Ó abre alas que o Grand Record Brazil quer
passar! E apresenta para os amigos, cultos e associados do Toque Musical a
primeira de duas partes de uma seleção dedicada ao carnaval. Vocês por certo
irão se deliciar, e muito, com as músicas que o Augusto escolheu para esta
seleção, muitas delas verdadeiros clássicos da folia de Momo, cantadas nos
bailes até hoje, nas vozes de intérpretes renomados. Nesta primeira parte,
oferecemos catorze gravações, todas elas marchas ou marchinhas. Abrindo esta
seleção, temos Blecaute (Otávio Henrique de Oliveira, Espírito Santo do Pinhal,
SP, 1919-Rio de Janeiro, 1983), cantor que recebeu esse apelido do Capitão
Furtado, apresentador de programas sertanejos do rádio paulistano, por causa
dos apagões que havia na época da Segunda Guerra Mundial, a fim de evitar
ataques inimigos, nos quais a orla marítima do Brasil ficava às escuras. Com
inúmeros hits carnavalescos no currículo, Blecaute, de início, nos oferece a deliciosa “Maria
Escandalosa”, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, sucesso absoluto no
carnaval de 1955, lançado pela Copacabana em janeiro desse ano sob n.o 5354-B,
matriz M-999, e também abrindo o LP coletivo da gravadora com músicas para essa
folia, em 10 polegadas. Em 1992, esta marchinha foi revivida na novela “Deus
nos acuda”, da TV Globo, na voz de Ney Matogrosso, como tema de uma personagem
também chamada Maria Escandalosa, interpretada
por Cláudia Raia. Em seguida, o eterno “general da banda” recorda, dos
mesmos autores, a “Marcha do gago”, lançada originalmente em 1950 por Oscarito,
astro da lendária Atlântida Cinematográfica, que também a interpretou no filme
“Carnaval no fogo”. O registro de Blecaute é do LP de 10 polegadas “Carnaval do
Rio”, também da Copacabana, lançado em 1955. Bill Farr (Antônio Medeiros
Francisco, Sapucaia, RJ, 1925-Rio de Janeiro, 2010), outro intérprete da época
áurea do rádio, nos oferece “Maricota Cervejota”, de autoria de João de Barro,
o Braguinha, verdadeiro campeão de carnavais. Feita para o carnaval de 1956, a
marchinha foi gravada na Continental em 21 de setembro de 55,e lançada ainda em
novembro-dezembro sob n.o 17208-A, matriz C-3701, e no LP coletivo de 10
polegadas “Carnaval de 56”. Encontraremos em seguida, na interpretação de
Orlando Silva (Rio de Janeiro, 1915-idem, 1978), o eterno “cantor das
multidões”, um inesquecível clássico carnavalesco: “A jardineira”, de Benedito
Lacerda e Humberto Porto, calcada em motivo popular do final do século XIX, e
que dominou a folia de 1939. Teve quatro
gravações por Orlando (que também a
interpretou no filme “Banana da terra”, da Cinédia) na Victor: as duas
primeiras em 21 de outubro de 1938 (matrizes 80917-1 e 80917-2), a terceira dez
dias depois (matriz 80925-R) e finalmente a quarta e definitiva, que ouvimos
nesta seleção, em 6 de dezembro de 38, matriz 80917-3, sendo o disco lançado
pouco depois com o número 34386-B (dos quatro registros, o primeiro não teria
sido lançado). Ainda hoje está presente nos bailes, e é um sucesso permanente
de nosso cancioneiro carnavalesco. Outro campeão de carnavais, Lamartine Babo
(Rio de Janeiro, 1904-idem, 1963) aqui nos oferece uma de suas marchinhas
clássicas, feita em parceria com Paulo Valença: “Aí, hein?”, um dos hits do
carnaval de 1933, por ele interpretado em dueto com Mário Reis. Gravação Victor
de 25 de novembro de 32, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o
33603-A, matriz 65601. Lalá também está na faixa 13, “Grau dez”, de sua
parceria com Ary Barroso, em dueto com Francisco Alves, sucesso do carnaval de
1935, gravado na Victor em 16 de outubro de 34, com lançamento um mês antes da
folia, em janeiro, disco 33880-B, matriz 79737. Na faixa 6, Carlos Galhardo
(1913-1985) nos oferece outro clássico inesquecível e muito cantado nos bailes
até hoje: “Alá-lá-ô”, de autoria de outros dois colecionadores de hits
carnavalescos, Haroldo Lobo e Nássara. Sucesso absoluto do carnaval de 1941,
também interpretado por Galhardo no filme “Vamos cantar”, da Pan-América
Filmes, foi por ele imortalizada na Victor em 21 de novembro de 40, com lançamento
um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 34697-A, matriz 52055, e ganhou
súbita atualidade neste verão de 2014, no qual têm se registrado altíssimas
temperaturas, com os desconfortos de praxe. Destaque também para a introdução instrumental, obra de gênio
do mestre Pixinguinha. Outro clássico momesco vem em seguida: “Pierrô
apaixonado”, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, do carnaval de 1936. Gravação Victor de Joel de Almeida
(“o magrinho elétrico”) em dupla com Gaúcho, datada de 26 de dezembro de 35 e
lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 34012-A, matriz 80060. Logo
depois, outra divertida e clássica marchinha do mestre Lamartine Babo,
“História do Brasil”, do carnaval de 1934. Foi imortalizada na Victor por
Almirante (“a maior patente do rádio”) em 15 de dezembro de 1933, com
lançamento um mês antes do tríduo momesco de 34, em janeiro, sob n.o 33740-B,
matriz 65917. Talento precoce revelado pela Rádio Record de São Paulo, Mário
Ramos de Oliveira, o Vassourinha, teve morte prematura, em 1942, aos 19 anos,
de doença óssea, deixando gravados seis discos com doze músicas, todos pela
Columbia. De seu terceiro disco, n.o 55308-A, lançado em dezembro de 1941 com
vistas ao carnaval de 42, matriz 474, é esta marchinha de Antônio Almeida, “Chic
chic bum”, interessante crônica do tempo em que o bonde era o principal meio de
transporte no Rio de Janeiro. De Herivelto Martins em parceria com o pistonista
Bonfiglio de Oliveira é “Mais uma estrela”, do carnaval de 1935, gravada na
Victor por Mário Reis em 5 de outubro de 34, com lançamento ainda em novembro
sob n.o 33850-A, matriz 79712. O problema da falta de moradia, já crônico
naqueles tempos, é glosado por Peterpan (José Fernandes de Almeida) e Afonso
Teixeira na “Marcha do caracol”, sucesso do carnaval de 1951, gravado na RCA
Victor pelos Quatro Ases e um Coringa em 4 de outubro de 50 e lançado ainda em
dezembro, disco 80-0728-A, matriz S-092771. Traduzindo as dificuldades causadas
pela Segunda Guerra Mundial, com escassez generalizada de combustíveis e
alimentos, vem a marchinha “Eu brinco”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, do
carnaval de 1944, imortalizada pelo eterno Rei da Voz Francisco Alves na Odeon
em primeiro de dezembro de 43 e lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob
n.o 12404-A, matriz 7431. A marchinha mostra a disposição de se brincar o
carnaval ainda que em tempo de vacas magras, sem pandeiro ou dinheiro... Para encerrar esta edição carnavalesca do
GRB, Sílvio Caldas (1906?-1998), o eterno “caboclinho querido”, apresenta outro
sucesso inesquecível de João “Braguinha”
de Barro, “Linda lourinha”. Foi uma das músicas mais cantadas no carnaval de
1934, gravada por Sílvio na Victor em 15
de novembro de 33, com lançamento um mês antes do tríduo momesco, em janeiro,
sob n.o 33735-A, matriz 65889. E, na próxima segunda-feira, tem mais carnaval
pra vocês aqui no GRB. Aguardem...
* Texto de Samuel Machado Filho
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