Olá, amigos cultos, ocultos e associados do Toque Musical! É
com muita alegria que apresentamos nesta semana a primeira edição do Grand
Record Brazil de 2014, a de número 84. Nela, apresentamos a primeira parte de
uma série dedicada à obra musical de um dos maiores expoentes do samba, Ismael
Silva.
Batizado como Mílton de Oliveira Ismael Silva, o compositor
nasceu em Niterói, na praia de Jurujuba, em 14 de setembro de 1905, filho do
cozinheiro Benjamin de Oliveira Chaves e da lavadeira Emília Corrêa Chaves, e era o caçula de um
grupo de cinco irmãos. Aos três anos de idade, em decorrência de complicações
financeiras enfrentadas após a morte do pai, mudou-se com a mãe para o Rio de
Janeiro, estabelecendo-se no bairro do Estácio de Sá. Ismael frequentou a
escola primária e concluiu o ginásio aos 18 anos, após residir em outros
bairros cariocas, tais como o Rio
Comprido e o Catumbi. Sua primeira composição, feita quando tinha 15 anos de
idade, foi um samba chamado “Já desisti”, nunca levado ao disco. E foi em 1928
que teve seu primeiro samba gravado, “Me faz carinhos”, na voz de Francisco
Alves (nesta seleção, juntamente com outras 14 faixas também gravadas por ele).
Ambos formaram, ao lado de Nílton Bastos, um trio conhecido como Bambas do
Estácio. Em 1928, constituiu-se em um dos fundadores do bloco precursor da
primeira escola de samba de que se tem notícia: a Deixa Falar, que desfilou
entre 1929 e 1931, e acabou por causa da mudança de Ismael para o centro do
Rio, após as mortes de Nílton Bastos e Edgar Marcelino dos Passos, o Mano
Edgar. Com a morte de Nílton, passou a compor com Noel Rosa, parceria esta que
resultou em 18 músicas, fazendo de Ismael o mais constante parceiro do Poeta da
Vila. Mais tarde, porém, acontece uma virada radical na vida de Ismael Silva.
Envolvendo-se numa briga do bar, por razões controversas (ou por ciúme ou para
defender sua irmã Orestina), atira em Edu Motorneiro, cidadão conhecido nas
rodas boêmias cariocas, sem no entanto matá-lo.
Condenado a cinco anos de prisão, cumpriu apenas dois, por bom
comportamento. Depois, tornou-se recluso, passando por dificuldades
financeiras, só voltando à cena artística em 1950 com o samba “Antonico”,
sucesso na voz de Alcides Gerardi. Como intérprete, Ismael Silva gravou três
discos de 78 rpm com seis músicas, e mais quatro LPs reunindo suas composições, um pela Sinter, outro pela
Mocambo e outros dois pela RCA. Em 1960, por iniciativa do jornalista Sérgio
Cabral, recebeu o título de Cidadão Samba e, da Câmara Municipal do Rio, o de
Carioca Honorário, provas de reconhecimento
de sua arte como verdadeiro sambista. Participou dos shows “O samba
nasce do coração”, na boate Casablanca (1954) e “O samba pede passagem” (1965),
este ao lado de Aracy de Almeida, no Teatro Opinião, além de se apresentar no
restaurante Zicartola. Em 1970, recebeu homenagem da boate Jogral, de São
Paulo. Um de seus últimos shows foi “Se você jurar”, em 1973, ao lado de Cármen
Costa, com produção de Ricardo Cravo Albim. Este também é o título de um de seus
sambas mais conhecidos, lista que inclui
“Novo amor”, “Me diga o teu nome”, a já citada “Antonico”, “Ao romper da
aurora” (este feito com o grande Lamartine Babo), “Tristezas não pagam
dívidas”, “Uma jura que eu fiz”, “Sofrer é da vida”, “Nem é bom falar” (nesta
seleção), “O que será de mim?”, “Contrastes” etc. Ismael Silva faleceu no Rio
de Janeiro, em 14 de março de 1978, de um infarto causado por complicações
surgidas após uma cirurgia para tratar de uma úlcera varicosa que tinha em uma
das pernas.
A presente seleção nos traz quinze composições
de Ismael Silva interpretadas pelo Rei da Voz Francisco Alves (1898-1952),
várias delas em que o cantor figura como parceiro, e a maior parte sambas. A primeira faixa, porém, é de Ismael sem
parceiro: “Choro, sim”, gravação Victor de 21 de novembro de 1934, e, apesar de
constar na edição ter sido feita para o carnaval de 35, só lançada em julho
desse ano sob n.o 33946-B, matriz 79784.
“Ando cismado” é uma parceria de Ismael com Noel Rosa, gravação Odeon de 27 de
outubro de 1932, lançada em dezembro seguinte com o n.o 10936-A, matriz 4532.
Um pouco antes, a 29 de junho de 32, e também pela “marca do templo”, Chico
gravara uma autêntica obra-prima dos mesmos parceiros, “Para me livrar do mal”,
disco 10922-B, matriz 4467. Da parceria Ismael-Chico Viola é “Gandaia”, lado B
do disco Odeon 10906, gravado em 23 de março de 1932 e lançado em maio
seguinte, matriz 4420. Ambos também fizeram a marchinha ‘Você gosta de mim”,
lançada pela Parlophon em dezembro de 1931, visando, claro, o carnaval de 32,
sob n.o 13377-B, matriz 131307. Logo em seguida você encontrará o lado A, o
samba “Sonhei”, de Chico, Ismael e Nílton Bastos (não creditado na edição),
matriz 131306. Também da folia de 1932 são as faixas do Parlophon 13375,
lançado junto com o anterior, em dezembro de 31, e que temos logo em seguida: o
samba “Amar”, também da santíssima trindade Chico Alves-Ismael Silva-Nílton
Bastos, no lado B, matriz 131308, e, no
lado A, matriz 131302, a divertida marchinha “Gosto mas não é muito”, inspirada
num fato real acontecido após a subida de Getúlio Vargas ao poder: muitos de
seus adeptos, antigos e de última hora, almejavam cargos públicos, em tempo de
crise braba, e para amenizar a coisa, passou-se a exigir, dos postulantes a
tais cargos, requerimento estampilhado, com foto e selo (“Traz o retrato e a
estampilha”). Obviamente, aqueles mais chegados ao círculo do poder, os “adeptos
do Gegê”, passavam longe de tais exigências, sendo nomeados militares. Aqui, Ismael e Chico são parceiros de Noel
Rosa, que fez a segunda parte mas não foi creditado no selo do disco e na
partitura impressa. Em seguida, outro produto da santíssima trindade Ismael
Silva-Francisco Alves-Nílton Bastos, o samba “É bom evitar”, lançado pela Odeon
por volta de outubro de 1931 sob n.o 10837-A, matriz 4271. Eles assinam ainda
as faixas seguintes: “Ironia”, lançada pela “marca do templo” em março de 1931,
disco 10767-B, matriz 4136, com provável participação ao bandolim de Luperce
Miranda, “Meu batalhão”, em que Chico Alves é acompanhado de seu “Esquadrão”,
lançada pela Odeon em janeiro de 1931, claro que para o carnaval, com o n.o
10748-B, matriz 4091, “Olê-leô”, para a mesma folia, gravação de 27 de novembro
de 1930 também saída em janeiro de 31 pela “marca do templo” (10745-B, matriz
4068) e o lado A desse disco, o conhecidíssimo “Nem é bom falar”, matriz 4067.
Comenta-se que Roquette Pinto, criador do radiodifusão brasileira, ao ouvir o
verso “Eu quero uma mulher bem nua”, declarou:
“Todos nós queremos, mas não é preciso dizer”... “Não é isso que eu procuro”, parceria de
Chico Alves e Ismael Silva, gravado na mesma Odeon em 10 de agosto de 1928 e
lançado em setembro do mesmo ano com o n.o 10251-B, matriz 1876, foi
interpretado pelo Rei da Voz, em dupla com Célia Zenatti, na revista “Eu quero
é nota”, encenada no Teatro Carlos Gomes do Rio, e depois incluída em outra
revista ali encenada, também com o nome de “Não é isso que eu procuro”. E, para encerrar, justamente o primeiro samba
que Ismael Silva teve gravado: “Me faz carinhos”, que a Odeon de sempre lançou
em janeiro de 1928 com o n.o 10100-B, matriz 1480 (diz-se que teria sido antes
gravado instrumentalmente pelo pianista Cebola, mas esse disco nunca foi
localizado). A autoria de “Me faz carinhos”, no selo e na edição, é atribuída
apenas a Francisco Alves, que o comprou de Ismael mais por necessidade imediata
de dinheiro por parte do compositor, sem esperar o resultado das vendas dos
discos e das partituras. Entretanto, por mais que Chico Viola comprasse
parcerias, contribuía, e muito, para o aprimoramento das composições de Ismael
quando as gravava e, sem o Rei da Voz, é pouco provável que o sambista niteroiense
surgisse na MPB de maneira tão decisiva. Chico Viola também cantou ”Me faz
carinhos” numa revista muito adequadamente chamada “Você quer é carinho”, igualmente
encenada no Teatro Carlos Gomes. Enfim, uma amostra da genialidade de Ismael
Silva, a primeira que o GRB oferece para
deleite de tantos quanto apreciem o melhor do samba e da MPB. Semana que vem
teremos mais Ismael Silva. Encontro marcado! Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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