As vozes femininas sempre têm lugar reservado no Grand
Record Brazil. E nesta quadragésima edição não poderia ser diferente, posto que
temos mais uma compilação dedicada às cantoras, com 14 faixas.
Relembramos, mais uma vez, para começar, Aracy Cortes (Zilda
de Carvalho Espíndola), nascida (31/3/1904) e falecida (8/1/1985) no Rio de
Janeiro, filha de um “chorão”, Carlos Espíndola, e que morou até os 12 anos no
bairro do Catumbi, onde teve um ilustre vizinho: nada mais menos que
Pixinguinha. Foi Luiz Peixoto quem a descobriu, quando ela se apresentava no
Circo Democrata interpretando e dançando maxixes, e seu nome artístico lhe foi
dado por Mário Magalhães, crítico teatral do jornal “A Noite”. Sua estreia em
teatro deu-se em 1921, na revista “Nós, pelas costas”. Em disco, suas primeiras
gravações saíram em 1925, ainda no processo mecânico. Entre os anos 1950/60
afastou-se do meio artístico, voltando em 1965 no histórico show “Rosa de
ouro”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho e Kleber Santos, onde também atuavam
Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Aracy aqui comparece com três
ótimas faixas: “Você não era assim”, samba de Ary Barroso e Aricles França,
lançado pela Odeon em junho de 1930 (10619-A, matriz 3592), mais os clássicos
“Jura”, samba de Sinhô que ela mesma lançou na revista “Microlândia” (Parlophon
12868-A, lançado em novembro de 1928, matriz 2071) e “Iaiá”, que ficou mais
conhecido como “Ai, Ioiô”, e é considerado o primeiro samba-canção brasileiro
(Parlophon 12926-A, lançado em março de 1929, matriz 2366). Com música de
Henrique Vogeler, teve antes duas letras: por Cândido Costa (“Linda flor”) e
Freire Júnior (“Meiga flor”), mas a que pegou mesmo foi esta, assinada pelo
descobridor de Aracy, Luiz Peixoto, e Marques Porto, e que ela também cantou na
revista “Miss Brasil”. Nas três faixas, a cantora é acompanhada pela orquestra
do palestino Simon Bountman, que tinha diversos nomes: Pan American,
Copacabana, Simão Nacional Orquestra,
Orquestra Parlophon, todas na verdade a mesmíssima orquestra. Quando
gravava na Columbia, aparecia nos selos como “Simão e sua Orquestra Columbia”.
Elisa de Carvalho Coelho (Uruguaiana, RS, 1909-Volta
Redonda, RJ, 2001) era filha de um tenente do Exército e da jornalista e
escritora Acy Carvalho, que redigia a seção feminina de “O Jornal”, matutino
carioca. Passou a infância e a adolescência em Florianópolis, considerando-se
por isso catarinense. Ao voltar para o Rio, cantava acompanhando-se ao piano em
reuniões familiares nas quais compareciam jornalistas e poetas, amigos de seu
pai. Numa dessas reuniões, em 1929, foi convidada pelo diretor da Rádio Clube
do Brasil, um coronel amigo de seu pai, para apresentar-se lá, e agradou logo
de saída. Excursionou pela Bahia e pelo restante do Nordeste em 1930, ao lado do
compositor Hekel Tavares, passando a interpretar composições suas. Em 1935-36
esteve por duas vezes na Argentina e no Uruguai, e atuou no rádio até o final
dos anos 1940. Era mãe do jornalista e apresentador de TV Goulart de Andrade,
aquele do bordão “Vem comigo”, e sua discografia, gravada entre 1930 e 1934,
compreende 15 discos com 30 músicas. Desse repertório, o GRB apresenta duas
gravações Victor: o samba-canção “Tenho saudade”, de Ary Barroso (disco
33480-A, gravado em 14 de julho de 1931 e lançado em novembro do mesmo ano,
matriz 65195), e a toada “Ciúme de caboca” (no mais puro caipirês), de Josué de Barros, descobridor de Cármen
Miranda, e Domingos Mangarinos, gravação de 11 de junho de 1930, porém só lançada
em agosto de 31 (disco 33444-A, matriz 50308).
Por falar na
luso-brasileira Cármen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha, Marco de
Canavezes, Portugal, 1909-Los Angeles, EUA, 1955, ela aqui comparece com outra
composição de Ary Barroso, o samba “Nosso amô veio dum sonho”, gravação Victor
de 10 de março de 1932 lançada a toque de caixa (disco 33537-A, matriz 65404).
Na verdade, já tinha sido gravada como canção por Gastão Formenti, em 1930,
como canção e o nome de “Teus óio”, tendo sido a primeira composição do mestre
de Ubá, feita quando ele tinha seus quinze anos, com o título “De longe”. O
estribilho e a melodia são iguais, mas a segunda parte é diferente.
Olga Praguer Coelho (Manaus, AM, 1909-Rio de Janeiro, 2008),
pertencente à gloriosa dinastia das cantoras-folcloristas, e com vitoriosa
carreira internacional, comparece aqui com três faixas gravadas na Victor: o
ponto de macumba “Estrela do céu”, por ela própria adaptado (disco 34325-B,
gravado em 30 de julho de 36 mas só lançado em junho de 38, matriz 80182), a
modinha “Mulata”, também chamada de “Mucama” ou “Mestiça”, versos de Gonçalves
Crespo e autor da melodia desconhecido (lado A desse mesmo disco, gravado em 22
de abril de 1936, matriz 80137) e a modinha “Róseas flores”, adaptação da
própria Olga (disco 34042-A, gravado em 29 de novembro de 1935 e só lançado em
abril de 36, matriz 80024).
Laís Marival, paulista de Taquaritinga (1911-?), deixou uma discografia escassa: apenas 7
discos com 14 músicas, todos pela Columbia, futura Continental, entre 1936 e
1938. Dela, aqui está uma música de seu segundo disco, o de número 8210-B,
matriz 3314, de 1936: é o samba “Cada um dá o que tem”, de autoria de Raul
Torres, grande expoente da chamada música caipira ou sertaneja de raiz, mas que
também era de samba.
Autêntica “garota de Ipanema” por sua origem (foi eleita
miss desse bairro em 1929), a carioquíssima Laura Suárez (1909-c.1990), também
atriz de teatro (no qual atuou por mais de meio século) e cinema, só gravou na
Brunswick, selo americano que durou menos de dois anos no Brasil:13 discos com
26 músicas: em 1930/31, inclusive com músicas de autoria própria. E é dela
mesma o samba que apresentamos aqui, “Você... você”, lançado em setembro de
1930 com o número 10103-A, matriz 500.
Outra cantora-folclorista de carreira internacional, a também
carioca Elsie Houston, aqui se apresenta com o samba “Morena cor de canela”,
motivo popular adaptado por Ary Kerner (autor também de “Na Serra da
Mantiqueira” e “Trepa no coqueiro”, entre outras), em gravação lançada pela
Columbia em junho de 1930 sob número 5217-A, matriz 380649. Um mês depois saiu
pela Victor o registro de Helena Pinto de Carvalho, sendo o original do cantor
Sílvio Salema, um ano antes. A morte prematura de Elsie Houston, aos 40 anos,
ainda é um mistério: ela foi encontrada morta em seu apartamento em Nova York,
EUA, no dia 20 de fevereiro de 1943, e ainda hoje existem dúvidas se foi
suicídio ou assassinato.
A respeito da cantora Neide Martins, quase nada se sabe. Sua
escassa discografia compreende seis discos com doze músicas, entre 1937 e 1939,
nos selos Victor (dois), Odeon (três) e Columbia (o último). Aqui, um
frevo-canção de seu disco de estreia, o Victor 34142-A, gravado em 10 de
dezembro de 1936 e lançado em janeiro de 37, matriz 80293: “Que fim você
levou?”, do mestre Nélson Ferreira.
Encerrando esta edição, apresentamos a carioca Zezé Fonseca
(Maria José González). Nascida em 5 de agosto de 1915, começou sua carreira na
“Hora da arte”, do Tijuca Tênis Clube. Em 1932, levada por Paulo Bevilacqua,
foi contratada pela Rádio Philips, PRAX, onde apresentava o programa “Fox tarde
demais”, depois atuando como produtora de programas femininos na Rádio Cruzeiro
do Sul. Integrou a companhia teatral de Procópio Ferreira, atuando com sucesso
na peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo. Abandonou o rádio em 1935, nele
reingressando em 1939, através da lendária Rádio Nacional, onde trabalhou por
seis anos. Em 1945 foi para a Rádio El Mundo, de Buenos Aires (Argentina),
transferindo-se um ano depois, ao voltar ao Rio, para a Globo, passando pela
Mayrink Veiga e depois retornando à Nacional, sendo uma das pioneiras da
radionovela no Brasil, e uma das melhores atrizes do gênero.. Ficou famosa, a
partir de 1942, por manter um tórrido romance com Orlando Silva, cujos altos e
baixos causaram sério desequilíbrio emocional no “cantor das multidões”, que se
viciou em morfina e afastou-se do meio artístico por alguns anos. Deixou, como
cantora, entre 1933 e 1940, sete discos com catorze musicas, os cinco primeiros
pela Columbia e os dois últimos pela Victor. Aqui, de seu quarto disco, o
Columbia 22224-B, matriz 381502, apresentamos a marchinha “Casar não é pra
mim”, de Alberto Ribeiro, lançada para o carnaval de 1933. Zezé Fonseca morreu
de forma trágica, em 16 de agosto de 1962, aos 47 anos, durante um incêndio em
seu apartamento no Rio.
Enfim, mais uma edição do GRB que por certo ocupará lugar de
destaque no acervo de nossos amigos cultos, ocultos e associados!