Esta semana, em sua quadragésima-quarta edição, o Grand
Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma seleção de rock (ou
coisa parecida) produzida e digitalizada pelo blog Sintonia Musikal, na pessoa
de seu administrador Chico, um autêntico especialista em resgatar o passado de
nossa música dita “jovem”, e seguidor de carteirinha do TM. Aquele abraço,
Chico!
Permitam-me os amigos cultos, ocultos e associados começar
minha resenha desta primeira parte pela faixa 5. Ela foi justamente o começo, o
pontapé inicial do rock tupiniquim. Estou falando da gravação feita pela
carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, 1922-2003) de “Rock around the
clock”, de Jimmy de Knight e Max C. Freedman. A música era sucesso com Bill
Haley e seus Cometas, e fazia parte do filme “Sementes da violência (The
blackboard jungle)”, da MGM. Em 24 de outubro de 1955, Nora compareceu ao
estúdio da Continental, no Edifício Cineac-Trianon (Avenida Rio Branco, esquina
com Rua Bittencourt da Silva, em frente ao lendário Café Nice) para gravar sua
personalíssima versão deste rock pioneiro, lançada em novembro-dezembro do
mesmo ano com o n.o 17217-A, matriz C-3730. Foi assim que o rock and roll
começou a balançar a juventude brasileira!
No restante do programa que o Chico nos oferece, outras doze
peças raras, curiosas e interessantes do início do rock brasileiro, a chamada
“pré-Jovem Guarda”. Nem mesmo a pianista Carolina Cardoso de Menezes (Rio de
Janeiro, 1916-idem, 1999) resistiu aos encantos do chamado “ritmo alucinante”,
compondo e executando o seu “Brasil rock”, em gravação Odeon de 14 de março de
1957 (14191-B, matriz 11601), lançada em maio daquele ano. Em seguida vem a
faixa mais antiga desta seleção do amigo Chico: uma versão em português de
“Jambalaya (On the bayou)”, clássico country de Hank Williams, assinada pelo
comediante Edair Badaró, então atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record
de São Paulo). Na interpretação, Neyde
Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987), então também atuando na Record.
Gravado pela Odeon em 4 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano
(13527-A, matriz 9873), este é considerado o maior sucesso da cantora. Em
seguida, a versão de Aloysio de Oliveira para “In the mood”, clássico da big
band de Glenn Miller, de Joe Garland e Andy Razaf, interpretada pelo Bando da
Lua, formado e dirigido por Aloysio, com o nome de “Edmundo”. Gravação de 8 de
junho de 1954, feita nos EUA pela Decca (hoje Universal Music), mas só lançada
no Brasil vinte anos mais tarde, no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por
João Luiz Ferrete para a Chantecler, então representante da Decca/MCA. Depois,
o curioso “rock-baião-samba” “Eu sou a tal”, de Murilo Vieira, Edel Ney e
O.Vargas, interpretado por Mara Silva (Isabel Gomes da Silva, Campos, RJ,
n.1930), em gravação lançada pela RGE em dezembro de 1957 (10076-A, matriz
RGO-335). A faixa 6 traz aquele que é considerado o primeiro rock cem por cento
brasileiro, letra e música: “Rock and roll em Copacabana”, assinado por esse
verdadeiro cronista que foi Miguel Gustavo, e gravado na RCA Victor por Cauby
Peixoto em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em maio seguinte (80-1774-A,
matriz 13-H2PB-0043). Temos depois a versão feita pelo radialista Paulo Rogério
para o conhecido mambo-rock “Tequila”, de Chuck Rio, originalmente
instrumental. A gravação coube à carioca Araci Costa (1932-1976) e saiu pela
Continental em setembro-outubro de 1958, com o número 17595-A, matriz C-4123.
“Tequila” era um dos números mais apreciados da orquestra do “bandleader” e
vibrafonista Sylvio Mazzucca (São Paulo, 1929-idem, 2003), que curiosamente vem
aqui com o chá-chá-chá “Cerveza”, de Boots Brown, em gravação lançada pela
Columbia no mesmo ano de 1958 (CB-11079-A, matriz CBO-1767). O cantor Mário
Augusto, criador de hits como “O amor de Terezinha” e “Calcutá”, aqui comparece
com a versão de Fred Jorge para “Claudette”, de Roy Orbison, extraída de seu
segundo disco, o Odeon 14372-B, gravado em 26 de agosto de 1958 e lançado em
setembro do mesmo ano, matriz 12848. “A minha, a sua, a nossa favorita” (como
César de Alencar a anunciava em seu programa na Rádio Nacional) Emilinha Borba
vem aqui com a versão do misterioso A.Bourget para o chá-chá-rock “Patrícia”,
de Pérez Prado, lançada pela Columbia também em 1958 (CB-11070-B, matriz
CBO-1766). Marita Luizi, um daqueles nomes atualmente relegados ao mais
completo esquecimento, apesar de terem tido sua época, aqui comparece com o
calipso “Sonho maluco”, de Elzo Augusto e Miranda, lançado pela Copacabana em
dezembro de 1959 com o n.o 6086-B, matriz M-2590, o segundo de seus três discos
nesse formato. Marita também deixou um LP intitulado “Os grandes momentos”
(Alvorada/Chantecler, 1978), ao que parece coletânea, e participou do álbum
“Cinco estrelas apresentam Inara” (Copacabana, 1958), reunindo músicas de Inara
Simões de Irajá (suas faixas nesse disco são”E ele não vem” e “Boca da noite”).
Outro nome da pré-história de nosso rock and roll, Regina Célia, comparece aqui
com a divertida “Aula de inglês em rock”, de Canarinho e Kid Sax, gravada na Polydor
em 9 de dezembro de 1959 e lançada em janeiro de 60 no 78 rpm n.o 342-B, matriz
POL-3774. Encerrando esta primeira seleção do amigo Chico, Cizinha Moura, que
deixou apenas dois discos 78 com quatro músicas, aqui interpretando, do segundo
e último deles, o Chantecler 78-0134-B, lançado em junho de 1959, o fox
“Brotinho Lili”, de Alberto Roy e Domingos Paulo, matriz C8P-268. Enfim, um
interessante panorama dos primórdios do rock and roll no Brasil, que
continuaremos na próxima semana, sempre agradecendo ao Chico do Sintonia
Musikal pela gentileza de permitir o aproveitamento desta seleção no GRB. Até
lá!
SAMUEL
MACHADO FILHO.