E aí vai, para os amigos cultos, ocultos e associados do TM,
a edição de número 139 do Grand Record Brasil.
Desta feita, apresentamos gravações de conjuntos vocais e instrumentais que marcaram época na
história de nossa música popular, perfazendo um total de dezessete faixas.
Abrindo a seleção desta quinzena (com atraso, diga-se de
passagem)*, temos o grupo Os Namorados, uma continuação dos antigos Namorados
da Lua sem Lúcio Alves, que iniciara carreira-solo ainda no final dos anos
1940, e contando inclusive com o cantor Miltinho entre seus componentes. Eles
aqui comparecem com as músicas do disco Sinter
00-00.249, lançado em julho de 1953. No lado A, matriz S-532, uma
regravação de “Eu quero um samba”, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida. E, no verso, matriz S-533, um outro bom
samba, “Três Aves-Marias”, de Hanníbal Cruz.
Encontraremos em
seguida os Quatro Ases e um Coringa, conjunto criado em 1941, no Rio de Janeiro,
pelos irmãos cearenses Evenor, José e Permínio Pontes de Medeiros, a eles
juntando-se Esdras Falcão Guimarães, o Pijuca,
e André Batista Vieira, o Coringa. A princípio, o grupo chamava-se Bando
Cearense, nome com o qual se apresentavam na Ceará Rádio Clube. Por sugestão do
poeta e jornalista Demócrito Rocha, o nome foi alterado para Quatro Ases e um
Melé. De volta ao Rio de Janeiro, ao serem contratados pela Rádio Mayrink
Veiga, adotaram o nome definitivo de Quatro Ases e um Coringa, pois “melé” era
um termo desconhecido na então Capital da República. Em cerca de vinte anos de
carreira, o grupo deu de fato as cartas, o que comprovam as três faixas aqui
reunidas, todas gravadas na Odeon. Para
começar, o “calango mineiro” “Dezessete e setecentos” (conta errada mas sucesso
certeiro), de Luiz Gonzaga e Miguel Lima, originalmente lançado por Manezinho
Araújo em 1945. Os Quatro Ases e um Coringa registraram sua versão na “marca do
templo” em 18 de abril de 1947, com lançamento em julho do mesmo ano, disco
12784-B, matriz 8213. Em seguida, a marchinha “Feijoada”, de Rubens Soares,
gravação de 2 de fevereiro de 1943 lançada em março do mesmo ano, disco
12277-A, matriz 7196. Por fim, outra marchinha, “Lili... Lili”, de Assis
Valente, do carnaval de 1944. Foi gravada pouco antes do Natal de 43, no dia 21
de dezembro, com lançamento bem em cima dos festejos de Momo,em 44, disco
12414-A, matriz 7459.
As seis faixas seguintes são com o Bando da Lua, criado no
início dos anos 1930, e pioneiro no Brasil em harmonizar as vozes, como estava
então na moda nos EUA , criando com isto, uma mania nacional. Sempre
acompanhavam Cármen Miranda em suas apresentações, e acabaram indo para os EUA
junto com ela, em 1939. O grupo desfez-se após a morte de Cármen, em 1955. Não
por acaso, a participação do Bando da Lua neste volume do GRB inicia-se com
duas gravações que o grupo fez nos EUA, pela Decca. Primeiramente, o samba “Na
aldeia”, de Sílvio Caldas (seu criador em disco, em 1933), Carusinho e De
Chocolate, em gravação feita no dia 4 de
julho de 1941 e, ao que parece, só lançada no Brasil em 1974 pela Chantecler
(então representante da Decca/MCA entre nós), no LP “Bando da Lua nos EUA”,
produzido por João Luiz Ferrete. A segunda é “O passarinho do relógio (Cuco)”,
marchinha de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira, lançada para o carnaval de 1940
na voz de Aracy de Almeida. Este registro do Bando da Lua não chegou a ser
lançado comercialmente, e ficou inédito em disco. Passando para a fase inicial
brasileira do grupo, temos um clássico do carnaval: a marchinha “Pegando fogo”,
do carnaval de 1939, de autoria de José Maria de Abreu e Francisco Matoso. Foi
imortalizada pelo Bando da Lua na Victor em 3 de novembro de 1938, com
lançamento ainda em dezembro, disco 34393-B, matriz 80927. Temos em seguida
outra marchinha, de meio-de-ano, de autoria do mestre Lamartine Babo, “Menina
das lojas”. Também gravação Victor, datada de 8 de abril de 1937, com
lançamento em maio do mesmo ano, disco 34161-B, matriz 80358. O samba “Quero ver”, de Léo Cardoso, Ademar Santana e Vicente
Paiva, pertence à época em que Cármen Miranda fez sua última apresentação
artística no Brasil, no Cassino da Urca, e obviamente o Bando da Lua a
acompanhou. Gravação Columbia de 19 de outubro de 1940, lançada em novembro do
mesmo ano sob número 55245-B, matriz
324. De volta aos EUA, o grupo acompanha nada mais nada menos do que Bing
Crosby, na gravação que ele fez do clássico samba “Copacabana”, de João
“Braguinha” de Barro e Alberto Ribeiro, originalmente lançado em 1946 por Dick
Farney. O registro do cantor a ator norte-americano, ao lado do grupo
brasileiro, com letra em inglês de Stillman, data de 1950, e foi lançado nos
EUA pela Decca sob número M-33399-A,
matriz L-6040. No Brasil, foi lançado pela Odeon sob número 288455-A. Ainda da
fase brasileira do Bando da Lua (só que gravado na Victor da Argentina, durante
uma excursão que o grupo fez com Cármen Miranda) é o belo samba “Uma voz de
longe me chamou”, de Hervê Cordovil e Alberto Ribeiro. Foi registrado em Buenos
Aires a primeiro de dezembro de 1935, sendo lançado no Brasil sob número
34010-B, matriz 93019. E, encerrando a participação do Bando da Lua neste
volume, a gravação que fizeram nos EUA, pela Decca, para o sambatucada “Nêga do
cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser (cujo registro original, aqui
também incluso, é dos Anjos do Inferno). Datada de 26 de maio de 1949, a
gravação só chegaria ao Brasil, ao que parece, em 1974, no já citado LP “Bando
da Lua nos EUA”.
Logo depois, temos um enigma. O conjunto Emboabas só gravou
um disco na Victor, em 1946, com os sambas
“A geada matou” e “Mania dela”.
Aqui, eles comparecem com uma gravação, ao que parece, editada em disco
particular, não-comercializado, interpretando o conhecido samba “General da
banda”, de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, sucesso no carnaval
de 1950 nos registros de Linda Batista e Blecaute. Será que este registro foi
para as lojas?
Formado por deficientes visuais, o sexteto Titulares do
Ritmo surgiu em 1941, em Belo Horizonte, logo conquistando notoriedade pelas
harmonizações e vocalizações requintadas
e bastante elaboradas. Eles aqui marcam presença com o samba “Não põe a
mão”, grande sucesso no carnaval de
1951, de autoria de Bucy Moreira, Mutt e Arnô Canegal. Foi gravado na Odeon em
9 de novembro de 1950 e lançado ainda em dezembro, disco 13072-B, matriz 8848.
Cearenses como os Quatro Ases e um Coringa, os Vocalistas
Tropicais interpretam neste volume “Irmão do samba”, de Nestor de Holanda e
Jorge Tavares, gravação Odeon de 13 de maio de 1949, lançada em julho do mesmo ano, disco 12934-B, matriz
8492.
Para finalizar, trazemos os Anjos do Inferno, justamente com
a gravação original do clássico sambatucada “Nêga do cabelo duro”, já
mencionado aqui, de Rubens Soares e David Nasser. O grupo liderado por Léo
Vilar imortalizou a composição na Columbia, e o lançamento se deu em janeiro de
1942, sob número de disco 55315-A,matriz 478. “Nêga do cabelo duro” foi
absoluto sucesso no carnaval daquele ano, merecendo vários outros registros,
inclusive de Elis Regina, sendo até hoje lembrado, e com justiça. Um fecho realmente de ouro para esta edição
do GRB, que reverencia alguns dos melhores e mais famosos conjuntos vocais que a música popular já teve em toda a
história. É ouvir e recordar...
SAMUEL MACHADO FILHO.