E o Grand Record Brazil chega à “idade de Cristo”
(rsrsrsrsrsrs...)... É porque já estamos na edição de número 33, apresentando a
primeira parte de uma retrospectiva dos melhores momentos da eterna “dupla
coração do Brasil”, Tonico e Tinoco.
Obviamente, os dois eram irmãos, filhos de imigrantes
espanhóis. Tonico (João Salvador Perez) era de São Manoel, interior paulista,
onde nasceu em 2 de março de 1917. Tinoco (José Perez), por sua vez, era um
pouquinho mais novo, nascido em 19 de novembro de 1920 em uma fazenda em
Botucatu, perto de São Manoel, que hoje pertence ao município de Pratânia. E
foi ouvindo as músicas de Cornélio Pires que foram influenciados na arte de
cantar. Ainda adolescentes, compraram suas violas e passaram a cantar em dupla
em serenatas nas fazendas da região, sendo que a primeira música que aprenderam
foi o clássico “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira, que mais tarde
gravariam (e está nesta seleção). Em fins de 1937, a família Perez, ao lado de
outras, decidiu tentar a sorte em Sorocaba, Tonico foi ser servente na Pedreira
Santa Helena e Tinoco virou engraxate na estação de trem da Sorocabana. Mas, a
coisa não deu certo, e a família voltou ao campo, na Fazenda João Cintra, em
São Manoel. Isso, porém, deu aos irmãos Perez a chance de se apresentar em
rádio, mais precisamente a Rádio Clube de São Manoel, levados pelo
administrador da fazenda, José Augusto Barros. Durante a semana eles
trabalhavam na roça e aos domingos cantavam na rádio, sem nada ganhar, apenas
por amor à arte.
Em 1943, já em São Paulo, os irmãos participaram de
programas de calouros do rádio, sem êxito. Nessa ocasião, o Capitão Furtado
(Ariowaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires), promoveu um concurso em seu
programa “Arraial da Curva Torta”, na Difusora, para preencher uma vaga (o
programa estava sem violeiros). É aí que os irmãos Perez, mais um primo, se
candidatam como Trio da Roça. Classificam-se para a final, obtendo o primeiro
lugar e, sem o primo, são batizados pelo Capitão Furtado com os nomes que os
imortalizaram: Tonico e Tinoco.
A primeira gravação
da dupla saiu pela Continental, em julho de 1945: o cateretê “Em vez de me
agradecer”, do Capitão Furtado, Jaime Martins e Aimoré, lado B de “Salada
internacional”, com Palmeira e Piraci (só saiu porque a outra música dessa
dupla foi censurada!). Em setembro de 1945 é que sai o primeiro 78 completo de
Tonico e Tinoco, gravado em 8 de agosto desse ano, apresentando as modas de
viola “Tudo tem no sertão”, de Tonico (lado A, que aliás está aqui, matriz
10454-2), e “Porto Esperança”, de Tonico e Miguel Patetti.
Depois disso, todos sabem o que aconteceu: êxitos sobre
êxitos em disco (cerca de mil gravações em 60 anos de estrada!), apresentações
em todos os cantos do Brasil (até mesmo no Teatro Municipal de São Paulo, e
chegaram até a cantar numa feira de moda junto com nossa rainha-mãe do rock,
Rita Lee!), sempre mantendo a fidelidade ao velho e bom gênero caipira, sendo
por isso considerada, com justiça, a mais importante dupla caipira brasileira,
e a de maior referência no gênero. Ganharam, claro, inúmeros prêmios: Roquette
Pinto, Prêmio Sharp de Música, Medalha Anchieta, Troféu Imprensa... Tiveram
companhia circense, escrevendo e atuando em 25 peças, e atuaram no rádio
paulistano durante mais de 50 anos, na Nacional (atual Globo), na Record e
sobretudo na Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), onde
apresentaram o programa “Na beira da tuia”. Também tiveram esse programa na
televisão, nas redes Bandeirantes e SBT. Gravaram, além da Continental, na Chantecler,
na RCA Victor, na Copacabana, na Philips e em sua sucessora, a Polygram, onde
registraram seu último trabalho em disco.
O último show da dupla aconteceu na cidade matogrossense de
Juína, em 1994. Seis dias mais tarde, a 13 de agosto, Tonico falece após uma
queda na escada do prédio em que morava, no bairro paulistano da Moóca. Tinoco,
porém, após dizer que deixaria de cantar, prosseguiu sozinho, apoiado pelos
seus inúmeros fãs e homenageado até mesmo por Roberto Carlos, em 2010, no
especial de TV “Emoções sertanejas”. E continuaria na ativa até falecer, em 4
de maio deste 2012, em São Paulo, de insuficiência cardiorrespiratória, aos 91
anos, tornando-se assim o artista sertanejo que mais atuou na história de nossa
música.
O GRB começa a trazer um pouco da história musical dos
inesquecíveis irmãos Tonico e Tinoco. As gravações que apresentamos são todas
de sua primeira fase, na Continental, feitas entre 1945 e 1948. Em ordem de
lançamento, são: a já citada “Tudo tem no sertão”; “Sertão do Laranjinha”,
motivo popular adaptado pela dupla mais o Capitão Furtado, matriz 10453, tendo
no verso do disco 15418, gravado em 22 de julho de 1945 e lançado em setembro
seguinte, o cateretê “Percorrendo o meu Brasil”, de João Martins, matriz 10451.
Temos depois a moda de viola “Cuiabana” de Tonico e Bonfim Pereira, gravada em
16 de agosto de 1945, com lançamento em outubro (15447-A, matriz 10469). Em
seguida o disco 15681, gravado em 10 de abril de 1946 e lançado em agosto do
mesmo ano, apresentando a valsa “Cortando estradão”, de Anacleto Rosas Jr.,
matriz 10578, e no lado B, matriz 10579, uma toada que todo mundo sabe de cor,
embora pungente: “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro. Aliás, quando
Tonico e Tinoco foram gravar a música, os dirigentes da Continental lhes
informaram que esse seria o último disco deles na empresa, pois já haviam
gravado outros cinco com nove músicas e os ouvintes reclamavam não entender a
pronúncia caipira da dupla. É claro que isso não aconteceu, e, com o dinheiro
resultante do sucesso de “Chico Mineiro”, eles conseguiram comprar sua primeira
casa para viver com a família. Do Continental 15706, gravado em primeiro de
junho de 1946 e lançado em setembro seguinte, vem o lado A, matriz 10606,
apresentando a moda de viola “Peão vaqueiro”, de Tonico sozinho. E não há quem
nunca tenha ouvido “Tristeza do jeca”, toada clássica de Angelino de Oliveira,
originalmente lançada em 1926 por Patrício Teixeira. Esta é a primeira das
muitas gravações que Tonico e Tinoco fizeram desta página antológica, em pleno
feriado de Tiradentes (21 de abril) de 1947, matriz 10706, com lançamento pela
Continental em julho sob n.o 15795-B. Na sequência vem a toada “Vingança do
Chico Mineiro”, de Tonico e Sebastião de Oliveira, sequência natural do sucesso
de “Chico Mineiro”. Saiu no lado A do Continental 15913, em gravação de 3 de
maio de 1948, lançada no suplemento para o trimestre de julho a setembro desse
ano, matriz 10867, tendo no verso, matriz 10866, a moda de viola “Goiana”, de
Tonico e Teddy Vieira (autor do clássico “O menino da porteira”, entre outras),
também aqui apresentada. E é assim que o GRB começa a reviver a gloriosa
trajetória de Tonico e Tinoco nas 78 rotações por minuto. E olha: semana que
vem tem mais. Combinado?
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