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terça-feira, 7 de outubro de 2014

4 Ases & 1 Coringa (parte 1) - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.120 (2014)



Prosseguindo sua brilhante trajetória, o Grand Record Brazil, em sua edição de número 120, apresenta a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um dos maiores conjuntos vocais e instrumentais que o Brasil já teve: os Quatro Ases e um Coringa. A história do grupo começa em 1939, quando os irmãos cearenses Evenor, Permínio e José Pontes de Medeiros, que estudavam no Rio de Janeiro, decidiram formar um quarteto vocal e instrumental juntamente com seu amigo Andre Batista Vieira, o Melé. Dois anos mais tarde, após formar-se em Química, eles viajaram para Fortaleza, apresentando-se na Ceará Rádio Clube com o nome de Bando Cearense (Evenor e José aos violões, Permínio na gaita e André ao pandeiro, além, é claro, dos vocais). Foi então que se juntou a eles o violonista e vocalista Esdras Falcão Guimarães, o Pijuca. Por sugestão do poeta e jornalista Demócrito Rocha, eles passaram a se chamar Quatro Ases e um Melé. De volta ao Rio, apresentaram-se por três meses na Rádio Mayrink Veiga, mas não houve contrato. Foram então encaminhados à Rádio Tupi por João Dunmar, diretor da Ceará Rádio Clube, que estava no Rio por acaso, e substituiu o termo “melé” por “coringa”, termo mais conhecido no sul, que, no baralho, significa a mesma coisa. O sucesso foi imediato. No primeiro disco, lançado pela Odeon em setembro de 1941, sem menção no selo, acompanharam Dircinha Batista nos sambas “Ele disse que dá” e “Costela de cera”. Estreia pra valer acontece em novembro do mesmo ano, quando a “marca do templo” lança “Os dois errados”, e, do outro lado do disco, “Dora, meu amor”.  O grupo teve inúmeros sucessos,tais como: “No Ceará é assim”, “Onde estão os tamborins?”, “Baião”, “Terra seca”, “É com esse que eu vou”, “Siridó”, “Cabelos brancos”, “Eu vi um leão”, “Trem de ferro”, “Eu vou até de manhã”, “Chega, chega, chegadinho”, “Marcha do caracol”, “O periquito da madame”,  “Apanhador de papel”.  Em 1945, fizeram uma longa temporada no Prata, principalmente na Argentina, seguida do Chile. No cinema, atuaram nos filmes  “Fogo na canjica”, “Essa é fina”, “Aviso aos navegantes” e “Tudo azul”. Em 1952, o Coringa André desligou-se do conjunto, e outros três o sucederam: Jorginho do Pandeiro, Nilo Falcão e,por último, Miltinho. Nessa ocasião,a carreira do conjunto começa a declinar,até sua dissolução, nos anos 1960. Em cerca de vinte anos de carreira, os Quatro Ases e um Coringa gravaram mais de100 discos em 78 rpm, nos selos Odeon, RCA Victor, Mocambo, Todamérica e Marajoara, além do LP “É com esse que eu vou”, também pela Odeon, com regravações, e alguns compactos. Só lançariam um segundo e último LP em 1975, “Novamente... Quatro Ases e um Coringa”, selo Alvorada/Chantecler, e depois sairiam de cena definitivamente.
Nesta primeira parte, o GRB oferece catorze preciosas gravações dos Quatro Ases e um Coringa, verdadeiras joias da música popular brasileira, a maior parte em gravações Odeon. Abrindo o programa,”Terra seca”, samba que Ary Barroso considerava sua obra-prima, inspirado na triste fase da escravidão dos negros no Brasil. O grupo cearense o imortalizou na “marca do templo”  em 20 de setembro de 1943,com lançamento em novembro do mesmo ano, disco 12375-A, matriz 7387. Da dupla Bide-Marçal, autora de sambas clássicos da MPB, é “Pra que chorar?”, também samba, este do carnaval de 1943, gravação de 27 de outubro de 42, lançada ainda em dezembro, disco 12235-A, matriz 7121. Outro clássico é o balanceio “Eu vou até de manhã”, do cearense (como eles) Lauro Maia, gravado em 8 de fevereiro de 1945 e lançado em abril do mesmo ano sob número 12568-A, matriz 7760. Temos depois a deliciosa marchinha “Pica-pau”, outra composição do mestre Ary Barroso, do carnaval de 1942, gravação de 14 de novembro de 41, lançada um mês antes da folia, em janeiro, com o número 12096-A, matriz 6849. “Barão das cabrochas” é outro samba da grande dupla Bide-Marçal aqui incluído, sucesso do carnaval de 1946. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram  em 22 de novembro de 45, e o lançamento se deu um mês antes do carnaval, em janeiro, disco 12655-A, matriz 7939. Depois tem... “Feijoada”! É uma marchinha de Rubens Soares, gravada  em 2 de fevereiro de 1943 e lançada em março seguinte com o número 12277-A, matriz 7196. Torcedor fervoroso do América Futebol Clube, Lamartine Babo compôs os hinos não só desse como também de todos os grandes clubes do futebol carioca. Caso do famoso “Sempre Flamengo” (“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”), marcha-hino que os Quatro Ases e um Coringa imortalizaram na “marca do templo” em 2 de dezembro de 1944, com lançamento em janeiro de 45, disco 12541-B, matriz 7719. Do carnaval de 1947 é a marchinha “O periquito da madame”, de Nestor de Holanda, Carvalhinho e Afonso Teixeira, um sucesso que o grupo cearense gravou na Odeon em 9 de julho de 46 (vejam só a antecedência!) com lançamento ainda em novembro, disco 12735-B, matriz 8070. Do carnaval de 1943 é a marchinha “Deixai para mim as cabrochinhas”, de Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, gravada na “marca do templo” em 21de novembro de 42,lançada um mês antes da folia, me janeiro, disco 12246-A, matriz 7150. “A ribeira do Caxia” é uma “ligeira” de Lauro Maia, gravação de 29 de junho de 1945, lançada em agosto seguinte sob número 12612-A,matriz 7868. Lançado em 1945 por Manezinho Araújo, o “calango mineiro” “Dezessete e setecentos”, motivo folclórico adaptado por Luiz Gonzaga e Miguel Lima, foi regravado pelos Quatro Ases e um Coringa em 18 de abril de 1947, com lançamento em julho seguinte com o número 12784-B, matriz 8213 (conta errada, mas sucesso certeiro). As duas últimas faixas são da safra do grupo cearense na RCA Victor. “Xaxado”, de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil, é gravação de 14 de maio de 1952, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0938-B, matriz SB-093346, merecendo logo em seguida registro do próprio Gonzagão. O xaxado é definido como “primo do baião” e foi divulgado pelo Nordeste do Brasil por Lampião e seu bando de cangaceiros. O nome da dança é derivado da onomatopeia xa-xa-xa, que os dançarinos fazem ao arrastar as alpercatas no chão. Por fim,o samba “Boneca de pano”, de Assis Valente, considerado seu último grande sucesso como compositor. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram na marca do cachorrinho Nipper em 10 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano sob número 80-0693-B, matriz S-092712. E na próxima semana traremos mais gravações desse notável conjunto cearense. Aguardem!

*Texto de  SAMUEL MACHADO FILHO.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Carnaval A - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 91 (2014)

 Ó abre alas que o Grand Record Brazil quer passar! E apresenta para os amigos, cultos e associados do Toque Musical a primeira de duas partes de uma seleção dedicada ao carnaval. Vocês por certo irão se deliciar, e muito, com as músicas que o Augusto escolheu para esta seleção, muitas delas verdadeiros clássicos da folia de Momo, cantadas nos bailes até hoje, nas vozes de intérpretes renomados. Nesta primeira parte, oferecemos catorze gravações, todas elas marchas ou marchinhas. Abrindo esta seleção, temos Blecaute (Otávio Henrique de Oliveira, Espírito Santo do Pinhal, SP, 1919-Rio de Janeiro, 1983), cantor que recebeu esse apelido do Capitão Furtado, apresentador de programas sertanejos do rádio paulistano, por causa dos apagões que havia na época da Segunda Guerra Mundial, a fim de evitar ataques inimigos, nos quais a orla marítima do Brasil ficava às escuras. Com inúmeros hits carnavalescos no currículo, Blecaute,  de início, nos oferece a deliciosa “Maria Escandalosa”, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, sucesso absoluto no carnaval de 1955, lançado pela Copacabana em janeiro desse ano sob n.o 5354-B, matriz M-999, e também abrindo o LP coletivo da gravadora com músicas para essa folia, em 10 polegadas. Em 1992, esta marchinha foi revivida na novela “Deus nos acuda”, da TV Globo, na voz de Ney Matogrosso, como tema de uma personagem também chamada Maria Escandalosa, interpretada  por Cláudia Raia. Em seguida, o eterno “general da banda” recorda, dos mesmos autores, a “Marcha do gago”, lançada originalmente em 1950 por Oscarito, astro da lendária Atlântida Cinematográfica, que também a interpretou no filme “Carnaval no fogo”. O registro de Blecaute é do LP de 10 polegadas “Carnaval do Rio”, também da Copacabana, lançado em 1955. Bill Farr (Antônio Medeiros Francisco, Sapucaia, RJ, 1925-Rio de Janeiro, 2010), outro intérprete da época áurea do rádio, nos oferece “Maricota Cervejota”, de autoria de João de Barro, o Braguinha, verdadeiro campeão de carnavais. Feita para o carnaval de 1956, a marchinha foi gravada na Continental em 21 de setembro de 55,e lançada ainda em novembro-dezembro sob n.o 17208-A, matriz C-3701, e no LP coletivo de 10 polegadas “Carnaval de 56”. Encontraremos em seguida, na interpretação de Orlando Silva (Rio de Janeiro, 1915-idem, 1978), o eterno “cantor das multidões”, um inesquecível clássico carnavalesco: “A jardineira”, de Benedito Lacerda e Humberto Porto, calcada em motivo popular do final do século XIX, e que dominou a folia de 1939.  Teve quatro gravações por Orlando  (que também a interpretou no filme “Banana da terra”, da Cinédia) na Victor: as duas primeiras em 21 de outubro de 1938 (matrizes 80917-1 e 80917-2), a terceira dez dias depois (matriz 80925-R) e finalmente a quarta e definitiva, que ouvimos nesta seleção, em 6 de dezembro de 38, matriz 80917-3, sendo o disco lançado pouco depois com o número 34386-B (dos quatro registros, o primeiro não teria sido lançado). Ainda hoje está presente nos bailes, e é um sucesso permanente de nosso cancioneiro carnavalesco. Outro campeão de carnavais, Lamartine Babo (Rio de Janeiro, 1904-idem, 1963) aqui nos oferece uma de suas marchinhas clássicas, feita em parceria com Paulo Valença: “Aí, hein?”, um dos hits do carnaval de 1933, por ele interpretado em dueto com Mário Reis. Gravação Victor de 25 de novembro de 32, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 33603-A, matriz 65601. Lalá também está na faixa 13, “Grau dez”, de sua parceria com Ary Barroso, em dueto com Francisco Alves, sucesso do carnaval de 1935, gravado na Victor em 16 de outubro de 34, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, disco 33880-B, matriz 79737. Na faixa 6, Carlos Galhardo (1913-1985) nos oferece outro clássico inesquecível e muito cantado nos bailes até hoje: “Alá-lá-ô”, de autoria de outros dois colecionadores de hits carnavalescos, Haroldo Lobo e Nássara. Sucesso absoluto do carnaval de 1941, também interpretado por Galhardo no filme “Vamos cantar”, da Pan-América Filmes, foi por ele imortalizada na Victor em 21 de novembro de 40, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 34697-A, matriz 52055, e ganhou súbita atualidade neste verão de 2014, no qual têm se registrado altíssimas temperaturas, com os desconfortos de praxe. Destaque também  para a introdução instrumental, obra de gênio do mestre Pixinguinha. Outro clássico momesco vem em seguida: “Pierrô apaixonado”, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, do carnaval  de 1936. Gravação Victor de Joel de Almeida (“o magrinho elétrico”) em dupla com Gaúcho, datada de 26 de dezembro de 35 e lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 34012-A, matriz 80060. Logo depois, outra divertida e clássica marchinha do mestre Lamartine Babo, “História do Brasil”, do carnaval de 1934. Foi imortalizada na Victor por Almirante (“a maior patente do rádio”) em 15 de dezembro de 1933, com lançamento um mês antes do tríduo momesco de 34, em janeiro, sob n.o 33740-B, matriz 65917. Talento precoce revelado pela Rádio Record de São Paulo, Mário Ramos de Oliveira, o Vassourinha, teve morte prematura, em 1942, aos 19 anos, de doença óssea, deixando gravados seis discos com doze músicas, todos pela Columbia. De seu terceiro disco, n.o 55308-A, lançado em dezembro de 1941 com vistas ao carnaval de 42, matriz 474, é esta marchinha de Antônio Almeida, “Chic chic bum”, interessante crônica do tempo em que o bonde era o principal meio de transporte no Rio de Janeiro. De Herivelto Martins em parceria com o pistonista Bonfiglio de Oliveira é “Mais uma estrela”, do carnaval de 1935, gravada na Victor por Mário Reis em 5 de outubro de 34, com lançamento ainda em novembro sob n.o 33850-A, matriz 79712. O problema da falta de moradia, já crônico naqueles tempos, é glosado por Peterpan (José Fernandes de Almeida) e Afonso Teixeira na “Marcha do caracol”, sucesso do carnaval de 1951, gravado na RCA Victor pelos Quatro Ases e um Coringa em 4 de outubro de 50 e lançado ainda em dezembro, disco 80-0728-A, matriz S-092771. Traduzindo as dificuldades causadas pela Segunda Guerra Mundial, com escassez generalizada de combustíveis e alimentos, vem a marchinha “Eu brinco”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, do carnaval de 1944, imortalizada pelo eterno Rei da Voz Francisco Alves na Odeon em primeiro de dezembro de 43 e lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 12404-A, matriz 7431. A marchinha mostra a disposição de se brincar o carnaval ainda que em tempo de vacas magras, sem pandeiro ou dinheiro...  Para encerrar esta edição carnavalesca do GRB, Sílvio Caldas (1906?-1998), o eterno “caboclinho querido”, apresenta outro sucesso inesquecível  de João “Braguinha” de Barro, “Linda lourinha”. Foi uma das músicas mais cantadas no carnaval de 1934,  gravada por Sílvio na Victor em 15 de novembro de 33, com lançamento um mês antes do tríduo momesco, em janeiro, sob n.o 33735-A, matriz 65889. E, na próxima segunda-feira, tem mais carnaval pra vocês aqui no GRB. Aguardem...

* Texto de Samuel Machado Filho

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A Música De Geraldo Pereira - Parte 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 80 (2013)

E chegamos a edição de número 80 do nosso Grand Record Brasil. Em edição anterior, como os amigos cultos, ocultos e associados do TM bem se lembram, apresentamos algumas das melhores gravações de Geraldo Pereira (Juiz de Fora, MG, 1918-Rio de Janeiro, 1955) como intérprete, inclusive, claro, composições próprias. E, como prometemos nessa ocasião, estamos voltando a focalizar a obra deste nome importantíssimo de nossa música popular. Desta vez, apresentamos doze gravações (é até chover no molhado falar de suas qualidades e de sua importância histórica) em que cantoras e conjuntos  contemporâneos do compositor interpretam suas obras.  Abrindo nossa seleção desta semana, os Quatro Ases e um Coringa, originários do Ceará, apresentam uma seleção de sambas que  homenageiam a Bahia de todos os santos, que sempre fascinou inúmeros compositores, sejam eles nascidos ou não na chamada boa terra, gravada na RCA Victor em 18 de julho de 1953 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o 80-1204-B, matriz BE3VB-0210. De Geraldo Pereira, aparece um trecho de seu clássico “Falsa baiana”, e neste pot-pourri também foram incluídos sambas de Vicente Paiva e Chianca de Garcia (“Exaltação à Bahia”), Dorival Caymmi (“O que é que a baiana tem?”)  e Ary Barroso (“Faixa de cetim”, “Na Baixa do Sapateiro”).  Na faixa seguinte, os Quatro Ases, que durante toda a carreira deram de fato as cartas,  nos brindam com “Ai! Que saudade dela”, samba de Geraldo Pereira em parceria com Ari Monteiro, gravação Odeon de primeiro de setembro de 1942, lançada em novembro do mesmo ano sob n.o 12221-B, matriz 7044. Mesmo pouco divulgado, é um samba que merece atenção.  Outro importantíssimo conjunto vocal dessa época, os Anjos do Inferno, liderados por Léo Vilar, aqui comparece com três sambas absolutamente imperdíveis. O primeiro é “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira em parceria com Nélson Trigueiro, gravação Continental de 29 de maio de 1944, lançada em junho do mesmo ano com o n.o 15184-A, matriz 823. Nessa época, os salões e dancings eram bastante frequentados por certa camada da população carioca, e Geraldo, atento observador do cotidiano, adorava esse ambiente. Portanto, não deixaria mesmo passar em branco a cena – real ou imaginária – relatada neste samba, por sinal muito bem regravado por Chico Buarque em 1974. Outro hit de Geraldo Pereira  imortalizado pelos Anjos do Inferno é “Bolinha de papel”, gravação Victor de primeiro de fevereiro de 1945, lançada em abril do mesmo ano sob n.o 80-0266-B, matriz S-078125. Samba que, como muitos sabem, seria regravado em 1961 por João Gilberto. Em seguida tem “Vai que depois eu vou”, também de Geraldo sem parceiro, em outra gravação Victor, esta de 28 de novembro de 1945, lançada bem em cima do carnaval de 46, em fevereiro, disco 80-0381-B, matriz S-078402, e uma das músicas mais cantadas nessa folia momesca.  A faixa seguinte é “Pode ser?”, samba em que Geraldo Pereira conta com a parceria de Marino Pinto. E tem uma particularidade: foi incluído no disco de estreia da paulistana Isaurinha Garcia, a eterna “personalíssima”, gravado na Columbia em 23 de junho de 1941 e lançado em agosto do mesmo ano sob n.o 55294-B, matriz 440 (no lado A estava “Chega de tanto amor”, de Mário Lago). Como se vê, Isaurinha já mostrava a que veio, e esse seria o pontapé inicial de uma carreira repleta de sucessos. Na época, ela já era contratada da Rádio Record de São Paulo (então “a maior”), sendo inclusive considerada por seu então proprietário, Paulo Machado de Carvalho (“o marechal da vitória”), autêntico patrimônio da casa, fazendo parte até mesmo de seus móveis e utensílios (!), e Isaurinha lá permaneceu por mais de 40 anos.  Outro inesquecível cartaz do rádio e do disco, Dircinha Batista apresenta o samba-choro “Sinhá Rosinha”, parceria de Geraldo com Célio Ferreira, por ela gravado na Odeon em 7 de abril de 1942 e lançado em julho do mesmo ano, disco 12167-B, matriz 6937. Aqui, a temática é a do malandro regenerado, presente em outras composições de Geraldo Pereira, bastando lembrar, por exemplo, o samba-canção “Pedro do Pedregulho”, por ele mesmo gravado e que já apresentamos anteriormente no GRB. Dircinha ainda interpreta o samba “Fugindo de mim”, parceria com Geraldo com Arnaldo Passos e Waldir Machado, destinado ao carnaval de 1952. Gravação também da  Odeon, de 8 de novembro de 51, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 13212-B, matriz 9186. “A minha, a sua, a nossa favorita” Emilinha Borba, fenômeno de popularidade como raramente se viu em nosso país, e outro grande nome da fase áurea do rádio brasileiro, comparece aqui com outros dois sambas de Geraldo Pereira, em gravações Continental. O primeiro deles é “Boca rica”, parceria de Geraldo com Arnaldo Passos, lançado em janeiro de 1950 para o carnaval desse ano, disco 16142-B, matriz 2211. Do carnaval seguinte, de 1951, é “Perdi meu lar”, também da parceria Geraldo Pereira-Arnaldo Passos, gravado pela eterna “Favorita” em 25 de outubro de 50 e lançado um mês antes dos festejos momescos, em janeiro, sob n.o 16340-B, matriz 2478. Logo depois, temos Marlene (Vitória de Martino Bonaiutti), a que foi rival de Emilinha sem nunca ter sido (naquele tempo, como se vê, já tinha marqueteiro), interpretando outro samba de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, “Aquele amor”, destinado ao carnaval de 1952 e lançado pela Continental em janeiro desse ano, tendo a gravação sido feita em 5 de novembro de 51, disco 16513-A, matriz C-2783. Finalizando, temos uma cantora hoje pouco lembrada, mas que teve sua época, Heleninha Costa, interpretando aqui outro samba de Geraldo Pereira em parceria com Arnaldo Passos: “Não consigo esquecer”. Destinado ao carnaval de 1953, foi gravado por Heleninha na RCA Victor em 20 de agosto de 52, sendo lançado ainda em novembro sob n.o 80-1007-A, matriz SB-093410 (no lado B apareceu o clássico “Barracão”, de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães). Como se percebe, as músicas destinadas ao carnaval eram então lançadas com antecedência, a fim de serem divulgadas e aprendidas pelos foliões em tempo hábil. Assim, chegando fevereiro, o público poderia escolher suas favoritas e cantá-las nos salões e nas ruas. Na próxima semana, continuaremos a abordar a obra de Geraldo Pereira, apresentando gravações de cantores contemporâneos do autor. Aguardem! 

* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.