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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

It's Rock 1 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 44 (2012)

Esta semana, em sua quadragésima-quarta edição, o Grand Record Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma seleção de rock (ou coisa parecida) produzida e digitalizada pelo blog Sintonia Musikal, na pessoa de seu administrador Chico, um autêntico especialista em resgatar o passado de nossa música dita “jovem”, e seguidor de carteirinha do TM. Aquele abraço, Chico!
Permitam-me os amigos cultos, ocultos e associados começar minha resenha desta primeira parte pela faixa 5. Ela foi justamente o começo, o pontapé inicial do rock tupiniquim. Estou falando da gravação feita pela carioca Nora Ney (Iracema de Souza Ferreira, 1922-2003) de “Rock around the clock”, de Jimmy de Knight e Max C. Freedman. A música era sucesso com Bill Haley e seus Cometas, e fazia parte do filme “Sementes da violência (The blackboard jungle)”, da MGM. Em 24 de outubro de 1955, Nora compareceu ao estúdio da Continental, no Edifício Cineac-Trianon (Avenida Rio Branco, esquina com Rua Bittencourt da Silva, em frente ao lendário Café Nice) para gravar sua personalíssima versão deste rock pioneiro, lançada em novembro-dezembro do mesmo ano com o n.o 17217-A, matriz C-3730. Foi assim que o rock and roll começou a balançar a juventude brasileira!
No restante do programa que o Chico nos oferece, outras doze peças raras, curiosas e interessantes do início do rock brasileiro, a chamada “pré-Jovem Guarda”. Nem mesmo a pianista Carolina Cardoso de Menezes (Rio de Janeiro, 1916-idem, 1999) resistiu aos encantos do chamado “ritmo alucinante”, compondo e executando o seu “Brasil rock”, em gravação Odeon de 14 de março de 1957 (14191-B, matriz 11601), lançada em maio daquele ano. Em seguida vem a faixa mais antiga desta seleção do amigo Chico: uma versão em português de “Jambalaya (On the bayou)”, clássico country de Hank Williams, assinada pelo comediante Edair Badaró, então atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record de São Paulo). Na  interpretação, Neyde Fraga (São Paulo, 1924-Rio de Janeiro, 1987), então também atuando na Record. Gravado pela Odeon em 4 de setembro de 1953 e lançado em novembro do mesmo ano (13527-A, matriz 9873), este é considerado o maior sucesso da cantora. Em seguida, a versão de Aloysio de Oliveira para “In the mood”, clássico da big band de Glenn Miller, de Joe Garland e Andy Razaf, interpretada pelo Bando da Lua, formado e dirigido por Aloysio, com o nome de “Edmundo”. Gravação de 8 de junho de 1954, feita nos EUA pela Decca (hoje Universal Music), mas só lançada no Brasil vinte anos mais tarde, no LP “Bando da Lua nos EUA”, produzido por João Luiz Ferrete para a Chantecler, então representante da Decca/MCA. Depois, o curioso “rock-baião-samba” “Eu sou a tal”, de Murilo Vieira, Edel Ney e O.Vargas, interpretado por Mara Silva (Isabel Gomes da Silva, Campos, RJ, n.1930), em gravação lançada pela RGE em dezembro de 1957 (10076-A, matriz RGO-335). A faixa 6 traz aquele que é considerado o primeiro rock cem por cento brasileiro, letra e música: “Rock and roll em Copacabana”, assinado por esse verdadeiro cronista que foi Miguel Gustavo, e gravado na RCA Victor por Cauby Peixoto em 30 de janeiro de 1957, com lançamento em maio seguinte (80-1774-A, matriz 13-H2PB-0043). Temos depois a versão feita pelo radialista Paulo Rogério para o conhecido mambo-rock “Tequila”, de Chuck Rio, originalmente instrumental. A gravação coube à carioca Araci Costa (1932-1976) e saiu pela Continental em setembro-outubro de 1958, com o número 17595-A, matriz C-4123. “Tequila” era um dos números mais apreciados da orquestra do “bandleader” e vibrafonista Sylvio Mazzucca (São Paulo, 1929-idem, 2003), que curiosamente vem aqui com o chá-chá-chá “Cerveza”, de Boots Brown, em gravação lançada pela Columbia no mesmo ano de 1958 (CB-11079-A, matriz CBO-1767). O cantor Mário Augusto, criador de hits como “O amor de Terezinha” e “Calcutá”, aqui comparece com a versão de Fred Jorge para “Claudette”, de Roy Orbison, extraída de seu segundo disco, o Odeon 14372-B, gravado em 26 de agosto de 1958 e lançado em setembro do mesmo ano, matriz 12848. “A minha, a sua, a nossa favorita” (como César de Alencar a anunciava em seu programa na Rádio Nacional) Emilinha Borba vem aqui com a versão do misterioso A.Bourget para o chá-chá-rock “Patrícia”, de Pérez Prado, lançada pela Columbia também em 1958 (CB-11070-B, matriz CBO-1766). Marita Luizi, um daqueles nomes atualmente relegados ao mais completo esquecimento, apesar de terem tido sua época, aqui comparece com o calipso “Sonho maluco”, de Elzo Augusto e Miranda, lançado pela Copacabana em dezembro de 1959 com o n.o 6086-B, matriz M-2590, o segundo de seus três discos nesse formato. Marita também deixou um LP intitulado “Os grandes momentos” (Alvorada/Chantecler, 1978), ao que parece coletânea, e participou do álbum “Cinco estrelas apresentam Inara” (Copacabana, 1958), reunindo músicas de Inara Simões de Irajá (suas faixas nesse disco são”E ele não vem” e “Boca da noite”). Outro nome da pré-história de nosso rock and roll, Regina Célia, comparece aqui com a divertida “Aula de inglês em rock”, de Canarinho e Kid Sax, gravada na Polydor em 9 de dezembro de 1959 e lançada em janeiro de 60 no 78 rpm n.o 342-B, matriz POL-3774. Encerrando esta primeira seleção do amigo Chico, Cizinha Moura, que deixou apenas dois discos 78 com quatro músicas, aqui interpretando, do segundo e último deles, o Chantecler 78-0134-B, lançado em junho de 1959, o fox “Brotinho Lili”, de Alberto Roy e Domingos Paulo, matriz C8P-268. Enfim, um interessante panorama dos primórdios do rock and roll no Brasil, que continuaremos na próxima semana, sempre agradecendo ao Chico do Sintonia Musikal pela gentileza de permitir o aproveitamento desta seleção no GRB. Até lá!

SAMUEL MACHADO FILHO.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Instrumental - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 35 (2012)

Chegamos à trigésima-quinta edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Nesta semana, apresentamos mais uma seleção do melhor do “easy listening” tupiniquim, ou seja, a nossa música instrumental.
Para começar, apresentamos raridades executadas por um violonista que deixou sua marca na história de nossa música popular: Américo Jacomino, o Canhoto (São Paulo, 1889-idem, 1928). Filho de imigrantes napolitanos, ele foi um dos responsáveis pelo “enobrecimento” do violão, antes considerado um instrumento de menor importância, dizia-se até que só marginais faziam uso do mesmo. Tocava com a mão esquerda, daí o apelido de Canhoto. Sua peça mais conhecida, a valsa “Abismo de rosas”, foi por ele gravada pela primeira vez em 1916, com o nome “Acordes do violão”, recebendo o nome que a consagrou em 1925, numa execução bem mais lenta e elaborada. Canhoto morreu prematuramente, aos 39 anos de idade, por problemas cardíacos. Aqui, duas autênticas preciosidades da fase mecânica de gravação, ambas valsas, gravadas entre os dias 16 e 26 de junho de 1913 pela lendária Casa Edison, selo Odeon, e de autor desconhecido: “Adeus, Helena”, com o grupo do violonista, número 120600, e “Lágrimas de amor”, com Canhoto integrando o Grupo dos Chorosos, disco 120624, matriz SP.36. Esses dois registros fizeram parte da primeira série de gravações paulistas da Casa Edison, que teve um total de 82 matrizes!
Instrumentista, cantor, compositor e maestro, o carioca João Thomaz de Oliveira, aliás J. Thomaz (c.1900-ant.1964) costumava reger suas orquestras de luvas brancas, isso porque, quando ele era baterista, queimou as mãos ao soltar um foguete numa festa de São João. E nada sabia de música! Dele apresentamos o disco Victor 33460, gravado em 28 de julho de 1931 e lançado em setembro do mesmo ano, com dois maxixes. Abrindo-o, a matriz 65203 apresenta  “Levanta, meu nêgo”, de autoria do mestre Pixinguinha. No verso, matriz 65202, uma composição do próprio J. Thomaz em parceria com Sátiro de Melo, “Vê se pode”.
A carioca Carolina Cardoso de Menezes (1916-1999) fazia parte de um clã de ilustres pianeiros, sendo filha de Oswaldo Cardoso de Menezes e da dona Sinhá, que também tocavam, é claro. Carolina começou a estudar piano aos 13 anos, e chegou a ter aulas até mesmo com Chiquinha Gonzaga. Mesmo com idade avançada e problemas de saúde, apresentou-se em recitais até falecer, em 31 de dezembro de 1999. Aqui, Carolina, acompanhada de grupo rítmico, nos brinda com sua arte tão pianística e brasileira com as faixas do disco Odeon 13611, gravado em 20 de outubro de 1953 e lançado em março de 54. No lado A, matriz 9938, o choro “Uma farra em Campo Grande”, de autoria de outro pianista de renome, Romualdo Peixoto, o Nonô, tio dos cantores Cauby Peixoto e Ciro Monteiro, e por ele próprio lançado em 1932. No verso, matriz 9939, um baião de autoria dela própria, “Vem cá, meu amor”.
O paraguaio Luiz Bordón (1926-2006) recebeu incentivo de seus pais desde a infância para dedicar-se à música. Com sua harpa, fez apresentações no Paraguai e no Brasil (onde residiu por vários anos), e seu álbum mais famoso é “A harpa e a cristandade”, com músicas de Natal, editado em 1960 e que mereceu um segundo volume cinco anos depois. Residiu por três anos nos EUA e voltou ao Paraguai, onde morreu aos 80 anos. Aqui, apresentamos o disco Chantecler 78-0238, lançado em março de 1960, que abre com o clássico “Baião de dois” (o arroz com feijão no Ceará), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, matriz C8P-475, originalmente lançado por Emilinha Borba em 1950. No lado B, matriz C8P-476: uma versão, em ritmo de tango, da marchinha “Me dá um dinheiro aí”, dos irmãos, Homero, Ivan e Glauco Ferreira, hit do carnaval daquele ano na voz de Moacyr Franco, e inspirada no mendigo por ele interpretado na “Praça da Alegria”, na TV. Ambas as gravações também chegaram ao LP, afinal era uma época de transição de formatos: “Baião de dois” saiu em “Harpa paraguaia em hi-fi – volume 3”, e “Me dá um dinheiro aí” em “Recordando carnavais”.
Um dos maiores ‘bandleaders’ brasileiros, o paulistano Sylvio Mazzuca (1919-2003) também foi pianista e exímio executante de vibrafone. Sua orquestra, nos anos 1950/60, era a mais solicitada para animar bailes e festas em São Paulo, além de também se exibir em bailes de formatura no Rio de Janeiro. Continuou atuando até meados dos anos 1990, viajando pelo país a bordo de um ônibus especialmente adaptado. De Mazzuca e sua prestigiadíssima orquestra apresentamos o disco Copacabana 5145, lançado em agosto-setembro de 1953. De um lado, o fox-slow “Limelight”, matriz M-554, composição de Charles Chaplin incluída em seu filme de mesmo nome, o famoso “Luzes da ribalta” no Brasil (só foi lançado nos EUA em 1972, pois Chaplin estava incluído na lista negra do macartismo). No verso, matriz M-555, um choro do próprio Mazzuca, “Travesso”.
Para terminar, apresentamos dois clássicos do mestre Zequinha de Abreu (Santa Rita do Passa Quatro, SP, 1880-São Paulo, 1935), executados pela Orquestra Colbaz, com piano e regência do maestro Gaó (Odmar Amaral Gurgel, 1909-1994), paulista de Salto. Os demais integrantes eram Jonas Aragão (clarineta), Zé Carioca (violino), Petit (violão), José Rielli (acordeão) e Atílio Grany (flauta).  Colbaz era o endereço telegráfico da gravadora Columbia do Brasil, que lançou esse disco em junho-julho de 1931 com o número 22029. Abrindo-o, matriz 381027, a bela valsa “Branca”, que Zequinha compôs em homenagem à filha do chefe da estação ferroviária de Santa Rita, então com 13 anos de idade, e a quem muito admirava, “a gentil senhorita Branca Barreto”, nome dado inclusive a pedido do chefe da estação, muito amigo do compositor. O verso, matriz 381028, é o famoso “choro sapeca” “Tico-tico no fubá”, mundialmente conhecido e gravado inúmeras vezes. Foi composto em 1917 como “Tico-tico no farelo”, e lançado por Zequinha durante um baile animado por sua orquestra. Mas já havia outra música com esse nome, daí o farelo ter sido trocado pelo fubá. Esse disco permaneceria em catálogo por vários anos, e teve outras edições: pela mesma Columbia, com o número 55038, e pela Continental, com o número 15004. E encerra a edição desta semana do GRB, que certamente proporcionará momentos muito agradáveis de recordação e enlevo. Aproveite!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO