Prosseguindo sua brilhante trajetória, o Grand Record
Brazil, em sua edição de número 120, apresenta a primeira de duas partes de uma
retrospectiva dedicada a um dos maiores conjuntos vocais e instrumentais que o
Brasil já teve: os Quatro Ases e um Coringa. A história do grupo começa em
1939, quando os irmãos cearenses Evenor, Permínio e José Pontes de Medeiros,
que estudavam no Rio de Janeiro, decidiram formar um quarteto vocal e
instrumental juntamente com seu amigo Andre Batista Vieira, o Melé. Dois anos
mais tarde, após formar-se em Química, eles viajaram para Fortaleza,
apresentando-se na Ceará Rádio Clube com o nome de Bando Cearense (Evenor e
José aos violões, Permínio na gaita e André ao pandeiro, além, é claro, dos
vocais). Foi então que se juntou a eles o violonista e vocalista Esdras Falcão
Guimarães, o Pijuca. Por sugestão do poeta e jornalista Demócrito Rocha, eles
passaram a se chamar Quatro Ases e um Melé. De volta ao Rio, apresentaram-se
por três meses na Rádio Mayrink Veiga, mas não houve contrato. Foram então
encaminhados à Rádio Tupi por João Dunmar, diretor da Ceará Rádio Clube, que
estava no Rio por acaso, e substituiu o termo “melé” por “coringa”, termo mais
conhecido no sul, que, no baralho, significa a mesma coisa. O sucesso foi
imediato. No primeiro disco, lançado pela Odeon em setembro de 1941, sem menção
no selo, acompanharam Dircinha Batista nos sambas “Ele disse que dá” e “Costela
de cera”. Estreia pra valer acontece em novembro do mesmo ano, quando a “marca
do templo” lança “Os dois errados”, e, do outro lado do disco, “Dora, meu
amor”. O grupo teve inúmeros
sucessos,tais como: “No Ceará é assim”, “Onde estão os tamborins?”, “Baião”,
“Terra seca”, “É com esse que eu vou”, “Siridó”, “Cabelos brancos”, “Eu vi um
leão”, “Trem de ferro”, “Eu vou até de manhã”, “Chega, chega, chegadinho”,
“Marcha do caracol”, “O periquito da madame”,
“Apanhador de papel”. Em 1945,
fizeram uma longa temporada no Prata, principalmente na Argentina, seguida do
Chile. No cinema, atuaram nos filmes
“Fogo na canjica”, “Essa é fina”, “Aviso aos navegantes” e “Tudo azul”.
Em 1952, o Coringa André desligou-se do conjunto, e outros três o sucederam:
Jorginho do Pandeiro, Nilo Falcão e,por último, Miltinho. Nessa ocasião,a
carreira do conjunto começa a declinar,até sua dissolução, nos anos 1960. Em
cerca de vinte anos de carreira, os Quatro Ases e um Coringa gravaram mais
de100 discos em 78 rpm, nos selos Odeon, RCA Victor, Mocambo, Todamérica e
Marajoara, além do LP “É com esse que eu vou”, também pela Odeon, com regravações,
e alguns compactos. Só lançariam um segundo e último LP em 1975, “Novamente...
Quatro Ases e um Coringa”, selo Alvorada/Chantecler, e depois sairiam de cena
definitivamente.
Nesta primeira parte, o GRB oferece catorze preciosas
gravações dos Quatro Ases e um Coringa, verdadeiras joias da música popular
brasileira, a maior parte em gravações Odeon. Abrindo o programa,”Terra seca”,
samba que Ary Barroso considerava sua obra-prima, inspirado na triste fase da
escravidão dos negros no Brasil. O grupo cearense o imortalizou na “marca do
templo” em 20 de setembro de 1943,com
lançamento em novembro do mesmo ano, disco 12375-A, matriz 7387. Da dupla
Bide-Marçal, autora de sambas clássicos da MPB, é “Pra que chorar?”, também
samba, este do carnaval de 1943, gravação de 27 de outubro de 42, lançada ainda
em dezembro, disco 12235-A, matriz 7121. Outro clássico é o balanceio “Eu vou
até de manhã”, do cearense (como eles) Lauro Maia, gravado em 8 de fevereiro de
1945 e lançado em abril do mesmo ano sob número 12568-A, matriz 7760. Temos
depois a deliciosa marchinha “Pica-pau”, outra composição do mestre Ary
Barroso, do carnaval de 1942, gravação de 14 de novembro de 41, lançada um mês
antes da folia, em janeiro, com o número 12096-A, matriz 6849. “Barão das
cabrochas” é outro samba da grande dupla Bide-Marçal aqui incluído, sucesso do
carnaval de 1946. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram em 22 de novembro de 45, e o lançamento se deu
um mês antes do carnaval, em janeiro, disco 12655-A, matriz 7939. Depois tem...
“Feijoada”! É uma marchinha de Rubens Soares, gravada em 2 de fevereiro de 1943 e lançada em março
seguinte com o número 12277-A, matriz 7196. Torcedor fervoroso do América
Futebol Clube, Lamartine Babo compôs os hinos não só desse como também de todos
os grandes clubes do futebol carioca. Caso do famoso “Sempre Flamengo” (“Uma
vez Flamengo, Flamengo até morrer”), marcha-hino que os Quatro Ases e um
Coringa imortalizaram na “marca do templo” em 2 de dezembro de 1944, com
lançamento em janeiro de 45, disco 12541-B, matriz 7719. Do carnaval de 1947 é
a marchinha “O periquito da madame”, de Nestor de Holanda, Carvalhinho e Afonso
Teixeira, um sucesso que o grupo cearense gravou na Odeon em 9 de julho de 46
(vejam só a antecedência!) com lançamento ainda em novembro, disco 12735-B,
matriz 8070. Do carnaval de 1943 é a marchinha “Deixai para mim as
cabrochinhas”, de Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, gravada na “marca do
templo” em 21de novembro de 42,lançada um mês antes da folia, me janeiro, disco
12246-A, matriz 7150. “A ribeira do Caxia” é uma “ligeira” de Lauro Maia,
gravação de 29 de junho de 1945, lançada em agosto seguinte sob número
12612-A,matriz 7868. Lançado em 1945 por Manezinho Araújo, o “calango mineiro”
“Dezessete e setecentos”, motivo folclórico adaptado por Luiz Gonzaga e Miguel Lima,
foi regravado pelos Quatro Ases e um Coringa em 18 de abril de 1947, com
lançamento em julho seguinte com o número 12784-B, matriz 8213 (conta errada,
mas sucesso certeiro). As duas últimas faixas são da safra do grupo cearense na
RCA Victor. “Xaxado”, de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil, é gravação de 14 de
maio de 1952, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0938-B, matriz SB-093346,
merecendo logo em seguida registro do próprio Gonzagão. O xaxado é definido
como “primo do baião” e foi divulgado pelo Nordeste do Brasil por Lampião e seu
bando de cangaceiros. O nome da dança é derivado da onomatopeia xa-xa-xa, que
os dançarinos fazem ao arrastar as alpercatas no chão. Por fim,o samba “Boneca
de pano”, de Assis Valente, considerado seu último grande sucesso como
compositor. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram na marca do cachorrinho
Nipper em 10 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano sob
número 80-0693-B, matriz S-092712. E na próxima semana traremos mais gravações
desse notável conjunto cearense. Aguardem!
*Texto de SAMUEL
MACHADO FILHO.
Nenhum comentário:
Postar um comentário