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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Música De Geraldo Pereira - Parte 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 81 (2013)

Estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 81. Desta vez, focalizamos mais uma substancial parcela da preciosa obra de Geraldo Pereira (1918-1955), interpretada por cantores contemporâneos do compositor.  O programa compõe-se de onze gravações de importância  histórica, artística e cultural indiscutíveis. Abrindo a seleção desta semana do GRB, temos Roberto Paiva (Helim Silveira Neves) interpretando dois sambas do mestre Geraldo, em gravações Victor.  O primeiro é “Lembras-te daquela zinha?” , parceria com Augusto Garcez, em registro de 9 de junho de 1941, lançada em agosto seguinte com o n.o 34784-A, matriz S-0522238. O segundo é “Já tenho outra”, em que Geraldo Pereira conta com a parceria de Augusto Garcez, gravado por Paiva em 11 de junho de 1943 e lançado em  11 de junho de 1943 e lançado em setembro do mesmo ano com o n.o 80-0113-B, matriz S-052791. Bem mais adiante, na faixa 8, Roberto Paiva interpreta “Brigaram pra valer”, parceria de Geraldo com José Batista. É um samba do carnaval de 1949, lançado pela Continental em janeiro desse ano sob n.o 15983-A, matriz 2003. Orlando Silva (1915-1978), o sempre lembrado “cantor das multidões”, comparece com outros dois sambas. “Jurei” é uma parceria de Geraldo Pereira com o “amigo velho” Cristóvão de Alencar,  destinada ao carnaval de 1946. Gravação Odeon ainda de 45, feita a 8 de novembro,  e lançada bem em cima da folia, em fevereiro, disco 12662-B, matriz 7934. Depois, Orlando interpreta um samba de Geraldo sem parceiro, só gravado seis anos após a morte do compositor. É “Vai”, registro RCA Victor (gravadora à qual Orlando havia retornado definitivamente) datado de 20 de abril de 1961, e lançado em maio seguinte sob número 80-2326-A, matriz M2CAB-1254, sendo também  incluído no compacto duplo de 45 rpm “Ontem à tarde”. Outro expressivo intérprete da obra de Geraldo Pereira, Déo (Ferjallah Rizkallah, 1914-1971), “o ditador de sucessos”, interpreta dois sambas só de Geraldo Pereira, que gravou na Continental em 2 de junho de 1946 com lançamento em agosto sob n.o 15660. Abrindo-o, matriz 1507, “Só quis meu nome”, e no verso, matriz 1506, “Ainda sou seu amigo”. No acompanhamento, o regional de Benedito Lacerda, com sua flauta inconfundível. Conhecido como “o príncipe do samba”, Roberto Silva (Rio de Janeiro, 1912-idem, 2012) interpreta aqui um samba de Geraldo Pereira sem parceria, lançado pela Star em 1949 sob número 147-B. É “Minha companheira”, inspirado em Isabel, a grande paixão da vida do compositor. Segundo depoimento dela própria, o samba foi composto por Geraldo bem antes deste registro, quando ambos ainda moravam juntos no bairro carioca da Cruz Vermelha. Um dos pioneiros da gravação em disco no Brasil, o  já veterano Patrício Teixeira (1893-1972) aqui comparece com “Adeus”,  samba da parceria Geraldo Pereira-Augusto Garcez, gravação Victor de 12 de março de 1942, lançada em maio do mesmo ano, disco 34926-A, matriz S-052497. Canto de discografia escassa mas bastante significativa (oito discos 78, um LP e um compacto duplo, Abílio Lessa (Rio de Janeiro, 1926-idem, 1975), morto prematuramente, aos 49 anos, de câncer no esôfago,  aqui comparece com “Liberta meu coração”, samba da parceria Geraldo Pereira-José Batista, destinado ao carnaval  de 1948. Foi gravado na RCA Victor ainda em 47, no dia 27 de outubro, com lançamento em dezembro seguinte sob n.o 80-0563-B, matriz S-078803. E para encerrar, o samba-canção “Promessa de um caboclo”, parceria de Geraldo Pereira com Arnaldo Passos. A referência, na letra, às festas de São João, pode ser lembrança dos tempos de menino de Geraldo, em sua cidade natal (Juiz de Fora, Minas Gerais). Quem canta é Francisco Carlos (Francisco Rodrigues Filho, 1928-2003), o eterno “El broto”, astro da Rádio Nacional e dos filmes da Atlântida, em gravação RCA Victor de 27 de março de 1952, lançada em junho seguinte sob n.o 80-0909-B, matriz S-093229. Enfim, é mais um trabalho do GRB que certamente será bastante apreciado por nossos amigos, cultos, ocultos e associados. Ouçam e desfrutem!

Testo de SAMUEL MACHADO FILHO



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A Música De Geraldo Pereira - Parte 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 80 (2013)

E chegamos a edição de número 80 do nosso Grand Record Brasil. Em edição anterior, como os amigos cultos, ocultos e associados do TM bem se lembram, apresentamos algumas das melhores gravações de Geraldo Pereira (Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955) como intérprete, inclusive, claro, composições próprias. E, como prometemos nessa ocasião, estamos voltando a focalizar a obra deste nome importantíssimo de nossa música popular. Desta vez, apresentamos doze gravações (é até chover no molhado falar de suas qualidades e de sua importância histórica) em que cantoras e conjuntos  contemporâneos do compositor interpretam suas obras.  Abrindo nossa seleção desta semana, os Quatro Ases e um Coringa, originários do Ceará, apresentam uma seleção de sambas que  homenageiam a Bahia de todos os santos, que sempre fascinou inúmeros compositores, sejam eles nascidos ou não na chamada boa terra, gravada na RCA Victor em 18 de julho de 1953 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o 80-1204-B, matriz BE3VB-0210. De Geraldo Pereira, aparece um trecho de seu clássico “Falsa baiana”, e neste pot-pourri também foram incluídos sambas de Vicente Paiva e Chianca de Garcia (“Exaltação à Bahia”), Dorival Caymmi (“O que é que a baiana tem?”)  e Ary Barroso (“Faixa de cetim”, “Na Baixa do Sapateiro”).  Na faixa seguinte, os Quatro Ases, que durante toda a carreira deram de fato as cartas,  nos brindam com “Ai! Que saudade dela”, samba de Geraldo Pereira em parceria com Ari Monteiro, gravação Odeon de primeiro de setembro de 1942, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o 12221-B, matriz 7044. Mesmo pouco divulgado, é um samba que merece atenção.  Outro importantíssimo conjunto vocal dessa época, os Anjos do Inferno, liderados por Léo Vilar, aqui comparece com três sambas absolutamente imperdíveis. O primeiro é “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira em parceria com Nélson Trigueiro, gravação Continental de 29 de maio de 1944, lançada em junho do mesmo ano com o n.o 15184-A, matriz 823. Nessa época, os salões e dancings eram bastante frequentados por certa camada da população carioca, e Geraldo, atento observador do cotidiano, adorava esse ambiente. Portanto, não deixaria mesmo passar em branco a cena – real ou imaginária – relatada neste samba, por sinal muito bem regravado por Chico Buarque em 1974. Outro hit de Geraldo Pereira  imortalizado pelos Anjos do Inferno é “Bolinha de papel”, gravação Victor de primeiro de fevereiro de 1945, lançada em abril do mesmo ano sob n.o 80-0266-B, matriz S-078125. Samba que, como muitos sabem, seria regravado em 1961 por João Gilberto. Em seguida tem “Vai que depois eu vou”, também de Geraldo sem parceiro, em outra gravação Victor, esta de 28 de novembro de 1945, lançada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro, disco 80-0381-B, matriz S-078402, e uma das músicas mais cantadas nessa folia momesca.  A faixa seguinte é “Pode ser?”, samba em que Geraldo Pereira conta com a parceria de Marino Pinto. E tem uma particularidade: foi incluído no disco de estreia da paulistana Isaurinha Garcia, a eterna “personalíssima”, gravado na Columbia em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto do mesmo ano sob n.o 55294-B, matriz 440 (no lado A estava “Chega de tanto amor”, de Mário Lago). Como se vê, Isaurinha já mostrava a que veio, e esse seria o pontapé inicial de uma carreira repleta de sucessos. Na época, ela já era contratada da Rádio Record de São Paulo (então “a maior”), sendo inclusive considerada por seu então proprietário, Paulo Machado de Carvalho (“o marechal da vitória”), autêntico patrimônio da casa, fazendo parte até mesmo de seus móveis e utensílios (!), e Isaurinha lá permaneceu por mais de 40 anos.  Outro inesquecível cartaz do rádio e do disco, Dircinha Batista apresenta o samba-choro “Sinhá Rosinha”, parceria de Geraldo com Célio Ferreira, por ela gravado na Odeon em 7 de abril de 1942 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12167-B, matriz 6937. Aqui, a temática é a do malandro regenerado, presente em outras composições de Geraldo Pereira, bastando lembrar, por exemplo, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”, por ele mesmo gravado e que já apresentamos anteriormente no GRB. Dircinha ainda interpreta o samba “Fugindo de mim”, parceria com Geraldo com Arnaldo Passos e Waldir Machado, destinado ao carnaval de 1952. Gravação também da  Odeon, de 8 de novembro de 51, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 13212-B, matriz 9186. “A minha, a sua, a nossa favorita” Emilinha Borba, fenômeno de popularidade como raramente se viu em nosso país, e outro grande nome da fase áurea do rádio brasileiro, comparece aqui com outros dois sambas de Geraldo Pereira, em gravações Continental. O primeiro deles é “Boca rica”, parceria de Geraldo com Arnaldo Passos, lançado em janeiro de 1950 para o carnaval desse ano, disco 16142-B, matriz 2211. Do carnaval seguinte, de 1951, é “Perdi meu lar”, também da parceria Geraldo Pereira-Arnaldo Passos, gravado pela eterna “Favorita” em 25 de outubro de 50 e lançado um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 16340-B, matriz 2478. Logo depois, temos Marlene (Vitória de Martino Bonaiutti), a que foi rival de Emilinha sem nunca ter sido (naquele tempo, como se vê, já tinha marqueteiro), interpretando outro samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, “Aquele amor”, destinado ao carnaval de 1952 e lançado pela Continental em janeiro desse ano, tendo a gravação sido feita em 5 de novembro de 51, disco 16513-A, matriz C-2783. Finalizando, temos uma cantora hoje pouco lembrada, mas que teve sua época, Heleninha Costa, interpretando aqui outro samba de Geraldo Pereira em parceria com Arnaldo Passos: “Não consigo esquecer”. Destinado ao carnaval de 1953, foi gravado por Heleninha na RCA Victor em 20 de agosto de 52, sendo lançado ainda em novembro sob n.o 80-1007-A, matriz SB-093410 (no lado B apareceu o clássico “Barracão”, de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães). Como se percebe, as músicas destinadas ao carnaval eram então lançadas com antecedência, a fim de serem divulgadas e aprendidas pelos foliões em tempo hábil. Assim, chegando fevereiro, o público poderia escolher suas favoritas e cantá-las nos salões e nas ruas. Na próxima semana, continuaremos a abordar a obra de Geraldo Pereira, apresentando gravações de cantores contemporâneos do autor. Aguardem! 

* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Geraldo Pereira - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 70 (2013)

Chegamos à edição de número 70 do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Desta vez focalizamos outro grande sambista que marcou época na história de nossa música popular: Geraldo Pereira.  Geraldo Teodoro Pereira (seu nome completo na pia batismal) nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, no dia 23 de abril de 1918. Ainda criança, com 10 ou 12 anos, foi para o Rio de Janeiro, levado por seu irmão mais velho, Mané Araújo, filho do primeiro casamento de sua mãe. Mané era ferroviário e sanfoneiro, residente no lendário morro de Mangueira, onde Geraldo foi criado. Além disso, o Mané era dono de uma birosca e uma espécie de xerife de sua localidade. Ali, seu irmão Geraldo cresceu ouvindo samba e depois participando das rodas no meio dos bambas e valentes. Fez o curso primário (que não se sabe se chegou a concluir) em uma escola da Rua Oito de Dezembro, na Vila Isabel, de onde saía para entregar marmitas. Mais tarde, aos 14 anos, trabalha nas proximidades do morro, até que, por volta de 1936, consegue um emprego de motorista de caminhão da limpeza urbana. Nessa época, já arranhava seu violão – que aprendera a tocar com Aluízio Dias e com o mestre Cartola, moradores da Mangueira -, fazia acompanhamentos e começava a compor seus sambas, segundo depoimentos de contemporâneos.  Em 1939, o cantor Roberto Paiva é procurado por Nélson “Gravatinha” Teixeira, que queria apresentá-lo a um compositor novo, insistindo para que ouvisse a música que tinha composto com ele. Era o samba “Se você sair chorando”, que acabou sendo a primeira composição gravada de Geraldo Pereira, e foi hit no carnaval de 1940. Nesse meio tempo, conhece a grande paixão de sua vida: Isabel, inspiradora de alguns de seus antológicos sambas. De espírito boêmio e mulherengo, Geraldo foi um inovador do samba, e compôs sucessos inesquecíveis, com ou sem parceiros: “Acertei no milhar”, “Falsa baiana”, “Escurinho”, “Chegou a bonitona”, “Pisei num despacho”, “Quando ela samba”, “Escurinha”, “Sem compromisso”, “Você está sumindo”, etc. Geraldo Pereira faleceu em 8 de maio de 1955, em consequência de uma hemorragia, provocada por uma briga mal explicada com Madame Satã, lendário personagem da Lapa, quando teria batido com a cabeça no meio-fio, na porta do restaurante Capela.  Como intérprete, segundo José Ramos Tinhorão, Geraldo Pereira “tinha perfeita noção de ritmo, coerência da forma escolhida para traduzir o sentido dos versos, valorização da melodia e, acima de tudo, caráter e estilo próprio na forma de interpretar”. É o que iremos comprovar nesta edição do GRB, que focaliza o Geraldo cantor, apresentando 12 preciosas gravações de músicas, não apenas dele próprio, como também de outros autores, e todas sambas. Para começar, tem “Olha o pau peroba”, de Bucy Moreira e Albertina da Rocha, lançado pela Columbia em janeiro de 1954 para o carnaval desse ano, disco CB-10010-A, matriz CBO-147. Depois, temos “Domingo infeliz”, de Arnaldo Passos e Abelardo Barbosa (sim, o lendário Chacrinha!), lançado pela Sinter em agosto de 1951, disco 00-00.071-A, matriz S-136. No verso, matriz S-150, Geraldo Pereira mostra sua faceta de cronista do dia-a-dia, como parceiro do mesmo Arnaldo em “Ministério da Economia”, alusão à criação da pasta pelo então presidente Getúlio Vargas, na qual acreditava que com esse ministério tudo ficaria mais barato...  “Ela” é de Arnaldo Passos e Osvaldo Lobo, lançado pela mesma Sinter em dezembro de 1950, disco 00-00.021-B, matriz S-48. Foi em seguida escalado o lado A, matriz S-47, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”, do próprio Geraldo sem parceiro. Embora seja considerado uma tentativa de adaptação ao gosto comercial vigente nessa época, é uma das melhores criações de Geraldo Pereira, inspirado em uma figura real, um valente da Mangueira chamado Pedro Veneno, conforme depoimento de Carlos Cachaça. Apresenta também um tema presente em outras obras de Geraldo, o do malandro regenerado. Esteve presente também no segundo LP lançado pela Sinter, o 10 polegadas “Parada de sucessos”, já oferecido aos amigos cultos, ocultos e associados do Toque Musical.  A faixa seguinte, “Fiz tudo”, é de Raimundo Olavo e Geraldo Queiroz, em gravação RCA Victor de 13 de agosto de 1952, lançada em outubro do mesmo ano, disco 80-1003-A, matriz SB-093398. Aqui também está presente o lado B, “Tombo no chapéu”, de Alberto Rego e Arnaldo Passos, matriz SB-093399. “Falso patriota” é de David Raw e Victor Simon (o autor dos clássicos “Vagabundo” e “Bom dia, café”), e foi gravado por Geraldo na RCA Victor em 26 de junho de 1953, indo para as lojas em setembro seguinte com o n.o 80-1192-A, matriz BE3VB-0185. O tema do falso nacionalista, consumidor exclusivamente de produtos importados, presente aqui, seria retomado em 1962 por Billy Blanco no samba “João da Silva”. Desse disco RCA Victor também foi escalado o verso, matriz BE3VB-0186: o divertido “Cabritada mal sucedida”, do próprio Geraldo com Wilton Wanderley. “Maior desacerto”, samba do próprio Geraldo mais Ary Garcia e A. J. C. Silva Jr., é o lado B de “Olha o pau peroba”, disco Columbia CB-10010, editado em janeiro de 1954 para o carnaval, matriz CBO-148. Para finalizar, as duas faixas do Columbia CB-10070, lançado em agosto de 1954: o samba-choro “Professor de natação”, de Avarese (Abimael Nascimento Álvares, pernambucano do Recife) e Maurílio Santos, matriz CBO-269, e  o samba “Juraci”, do próprio Geraldo sem parceiro, matriz CBO-270. É a homenagem do GRB e do TM ao grande sambista que foi Geraldo Pereira. E logo, logo a gente volta a focalizá-lo aqui, tá?

*Texto de  SAMUEL MACHADO FILHO.