Chegamos à trigésima-quinta edição do meu, do seu, do nosso
Grand Record Brazil. Nesta semana, apresentamos mais uma seleção do melhor do
“easy listening” tupiniquim, ou seja, a nossa música instrumental.
Para começar, apresentamos raridades executadas por um
violonista que deixou sua marca na história de nossa música popular: Américo
Jacomino, o Canhoto (São Paulo, 1889-idem, 1928). Filho de imigrantes
napolitanos, ele foi um dos responsáveis pelo “enobrecimento” do violão, antes
considerado um instrumento de menor importância, dizia-se até que só marginais
faziam uso do mesmo. Tocava com a mão esquerda, daí o apelido de Canhoto. Sua
peça mais conhecida, a valsa “Abismo de rosas”, foi por ele gravada pela
primeira vez em 1916, com o nome “Acordes do violão”, recebendo o nome que a
consagrou em 1925, numa execução bem mais lenta e elaborada. Canhoto morreu
prematuramente, aos 39 anos de idade, por problemas cardíacos. Aqui, duas
autênticas preciosidades da fase mecânica de gravação, ambas valsas, gravadas entre
os dias 16 e 26 de junho de 1913 pela lendária Casa Edison, selo Odeon, e de
autor desconhecido: “Adeus, Helena”, com o grupo do violonista, número 120600,
e “Lágrimas de amor”, com Canhoto integrando o Grupo dos Chorosos, disco
120624, matriz SP.36. Esses dois registros fizeram parte da primeira série de
gravações paulistas da Casa Edison, que teve um total de 82 matrizes!
Instrumentista, cantor, compositor e maestro, o carioca João
Thomaz de Oliveira, aliás J. Thomaz (c.1900-ant.1964) costumava reger suas
orquestras de luvas brancas, isso porque, quando ele era baterista, queimou as
mãos ao soltar um foguete numa festa de São João. E nada sabia de música! Dele
apresentamos o disco Victor 33460, gravado em 28 de julho de 1931 e lançado em
setembro do mesmo ano, com dois maxixes. Abrindo-o, a matriz 65203
apresenta “Levanta, meu nêgo”, de
autoria do mestre Pixinguinha. No verso, matriz 65202, uma composição do
próprio J. Thomaz em parceria com Sátiro de Melo, “Vê se pode”.
A carioca Carolina Cardoso de Menezes (1916-1999) fazia
parte de um clã de ilustres pianeiros, sendo filha de Oswaldo Cardoso de
Menezes e da dona Sinhá, que também tocavam, é claro. Carolina começou a
estudar piano aos 13 anos, e chegou a ter aulas até mesmo com Chiquinha
Gonzaga. Mesmo com idade avançada e problemas de saúde, apresentou-se em
recitais até falecer, em 31 de dezembro de 1999. Aqui, Carolina, acompanhada de
grupo rítmico, nos brinda com sua arte tão pianística e brasileira com as
faixas do disco Odeon 13611, gravado em 20 de outubro de 1953 e lançado em
março de 54. No lado A, matriz 9938, o choro “Uma farra em Campo Grande”, de
autoria de outro pianista de renome, Romualdo Peixoto, o Nonô, tio dos cantores
Cauby Peixoto e Ciro Monteiro, e por ele próprio lançado em 1932. No verso,
matriz 9939, um baião de autoria dela própria, “Vem cá, meu amor”.
O paraguaio Luiz Bordón (1926-2006) recebeu incentivo de
seus pais desde a infância para dedicar-se à música. Com sua harpa, fez
apresentações no Paraguai e no Brasil (onde residiu por vários anos), e seu
álbum mais famoso é “A harpa e a cristandade”, com músicas de Natal, editado em
1960 e que mereceu um segundo volume cinco anos depois. Residiu por três anos
nos EUA e voltou ao Paraguai, onde morreu aos 80 anos. Aqui, apresentamos o
disco Chantecler 78-0238, lançado em março de 1960, que abre com o clássico
“Baião de dois” (o arroz com feijão no Ceará), de Luiz Gonzaga e Humberto
Teixeira, matriz C8P-475, originalmente lançado por Emilinha Borba em 1950. No
lado B, matriz C8P-476: uma versão, em ritmo de tango, da marchinha “Me dá um
dinheiro aí”, dos irmãos, Homero, Ivan e Glauco Ferreira, hit do carnaval
daquele ano na voz de Moacyr Franco, e inspirada no mendigo por ele
interpretado na “Praça da Alegria”, na TV. Ambas as gravações também chegaram
ao LP, afinal era uma época de transição de formatos: “Baião de dois” saiu em
“Harpa paraguaia em hi-fi – volume 3”, e “Me dá um dinheiro aí” em “Recordando
carnavais”.
Um dos maiores ‘bandleaders’ brasileiros, o paulistano
Sylvio Mazzuca (1919-2003) também foi pianista e exímio executante de
vibrafone. Sua orquestra, nos anos 1950/60, era a mais solicitada para animar
bailes e festas em São Paulo, além de também se exibir em bailes de formatura
no Rio de Janeiro. Continuou atuando até meados dos anos 1990, viajando pelo
país a bordo de um ônibus especialmente adaptado. De Mazzuca e sua
prestigiadíssima orquestra apresentamos o disco Copacabana 5145, lançado em
agosto-setembro de 1953. De um lado, o fox-slow “Limelight”, matriz M-554, composição
de Charles Chaplin incluída em seu filme de mesmo nome, o famoso “Luzes da
ribalta” no Brasil (só foi lançado nos EUA em 1972, pois Chaplin estava
incluído na lista negra do macartismo). No verso, matriz M-555, um choro do
próprio Mazzuca, “Travesso”.
Para terminar, apresentamos dois clássicos do mestre
Zequinha de Abreu (Santa Rita do Passa Quatro, SP, 1880-São Paulo, 1935),
executados pela Orquestra Colbaz, com piano e regência do maestro Gaó (Odmar
Amaral Gurgel, 1909-1994), paulista de Salto. Os demais integrantes eram Jonas
Aragão (clarineta), Zé Carioca (violino), Petit (violão), José Rielli
(acordeão) e Atílio Grany (flauta).
Colbaz era o endereço telegráfico da gravadora Columbia do Brasil, que
lançou esse disco em junho-julho de 1931 com o número 22029. Abrindo-o, matriz
381027, a bela valsa “Branca”, que Zequinha compôs em homenagem à filha do
chefe da estação ferroviária de Santa Rita, então com 13 anos de idade, e a
quem muito admirava, “a gentil senhorita Branca Barreto”, nome dado inclusive a
pedido do chefe da estação, muito amigo do compositor. O verso, matriz 381028,
é o famoso “choro sapeca” “Tico-tico no fubá”, mundialmente conhecido e gravado
inúmeras vezes. Foi composto em 1917 como “Tico-tico no farelo”, e lançado por
Zequinha durante um baile animado por sua orquestra. Mas já havia outra música
com esse nome, daí o farelo ter sido trocado pelo fubá. Esse disco permaneceria
em catálogo por vários anos, e teve outras edições: pela mesma Columbia, com o
número 55038, e pela Continental, com o número 15004. E encerra a edição desta
semana do GRB, que certamente proporcionará momentos muito agradáveis de
recordação e enlevo. Aproveite!
TEXTO
DE SAMUEL MACHADO FILHO.