

Em
sua edição de número 95, o Grand Record Brazil volta a apresentar uma seleção
apenas com cantoras, muitas delas de marcante presença na história de nossa
música popular. Algumas das dezesseis faixas desta edição foram conseguidas por
mim mesmo graças à imprescindível colaboração de colecionadores e pesquisadores
como Beto de Oliveira, Gilberto Inácio Gonçalves e Marcelo Bonavides de Castro,
este último do Acervo Nirez, de Fortaleza, CE, e também administrador do blog
Estrelas que Nunca se Apagam. A eles (e também ao próprio Nirez) nossos mais
sinceros agradecimentos. Abrindo nossa
seleção desta semana, temos Dora Lopes, cantora e compositora nascida (1922) e
falecida (1983) no Rio de Janeiro. Ela comparece aqui com o disco Sinter
00-00.214, lançado em abril de 1953, apresentando dois sambas-canções. Na faixa
2 está o lado A, matriz S-458, “Baralho da vida”, composto por Ulisses de
Oliveira, mineiro de Juiz de Fora e personagem marcante na história dessa
cidade. E na primeira faixa temos o lado B, “Você morreu pra mim”, matriz
S-459. Uma faixa histórica, pois constituiu-se na primeira composição gravada
de Newton Mendonça , também nascido (1927) e falecido (1960, prematuramente,
aos 33 anos, de infarto fulminante) no Rio de Janeiro. Pianista, compositor, gaitista
e violinista, ele seria parceiro de Tom Jobim em várias composições de sucesso,
entre elas “Desafinado”, verdadeiro hino da bossa nova. Em “Você morreu pra
mim”, Newton tem a parceria de Fernando Lobo, outro notável compositor da MPB (fez, entre outras,“Chuvas de verão”, “Nêga
maluca”, “Chofer de praça”, “Preconceito”, etc.) e pai de outro grande
cantor-compositor brasileiro, Edu Lobo. Portuguesa
de Vizeu, Vera Lúcia Ermelinda Balula (1930-?) naturalizou-se brasileira e foi
eleita Rainha do Rádio em 1955, derrotando Ângela Maria (vencedora desse
concurso um ano antes) por decisão do apresentador Manoel Barcelos, da Rádio
Nacional, como homenagem a Cármen Miranda, que também era portuguesa como ela e
falecera nesse mesmo ano nos EUA. Vera Lúcia aqui comparece com a gravação
original de um samba-canção clássico de Tito Madi, “Cansei de ilusões”, lançada
pela Continental em agosto-setembro de 1956 sob número 17323-A, matriz C-3845. “Cansei
de Ilusões” foi várias vezes regravado, inclusive pelo próprio Tito Madi, e
está finalmente aqui em seu primeiro registro, com Vera Lúcia. Possivelmente o
saxofone que se ouve na gravação é de Zé Bodega, então atuando na Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Em
seguida, tiramos do esquecimento a excelente cantora mineira Daisy
Guastini. Ela iniciou sua carreira nos
anos 1950, como locutora e atriz da Rádio Inconfidência e apresentadora da TV
Itacolomi, ambas de Belo Horizonte, capital de Minas. Casou-se com o compositor
e guitarrista Nazário Cordeiro, com quem teve a filha Daisy Cordeiro, também
cantora, e atuou também em emissoras do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Deixou,
porém, uma discografia muito aquém de seu potencial como intérprete: apenas
dois compactos duplos, um pelo selo Arpège, do tecladista Waldir Calmon, dono
da boate carioca de mesmo nome, em 1959, e outro pela RGE, em 1964. Do primeiro deles, o Arpège AEP-1003, é
a gravação aqui escalada, e por sinal sua faixa de abertura: o famoso
samba-canção “O que tinha de ser”, da profícua parceria Tom Jobim-Vinícius de
Moraes, bastante conhecido e com inúmeros outros registros. A carioca Dalva de
Andrade (n.1935) aqui comparece com um disco de 1959, o Polydor 305. No lado A,
matriz POL-3504, gravado em 3 de março desse ano, está o samba “Brigas, nunca
mais”, outro produto de sucesso da dupla Tom Jobim-Vinícius de Moraes, e com
inúmeras gravações. No lado B, matriz POL-3487, gravado em fevereiro do mesmo
ano (talvez no dia 20), está o samba-canção “História”, de Fernando César em
parceria com o cantor Luiz Cláudio, falecido no ano passado sem qualquer
divulgação por parte da mídia, tanto que fiquei sabendo de sua morte através do
Toque Musical, quando foram repostados vários álbuns por ele gravados. Ambas as
gravações, com acompanhamento concebido e dirigido pelo maestro Peruzzi, também
figuraram no primeiro LP da cantora, “Eis Dalva de Andrade”. Dalva teve de abandonar a carreira
prematuramente, em meados da década de 1960, por problemas de deficiência
auditiva, lançando, depois disso, apenas dois compactos de produção
independente. Gaúcha de Porto Alegre, Luely da Silva Figueiró (1936-2010)
mudou-se para São Paulo em 1957, após ser eleita Rainha do Rádio gaúcho,
atuando nas Emissoras Unidas (Rádio e TV Record). Foi também atriz de cinema, aparecendo em
filmes como “A doutora é muito viva” (1956), “Casei-me com um xavante” (1957) e
“Marido de mulher boa” (1960). Viveu alguns anos com o cantor-compositor Sérgio
Ricardo (aquele do violão quebrado em festival), no Rio de Janeiro, voltando a
morar em São Paulo na década de 1970 e abandonando a carreira artística.
Retomando seus estudos, formou-se professora de ensino de segundo grau,
exercendo a profissão durante anos até se aposentar, na virada do século XXI.
De Luely Figueiró escalamos outro clássico da dupla Tom Jobim-Vinícius de
Moraes: o samba “A felicidade”, do filme “Orfeu negro” (nos cinemas, “Orfeu do
carnaval”), produção franco-italiana filmada no Rio de Janeiro e premiada com o
Oscar de filme estrangeiro, e nele interpretado por Agostinho dos Santos. A
gravação de Luely saiu pela Continental em
agosto de 1959, sob número 17713-A, matriz C-4191. A carioca Iracema de
Souza Ferreira, aliás, Nora Ney (1922-2003), de marcante presença em nossa
música popular como intérprete essencialmente romântica, aqui comparece com
dois sambas-canções de sucesso, ambos do disco Continental 16726, gravado em 23 de janeiro de 1953 e
lançado em março-abril desse ano, com acompanhamento orquestral de Copinha.
Abrindo-o, matriz C-3043, o inesquecível ‘De cigarro em cigarro”, de Luiz Bonfá,
e no verso, matriz C-3044, “Onde anda você?”, de Antônio Maria e Reynaldo Dias
Leme. Outro resgate importantíssimo é o de Laís Marival (Maria Neomézia
Negreiros, 1911-?), paulista de Taquaritinga, e de curta carreira fonográfica:
apenas sete discos 78 com catorze músicas, entre 1936 e 1938, todos pela
Columbia, futura Continental. Do
penúltimo deles, número 8296-B, matriz 3510, de 1937, é o samba aqui escalado,
“Saudades do morro”, de H. Celso e A. Santos. Nos anos 1980/90, Laís ainda participava de
corais em São Paulo. “Molambo”, de autoria do violonista Jayme Florence (o
Meira dos regionais) em parceria com Augusto Mesquita, é um dos clássicos do
samba-canção brasileiro, tendo recebido inúmeras gravações ao longo dos anos. O
que quase ninguém sabe, porém, é que “Molambo” foi lançado pela cantora Julinha
Silva no lado A de seu disco de estreia, o Todamérica TA-5334, gravado em 18 de
junho de 1953 e editado em setembro do mesmo ano, matriz TA-487. Julinha é
outra que teve curta carreira fonográfica, deixando apenas sete discos 78 com
catorze músicas, entre 1953 e 1962, nos selos Todamérica, Guanabara, Mocambo e
Continental. Onilda Figueiredo, pernambucana do Recife, comparece aqui com seu
primeiro disco,feito justamente numa gravadora de lá, a Mocambo dos irmãos
Rozenblit, por sinal a primeira instalada fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado
em junho de 1956, com Onilda ainda adolescente, o 78 abre com o tango “Nunca!
Jamais! (Nunca! Jamás!)”, de Lalo Guerrero em versão de Nélson Ferreira
(compositor de frevos de sucesso e então diretor artístico da Mocambo), matriz
R-694, depois faixa de abertura do único LP da cantora, o dez polegadas ‘A voz
de Onilda Figueiredo”. Também está aqui o lado B, matriz R-695, o bolero “Desespero”,
de Ângelo Iervolino, que não entrou no LP. Apesar de seu potencial como
cantora, Onilda é outra com discografia escassa. Além do LP já mencionado, só
gravou quatro discos 78 com oito músicas, tudo na Mocambo. Uma das melhores
cantoras brasileiras, a carioca Claudette Soares (n. 1937) iniciou-se ainda na
infância, no programa “A raia miúda”, apresentado na Rádio Nacional por Renato
Murce, passando mais tarde a apresentar-se no “Programa do guri”, de Silveira
Lima, na Rádio Mauá. Na Rádio Tamoio, quando
atuava no programa ‘Salve o baião”, conheceu Luiz Gonzaga, que a chamou de
“princesinha do baião”. E foi com dois baiões que Claudette estreou em disco,
através da Columbia, futura Sony Music. Editado em junho de 1954 com o número
CB-10049, com Claudette na plenitude de seus 17 anos, o 78 apresenta “Você não
sabe”, de Castro Perret e Jane (matriz CBO-218, faixa 15) e, no verso, matriz
CBO-219 (faixa 14), “Trabalha, Mané”, de José Luiz e João Batista da Silva. Dos
dois baiões, por certo “Trabalha, Mané” ficou mais conhecido, uma vez que foi
regravado pelos grupos Os Cangaceiros e Os Três do Nordeste. No entanto, após
fazer outros discos 78 na Columbia e na Repertório, Claudette Soares só
conseguiu gravar seu primeiro LP em 1964, na Mocambo, com o nome de “Claudette
é dona da bossa”, pontapé inicial para inúmeros outros trabalhos de sucesso.
Para encerrar, apresentamos nada mais nada menos que Marta Rocha. Eleita Miss Brasil em 1954, a baiana causou
comoção em todo o país ao perder o título de Miss Universo, no mesmo ano, para
a americana Myrian Stevenson. Marta
teria perdido porque teria duas polegadas a mais nos quadris. Entretanto, no
livro “O império de papel – Os bastidores de O Cruzeiro”, o jornalista Accioly
Neto, ex-diretor da revista, garante que as tais polegadas foram inventadas pelo
fotógrafo João Martins, inconformado com o resultado, com a cumplicidade de
outros jornalistas presentes ao concurso, realizado na cidade americana de
Miami, na Flórida. Boato ou não, o fato é que o Brasil inteiro cantou com Marta
Rocha ‘Duas polegadas”, marchinha de Pedro Caetano, Carlos Renato e Alcyr Pires
Vermelho, lado B do primeiro dos dois únicos discos 78 que ela gravou pela
Continental, número 17134, lançado em agosto-setembro de 1955, matriz C-3610. É
com esta curiosidade que encerramos mais esta edição do GRB dedicada a vozes
femininas. Até a próxima e divirtam-se!
* Texto de Samuel Machado Filho