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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Emilinha Borba - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 109 (2014)



E aí vai, para nossos amigos cultos, ocultos e associados, a centésima-nona edição do Grand Record Brazil. Desta vez, apresentamos uma das mais queridas cantoras do Brasil, autêntico ídolo da fase áurea do rádio brasileiro e um fenômeno de popularidade como poucos:  Emilinha Borba. O nome completo de nossa focalizada era Emília Savana da Silva Borba. Ela veio ao mundo na Estação de Mangueira, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1923, filha do engenheiro agrônomo Eugênio Jordão da Silva Borba, por sinal proprietário da Vila Savana, onde nasceu e morava Emilinha, e Edith da Silva Borba. A família teve ao todo sete filhos, sendo seis mulheres  (Maria de Lourdes, Xezira, Salete, Emília, Ely e Terezinha)e apenas um homem, José Maria, qual Emilinha era irmã gêmea.  A prodigalidade do pai acabou por deixar a todos, quando faleceu prematuramente,em situação bem difícil.  E Dona Edith precisou distribuir os filhos pelas casas dos parentes, e nossa Emilinha foi para a residência da avó, Dona Bela. Desde muito pequena, Emilinha demonstrou estar fadada a trilhar o caminho da arte, passando a frequentar as emissoras de rádio. Apresentando-se no programa “De graça para todos”, da PRG-3, Rádio Transmissora, produzido por Oscar Gomes Cardim, em 1937, recebia cachês de 20 mil-réis.  Passou também pelo “Programa juvenil”, da PRD-2, Rádio Cruzeiro do Sul, e até mesmo pelo programa de calouros do sempre exigente Ary Barroso, onde conquistou o primeiro prêmio, feito do qual se orgulharia para o resto da vida.  Na Cruzeiro do Sul,conheceu Bidu Reis, com quem formaria o duo As Moreninhas. Xezira Borba,irmã de Emilinha, também chegou a esboçar carreira de cantora, com o pseudônimo de Nena Robledo, gravando dois discos com três músicas, mas abandonou o canto ao se casar com o compositor Peterpan (José Fernandes de Paula). Dona Edith, mãe de Emilinha, em 1938, trabalhava como faxineira do Cassino da Urca, e despertou a atenção de Cármen Miranda, então grande atração da casa. Ao saber da reviravolta na vida dos Borbas, Cármen se ofereceu para ajudar, caso alguma das filhas da Dona Edith pudesse ser aproveitada no espetáculo. Esta então indicou Emilinha, que, com roupas fornecidas por Cármen, fez um teste perante o mineiro Joaquim Rolas,dono do cassino. Percebendo o nervosismo da menina, que teve sua idade aumentada em dois anos, Cármen desviava a atenção de Rolas com uma conversa sem fim enquanto Emilinha cantava. Além de ser uma das “crooners” da Urca, a futura “Favorita” atuava na Rádio Cajuti. Em fevereiro de 1939, apresentou-se pela primeira vez em São Paulo, através da Rádio Record, no Teatro Coliseu, ao lado de Orlando Silkva, Almirante e Sílvio Caldas. No mesmo ano, ainda como Emília Borba, estreia em disco, na Columbia, interpretando a marchinha “Pirulito”, ao lado de Nílton Paz,  e, embora só este  aparecesse como intérprete no selo, sua voz se evidenciava, e bem. Até 1940, ela faria mais quatro discos na Columbia, e um ano depois, teve curta passagem pela Odeon, aparecendo pela primeira vez no selo do disco como Emilinha Borba. Ela foi também a cantora que mais participou de filmes  em toda a história do cinema brasileiro, cerca de 40, todos eles musicais: “Vamos cantar” (1940), “Tristezas não pagam dívidas” (1944), “Não adianta chorar” (1944), “Segura esta mulher” (1946), “Estou aí?” (1948), “De pernas pro ar” (1957), etc.  Em 1944, Emilinha ingressa na lendária Rádio Nacional, onde atua por 27 anos, e volta a gravar na Columbia, já com o nome de Continental, onde fica até 1958, quando ingressa em outra Columbia, a futura CBS, hoje Sony Music. É aí que tudo acontece: sucessos sobre sucessos em disco, programas de auditório (inclusive o de César de Alencar, seu apresentador oficial, então líder de audiência nas tardes de sábado), faixas, troféus, a propalada rivalidade com Marlene...  Esta começou em 1949, quando Marlene venceu o concurso de Rainha do Rádio (Emilinha só ganharia o título em 1953). A “Favorita” teve até sua própria página na “Revista do Rádio”, o “Diário de Emilinha”, e o simples anúncio de sua presença em qualquer cidade ou lugarejo do Brasil era feriado local, com desfile em carro aberto, outorga da chave da cidade etc. Até agosto de 1995, foi a personalidade que mais apareceu em capas de revistas, aproximadamente 350! Entre 1968 e 1972, Emilinha esteve inativa por causa de um edema nas cordas vocais, voltando a cantar após três cirurgias e um longo estudo de reeducação da voz. Em toda a carreira, gravou, em 78 rpm, 117 discos com 216 músicas, e cerca de dez LPs.  Nos três últimos anos de vida, continuou se apresentando por todo o país, inclusive animando bailes carnavalescos. Em 2003,após 22 anos sem gravar, lançou o CD independente “Emilinha  pinta... e Borba”, que ela mesmo vendia de forma bem popular, em contato com o público.  No início de 2005, lançou seu último trabalho em disco, o CD “Na banca da folia”, para o carnaval desse ano. Emilinha Borba morreu na tarde do dia 3 de outubro de 2005, aos 82 anos, de infarto fulminante, enquanto almoçava em seu apartamento, no bairro carioca de Copacabana, mas continua até hoje lembrada por sua voz, popularidade e extremo carisma.  E o GRB reverencia sua memória apresentando dezoito faixas gravadas em 78 rpm, uma amostragem de alguns de seus melhores momentos, que os fãs da cantora por certo reconhecerão aos primeiros acordes. Abrindo esta seleção, a batucada “A louca chegou”, do carnaval de 1953, de autoria de Rômulo Paes, Henrique de Almeida e Adoniran Barbosa, em dueto com o também “bandleader” Ruy Rey, lançada pela Continental em janeiro desse ano com o n.o 16692-B, matriz C-3005 (nessa ocasião também gravada na Copacabana por Elza Laranjeira). A maior parte das faixas com a ‘Favorita” aqui incluídas foi por sinal gravada na Continental. Em seguida, um verdadeiro clássico: o baião “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, por ela imortalizado em primeiro de março de 1950, com lançamento em abril, disco 16187-B, matriz 2256 (Gonzagão só fez seu próprio registro em 1952). No acompanhamento,o regional de Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano) e o coro Os Boêmios. A música iria criar, por sinal, um neologismo significando mulher masculinizada, mas a expressão “Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor” significava que a Paraíba era um estado, mas com nome feminino.  A faixa 3 apresenta o choro ‘Divagando”,  de Nélson Miranda e Luiz Bittencourt, com Emilinha acompanhada pelo conjunto Bossa Clube, e lançado pela Continental em novembro de 1945,disco 15473-B, matriz 1299. “Quando tu não estás (Cuando tu no estás)” é uma versão de Haroldo Barbosa, em ritmo de bolero, para um tango de Carlos Gardel, Alfredo Le Pera e Battistella, que Francisco Alves interpretava em seus programas de rádio. Mas foi Emilinha quem a gravou comercialmente, na Continental, menos de um ano depois da morte trágica do Rei da Voz, em 15 de abril de 1953, com lançamento em julho-agosto seguintes sob número 16796-A,matriz C-3113. A faixa seguinte traz a toada junina “Capelinha de melão”, motivo popular adaptado por João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, com lançamento  pela então “marca dos sininhos” em março-abril de 1949, disco 16041-A, matriz 2058. Desse mesmo suplemento bimestral da Continental  é o samba “Deixa que amanheça (Como nos versos de Bilac)”, de autoria de Oswaldo Santiago, catalogado com o número 16036-A,matriz 2041. A faixa 7 é um verdadeiro clássico de Emilinha e do carnaval: a marchinha “Chiquita Bacana”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, lançado em janeiro de1949 com o número 15979-A,matriz 2001, época em estava em moda o chamado Existencialismo, cuja figura de proa era a atriz francesa Juliette Greco. Emilinha também a interpretou no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. “Dançando a rumba”, de Ayrton Amorim e Mário Menezes,  é outro dos conhecidos hits da “Favorita”, e a Continental o lançou entre julho e setembro de1951, disco 16416-A, matriz 2680. Em seguida, temos o fox “Deixa eu, nêgo (Let me go, lover)”, de Jenny Lou Carson e All Hill, com letra brasileira de Giuseppe Ghiaroni, escritor, jornalista e então colega de Emilinha na Rádio Nacional, onde escreveu inúmeras novelas e programas. A gravação da ‘Favorita” foi lançada pela Continental em maio-junho de 1955, sob número 17123-A, matriz C-3609, imediatamente após a de Violeta Cavalcanti com o Trio Irakitan, pela Odeon.  Depois , do primeiro disco-solo de Emilinha, então Emília Borba, o Columbia 55048, temos o lado A, o samba-choro “Faça o mesmo”, de Nássara e Eratóstenes Frazão, gravado em 2 de março de 1939 e lançado em maio do mesmo ano, matriz 145. Voltando à Continental, ou melhor, permanecendo nela, já que era a antiga Columbia, temos o samba “Jurei”, também de Nássara, agora em parceria com Waldemar “Dunga” de Abreu, lançado em setembro-outubro de 1950 sob n.o 16295-B, matriz 2417. A seguir, outra marchinha carnavalesca conhecidíssima: a famosa “Vai com jeito”, de exclusiva autoria do grande Braguinha, que a “Favorita” imortalizou em 19 de outubro de 1956, com lançamento em janeiro de 57, sob n.o 17372-B, matriz C-3869, abrindo também o LP coletivo “Carnaval de 1957”, em 10 polegadas. “Vai com jeito”,aliás, dominou essa folia, sendo também apresentada no filme ‘Garotas e samba”, da Atlântida.  “Você e o samba”, de Peterpan (cunhado de Emilinha) e Ari Monteiro, saiu pela “marca dos sininhos” em outubro de 1945, sob número 15455-B, matriz 1215. O fox-samba “Istambul”, de Norman Simon e Jimmy Kennedy, tem letra brasileira de Lourival Faissal, gravada por Emilinha em 2 de agosto de 1955 e lançada em outubro seguinte com o n.o 17177-A, matriz C-3675. Chegaria até mesmo ao LP, na compilação  “Seleções Continental n.o 1”, por sinal o primeiro da gravadora no formato-padrão de 12 polegadas. Ainda do cunhado Peterpan, agora em parceria com José Batista, é o bolero ‘Noite de chuva”, que Emilinha imortaliza na Continental de sempre em 7 de junho de 1954, para lançamento no suplemento do bimestre junho-julho, disco 16990-B, matriz C-3361, sendo também apresentado no filme “Capricho de amor”, da Bandeirante Filmes.  Outro inesquecível hit carnavalesco de Emilinha aqui incluído é a marchinha “Tomara que chova”, de Paquito e Romeu Gentil, que dominou a folia de 1951. Inicialmente gravado na Odeon pelos Vocalistas Tropicais, ganha também registro de Emilinha pela Continental, em 25 de outubro de 50, com lançamento um mês antes do carnaval, janeiro, sob n.o 16339-B, matriz 2479. A “Favorita” igualmente a interpretou no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida.  A lírica toada “Não é só o luar”, de José Batista, é lançada pela “marca dos sininhos” em  abril-maio de 1956, sob n.o 17273-A, matriz C-3408. Para encerrar, temos justamente a estreia de Emilinha em disco, em dueto com Nílton Paz: a marchinha “Pirulito”, composta por João “Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, com estribilho oriundo do folclore português, para o filme “Banana da terra”, da Cinédia, em substituição ao samba ‘Boneca de piche”, de Ary Barroso, que seria interpretado por Almirante e Cármen Miranda com os rostos pintados de preto, como malandros da Lapa. Como não houve acordo financeiro com Ary, Almirante e Cármen filmaram “Pirulito” com essa mesma caracterização.  A gravação, porém, coube a dois estreantes em disco, o maranhense (de Caxias) Nílton Paz, em dupla com nossa Emilinha, na Columbia, em 3 de janeiro de 1939, com lançamento em plena folia, fevereiro, sob n.o  55013-A, matriz 120, e com estrondoso sucesso, um fecho realmente de ouro para esta seleção. Com vocês, a minha, a sua, a nossa favorita.... Emilinha Borba!

Texto - Samuel Machado Filho

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A Música De Geraldo Pereira - Parte 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 80 (2013)

E chegamos a edição de número 80 do nosso Grand Record Brasil. Em edição anterior, como os amigos cultos, ocultos e associados do TM bem se lembram, apresentamos algumas das melhores gravações de Geraldo Pereira (Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955) como intérprete, inclusive, claro, composições próprias. E, como prometemos nessa ocasião, estamos voltando a focalizar a obra deste nome importantíssimo de nossa música popular. Desta vez, apresentamos doze gravações (é até chover no molhado falar de suas qualidades e de sua importância histórica) em que cantoras e conjuntos  contemporâneos do compositor interpretam suas obras.  Abrindo nossa seleção desta semana, os Quatro Ases e um Coringa, originários do Ceará, apresentam uma seleção de sambas que  homenageiam a Bahia de todos os santos, que sempre fascinou inúmeros compositores, sejam eles nascidos ou não na chamada boa terra, gravada na RCA Victor em 18 de julho de 1953 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o 80-1204-B, matriz BE3VB-0210. De Geraldo Pereira, aparece um trecho de seu clássico “Falsa baiana”, e neste pot-pourri também foram incluídos sambas de Vicente Paiva e Chianca de Garcia (“Exaltação à Bahia”), Dorival Caymmi (“O que é que a baiana tem?”)  e Ary Barroso (“Faixa de cetim”, “Na Baixa do Sapateiro”).  Na faixa seguinte, os Quatro Ases, que durante toda a carreira deram de fato as cartas,  nos brindam com “Ai! Que saudade dela”, samba de Geraldo Pereira em parceria com Ari Monteiro, gravação Odeon de primeiro de setembro de 1942, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o 12221-B, matriz 7044. Mesmo pouco divulgado, é um samba que merece atenção.  Outro importantíssimo conjunto vocal dessa época, os Anjos do Inferno, liderados por Léo Vilar, aqui comparece com três sambas absolutamente imperdíveis. O primeiro é “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira em parceria com Nélson Trigueiro, gravação Continental de 29 de maio de 1944, lançada em junho do mesmo ano com o n.o 15184-A, matriz 823. Nessa época, os salões e dancings eram bastante frequentados por certa camada da população carioca, e Geraldo, atento observador do cotidiano, adorava esse ambiente. Portanto, não deixaria mesmo passar em branco a cena – real ou imaginária – relatada neste samba, por sinal muito bem regravado por Chico Buarque em 1974. Outro hit de Geraldo Pereira  imortalizado pelos Anjos do Inferno é “Bolinha de papel”, gravação Victor de primeiro de fevereiro de 1945, lançada em abril do mesmo ano sob n.o 80-0266-B, matriz S-078125. Samba que, como muitos sabem, seria regravado em 1961 por João Gilberto. Em seguida tem “Vai que depois eu vou”, também de Geraldo sem parceiro, em outra gravação Victor, esta de 28 de novembro de 1945, lançada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro, disco 80-0381-B, matriz S-078402, e uma das músicas mais cantadas nessa folia momesca.  A faixa seguinte é “Pode ser?”, samba em que Geraldo Pereira conta com a parceria de Marino Pinto. E tem uma particularidade: foi incluído no disco de estreia da paulistana Isaurinha Garcia, a eterna “personalíssima”, gravado na Columbia em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto do mesmo ano sob n.o 55294-B, matriz 440 (no lado A estava “Chega de tanto amor”, de Mário Lago). Como se vê, Isaurinha já mostrava a que veio, e esse seria o pontapé inicial de uma carreira repleta de sucessos. Na época, ela já era contratada da Rádio Record de São Paulo (então “a maior”), sendo inclusive considerada por seu então proprietário, Paulo Machado de Carvalho (“o marechal da vitória”), autêntico patrimônio da casa, fazendo parte até mesmo de seus móveis e utensílios (!), e Isaurinha lá permaneceu por mais de 40 anos.  Outro inesquecível cartaz do rádio e do disco, Dircinha Batista apresenta o samba-choro “Sinhá Rosinha”, parceria de Geraldo com Célio Ferreira, por ela gravado na Odeon em 7 de abril de 1942 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12167-B, matriz 6937. Aqui, a temática é a do malandro regenerado, presente em outras composições de Geraldo Pereira, bastando lembrar, por exemplo, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”, por ele mesmo gravado e que já apresentamos anteriormente no GRB. Dircinha ainda interpreta o samba “Fugindo de mim”, parceria com Geraldo com Arnaldo Passos e Waldir Machado, destinado ao carnaval de 1952. Gravação também da  Odeon, de 8 de novembro de 51, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 13212-B, matriz 9186. “A minha, a sua, a nossa favorita” Emilinha Borba, fenômeno de popularidade como raramente se viu em nosso país, e outro grande nome da fase áurea do rádio brasileiro, comparece aqui com outros dois sambas de Geraldo Pereira, em gravações Continental. O primeiro deles é “Boca rica”, parceria de Geraldo com Arnaldo Passos, lançado em janeiro de 1950 para o carnaval desse ano, disco 16142-B, matriz 2211. Do carnaval seguinte, de 1951, é “Perdi meu lar”, também da parceria Geraldo Pereira-Arnaldo Passos, gravado pela eterna “Favorita” em 25 de outubro de 50 e lançado um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 16340-B, matriz 2478. Logo depois, temos Marlene (Vitória de Martino Bonaiutti), a que foi rival de Emilinha sem nunca ter sido (naquele tempo, como se vê, já tinha marqueteiro), interpretando outro samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, “Aquele amor”, destinado ao carnaval de 1952 e lançado pela Continental em janeiro desse ano, tendo a gravação sido feita em 5 de novembro de 51, disco 16513-A, matriz C-2783. Finalizando, temos uma cantora hoje pouco lembrada, mas que teve sua época, Heleninha Costa, interpretando aqui outro samba de Geraldo Pereira em parceria com Arnaldo Passos: “Não consigo esquecer”. Destinado ao carnaval de 1953, foi gravado por Heleninha na RCA Victor em 20 de agosto de 52, sendo lançado ainda em novembro sob n.o 80-1007-A, matriz SB-093410 (no lado B apareceu o clássico “Barracão”, de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães). Como se percebe, as músicas destinadas ao carnaval eram então lançadas com antecedência, a fim de serem divulgadas e aprendidas pelos foliões em tempo hábil. Assim, chegando fevereiro, o público poderia escolher suas favoritas e cantá-las nos salões e nas ruas. Na próxima semana, continuaremos a abordar a obra de Geraldo Pereira, apresentando gravações de cantores contemporâneos do autor. Aguardem! 

* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

It's Rock 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 44 (2012)

Esta semana, em sua quadragésima-quarta edição, o Grand Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma seleção de rock (ou coisa parecida) produzida e digitalizada pelo blog Sintonia Musikal, na pessoa de seu administrador Chico, um autêntico especialista em resgatar o passado de nossa música dita “jovem”, e seguidor de carteirinha do TM. Aquele abraço, Chico!
Permitam-me os amigos cultos, ocultos e associados começar minha resenha desta primeira parte pela faixa 5. Ela foi justamente o começo, o pontapé inicial do rock tupiniquim. Estou falando da gravação feita pela carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, 1922-2003) de “Rock around the clock”, de Jimmy de Knight e Max C. Freedman. A música era sucesso com Bill Haley e seus Cometas, e fazia parte do filme “Sementes da violência (The blackboard jungle)”, da MGM. Em 24 de outubro de 1955, Nora compareceu ao estúdio da Continental, no Edifício Cineac-Trianon (Avenida Rio Branco, esquina com Rua Bittencourt da Silva, em frente ao lendário Café Nice) para gravar sua personalíssima versão deste rock pioneiro, lançada em novembro-dezembro do mesmo ano com o n.o 17217-A, matriz C-3730. Foi assim que o rock and roll começou a balançar a juventude brasileira!
No restante do programa que o Chico nos oferece, outras doze peças raras, curiosas e interessantes do início do rock brasileiro, a chamada “pré-Jovem Guarda”. Nem mesmo a pianista Carolina Cardoso de Menezes (Rio de Janeiro, 1916-idem, 1999) resistiu aos encantos do chamado “ritmo alucinante”, compondo e executando o seu “Brasil rock”, em gravação Odeon de 14 de março de 1957 (14191-B, matriz 11601), lançada em maio daquele ano. Em seguida vem a faixa mais antiga desta seleção do amigo Chico: uma versão em português de “Jambalaya (On the bayou)”, clássico country de Hank Williams, assinada pelo comediante Edair Badaró, então atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record de São Paulo). Na  interpretação, Neyde Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987), então também atuando na Record. Gravado pela Odeon em 4 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano (13527-A, matriz 9873), este é considerado o maior sucesso da cantora. Em seguida, a versão de Aloysio de Oliveira para “In the mood”, clássico da big band de Glenn Miller, de Joe Garland e Andy Razaf, interpretada pelo Bando da Lua, formado e dirigido por Aloysio, com o nome de “Edmundo”. Gravação de 8 de junho de 1954, feita nos EUA pela Decca (hoje Universal Music), mas só lançada no Brasil vinte anos mais tarde, no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por João Luiz Ferrete para a Chantecler, então representante da Decca/MCA. Depois, o curioso “rock-baião-samba” “Eu sou a tal”, de Murilo Vieira, Edel Ney e O.Vargas, interpretado por Mara Silva (Isabel Gomes da Silva, Campos, RJ, n.1930), em gravação lançada pela RGE em dezembro de 1957 (10076-A, matriz RGO-335). A faixa 6 traz aquele que é considerado o primeiro rock cem por cento brasileiro, letra e música: “Rock and roll em Copacabana”, assinado por esse verdadeiro cronista que foi Miguel Gustavo, e gravado na RCA Victor por Cauby Peixoto em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em maio seguinte (80-1774-A, matriz 13-H2PB-0043). Temos depois a versão feita pelo radialista Paulo Rogério para o conhecido mambo-rock “Tequila”, de Chuck Rio, originalmente instrumental. A gravação coube à carioca Araci Costa (1932-1976) e saiu pela Continental em setembro-outubro de 1958, com o número 17595-A, matriz C-4123. “Tequila” era um dos números mais apreciados da orquestra do “bandleader” e vibrafonista Sylvio Mazzucca (São Paulo, 1929-idem, 2003), que curiosamente vem aqui com o chá-chá-chá “Cerveza”, de Boots Brown, em gravação lançada pela Columbia no mesmo ano de 1958 (CB-11079-A, matriz CBO-1767). O cantor Mário Augusto, criador de hits como “O amor de Terezinha” e “Calcutá”, aqui comparece com a versão de Fred Jorge para “Claudette”, de Roy Orbison, extraída de seu segundo disco, o Odeon 14372-B, gravado em 26 de agosto de 1958 e lançado em setembro do mesmo ano, matriz 12848. “A minha, a sua, a nossa favorita” (como César de Alencar a anunciava em seu programa na Rádio Nacional) Emilinha Borba vem aqui com a versão do misterioso A.Bourget para o chá-chá-rock “Patrícia”, de Pérez Prado, lançada pela Columbia também em 1958 (CB-11070-B, matriz CBO-1766). Marita Luizi, um daqueles nomes atualmente relegados ao mais completo esquecimento, apesar de terem tido sua época, aqui comparece com o calipso “Sonho maluco”, de Elzo Augusto e Miranda, lançado pela Copacabana em dezembro de 1959 com o n.o 6086-B, matriz M-2590, o segundo de seus três discos nesse formato. Marita também deixou um LP intitulado “Os grandes momentos” (Alvorada/Chantecler, 1978), ao que parece coletânea, e participou do álbum “Cinco estrelas apresentam Inara” (Copacabana, 1958), reunindo músicas de Inara Simões de Irajá (suas faixas nesse disco são”E ele não vem” e “Boca da noite”). Outro nome da pré-história de nosso rock and roll, Regina Célia, comparece aqui com a divertida “Aula de inglês em rock”, de Canarinho e Kid Sax, gravada na Polydor em 9 de dezembro de 1959 e lançada em janeiro de 60 no 78 rpm n.o 342-B, matriz POL-3774. Encerrando esta primeira seleção do amigo Chico, Cizinha Moura, que deixou apenas dois discos 78 com quatro músicas, aqui interpretando, do segundo e último deles, o Chantecler 78-0134-B, lançado em junho de 1959, o fox “Brotinho Lili”, de Alberto Roy e Domingos Paulo, matriz C8P-268. Enfim, um interessante panorama dos primórdios do rock and roll no Brasil, que continuaremos na próxima semana, sempre agradecendo ao Chico do Sintonia Musikal pela gentileza de permitir o aproveitamento desta seleção no GRB. Até lá!

SAMUEL MACHADO FILHO.