brasil.
Divirtam-se!
*Texto de Samuel Machado Filho