Em sua edição de número 89, o Grand Record Brazil reverencia
a memória de um dos pioneiros da música popular brasileira: João Machado
Guedes, ou, como ficou para a posteridade, João da Baiana. Filho dos
ex-escravos Félix José Guedes e Perciliana Maria Constança, que tinham uma
quitanda de artigos afro-brasileiros, nosso focalizado nasceu no Rio de
Janeiro, em 17 de maio de 1887, e era o
mais novo e único carioca de uma família de doze irmãos. Sua mãe era conhecida
como Baiana, daí seu pseudônimo. Um de seus irmãos, Mané, era palhaço no Circo
Spinelli e tocava violão e cavaquinho, e uma de suas irmãs era violinista. João
da Baiana cresceu na Rua Senador Pompeu, no bairro da Cidade Nova, sendo amigo
de infância de Donga e Heitor dos Prazeres. Quando criança, frequentava as
rodas de samba e macumba que aconteciam clandestinamente nos terreiros
cariocas. Participou de blocos carnavalescos e é considerado o introdutor do
pandeiro no samba, sendo também especialista no chamado prato-e-faca. Ainda menino, trabalhou no circo como chefe da
claque dos garotos que respondiam ao grito “Hoje tem marmelada? Tem, sim,
senhor”. Por essa época, passou a se
dedicar à pintura, sua grande paixão. Aos
nove anos, ingressou como aprendiz no Arsenal da Marinha e deu baixa três anos
mais tarde, indo então para o Segundo Batalhão de Artilharia, como ajudante de
cocheiro, sob o comando do marechal Hermes da Fonseca, futuro presidente da
República. Em 1910, passou a trabalhar no Cais do Porto, sendo promovido a fiscal
da Marinha dez anos mais tarde. Por isso, recusou-se a viajar com os Oito
Batutas, liderados por Pixinguinha, a
Paris, pois não queria perder o posto. A partir de 1923, passou a compor e a se
apresentar em programas radiofônicos. Algumas de suas composições nessa época
foram “Pelo amor da mulata”. “Mulher cruel”, “Pedindo vingança” e “O futuro é
uma caveira”. Outros de seus sambas conhecidos são “Cabide de molambo” e
“Batuque na cozinha”. Como ritmista, João da Baiana integrou inúmeros grupos, entre eles o Conjunto dos
Moles, o Grupo do Louro, o Grupo da Guarda Velha e a orquestra Diabos do Céu,
os dois últimos formados e dirigidos por Pixinguinha. Participou, em 1940, da
famosa série de gravações organizada por Heitor Villa-Lobos a bordo do navio
‘Uruguai”, onde viajavam o maestro Leopold Stokowski e sua orquestra (“Native brazilian music”). Aposentado da Marinha em 1949, João da Baiana
apresentou-se, na década seguinte, nos espetáculos do grupo Velha Guarda,
organizados por Almirante. Casou-se e teve dois filhos, que morreram ainda na
infância. Em 1968, participou do histórico LP “Gente da antiga”, ao lado de
Pixinguinha e Clementina de Jesus, produzido por Hermínio Bello de Carvalho. Em
1972, foi recolhido à Casa dos Artistas, em Jacarepaguá, onde faleceria no dia
12 de janeiro de 1974, aos 86 anos. Hoje, alguns dos pertences de João da
Baiana integram o acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro,
inclusive o prato-e-faca que o
consagraram, parte da coleção do cantor, compositor e radialista Almirante. Do
legado de João da Baiana como intérprete, o GRB foi buscar dez gravações históricas, todas pontos de macumba ou
corimas dele mesmo, com ou sem parceria, e fundamentais para quem estuda e
pesquisa a cultura afro-brasileira, por ele cantados ao lado de seu conjunto ou
terreiro. Abrindo esta seleção,
“Sereia”, parceria de João da Baiana com Getúlio “Amor” Marinho, gravação
Victor de 21 de março de 1938, lançada em maio do mesmo ano sob n.o 34313-A, matriz 80707. A faixa seguinte é o
lado B, matriz 80708, “Folha por folha”, e é da mesma parceria. Depois
encontraremos as músicas do disco Odeon 13330, gravado em 2 de julho de 1952 e
lançado em setembro do mesmo ano, ambas de João da Baiana sem parceiro: “Lamento
de Inhaçã”, lado A, matriz 9368, e “Lamento de Xangô”, lado B, matriz 9367. As
faixas seguintes, também só de João,
saíram pela Sinter, disco 496, em maio de 1956. No lado A, matriz
S-1079, “Vovó Joana do Aguiné”, e no verso, matriz S-1080, “Vai i-aô”. Temos
depois mais dois corimas do próprio João da Baiana sem parceiro, do Odeon 13999, gravado em 5 de dezembro de 1955 e
lançado em março de 56: no lado A, matriz 10877, “Qué-qué-ré-qué-qué”, e no
verso, matriz 10878, “Saudação a Iemanjá”. Finalmente, do Sinter 548, lançado em maio de 1957, outros dois
corimas de João sem parceiro: no lado A, “Ogum nilê”, matriz S-1191, e no
verso, matriz S-1192, “Homenagem a Oxalá”.
Enfim, uma amostra interessante do legado do compositor para a cultura
afro-brasileira. E vem mais João da Baiana por aí, aguardem...
*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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