Em sua nonagésima-oitava edição, e prosseguindo em sua
brilhante e expressiva trajetória, o Grand Record Brazil tem a honra de
apresentar a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um dos
nomes mais expressivos da música regional nordestina. Estamos falando de
Jackson do Pandeiro. Nosso focalizado
recebeu na pia batismal o nome de José Gomes Filho, e foi o primeiro grande
artista paraibano surgido em plena era do rádio. Veio ao mundo na cidade de
Alagoa Grande, no dia 31 de agosto de 1919, filho de José Gomes e de Flora
Maria da Conceição, uma cantora de cocos que usava o pseudônimo de Flora
Mourão, e lhe deu de presente o primeiro
instrumento musical: um pandeiro, é
claro. Seu nome artístico veio de um apelido dado por ele mesmo: Jack,
inspirado em um mocinho de filmes de faroeste americanos, Jack Perry. Cantava
no interior da sua Paraíba natal desde a adolescência, e fez algumas duplas
antes de se consagrar como artista-solo, a primeira com Zé Lacerda, em Campina
Grande, ainda como Jack do Pandeiro. Em 1947, às vésperas de começar a ganhar
popularidade nas rádios locais, e de ser rebatizado artisticamente como Jackson
do Pandeiro (por sugestão de um diretor de programa de rádio, pois ficaria mais
sonoro e causaria mais efeito quando fosse anunciado), formou a dupla Café com
Leite, com Rosil Cavalcanti, em João Pessoa. Esse duo teve apenas um ano de
existência, mas a amizade e a parceria refletiriam no início da carreira-solo
de Jackson. Em 1953, foi contratado pela
Rádio Jornal do Commercio, do Recife,
(que tinha o slogan “Pernambuco falando para o mundo”), pertencente à
família Pessoa de Queiroz. Foi lá que conheceu Almira Castilho de Albuquerque,
com quem se casou em 1956, e viveu até 1967. A segunda esposa de Jackson foi a
baiana Neuza Flores dos Anjos, de quem ele também se separou pouco antes de
morrer. Ainda em 1953, já ganhando
notoriedade nacional e despertando o interessa das gravadoras, Jackson conhece
Luiz Gonzaga, que imediatamente propõe encaminhá-lo à direção da RCA Victor.
Porém, Jackson acaba preferindo a Copacabana, por ter escritório no Nordeste.
Antes do Natal de 1953, sai seu primeiro disco, um 78 com “Forró em Limoeiro”
(Edgar Ferreira) e “Sebastiana” (Rosil Cavalcanti), com êxito imediato. E
seguiram-se inúmeros outros sucessos, tais como “O canto da ema”, “O crime não
compensa”, “Lapinha de Jerusalém”,
“Chicletes com banana”, “Um a um”, “Cantiga do sapo”, além dos que foram reunidos neste primeiro
volume e comentaremos a seguir. Após serem agredidos fisicamente durante uma
passagem pelo Recife, Jackson e Almira
decidem residir no Rio de Janeiro, onde são contratados pela então
poderosa Rádio Nacional, “a estação das multidões”. Mesclando com sabedoria
temas carnavalescos, juninos e até natalinos, os discos de Jackson animavam
qualquer ocasião, e deixavam os críticos abismados com sua facilidade em cantar gêneros
variados. O longo tempo em que Jackson tocou em cabarés aprimorou sua
capacidade jazzística, sendo também famosa
sua maneira de dividir a música. Diz-se até que o próprio João Gilberto
aprendeu a dividir com Jackson, que é considerado por muitos o maior ritmista
da música popular brasileira, tanto que era conhecido como “o rei do ritmo”.
Além de vários 78 rpm, sua discografia inclui mais de 30 LPs, o último deles,
“Isso é que é forró”, lançado em 1981. Foram 29 anos de carreira, tendo passado
também pelas gravadoras Columbia (e sua sucessora, a CBS), Philips, Continental
e Cantagalo, tendo também participado de inúmeros projetos coletivos. Diabético
desde os anos 1960, Jackson do Pandeiro faleceu em 10 de julho de 1982, na Casa
de Saúde Santa Lúcia, em Brasília, DF, em decorrência de complicações de
embolia pulmonar e cerebral. Ele tinha participado de um show na Capital
Federal uma semana antes, e no dia
seguinte passou mal no aeroporto antes de embarcar para o Rio de Janeiro. Seu
corpo foi sepultado no Cemitério do Caju, no Rio, e hoje seus restos mortais
encontram-se em sua cidade natal, Alagoa Grande, em um memorial que a população
do município preparou em sua homenagem. Alceu Valença costuma dizer que Luiz
Gonzaga é o Pelé da música, e Jackson do Pandeiro, o Garrincha. É o que
comprovaremos na seleção deste primeiro volume que o GRB lhe dedica, com 16
gravações, evidentemente preciosas e de valor histórico, a maior parte delas editadas
em 78 rpm pela Copacabana, e reunidas depois em LPs de 10 e 12 polegadas.
Abrindo este volume, o coco “A mulher do Aníbal”, de Genival Macedo e Nestor de
Paula, lançado por volta de abril de 1954 com o n.o 5234-B, matriz M-749. A
faixa seguinte é o xote “Cremilda”, de Edgar Ferreira, bem divertido e
malicioso, lançado em maio de 1955 sob n.o 5412-A, matriz M-1014. O outro lado,
matriz M-885-2, está na faixa 8: é o samba “Falsa patroa” de Geraldo Jacques e
Isaías Ferreira. A faixa 3 é da fase de Jackson na Philips, o “Frevo do bi”, de
Brás Marques e Diógenes Bezerra, alusivo à conquista do bicampeonato mundial de
futebol (Copa do Mundo) pela Seleção Brasileira no Chile, lançado em junho de
1962, disco P61135H-A (inquebrável e de vinil!), e que nessa ocasião também foi
gravado na Continental por um certo Papi Galan. Na quarta faixa, voltando à
Copacabana, temos o rojão (tipo de baião mais acelerado) “Cabo Tenório”, de
Rosil Cavalcanti, por certo inspirado em um polêmico político dessa época, o
alagoano Tenório Cavalcanti (1906-1987), aliás interpretado pelo recém-falecido
José Wilker no filme ‘O homem da capa preta”, em 1986. O disco recebeu o número
5741-B, e foi lançado por volta de março de 1957, matriz M-1866. Em seguida
você tem justamente o lado A, o “Xote de Copacabana”, do próprio Jackson do
Pandeiro (que assina com seu nome verdadeiro, José Gomes), matriz M-1865. A
sexta faixa é outro xote,“Moxotó”,
também de José Gomes (ou seja,o próprio Jackson), agora em parceria com Rosil
Cavalcanti, datado de 1956, disco 5579-B, matriz M-1504. Em seguida, o clássico
“Dezessete na corrente”, rojão de Edgar Ferreira e Manoel Firmino Alves, de
1954, disco 5287-A, matriz M-884-2. O lado B está na décima faixa: é o batuque
“O galo cantou”, de Edgar Morais, matriz M-883-2. Na faixa 9, o baião “No
quebradinho”, de Marçal Araújo e José dos Prazeres, lançado em agosto-setembro
de 1955, disco 5444-A, matriz M-1015. Na décima-primeira faixa, o contagiante
“Micróbio do frevo”, de Genival Macedo, para o carnaval de 1955, e que saiu
ainda em novembro de 54 com o número 5331-A, matriz M-980. E o lado B, matriz
M-981, e faixa 15 desta seleção, é “Vou gargalhar”, samba de Edgar Ferreira que
foi um dos campeões da folia de 1955. Na décima-segunda faixa, o divertido
“Forró em Caruaru”, rojão que tem a respeitável assinatura do pernambucano Zé
Dantas (1921-1962), também parceiro de Luiz Gonzaga em inúmeros hits. Foi
lançado em março-abril de 1955 sob n.o 5397-A, matriz M-1104, tendo no verso
justamente a faixa seguinte, o batuque “Pai Orixá”, de Edgar Ferreira, matriz
M-882-3). Para encerrar, as duas faixas são do disco Copacabana 5277, lançado
em 1954: “Eta baião!”, de Marçal Araújo (lado B, matriz M-823-2, faixa 14) e o
coco “Boi brabo”, de Rosil Cavalcanti (lado A, matriz M-822-2). É a faixa que
termina com chave de ouro a primeira parte da retrospectiva que o GRB dedica a
Jackson do Pandeiro, fazendo justiça a este notório, expressivo e até hoje
lembrado nome da música regional nordestina, prometendo a segunda parte para a
próxima semana. Até lá e fiquem com Deus!
* Texto de Samuel Machado Filho
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