E vai para o ar mais uma edição do Grand Record Brazil, a de
número 118. É mais um volume dedicado às cantoras, apresentando quatro grandes
intérpretes que fizeram história em nossa música popular.
Para começar, temos Linda Batista (Florinda Grandino de
Oliveira, São Paulo, 14/6/1919-Rio de Janeiro,
17/4/1988),que marca presença no GRB desta semana com quatro faixas
bastante expressivas, todas em gravações Victor. A primeira é a divertida
marchinha “No boteco do José”, sucesso do carnaval de 1946, alusivo à conquista
do campeonato carioca de futebol pelo Vasco da Gama (o time era então chamado
“expresso da vitória”), no ano anterior, invicto, fazendo menção inclusive ao
atacante Lelé (Manuel Pessanha, 1918-2003), artilheiro do certame, de chute
fortíssimo. Flamenguista convicto,
Wilson Batista fez a marchinha em parceria com Augusto Garcez, e Linda a gravou
em 21 de setembro de 1945, sendo lançada ainda em novembro com o n.o 80-0348-A, matriz
S-078294. Logo depois,ao lado das Três Marias, com acompanhamento da orquestra
do maestro Passos, Linda interpreta o
clássico samba-canção “Bom dia”, de Herivelto Martins e Aldo Cabral, em
gravação de 2 de julho de 1942, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em
setembro do mesmo ano, disco 34962-A, matriz S-052569. “Bom dia” tem inúmeras
regravações, destacando-se as de Dalva de Oliveira e Maria Bethânia. Ruço do
Pandeiro e Alfeu de Brito assinam o samba “Quem sabe da minha vida sou eu”, que
Linda gravou em 13 de agosto de 1941, com lançamento em outubro seguinte sob
n.o 34814-A, matriz S-052327. Linda Batista encerra sua participação neste volume
com o divertido samba-de-breque “Eu fui à Europa”, de Chiquinho Sales. No
enredo, Linda é uma cantora brasileira que vai se apresentar numa rádio
europeia, mas é presa, confundida com uma espiã, e levada para a execução.
Porém... tudo não passou de um sonho! Gravação de 10 de junho de 1941, lançada
em agosto do mesmo ano com o n.o 34785-A, matriz S-052241. Nestas duas últimas
faixas,o acompanhamento é creditado aos Diabos do Céu, mas estes não eram mais
os integrantes da orquestra formada e dirigida por Pixinguinha, e sim os do
regional de Benedito Lacerda, como sempre fazendo maravilhas com sua flauta
inconfundível. Como a denominação era de
propriedade da Victor, outros grupos também podiam aparecer nos selos dos
discos como Diabos do Céu, caso do regional de Benedito.
A eterna “Divina”,
“Enluarada” e “Magnífica” Elizeth Cardoso, nascida (16/7/1020) e falecida
(7/5/1990) no Rio de Janeiro, intérprete de uma longa e vitoriosa carreira,
bate ponto aqui com outras quatro faixas,todas gravadas em seu início de
carreira. Primeiro, temos seu primeiro
sucesso maiúsculo, “Canção de amor”, samba do comediante Chocolate (Dorival
Silva, 1923-1989) em parceria com Elano de Paula, que se tornaria para sempre
carro-chefe de Elizeth. Saiu no disco de estreia da cantora na Todamérica, n.o
TA-5010-B, gravado em 27 de julho de 1950 e lançado em outubro seguinte, matriz
TA-20, do qual também apresentamos logo depois o lado A, “Complexo”, samba de
Wilson Batista e Magno de Oliveira, matriz TA-19. Meses antes, porém,
Elizeth havia gravado seu primeiro disco
na Star, futura Copacabana, número 202, do qual apresentamos o samba do lado B,
“Mensageiro da saudade”, composto por Ataulfo Alves e José Batista, com
acompanhamento da orquestra de Acyr Alves. Esse disco, lançado provavelmente em
março de 1950, seria logo retirado das lojas pela gravadora, que alegou
“problemas técnicos”, jamais esclarecidos devidamente. Por fim, Elizeth canta
“Venho de longe”, samba-canção de Dermeval Fonseca e Alberto Ribeiro, gravação
Todamérica de 25 de janeiro de 1952, lançada em abril do mesmo ano, disco
TA-5145-B, matriz TA-238.
Natural do Recife, a capital pernambucana, Onilda
Figueiredo, a cantora que apresentamos a seguir, deixou, segundo consta, uma escassa discografia. Gravou, em 78 rpm,
quatro discos com oito músicas, entre 1956 e 1958, todos pela Mocambo,
gravadora que por sinal tinha sede no Recife, e pertencia aos irmãos Rozenblit. Foi também contratada da Rádio Jornal do
Commércio, e era presença constante nos programas de auditório da emissora
recifense, cujo slogan era “Pernambuco falando para o mundo”. Fez ainda uma participação na coletânea
“Catorze maiorais em boleros” (Copacabana, 1964), interpretando “Duas cruzes”. Ei-la
aqui com as faixas de seu 78 de estreia, o Mocambo 15094, lançado em junho de
1956, com dois boleros. Primeiro, o lado B, matriz R-695, “Desespero”, de
autoria de Ângelo Iervolino. E, em seguida, o lado A, o clássico “Nunca!
Jamais! (Nunca! Jamás!)”, matriz R-694, de autoria do mexicano Lalo Guerrero,
em versão de Nélson Ferreira, também notável compositor e então diretor
artístico da Mocambo. Enorme sucesso, “Nunca! Jamais!” seria mais tarde faixa
de abertura do único LP da cantora, o 10 polegadas “A voz de Onilda
Figueiredo”, sendo também gravado por outros intérpretes (Ivon Cúri, Ângela
Maria, Rosa Pardini, Zezé Gonzaga etc.).
Finalmente, lembramos de uma cantora expressiva, que
infelizmente partiu muito cedo: Cármen Barbosa. Carioca do bairro do Catumbi,
nascida em 4 de setembro de 1912, ela faleceria em 3 de setembro de 1942, um
dia antes de fazer trinta anos, vítima de grave doença. Ela aqui comparece com
as quatro faixas finais de nossa seleção desta semana. De início tem
“Banalidade”, samba de Gilberto Martins (nada banal,apesar do título), gravação
Columbia de 19 de junho de 1939, lançada em julho seguinte sob n.o 55073-A, matriz 165. O samba-canção “Carnaval
que passou” é do mestre Benedito Lacerda, que muito incentivou Cármen Barbosa
em sua carreira e por sinal a acompanha com sua flauta mágica em todas as
quatro faixas que ela interpreta aqui, à frente de seu regional. Gravação Victor de 30 de abril de 1937,
lançada em agosto do mesmo ano, disco 34192-A, matriz 80390 (aqui, o regional
de Benedito Lacerda aparece com o nome de Boêmios da Cidade). O samba “Depois
que ele partiu” é também de Benedito, agora em parceria com Gilberto Martins, e
Cármen o gravou na Columbia em 8 de agosto de 1939, com lançamento em setembro
sob n.o 55157-B, matriz 187. Por fim, temos outro bom samba, “Adeus, Favela”,
de Nélson Trigueiro e Paulo Pinheiro, gravação Columbia de 13 de maio de 1939,
lançada em junho seguinte sob n.o
55069-A, matriz 152. Enfim, uma edição em que o GRB revive quatro
grandes cantoras da MPB, cujo legado é sempre desfrutável e imperdível. Até a
próxima!
Texto de Samuel Machado Filho