E chegamos a edição de número 80 do nosso Grand Record
Brasil. Em edição anterior, como os amigos cultos, ocultos e associados do TM
bem se lembram, apresentamos algumas das melhores gravações de Geraldo Pereira
(Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955) como intérprete, inclusive,
claro, composições próprias. E, como prometemos nessa ocasião, estamos voltando
a focalizar a obra deste nome importantíssimo de nossa música popular. Desta
vez, apresentamos doze gravações (é até chover no molhado falar de suas
qualidades e de sua importância histórica) em que cantoras e conjuntos contemporâneos do compositor interpretam suas
obras. Abrindo nossa seleção desta
semana, os Quatro Ases e um Coringa, originários do Ceará, apresentam uma
seleção de sambas que homenageiam a
Bahia de todos os santos, que sempre fascinou inúmeros compositores, sejam eles
nascidos ou não na chamada boa terra, gravada na RCA Victor em 18 de julho de
1953 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o 80-1204-B, matriz BE3VB-0210. De
Geraldo Pereira, aparece um trecho de seu clássico “Falsa baiana”, e neste
pot-pourri também foram incluídos sambas de Vicente Paiva e Chianca de Garcia
(“Exaltação à Bahia”), Dorival Caymmi (“O que é que a baiana tem?”) e Ary Barroso (“Faixa de cetim”, “Na Baixa do
Sapateiro”). Na faixa seguinte, os
Quatro Ases, que durante toda a carreira deram de fato as cartas, nos brindam com “Ai! Que saudade dela”, samba
de Geraldo Pereira em parceria com Ari Monteiro, gravação Odeon de primeiro de
setembro de 1942, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o 12221-B, matriz
7044. Mesmo pouco divulgado, é um samba que merece atenção. Outro importantíssimo conjunto vocal dessa
época, os Anjos do Inferno, liderados por Léo Vilar, aqui comparece com três sambas
absolutamente imperdíveis. O primeiro é “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira
em parceria com Nélson Trigueiro, gravação Continental de 29 de maio de 1944,
lançada em junho do mesmo ano com o n.o 15184-A, matriz 823. Nessa época, os
salões e dancings eram bastante frequentados por certa camada da população
carioca, e Geraldo, atento observador do cotidiano, adorava esse ambiente.
Portanto, não deixaria mesmo passar em branco a cena – real ou imaginária –
relatada neste samba, por sinal muito bem regravado por Chico Buarque em 1974.
Outro hit de Geraldo Pereira
imortalizado pelos Anjos do Inferno é “Bolinha de papel”, gravação
Victor de primeiro de fevereiro de 1945, lançada em abril do mesmo ano sob n.o
80-0266-B, matriz S-078125. Samba que, como muitos sabem, seria regravado em
1961 por João Gilberto. Em seguida tem “Vai que depois eu vou”, também de
Geraldo sem parceiro, em outra gravação Victor, esta de 28 de novembro de 1945,
lançada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro, disco 80-0381-B, matriz
S-078402, e uma das músicas mais cantadas nessa folia momesca. A faixa seguinte é “Pode ser?”, samba em que
Geraldo Pereira conta com a parceria de Marino Pinto. E tem uma
particularidade: foi incluído no disco de estreia da paulistana Isaurinha
Garcia, a eterna “personalíssima”, gravado na Columbia em 23 de junho de 1941 e
lançado em agosto do mesmo ano sob n.o 55294-B, matriz 440 (no lado A estava
“Chega de tanto amor”, de Mário Lago). Como se vê, Isaurinha já mostrava a que
veio, e esse seria o pontapé inicial de uma carreira repleta de sucessos. Na
época, ela já era contratada da Rádio Record de São Paulo (então “a maior”),
sendo inclusive considerada por seu então proprietário, Paulo Machado de
Carvalho (“o marechal da vitória”), autêntico patrimônio da casa, fazendo parte
até mesmo de seus móveis e utensílios (!), e Isaurinha lá permaneceu por mais
de 40 anos. Outro inesquecível cartaz do
rádio e do disco, Dircinha Batista apresenta o samba-choro “Sinhá Rosinha”,
parceria de Geraldo com Célio Ferreira, por ela gravado na Odeon em 7 de abril
de 1942 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12167-B, matriz 6937. Aqui, a
temática é a do malandro regenerado, presente em outras composições de Geraldo
Pereira, bastando lembrar, por exemplo, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”,
por ele mesmo gravado e que já apresentamos anteriormente no GRB. Dircinha
ainda interpreta o samba “Fugindo de mim”, parceria com Geraldo com Arnaldo
Passos e Waldir Machado, destinado ao carnaval de 1952. Gravação também da Odeon, de 8 de novembro de 51, lançada um mês
antes da folia, em janeiro, sob n.o 13212-B, matriz 9186. “A minha, a sua, a
nossa favorita” Emilinha Borba, fenômeno de popularidade como raramente se viu
em nosso país, e outro grande nome da fase áurea do rádio brasileiro, comparece
aqui com outros dois sambas de Geraldo Pereira, em gravações Continental. O
primeiro deles é “Boca rica”, parceria de Geraldo com Arnaldo Passos, lançado
em janeiro de 1950 para o carnaval desse ano, disco 16142-B, matriz 2211. Do
carnaval seguinte, de 1951, é “Perdi meu lar”, também da parceria Geraldo
Pereira-Arnaldo Passos, gravado pela eterna “Favorita” em 25 de outubro de 50 e
lançado um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 16340-B, matriz
2478. Logo depois, temos Marlene (Vitória de Martino Bonaiutti), a que foi
rival de Emilinha sem nunca ter sido (naquele tempo, como se vê, já tinha
marqueteiro), interpretando outro samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos,
“Aquele amor”, destinado ao carnaval de 1952 e lançado pela Continental em
janeiro desse ano, tendo a gravação sido feita em 5 de novembro de 51, disco
16513-A, matriz C-2783. Finalizando, temos uma cantora hoje pouco lembrada, mas
que teve sua época, Heleninha Costa, interpretando aqui outro samba de Geraldo
Pereira em parceria com Arnaldo Passos: “Não consigo esquecer”. Destinado ao
carnaval de 1953, foi gravado por Heleninha na RCA Victor em 20 de agosto de
52, sendo lançado ainda em novembro sob n.o 80-1007-A, matriz SB-093410 (no
lado B apareceu o clássico “Barracão”, de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães).
Como se percebe, as músicas destinadas ao carnaval eram então lançadas com
antecedência, a fim de serem divulgadas e aprendidas pelos foliões em tempo
hábil. Assim, chegando fevereiro, o público poderia escolher suas favoritas e
cantá-las nos salões e nas ruas. Na próxima semana, continuaremos a abordar a
obra de Geraldo Pereira, apresentando gravações de cantores contemporâneos do
autor. Aguardem!
* Texto de SAMUEL
MACHADO FILHO.