Já em sua quadragésima-segunda edição, o meu, o seu, o nosso
Grand Record Brazil homenageia dois intérpretes inesquecíveis que deixaram
inestimável contribuição para a história de nossa música popular: Orlando Silva
e Nélson Gonçalves.
Orlando Garcia da Silva era carioca do Engenho de Dentro,
nascido a 3 de outubro de 1915 na Rua General Clarindo, hoje Rua Augusta. Era
filho do violonista José Celestino da Silva, que participou de serenatas,
peixadas e feijoadas junto com o mestre Pixinguinha, ambiente em que também
viveu Orlando por três anos, até o falecimento do pai, vitimado pela gripe
espanhola. Orlando teve uma infância normal, sempre gostando muito de violão e
já fã, na adolescência, de Carlos Galhardo e Francisco Alves. Seu primeiro emprego
foi como estafeta da Western, indo depois para o comércio, onde foi sapateiro,
vendedor de roupas e tecidos e trocador de ônibus. Quando era “office-boy”, ao
saltar de um bonde para entregar uma encomenda, sofreu grave acidente que
causou o amputamento de parte de um dos pés, ficando inativo por um ano.
Estimulado por amigos, Orlando começou sua peregrinação pelas rádios, querendo
ao menos ser ouvido, sem conseguir, dada sua aparência de moço pobre e mal
trajado, que mancava. Quando já estava a ponto de desistir, foi ouvido pelo
compositor Bororó (autor do clássico “Da cor do pecado”) nos corredores da
Rádio Cajuti. Impressionado, Bororó arranjou uma audição com Francisco Alves,
que aconteceu dentro de seu carro! E Chico, encantado com a voz de Orlando, o
escalou imediatamente para seu programa dominical na Cajuti, e sua estreia
aconteceu em 24 de junho de 1934. Em janeiro do ano seguinte, lançava seu
primeiro disco, pela Columbia, para o carnaval, interpretando a marchinha
“Ondas curtas” e o samba “Olha a baiana”. Ainda em 1935, foi para a RCA Victor,
onde ficaria até 1942, lançando sucessos sobre sucessos ('A última estrofe”,
“Lábios que beijei”, “Carinhoso”, “Rosa”, “Abre a janela”, “A jardineira”, “Meu
consolo é você”, recebendo do locutor esportivo Oduvaldo Cozzi o apelido de
“cantor das multidões”, após o retumbante êxito de sua primeira apresentação em
São Paulo, em janeiro de 1938. Um fenômeno de popularidade como poucos. Gravou
também na Odeon, na Copacabana e na Mocambo, voltando definitivamente à RCA
Victor em 1960. Morreu em 7 de agosto de 1978, em seu Rio natal, vitimado por
uma trombose.
Para esta edição do GRB, foram selecionadas gravações de
Orlando na Odeon, na Victor e na Copacabana. Da Copacabana temos: do disco
5067, lançado em maio-junho de 1953, os dois lados: no lado A, faixa 8 de nossa
sequência, matriz M-392, o samba-canção “Meu lampião”, de Alberto Ribeiro e
Alcyr Pires Vermelho e, no verso, matriz M-393 e faixa 7 de nossa sequência, o
samba “Escravo do amor”, de J. Cascata, Leonel Azevedo (autores dos clássicos
“Lábios que beijei” e “Juramento falso”, também gravados por Orlando) e Lilinha
Fernandes. Ainda dessa marca, o lado B do disco 099, lançado em agosto de 1952
e faixa 9 de nossa sequência, apresentando o choro cantado “Moreninha”, de
autoria do descobridor de Orlando, Bororó (de quem o cantor também gravou o hit
“Curare”, em 1940). A faixa 10, da primeira fase de Orlando na Victor, tem
outro choro cantado: “Mentirosa”, de Custódio Mesquita e Mário Lago, gravado em
9 de junho de 1941 e lançado em agosto seguinte, disco 34783-B, matriz
S-052240. Por fim, apresentamos, da Odeon, a canção-marcha “A carta”, de
Custódio Mesquita, que é, como o nome indica, uma carta escrita por um
expedicionário da FEB, então lutando na Itália durante a Segunda Guerra
Mundial, a sua mãe no Brasil. Gravação de 21 de julho de 1944, lançada em
setembro seguinte com o número 12487, ocupando os dois lados do disco, matrizes
7613 e 7614.
As 6 primeiras faixas desta nossa edição foram destinadas a
Nélson Gonçalves, nome artístico de Antônio Gonçalves. O “gogó de ouro” nasceu
na cidade gaúcha de Santana do Livramento, em 25 de junho de 1919, filho dos
portugueses Manoel e Libânia, que ganhavam a vida vendendo cortes de tecidos a
domicílio, de porta em porta. Era o irmão mais velho de Joaquim, o Quincas, que
também seria cantor, gravando alguns discos de fados lusitanos. Conforme
documentos disponíveis, a família mudou-se para São Paulo em 1926, morando
primeiro no Canindé, e depois fixando-se no Brás. Ali Nélson e o irmão
começaram a estudar, no Liceu Eduardo Prado. Para reforço da economia familiar,
“seu” Manoel levava os filhos para cantar nas feiras livres, em cima de
caixotes, acompanhando-os ao violão. Nélson (para a família apenas Nico) , apesar
de ser gago (ou “taquilárico”), cantava com dicção normal, desenvolvendo seus
dotes em bares, restaurantes, festas e rodas de amigos. Logo ele iria conhecer
momentos de trabalho duro: primeiro como operário numa fábrica de tamancos e
depois como polidor de metais na Wolff, atividades de fato insalubres, chegando
até a praticar pugilismo amador. Em 1937, numa festa de casamento no Brás, é
ouvido pela cantora Sônia Carvalho, que deixara a carreira para se casar, e,
encantada, deu-lhe o nome artístico que o eternizou: Nélson Gonçalves. Sônia
deu-lhe aulas de canto em sua casa por cerca de 4 meses, e o levou para um
teste na Rádio São Paulo, PRA-5 (“a voz amiga”), então dirigida pelo maestro
Gabriel Migliori, sendo aprovado e contratado, pedindo dispensa da Wolff. Em um
período que ficou afastado do rádio, Nélson foi garçom no bar do irmão Quincas,
na Avenida São João e, em 1940, cantou em programas da PRE-4, Rádio Cultura (“a
voz do espaço”), com auditório na mesma avenida. Em 1941, vai ao Rio de Janeiro
tentar a sorte em programas de calouros, sendo várias vezes reprovado. Dois
meses mais tarde, volta ao Rio, agora com um acetato gravado na Rádio Record,
onde cantava a valsa “Se eu pudesse um dia” e a canção “Os anos carregaram”,
ambas de Orlando Monello e Oswaldo França, aprovado pelo diretor da Cássio
Muniz, então representante da RCA Victor em São Paulo. Nélson vai até à
gravadora apresentar o acetato para o diretor artístico Vittório Lattari, que o
ouve mas não acredita ser ele o cantor, e que ele tinha “roubado” essa prova de
alguém, dada sua gagueira. Com o ambiente pesado, Nélson só volta para pegar o
acetato de volta no dia seguinte, e para sua sorte lá estava o compositor e
flautista Benedito Lacerda, que resolve tirar a prova acompanhando Nélson com seu
regional. Provado que o cantor era ele mesmo, e com a profecia de Benedito
(“esse vai ser o maior cantor do Brasil!”), Nélson Gonçalves é finalmente
contratado pela RCA Victor, que seria sua primeira, única e última gravadora.
Sua primeira sessão de gravação acontece em 4 de agosto de 1941, com as músicas
“Se eu pudesse um dia”, “Sinto-me bem” (primeiro disco), “Formosa mulher” e “A
mulher dos sonhos meus” (segundo disco). Em quase 60 anos de atividade, Nélson
gravaria 869 músicas, e seria um dos maiores vendedores de discos da RCA Victor
em todo o mundo: mais de 50 milhões de cópias! Apresentou-se também nos EUA,
mais precisamente em Nova York, no Radio City Music Hall, em novembro de 1960.
Entre seus maiores sucessos estão: “Quem mente perde a razão”, “Deusa do
Maracanã”, “Maria Betânia”, “Normalista”, “A volta do boêmio” (certamente o
maior de todos), “Deusa do asfalto”, “Escultura”, “Fica comigo esta noite” e
muitos, muitos mais. O envolvimento com cocaína prejudicou em muito sua
carreira, mas ele conseguiu se recuperar do vício após um tratamento de choque
no qual ficou quatro meses enclausurado em seu quarto (até batia na mulher!).
Seu último trabalho em disco foi o CD “Ainda é cedo”, uma homenagem a cantores
e compositores de nossa música pop surgidos nos anos 1980, lançado em 1997.
Nélson morreria em 18 de abril do ano seguinte, 1998, no Rio de Janeiro, e
vários episódios de sua vida e carreira só se esclareceram com a publicação, em
2002, do livro “A revolta do boêmio – A vida de Nélson Gonçalves”, escrito por
Marco Aurélio Barroso.
Nesta edição do GRB, temos seis gravações de Nélson
Gonçalves, todas, claro, pela RCA Victor:
“Primeira mulher”, de Kid Pepe e Theo Magalhães, gravado em 30 de maio
de 1944 e lançado em agosto seguinte (80-0198-B, matriz S-052969), “Ciúme”, de
Nóbrega de Macedo e José Batista, gravação de 4 de março de 1947 lançada em
maio seguinte (80-0511-A, matriz S-078729), “Dona Rosa”, nostálgico e divertido
dueto com Isaura Garcia, de autoria dos irmãos Aloysio e Armando Silva Araújo,
gravação de 21 de novembro de 1946, lançada em março de 47 (80-0493-B, matriz
S-078644), sendo as três músicas sambas. Depois, vem a canção “Os anos
carregaram”, de Oswaldo França e Orlando Monello, que Nélson gravou em seu
acetato de apresentação e registraria comercialmente em 13 de janeiro de 1942
com lançamento em seu quinto disco, em maio seguinte, com o número 34879-A,
matriz S-052452. Para encerrar, mais dois sambas: “Seus olhos na canção”, de
Marino Pinto e Waldemar Gomes, gravação de 29 de janeiro de 1946 lançada em
maio seguinte (80-0400-A, matriz S-078427) e “Ela me beijou”, de Herivelto
Martins e Artur Costa, gravado em 10 de agosto de 1944 e lançado em outubro
seguinte sob número 80-0218-B, matriz S-078033. Desta gravação participa o Trio
de Ouro original (Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas), não
creditado no selo certamente por serem então contratados da Odeon.
Enfim, dois cantores inesquecíveis, de vozes
privilegiadas, que o GRB agora oferece para os amigos cultos, ocultos e
associados do TM. Ouçam e recordem!
TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO