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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dick Farney - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 102 (2014)



Prosseguindo sua longa e auspiciosa trajetória de sucesso, o Grand Record Brazil, “braço de cera” do Toque Musical, chega à sua centésima-segunda edição reverenciando mais um grande nome de nossa música popular, criador de páginas inesquecíveis de nosso cancioneiro e autêntico precursor da bossa nova. Estamos falando de Dick Farney.  Farnésio Dutra e Silva (seu nome de batismo) nasceu no Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1921. Oriundo de família rica, teve apenas um irmão, Cyleno, que viria a ser famoso galã do cinema tupiniquim com o nome de Cyll Farney e chegou a tocar bateria nos primeiros conjuntos do jovem Dick. Seus pais cultivavam a música clássica: o pai era pianista, e a mãe cantava. Dick faria o curso de teoria musical na Escola Nacional de Música, e estudaria canto com Diva Pasternack. Essa formação clássica não o impediria de se passar para o piano jazzístico, já que sempre foi um apaixonado pela música norte-americana, com influências especialmente do piano de Nat King Cole e da voz de Bing Crosby. Em 1934, com 12 anos, o pré-adolescente Dick se apresentou na Rádio Guanabara, executando o “Prelúdio n.o 7” de Chopin. Em 1936, no programa “Picolino”, de Barbosa Júnior, tocou a “Dança ritual do fogo”, de Manuel  de  Falla, e a “Canção da Índia”,  de Korsacov. Um ano depois, estreia como cantor, na  Rádio Cruzeiro do Sul, interpretando “Deep purple”, de  David Rose. Em 1938, foi até a Rádio Mayrink Veiga, levando um disco seu particular, ouvido por César Ladeira, então diretor artístico da emissora (ele pensou que estava ouvindo Bing Crosby, tal a semelhança vocal). A coisa, claro, resultou em contrato, de quatrocentos mil-réis por mês, e um programa exclusivo, “Dick Farney, a voz e o piano” . Dois anos mais tarde, transferiu-se para a poderosa e lendária PRE-8, Rádio Nacional. Entre 1941 e 1944, Dick também se integrou à orquestra de Carlos Machado, no Cassino da Urca, como pianista e cantor. Ainda em 44, gravou seu primeiro disco, pela Continental, com músicas norte-americanas, ao qual seguiram-se mais quatro em inglês. Seu primeiro disco com música brasileira, o sexto, só viria agosto de 1946, com o clássico “Copacabana” (nesta seleção), pontapé inicial para inúmeros outros hits, entre os quais estão “Ponto final”,”A saudade mata a gente”, “Marina”, “Somos dois”, “Um cantinho e você”, “Alguém como tu”, “A fonte e o teu nome’, “Grande verdade”, “Este seu olhar”, “Perdido de amor”, “Tereza da praia” (dueto com Lúcio Alves), “Você” (dueto com Norma Bengell) e os presentes nesta edição do GRB, muitos dos quais regravados por ele mesmo inúmeras vezes. Em fins de 1946, após um encontro com o maestro Bill Hitchcock e o pianista Eddie Duchin no Copacabana Palace Hotel, Dick Farney embarca para os EUA, onde permanece por dois meses, visando conhecer o ambiente musical  de lá e travar amizade com vários artistas, seus ídolos. Quase em seguida, meados de 1947, volta à terra do Tio Sam, preso a um contrato de 56 semanas com os cigarros Philip Morris, então patrocinador de programas da NBC (National Broadcasting Company), entre eles o do prestigiado comediante Milton Berle, no qual atua como intérprete fixo. Nessa ocasião, Dick Farney grava alguns discos na Majestic, vindo a ser o criador de um clássico norte-americano, o  fox “Tenderly”, de Jack Lawrence e Walter Gross. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, já um astro, Dick assina vultoso contrato com a PRG-3, Rádio Tupi (“o cacique do ar”), recebendo a soma de trinta mil cruzeiros por mês! Em 1948, admiradores do jazz norte-americano fundaram o Sinatra-Farney Fã Clube, histórico reduto pré-bossanovista, tendo entre seus frequentadores ilustres o compositor e pianista João Donato, e a cantora Nara Leão. Dick atuou também no cinema, participando dos filmes  “Somos dois” (Cinédia, 1950), no qual contracenava e cantava, mas que não lhe deixaria boas lembranças, “Carnaval Atlântida” (1952) e “Perdidos de amor” (Cinelândia Filmes, 1953). O currículo internacional de Dick Farney inclui também a Argentina, onde esteve duas vezes, em 1949 e 1951, atuando na Rádio El Mundo e na Boate Embassy de Buenos Aires, sendo conhecido pelos portenhos como “el Bing Crosby brasileño”. Em 1956/58 retorna a Nova York, EUA, a fim de se apresentar no Hotel Waldorf Astoria. Durante seis meses, ainda se apresentou  em Cuba, República Dominicana e Porto Rico. Nos anos seguintes, continua somando mais e mais admiradores, com uma discografia de mais de vinte LPs, e apresentações principalmente na noite, chegando até a ser dono de casas noturnas, a Farney’s e a Farney’s Inn, ambas em São Paulo, cidade para a qual se muda em 1959. Nessa época, apresenta o programa “Dick Farney show”, na TV Record, e mais tarde constrói uma bela casa nas cercanias da Represa Billings, projetada por ele mesmo e sua terceira mulher.  É também um dos pioneiros da TV Globo do Rio de Janeiro, inaugurada em 1965, apresentando, ao lado da atriz Betty Faria, o programa ‘Dick e Betty”. Por volta de 1979, Dick Farney deixa de atuar na noite, por achar que o público não era mais o mesmo, porém continuando a gravar e a se apresentar em ocasiões especiais, como em 1981, no Ópera Cabaré, em São Paulo,numa noite recebendo seu amigo Lúcio Alves, com quem gravara, em 1954, o clássico “Tereza da praia”, de Tom Jobim e Billy Blanco. Por essa época, já se dedicava à pintura, uma antiga paixão que finalmente podia desenvolver, e com talento. Dick Farney morreu no dia 4 de agosto de 1987, em São Paulo, aos 65 anos, de edema pulmonar. Deixou, porém, um invejável legado musical. Dele, o GRB foi buscar 14 gravações de seus primeiros anos de carreira, todas feitas na Continental, sua primeira gravadora.  Abrindo a seleção desta semana, temos o fox “What’s new?”, de Bob Haggart e Johnny Burke, de seu segundo disco, número 15186-A, lançado em agosto de 1944, matriz 819, grande hit na voz de Farney entre nós. Do primeiro disco, n.o 15180, lançado em junho do mesmo ano, foi escalado outro fox, também lado A, “The music stopped”, de Harold Adamson e Jimmy McHugh, matriz 839. A faixa 3, já com música brasileira, é o samba-canção “Ela foi embora”, do organista Djalma Ferreira em parceria com Oscar Belandi, lançado pela então “marca dos sininhos” em setembro de 1946, matriz 1543. Na faixa 4, o clássico que abriu definitivamente as portas do sucesso para Dick Farney: “Copacabana”, de João de Barro (Braguinha) e Alberto Ribeiro, gravado em 2 de junho de 46 e lançado em agosto do mesmo ano com o número 15663-A, matriz 1509. O samba tinha sido feito sob encomenda para um filme norte-americano de mesmo nome,mas acabou não entrando no mesmo. Claro que os puristas consideraram a interpretação de Dick Farney por demais americanizada, calcada em Bing Crosby, mas a interpretação e o acompanhamento, feito por orquestra de cordas, com regência de Eduardo Patané, passaram a se constituir modelo de sofisticação para nossa música popular. “Foi e não voltou”, de Oscar Belandi e Chuca-Chuca, é outro samba-canção típico dessa época, que Dick Farney gravou acompanhando-se ao piano em 19 de abril de 1947, com lançamento em junho seguinte sob número 15783-B, matriz 1655. O que ocorre também na faixa seguinte, “Esquece”, de autoria do cantor Gilberto Milfont, sendo que desta vez Dick está acompanhado de Betinho (Alberto Borges de Barros, autor e intérprete de “Enrolando o rock” e do fox “Neurastênico”, entre outras) e Juvenal. Também samba-canção, gravado em 29 de maio de 1948 e lançado entre julho e setembro do mesmo ano, disco 15927-A, matriz 1869. “Meu Rio de Janeiro”, uma das muitas homenagens musicais já prestadas  à “cidade maravilhosa” e então capital do Brasil, é um samba de Oscar Belandi e Nélson Trigueiro, em registro feito na mesma sessão de “Esquece” e editado pela Continental  no mesmíssimo suplemento, sob número 15917-A, matriz 1867. A 24 de maio desse mesmo ano de 1948, Dick grava o samba-canção “Ser ou não ser”, de José Maria de Abreu (também regente da orquestra que o acompanha) e Alberto Ribeiro, outra expressiva página de seu repertório, que a Continental lançará também entre julho e setembro desse ano, com o número 15916-A,matriz 1858. Cinco dias depois, na mesmíssima sessão de “Meu Rio de Janeiro” e “Esquece”, Dick imortaliza o samba “Olhos tentadores”, de Oscar Belandi e  Chico Silva, matriz 1868, mas que a Continental só traz para as lojas em março-abril de 1949, com o número 16008-B. Entre julho e setembro desse mesmo ano de 49, é lançado pela “marca dos sininhos” outro clássico do samba-canção (então predominante nessa época pré-bossa nova, como percebem), “Sempre teu”, da festejada dupla José Maria de Abreu-Jair Amorim, com o número 16083-B, matriz 2099. Para os festejos natalinos desse 1949, entre outubro e dezembro, Dick Farney lança uma canção muito apropriadamente chamada “Feliz Natal” (mais conhecida como “Noite azul”, primeiro verso da letra),um dos inúmeros hits da dupla Klécius Caldas-Armando Cavalcanti, com o número 16123-A,matriz 2173, que a Continental relançará em 1955 sob número 17230-B. Do multi-instrumentista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), verdadeiro mágico das cordas, é o samba-canção seguinte, parceria com José Vasconcelos (seria o humorista?), “Nick Bar” (também  nome de peça teatral e de um bar de São Paulo, então instalado na  Rua Major Diogo, ao lado do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, onde os artistas que lá se apresentavam sempre apareciam para tomar um drinque após as funções). O próprio Garoto está no acompanhamento deste registro de Farney, ao lado de Vero (Radamés Gnattali), Vidal e Trinca, com lançamento pela Continental entre outubro e dezembro de 1951, disco 16479-B, matriz 2718. “Ranchinho de palha”, samba romântico, igualmente tendendo para o samba-canção, é de outro violonista e compositor de renome, Luiz Bonfá, e Dick Farney o imortalizou na Continental em 27 de março de 1951, com lançamento em maio-junho seguintes, sob n.o 16412-A, matriz 2596. Para finalizar, uma gravação feita por Dick em Buenos Aires, capital da Argentina, nos estúdios da TK, gravadora que então representava a Continental naquele país (e que a empresa brazuca, por tabela, representava aqui). É outro samba-canção de Luiz Bonfá, “Sem esse céu”, lançado no Brasil entre setembro e dezembro de 1952 com o número 16659-A, matriz IB-260/52, tendo no acompanhamento o organista Jorge Kenny. Enfim, um pouco do vasto e expressivo legado de Dick Farney, com justiça um dos imortais de nossa música popular. 

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Especial De Natal Parte 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 83 (2013)

Nesta que é a semana do Natal, o Grand Record Brasil apresenta a segunda parte de sua seleção de músicas do gênero, gravadas na era das 78 rotações por minuto, feita a partir de uma compilação realizada em 2006 por nosso amigo e colega Thiago Mello, para seu blog Bossa Brasileira (http://bossa-brasileira.blogspot.com). São as últimas onze gravações de nosso retrospecto, perfazendo um total de vinte.  
Orlando Silva (1915-1978), o sempre querido e lembrado “cantor das multidões”, abre esta segunda parte com o fox-canção “Noite de Natal”, de Maugéri Neto e Maugéri Sobrinho, lançado pela Copacabana em outubro-novembro de 1952 sob n.o 5010-B, matriz M-260. Nessa época, Orlando retornara ao convívio do grande público, após um período marcado por problemas de ordem pessoal, inclusive amorosa, e substituiu Francisco Alves, morto em acidente rodoviário naquele ano, em seu programa de domingo na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.  Em seguida, as duas partes de “Cantigas de Natal”, pot-pourri de conhecidas músicas do gênero (“Noite feliz”, “Tannenbaum”, “Jingle bells”, “Amanhã vem o Papai Noel”, etc.), com arranjo de Radamés Gnattali e Paulo Tapajós, e interpretadas pelos trios Melodia (do qual Tapajós fazia parte, junto com Albertinho Fortuna e Nuno Roland) e Madrigal (Edda Cardoso, Magda Marialba e Lolita Koch Freire). Esta seleção saiu pela Continental em 1951 com o número 20106, matrizes 2720 e 2721. Já que falamos em Francisco Alves (1898-1952), o eterno Rei da Voz aqui comparece com duas faixas. A primeira é a marchinha “Meu Natal”, parceria sua com Ary Barroso, em gravação Victor de 19 de outubro de 1934, lançada em dezembro seguinte sob n.o  33857-A, matriz 79762. No acompanhamento a orquestra Diabos do Céu, do mestre Pixinguinha. A outra é a canção-marcha “Natal”, de Herivelto Martins e Rogério Nascimento, gravação Odeon de 23 de outubro de 1945, lançada em dezembro seguinte com o n.o 12650-B, matriz 7926. Junto com ele está o Trio de Ouro em sua primeira formação, com Herivelto, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas, todos acompanhados plea orquestra de Fon-Fon  (Otaviano Romero Monteiro).  Carlos Galhardo, “o cantor que dispensa adjetivos”, vem com outras duas faixas, em gravações RCA Victor. A primeira é a singela canção “Feliz Natal”, de Peterpan (cunhado da cantora Emilinha Borba, que regravaria a música um ano mais tarde) e Giuseppe Ghiaroni, gravada por Galhardo em 4 de agosto de 1950 e lançada em outubro do mesmo ano sob n.o  80-0697-A, matriz S-092728 (na verdade a música fora lançada um ano antes, na Star, pelo coral da Rádio Nacional do Rio). O registro de Galhardo, curiosamente, seria reeditado com o n.o 80-1061-A, em dezembro de 1952. A outra faixa dele aqui é exatamente a música que inaugurou entre nós o gênero natalino: a marcha “Boas festas”, de Assis Valente, aqui em seu registro original, de 17 de outubro de 1933, lançado em dezembro seguinte pela então Victor com o n.o 33723-A, matriz 65864. Foi, aliás, o primeiro grande hit nacional do cantor, que a gravaria mais duas vezes. Em seguida, vem o grande Blecaute (Otávio Henrique de Oliveira, Espírito Santo do Pinhal, SP, 1919-Rio de Janeiro, 1983), com a conhecidíssima “Natal das crianças”, de sua autoria, lançada pela Copacabana em dezembro de 1955 sob n.o 5502-A, matriz M-1273, Blecaute rotulou a música, modestamente, como “valsinha de roda”, sem ao certo imaginar que seria um dos maiores hits do cancioneiro natalino brasileiro em todos os tempos!  Temos depois outra “Noite de Natal”, desta vez uma valsa de Newton Teixeira em parceria com (Murilo) Alvarenga, que a gravou na Odeon com Ranchinho (Diésis dos Anjos Gaya) em 30 de outubro de 1941 com lançamento em dezembro seguinte, disco 12079-A, matriz 6826. Para encerrar, temos Dick Farney (Farnésio Dutra e Silva, Rio de Janeiro, 1921-São Paulo, 1987), interpretando “Feliz Natal”, singela canção da festejada dupla Armando Cavalcanti-Klécius Caldas, lançada pela Continental entre outubro e dezembro de 1949 sob n.o 16123-A, matriz 2173, com acompanhamento da orquestra do também compositor José Maria de Abreu. Curiosamente, este registro teve reedição em 1955, sob n.o 17230-B. A todos os amigos cultos, ocultos e associados do Toque Musical , os nossos mais sinceros votos de um Natal maravilhoso e um ano novo de 2014 repleto de alegria, paz, saúde e realizações positivas!

* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Nilo Sérgio, Dick Farney, Lúcio Alves, Tito Madi, Bill Farr, Johnny Alf - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 43 (2012)

E chegamos à quadragésima-terceira edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Esta semana, apresentamos gravações de alguns intérpretes considerados precursores da bossa nova, e feitas antes da eclosão oficial do movimento, em 1958, com o LP “Canção do amor demais”, de Elizeth Cardoso, e o 78 rpm “Chega de saudade”/”Bim bom”, com João Gilberto. 
Começamos com Nilo Sérgio, pseudônimo de Nilo Santos Pinto. Também compositor, arranjador e maestro, iniciou sua carreira nos áureos tempos da lendária Rádio Nacional, e gravou seus primeiros discos em 1943/44, com músicas americanas. Após gravar na RCA Victor, onde se iniciou, na Continental e na Todamérica, fundou, em 1953, sua própria gravadora: a Musidisc, por sinal uma das pioneiras do LP no Brasil. Embora pequena, a gravadora tornou-se notável no período em que atuou, e por lá passaram nomes do quilate de Ed Lincoln, Orlandivo, Eliana Pittman e o também maestro Léo Peracchi. Teve também o selo Nilser (iniciais de seu nome artístico). A Musidisc notabilizou-se por álbuns temáticos tipo “Música para adormecer”, “Datas felizes”, etc., e lançou orquestras ditas “grandiosas”, como Violinos Mágicos e  Românticos de Cuba (ambas, na verdade, eram a Tabajara de Severino Araújo), esta última a de maior êxito, que executava versões aboleradas de hits nacionais e internacionais, até mesmo de Roberto Carlos. Este último álbum, de 1979,  foi a última produção de Nilo, que faleceria dois anos mais tarde. Para esta seleção, o GRB escalou seu primeiríssimo disco interpretado em português, o Continental 16085, lançado entre julho e setembro de 1949. No lado A, matriz 2122, a “Canção de aniversário” (“Hoje é o dia do teu aniversário, parabéns, parabéns”...), de José Maria de Abreu e Alberto Ribeiro. No verso, matriz 2123, o samba (que na verdade é samba-canção) “Falta-me alguém”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz. No acompanhamento, a mesma Tabajara de Severino Araújo que se converteria na Violinos Mágicos (também conhecida como “Orquestra Romântica de Severino Araújo”) e na Românticos de Cuba, anos mais tarde.
Farnésio Dutra e Silva, aliás Dick Farney (Rio de Janeiro, 1921-São Paulo, 1987) é outro que também começou em disco interpretando músicas americanas, tendo inclusive feito longas temporadas nos EUA. Foi o primeiro, inclusive, a gravar um clássico da música popular americana, o fox 'Tenderly”. E o disco escalado para esta edição do GRB, também da Continental, é o primeiro no qual interpretou música brasileira, com o número 15663, gravado em 2 de junho de 1946 e lançado em agosto do mesmo ano, com dois sambas. A faixa de abertura, matriz 1509, é o clássico “Copacabana”, de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, e justamente a que chamou mais atenção, principalmente pela maneira de interpretar, calcada em cantores americanos como Bing Crosby (inevitavelmente criticada por conservadores da época), e pelo acompanhamento de orquestra de cordas, no caso a de Eduardo Carmelo Patané (São Paulo, 1906-idem, 1969), que passaram, desde então, a constituir modelo de sofisticação para a MPB. O verso, matriz 1508, é “Barqueiro do São Francisco”, também de Alberto Ribeiro, agora em parceria com Alcyr Pires Vermelho, que também teve repercussão, ainda que um pouquinho menor que a de “Copacabana”. Ambas as músicas seriam regravadas por Dick Farney inúmeras vezes ao longo de sua carreira, assim como outras expressivas páginas de seu repertório: “Marina”, “Alguém como tu”, “Somos dois”, “Ponto final” etc. 
Lúcio Ciribelli Alves (Cataguazes, MG, 1927-Rio de Janeiro, 1993), de longa e vitoriosa carreira como intérprete, começou a tocar seu violão na mais tenra idade, estimulado pelo pai, maestro da banda de música de sua cidade natal, mudando-se com a família para o Rio de Janeiro quando tinha sete anos. Foi ironicamente apelidado pelo compositor e humorista Silvino Neto de “cantor das multidinhas” (em comparação a Orlando Silva, “o cantor das multidões”). Aos 14 anos, fundou o conjunto Namorados da Lua, do qual era cantor, violonista e arranjador, que fez grande sucesso e desfez-se em 1947 (já sem Lúcio Alves, passaria a chamar-se Os Namorados). Como compositor, seu maior hit foi o samba “De conversa em conversa”, em parceria com Haroldo Barbosa, que gravou junto com os Namorados da Lua mais Isaura Garcia. Outras páginas expressivas de seu repertório são “Nunca mais” (Dorival Caymmi), “Reverso” (Gilberto Milfont e Marino Pinto), “Valsa de uma cidade” (Ismael Neto e Antônio Maria), “Tereza da praia” (dueto com Dick Farney, de Tom Jobim e Billy Blanco), etc. De Lúcio, eis aqui o disco Continental 16730, gravado em 25 de fevereiro de 1953 e lançado em maio-junho do mesmo ano. Abrindo-o, matriz C-3056, o beguine “Cedo para amar”, dos compositores americanos Sidney Lippman e Sylvia Dee, em versão de Bruno Gomes, no original intitulado 'Too young”e sucesso dois anos antes com Nat King Cole. Esta mesma versão teve outro registro em seguida, com Dóris Monteiro, na Todamérica. Bruno também assina, em parceria com Fernando Lobo, a música do lado B, matriz C-3057, o samba “Procurando meu bem”. Ambas as faixas com acompanhamento dirigido pelo notável maestro gaúcho Radamés Gnattali, com o pseudônimo de Vero. 
Radamés também acompanha Chaiki Madi, aliás Tito Madi, paulista de Pirajuí (n.1929), em outro disco Continental, o de número 17416, gravado em 4 de setembro de 1956, porém só lançado em março-abril de 57, apresentando dois clássicos do repertório de Tito. No lado A, matriz C-3917, a valsa “Chove lá fora”, que mereceria inúmeras outras gravações, inclusive do próprio compositor, tendo até uma versão em inglês com os Platters, “It's raining outside”. No verso, matriz C-3916, o samba-canção, com tendência mais para toada, “Gauchinha bem querer”, composto por Tito quando participou de festejos promovidos pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Tito Madi teve inúmeros outros sucessos como compositor e intérprete, destacando-se “Não diga não” (dele com Georges Henry), “Sonho e saudade”, “Carinho e amor”, “Balanço Zona Sul” e “Menina moça” (esta última de Luiz Antônio). 
Em seguida temos Bill Farr, pseudônimo de Antônio Medeiros Francisco (Sapucaia, RJ, 1925-Rio de Janeiro, 2010). Passou a infância em Petrópolis, e organizou um grupo vocal quando ainda estudava no Colégio Werneck, ingressando na carreira artística ao terminar o curso científico. Começou como vocalista no Hotel Quitandinha, e depois passou a atuar na Rádio Nacional carioca, por intermédio de César de Alencar. Gravou seu primeiro disco na Sinter, em 1952, com o samba-canção “Abraça-me”, de Luiz Bittencourt, e o bolero “Depois do amor”, de José Maria de Abreu e Oswaldo Santiago. Nos anos 1960, deixou a carreira de cantor, mudando-se para Madri, capital da Espanha, onde trabalhou em um escritório de comércio exterior. De Bill Farr apresentamos o disco Continental 16941, lançado em abril de 1954. No lado A, matriz C-3334, aquele que foi certamente o maior sucesso de sua carreira: o fox “Oh!”, de Byron Gay e Arnold Johnson, em versão de Haroldo Barbosa. No verso, matriz C-3335, um samba-canção do então estreante Billy Blanco, “Maria Tereza”. 
E para encerrar com chave de ouro, apresentamos Johnny Alf, pseudônimo de Alfredo José da Silva (Rio de Janeiro, 1929-Santo André, SP, 2010). Cantor, compositor, pianista, autor de inúmeras músicas de sucesso (quem não se lembra, por exemplo, de “O que é amar” e “Eu e a brisa”?), gravou seu primeiro disco, apenas instrumental, em 1953, na Sinter, exectando ao piano com seu trio o samba-canção “De cigarro em cigarro” (Luiz Bonfá) e o choro “Falseta”, dele mesmo. De Alf apresentamos o disco Copacabana 5568, de 1956, com duas composições próprias. Abrindo-o, a matriz M-1392 traz o samba “Rapaz de bem”, autêntico precursor da bossa nova, não só pela maneira de Alf interpretá-lo, como também pela letra, que traduzia bem o modo de vida da juventude da Zona Sul do Rio de Janeiro. A música daria título, em 1961, ao primeiro LP do compositor, lançado pela RCA Victor. No verso desse 78 da Copacabana, matriz M-1391, o samba-canção “O tempo e o vento”, que aproveita apenas o título da famosa trilogia de romances do escritor gaúcho Érico Veríssimo, na época com dois volumes já publicados (“O continente”, de 1949, e “O retrato”, de 1951, sendo o terceiro e último, “O arquipélago”, de 1961). Um fecho realmente de ouro para esta edição do GRB, focalizando intérpretes precursores da bossa nova, inovadores para a época em que surgiram. Bom divertimento! 

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO