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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Francisco Alves E Pixinguinha - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 36 (2012)

Neste mês de setembro, mais exatamente no dia 27, estamos comemorando os 60 anos da trágica morte do cantor Francisco Alves, em acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, na cidade paulista de Pindamonhangaba, divisa com Taubaté, no Vale do Paraíba, quando um caminhão que estava na contramão colidiu com seu automóvel, um Buick azul. O cantor tinha 54 anos, e a tragédia enlutou todo o país. Seu corpo, carbonizado, foi enterrado no Cemitério São João Batista, em seu Rio de Janeiro natal, para o qual estava regressando quando houve o acidente fatal, no dia seguinte à sua última apresentação pública, acontecida em São Paulo, no Largo da Concórdia, no Brás. A tumba de Chico, até hoje, atrai inúmeros visitantes e fãs do cantor, mesmo depois de tanto tempo passado de sua morte.
O Grand Record Brazil, evidentemente, não poderia deixar a data passar em branco. Em sua edição de número 35, presta uma homenagem à memória do eterno Francisco Alves, apresentando doze fonogramas por ele registrados na Victor (ou RCA Victor, como queiram), gravadora da qual foi contratado entre 1934 e 1937, lá deixando 49 discos com 96 músicas. Em todos eles, os arranjos e regências são do mestre Pixinguinha, em mais uma contribuição fabulosa que deixou para nossa música popular. Em quase todas as faixas, Pixinguinha acompanha Francisco Alves com sua orquestra Diabos do Céu, considerada uma autêntica “jazz band” de sua época.  Vamos às faixas, pela ordem:
Para começar, apresentamos um samba da parceria Bide-Marçal: “Durmo sonhando”, que Chico gravou em 20 de abril de 1934 com lançamento em agosto seguinte sob n.o 33812-A, matriz 79610. Damos depois um salto para o carnaval de 1935, apresentando uma marchinha de Lamartine Babo e Hervê Cordovil: “Moreninha sweepstake”, gravação de 21 de dezembro de 1934 lançada um mês antes da folia, janeiro, sob n.o 33894-A, matriz 79803. A marchinha cita o slogan de propaganda do achocolatado em pó Toddy: “Não tem nem pode ter similares”. O sweepstake do título era um prêmio especial, uma espécie de loteria do turfe, cujo resultado era vinculado a cavalos vencedores, instituído pelo Jockey Clube Brasileiro em 1933, nos moldes europeus. Naquele ano, o bilhete vencedor foi o do cavalo Mossoró, que abiscoitou 500 contos de réis. A terceira faixa é o samba “Reclamando a sorte”, de Nilo Almeida Fonseca, o lado B de “Durmo sonhando”, matriz 79611. Mais um samba vem em seguida: “Você chorou”, subintitulado “Me admiro é você”, de autoria de Sylvio Fernandes, o Brancura, gravado por Chico em 8 de julho de 1935 e lançado em agosto seguinte com o n.o 33959-A, matriz 79968, sendo incluído na burleta “Da Favela ao Catete”, de Freire Júnior, encenada no Teatro Recreio carioca, incluindo músicas de vários autores e da qual Francisco Alves também participou. Malandro histórico, temido por sua valentia, Brancura morreu ainda em 1935, com apenas 27 anos de idade. Temos em seguida a marchinha “Olha pra lua”, de autoria de Nássara e Cristóvão de Alencar, o “amigo velho” (aqui assinando com seu nome verdadeiro, Armando Reis), gravação de 13 de abril de 1934, lançada em julho seguinte com o n.o 33801-A, matriz 79602. Depois tem o samba “Me queimei”, também de Nássara, agora em parceria com Walfrido Silva, gravação de 28 de janeiro de 1936 lançada para o carnaval desse ano, em fevereiro, disco 34038-A, matriz 80100. E tem mais samba: “Linda mulher”, de Erlúcio Godoy, Orlando Machado e Orestes Barbosa (este último sem crédito no selo), que Francisco Alves gravou em 17 de abril de 1934, mas a Victor só lançou em dezembro desse ano, com o n.o 33857-B, matriz 79608. Em seguida, a marcha “aux flambeaux” “A melhor das três”, de Lamartine Babo e Alcyr Pires Vermelho, do carnaval de 1935, correspondente ao lado B de “Moreninha sweepstake”, matriz 79804. A letra faz referência ao processo movido pelos irmãos Raul e João Vítor Valença contra a omissão do nome deles, como parceiros de Lamartine, no disco original da marchinha “Teu cabelo não nega”. Lalá participa deste registro como cantor, não creditado no selo original. Do carnaval seguinte, 1936, é outra marchinha, “Marido da Eva”, de Nássara e Sylvio da Fonseca, gravada por Chico Alves em 7 de janeiro desse ano e lançada bem em cima da folia, em fevereiro, com o n.o 34033-A, matriz 80077. Foi uma das dez músicas que o Rei da Voz lançou para aquele carnaval, todas bem cantadas. Da folia de 1937 é a marchinha “Parei com elas”, do prolífico Nássara agora junto com Alberto Ribeiro, gravação de 18 de novembro de 1936, lançada ainda em dezembro sob n.o 34131-A, matriz 80260. Depois, desse mesmo carnaval, a lírica marchinha, do mestre Ary Barroso, “Uma furtiva lágrima”, que aproveita algo da ária de mesmo nome, da ópera “L'elisir d'amore”, de Caetano Donizetti, publicada em 1832. Chico gravou a marchinha em 17 de novembro de 1936, com lançamento ainda em dezembro com o n.o 34113-A, matriz 80244. E, para encerrar com chave de ouro, um clássico do samba: “É bom parar”, de Rubens Soares e Noel Rosa, sendo que este último aceitou ficar de fora dos créditos na edição e no disco. É a única das faixas desta seleção em que Francisco Alves é acompanhado não pelos Diabos do Céu, mas pelo Conjunto Regional RCA Victor. Sucesso estrondoso do carnaval de 1936, corresponde ao lado B de “Me queimei”, matriz 80101, e cita dois versos da valsa-canção “A mulher que ficou na taça”, de Chico Alves e Orestes Barbosa (“Mais cresce a mulher no sonho/ na taça e no coração”). “É bom parar” seria, inclusive, regravado por Francisco Alves na RCA Victor apenas três dias antes de seu trágico falecimento, em 1952, juntamente com 'A mulher que ficou na taça”, mais “Serra da Boa Esperança” e “Foi ela”, devidamente autorizado pela Odeon, onde então trabalhava. Enfim, estas doze faixas com o eterno Francisco Alves acompanhado por Pixinguinha são o preito de saudade do GRB à memória do Rei da Voz, que, passados 60 anos de seu trágico passamento, ainda é uma importante referência na história de nossa música popular.


Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Instrumental - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 35 (2012)

Chegamos à trigésima-quinta edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. Nesta semana, apresentamos mais uma seleção do melhor do “easy listening” tupiniquim, ou seja, a nossa música instrumental.
Para começar, apresentamos raridades executadas por um violonista que deixou sua marca na história de nossa música popular: Américo Jacomino, o Canhoto (São Paulo, 1889-idem, 1928). Filho de imigrantes napolitanos, ele foi um dos responsáveis pelo “enobrecimento” do violão, antes considerado um instrumento de menor importância, dizia-se até que só marginais faziam uso do mesmo. Tocava com a mão esquerda, daí o apelido de Canhoto. Sua peça mais conhecida, a valsa “Abismo de rosas”, foi por ele gravada pela primeira vez em 1916, com o nome “Acordes do violão”, recebendo o nome que a consagrou em 1925, numa execução bem mais lenta e elaborada. Canhoto morreu prematuramente, aos 39 anos de idade, por problemas cardíacos. Aqui, duas autênticas preciosidades da fase mecânica de gravação, ambas valsas, gravadas entre os dias 16 e 26 de junho de 1913 pela lendária Casa Edison, selo Odeon, e de autor desconhecido: “Adeus, Helena”, com o grupo do violonista, número 120600, e “Lágrimas de amor”, com Canhoto integrando o Grupo dos Chorosos, disco 120624, matriz SP.36. Esses dois registros fizeram parte da primeira série de gravações paulistas da Casa Edison, que teve um total de 82 matrizes!
Instrumentista, cantor, compositor e maestro, o carioca João Thomaz de Oliveira, aliás J. Thomaz (c.1900-ant.1964) costumava reger suas orquestras de luvas brancas, isso porque, quando ele era baterista, queimou as mãos ao soltar um foguete numa festa de São João. E nada sabia de música! Dele apresentamos o disco Victor 33460, gravado em 28 de julho de 1931 e lançado em setembro do mesmo ano, com dois maxixes. Abrindo-o, a matriz 65203 apresenta  “Levanta, meu nêgo”, de autoria do mestre Pixinguinha. No verso, matriz 65202, uma composição do próprio J. Thomaz em parceria com Sátiro de Melo, “Vê se pode”.
A carioca Carolina Cardoso de Menezes (1916-1999) fazia parte de um clã de ilustres pianeiros, sendo filha de Oswaldo Cardoso de Menezes e da dona Sinhá, que também tocavam, é claro. Carolina começou a estudar piano aos 13 anos, e chegou a ter aulas até mesmo com Chiquinha Gonzaga. Mesmo com idade avançada e problemas de saúde, apresentou-se em recitais até falecer, em 31 de dezembro de 1999. Aqui, Carolina, acompanhada de grupo rítmico, nos brinda com sua arte tão pianística e brasileira com as faixas do disco Odeon 13611, gravado em 20 de outubro de 1953 e lançado em março de 54. No lado A, matriz 9938, o choro “Uma farra em Campo Grande”, de autoria de outro pianista de renome, Romualdo Peixoto, o Nonô, tio dos cantores Cauby Peixoto e Ciro Monteiro, e por ele próprio lançado em 1932. No verso, matriz 9939, um baião de autoria dela própria, “Vem cá, meu amor”.
O paraguaio Luiz Bordón (1926-2006) recebeu incentivo de seus pais desde a infância para dedicar-se à música. Com sua harpa, fez apresentações no Paraguai e no Brasil (onde residiu por vários anos), e seu álbum mais famoso é “A harpa e a cristandade”, com músicas de Natal, editado em 1960 e que mereceu um segundo volume cinco anos depois. Residiu por três anos nos EUA e voltou ao Paraguai, onde morreu aos 80 anos. Aqui, apresentamos o disco Chantecler 78-0238, lançado em março de 1960, que abre com o clássico “Baião de dois” (o arroz com feijão no Ceará), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, matriz C8P-475, originalmente lançado por Emilinha Borba em 1950. No lado B, matriz C8P-476: uma versão, em ritmo de tango, da marchinha “Me dá um dinheiro aí”, dos irmãos, Homero, Ivan e Glauco Ferreira, hit do carnaval daquele ano na voz de Moacyr Franco, e inspirada no mendigo por ele interpretado na “Praça da Alegria”, na TV. Ambas as gravações também chegaram ao LP, afinal era uma época de transição de formatos: “Baião de dois” saiu em “Harpa paraguaia em hi-fi – volume 3”, e “Me dá um dinheiro aí” em “Recordando carnavais”.
Um dos maiores ‘bandleaders’ brasileiros, o paulistano Sylvio Mazzuca (1919-2003) também foi pianista e exímio executante de vibrafone. Sua orquestra, nos anos 1950/60, era a mais solicitada para animar bailes e festas em São Paulo, além de também se exibir em bailes de formatura no Rio de Janeiro. Continuou atuando até meados dos anos 1990, viajando pelo país a bordo de um ônibus especialmente adaptado. De Mazzuca e sua prestigiadíssima orquestra apresentamos o disco Copacabana 5145, lançado em agosto-setembro de 1953. De um lado, o fox-slow “Limelight”, matriz M-554, composição de Charles Chaplin incluída em seu filme de mesmo nome, o famoso “Luzes da ribalta” no Brasil (só foi lançado nos EUA em 1972, pois Chaplin estava incluído na lista negra do macartismo). No verso, matriz M-555, um choro do próprio Mazzuca, “Travesso”.
Para terminar, apresentamos dois clássicos do mestre Zequinha de Abreu (Santa Rita do Passa Quatro, SP, 1880-São Paulo, 1935), executados pela Orquestra Colbaz, com piano e regência do maestro Gaó (Odmar Amaral Gurgel, 1909-1994), paulista de Salto. Os demais integrantes eram Jonas Aragão (clarineta), Zé Carioca (violino), Petit (violão), José Rielli (acordeão) e Atílio Grany (flauta).  Colbaz era o endereço telegráfico da gravadora Columbia do Brasil, que lançou esse disco em junho-julho de 1931 com o número 22029. Abrindo-o, matriz 381027, a bela valsa “Branca”, que Zequinha compôs em homenagem à filha do chefe da estação ferroviária de Santa Rita, então com 13 anos de idade, e a quem muito admirava, “a gentil senhorita Branca Barreto”, nome dado inclusive a pedido do chefe da estação, muito amigo do compositor. O verso, matriz 381028, é o famoso “choro sapeca” “Tico-tico no fubá”, mundialmente conhecido e gravado inúmeras vezes. Foi composto em 1917 como “Tico-tico no farelo”, e lançado por Zequinha durante um baile animado por sua orquestra. Mas já havia outra música com esse nome, daí o farelo ter sido trocado pelo fubá. Esse disco permaneceria em catálogo por vários anos, e teve outras edições: pela mesma Columbia, com o número 55038, e pela Continental, com o número 15004. E encerra a edição desta semana do GRB, que certamente proporcionará momentos muito agradáveis de recordação e enlevo. Aproveite!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Alceu Valença e Jackson do Pandeiro - Projeto Pixinguinha 1978 (2012)


Olá, amigos! Em dias em que eu não estou para muito papo, ou um tanto quanto preguiçoso, nada melhor que uma postagem do Projeto Pixinguinha. Pois nesta, eu só tomo mesmo o trabalho de editar ‘as faixas’ e criar a capinha. Querem saber mais sobre este show memorável de Alceu Valença e Jackson do Pandeiro? Eu indico com prazer. Vai lá no site da Funarte, a página é “Brasil – Memória das Artes – Projeto Pixinguinha”. Quem ainda não conhece, com certeza, vai adorar :)
Alceu Valença apresenta neste show praticamente todas as músicas que estão em um de seus primeiros álbums, o “Vivo”. Jackson do Pandeiro não faz por menos e nos traz alguns de seus maiores sucessos. Gravação muito boa. Vale conferir no GTM ;)

vou danado pra catende – alceu valença
forró em limoeiro – jackson do pandeiro
sol e chuva – alceu valença
vou de tutano – jackson do pandeiro
maria dos santos – alceu valença
alegria do vaqueiro – jackson do pandeiro
agalopado – alceu valença
anjo de fogo – alceu valença
pisa na fulo – alceu valença
eu sou você – alceu valença
quando eu olho para o mar – alceu valença
espelho cristalino – alceu valença
a rainha de tamba / o canto da ema / um a um – jackson do pandeiro
tambor de criola / meu boi não pode carriar / sebastiana – jackson do pandeiro
chiclete com banana – jackson do pandeiro
lágrima / vou gargalhar / vou ter um troço – jackson do pandeiro
amigo do norte – jackson do pandeiro
papagaio do futuro – alceu e jackson
papagaio do futuro (bis) – alceu e Jackson


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tonico E Tinoco 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 34 (2012)

Ê trem bão... Eis a segunda parte da retrospectiva que o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil dedica aos eternos e inesquecíveis Tonico e Tinoco. Dupla que tem em seu respeitável currículo, inclusive, atuações no cinema. Estrearam na sétima arte em 1949, participando de “Luar do sertão”, primeiro filme brasileiro do italiano Mário Civelli (1923-1993), que teve um remake em 1971, sob a direção de Oswaldo de Oliveira, e do qual a dupla também participou. Também atuaram em “Lá no meu sertão” (1963), “Obrigado a matar” (1965), “Os três justiceiros” (1972), “A marca da ferradura” (do mesmo ano), “O menino jornaleiro” (1982) e “A marvada carne” (1983). Enfim, caipiras versatilíssimos.
Prosseguindo esta retrospectiva da eterna “dupla coração do Brasil”, apresentamos onze preciosos fonogramas, todos originalmente da Continental. Em ordem cronológica de lançamento são estes: para começar, a primeiríssima gravação da dupla: o cateretê “Em vez de me agradecer”, de autoria do Capitão Furtado (Ariowaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires, pioneiro na divulgação da música caipira em disco), em parceria com Jayme Martins e o violonista Aymoré. Feita em 26 de novembro de 1944, matriz 10324, era só um teste, uma “prova”, como se dizia na época. Quando eles foram gravar o verso do 78, cantaram tão alto (como faziam lá na roça)... que o microfone estourou! E a Continental os puniu com seis meses de aulas de canto para educar a voz e voltar a gravar... Para sorte deles, uma música que deveria entrar no último disco lançado pela dupla Palmeira e Piraci, que teria no lado B “Salada internacional”, foi proibida pela censura do Estado Novo, e o jeito foi usar justamente “Em vez de me agradecer” como lado A desse disco, o Continental 15385. Agradaram em cheio!
Depois apresentamos o lado B do primeiro disco completo da dupla, de n.o 15417,  gravado em 4 de agosto de 1945 e lançado em setembro seguinte, matriz 10453: a moda de viola “Porto Esperança”, mesmo nome de um distrito da cidade de Corumbá, Mato Grosso do Sul, onde se passa a narrativa.
O 78 seguinte é o de número 15447-B, gravado em 8 de agosto de 1945 e lançado em outubro do mesmo ano, matriz 10470: outra moda de viola das boas, “Moreninha”, de Tonico sem parceiro.
Temos depois as duas faixas do disco 15655, gravado em 10 de abril de 1946 e lançado em junho seguinte. O lado A, matriz 10581, é outro modaço de viola, “Destino de caboclo”, de Tonico e Aldo Renatti, No verso, a matriz 10580 nos traz o recortado mineiro “Ai, meu bem”, de Piraci e Geraldo Costa.
Completamos depois o disco 15706, gravado em primeiro de junho de 1946 e lançado em setembro seguinte, apresentando o lado B, correspondente à matriz 10605, o rasqueado “Adeus, morena, adeus”, de Piraci e Luiz Alex, este último não creditado no selo original como co-autor.
Nossa próxima faixa é o lado A do disco 15795, gravado em pleno feriado de Tiradentes, 21 de abril de 1947, e lançado em julho seguinte, matriz 10707, a moda de viola ”A cruz do caminho”, de Anacleto Rosas Júnior (autor de inúmeros hits do sertanejo de raiz, como “Baldrana macia”, “Os três boiadeiros” e “Burro picaço”) e Arlindo Pinto, outro compositor bastante considerado no gênero, tendo em seu currículo parcerias com Mário Zan (“Chalana”, “Balanceio”) e Palmeira (“Baile na tuia”). Confira em nossa edição anterior o lado B, que é o clássico “Tristeza do jeca”.
Passamos em seguida às duas músicas do Continental 15796, gravado também em 21 de abril de 1947, e lançado no mesmíssimo suplemento de julho daquele ano. No lado A, matriz 10705, Arlindo Pinto entra novamente em cena, desta vez assinando em parceria com Geraldo Costa a moda de viola “Boiadeiro entrevado”. No verso, matriz 10704, Geraldo Costa assina com o acordeonista Mário Zan (o consagrado autor de “Nova flor”, “Quarto centenário”, “Chalana”, “Festa na roça” etc.)o recortado mineiro “Que lucro dá?”, inclusive com o próprio Mário puxando o fole no acompanhamento.
Por fim, o disco que encerra esta nossa segunda parte é o de número 15819, gravado em 30 de junho de 1947 e lançado entre agosto e outubro do mesmo ano. No lado A, matriz 10727, o cateretê “Você sabe onde eu moro”, de Piraci e Geraldo Costa, de novo com a sanfona do mestre Mário Zan no acompanhamento, mais o violão do co-autor, Piraci. No verso, matriz 10726, a moda de viola “Destinos iguais”, de autoria do mesmo Capitão Furtado que os descobriu, em parceria com o professor Ochelcis Laureano, paulista de Sorocaba e autor do clássico “Marvada pinga”, um dos eternos carros-chefes de Inezita Barroso. Curiosa, aliás, é a composição de seu nome: “O” (artigo masculino), “chel” (segunda sílaba do nome da mãe, Rachel) e “cis” (sílaba do meio do nome do pai, Francisco), ficando “Ochelcis”. Com esta interessante curiosidade, encerramos esta resenha do segundo volume que o GRB dedica a Tonico e Tinoco, a eterna e insubstituível “dupla coração do Brasil”!


* TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Tonico & Tinoco - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 33 (2012)


E o Grand Record Brazil chega à “idade de Cristo” (rsrsrsrsrsrs...)... É porque já estamos na edição de número 33, apresentando a primeira parte de uma retrospectiva dos melhores momentos da eterna “dupla coração do Brasil”, Tonico e Tinoco.
Obviamente, os dois eram irmãos, filhos de imigrantes espanhóis. Tonico (João Salvador Perez) era de São Manoel, interior paulista, onde nasceu em 2 de março de 1917. Tinoco (José Perez), por sua vez, era um pouquinho mais novo, nascido em 19 de novembro de 1920 em uma fazenda em Botucatu, perto de São Manoel, que hoje pertence ao município de Pratânia. E foi ouvindo as músicas de Cornélio Pires que foram influenciados na arte de cantar. Ainda adolescentes, compraram suas violas e passaram a cantar em dupla em serenatas nas fazendas da região, sendo que a primeira música que aprenderam foi o clássico “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira, que mais tarde gravariam (e está nesta seleção). Em fins de 1937, a família Perez, ao lado de outras, decidiu tentar a sorte em Sorocaba, Tonico foi ser servente na Pedreira Santa Helena e Tinoco virou engraxate na estação de trem da Sorocabana. Mas, a coisa não deu certo, e a família voltou ao campo, na Fazenda João Cintra, em São Manoel. Isso, porém, deu aos irmãos Perez a chance de se apresentar em rádio, mais precisamente a Rádio Clube de São Manoel, levados pelo administrador da fazenda, José Augusto Barros. Durante a semana eles trabalhavam na roça e aos domingos cantavam na rádio, sem nada ganhar, apenas por amor à arte.
Em 1943, já em São Paulo, os irmãos participaram de programas de calouros do rádio, sem êxito. Nessa ocasião, o Capitão Furtado (Ariowaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires), promoveu um concurso em seu programa “Arraial da Curva Torta”, na Difusora, para preencher uma vaga (o programa estava sem violeiros). É aí que os irmãos Perez, mais um primo, se candidatam como Trio da Roça. Classificam-se para a final, obtendo o primeiro lugar e, sem o primo, são batizados pelo Capitão Furtado com os nomes que os imortalizaram: Tonico e Tinoco.
 A primeira gravação da dupla saiu pela Continental, em julho de 1945: o cateretê “Em vez de me agradecer”, do Capitão Furtado, Jaime Martins e Aimoré, lado B de “Salada internacional”, com Palmeira e Piraci (só saiu porque a outra música dessa dupla foi censurada!). Em setembro de 1945 é que sai o primeiro 78 completo de Tonico e Tinoco, gravado em 8 de agosto desse ano, apresentando as modas de viola “Tudo tem no sertão”, de Tonico (lado A, que aliás está aqui, matriz 10454-2), e “Porto Esperança”, de Tonico e Miguel Patetti.
Depois disso, todos sabem o que aconteceu: êxitos sobre êxitos em disco (cerca de mil gravações em 60 anos de estrada!), apresentações em todos os cantos do Brasil (até mesmo no Teatro Municipal de São Paulo, e chegaram até a cantar numa feira de moda junto com nossa rainha-mãe do rock, Rita Lee!), sempre mantendo a fidelidade ao velho e bom gênero caipira, sendo por isso considerada, com justiça, a mais importante dupla caipira brasileira, e a de maior referência no gênero. Ganharam, claro, inúmeros prêmios: Roquette Pinto, Prêmio Sharp de Música, Medalha Anchieta, Troféu Imprensa... Tiveram companhia circense, escrevendo e atuando em 25 peças, e atuaram no rádio paulistano durante mais de 50 anos, na Nacional (atual Globo), na Record e sobretudo na Bandeirantes (então “a mais popular emissora paulista”), onde apresentaram o programa “Na beira da tuia”. Também tiveram esse programa na televisão, nas redes Bandeirantes e SBT. Gravaram, além da Continental, na Chantecler, na RCA Victor, na Copacabana, na Philips e em sua sucessora, a Polygram, onde registraram seu último trabalho em disco.
O último show da dupla aconteceu na cidade matogrossense de Juína, em 1994. Seis dias mais tarde, a 13 de agosto, Tonico falece após uma queda na escada do prédio em que morava, no bairro paulistano da Moóca. Tinoco, porém, após dizer que deixaria de cantar, prosseguiu sozinho, apoiado pelos seus inúmeros fãs e homenageado até mesmo por Roberto Carlos, em 2010, no especial de TV “Emoções sertanejas”. E continuaria na ativa até falecer, em 4 de maio deste 2012, em São Paulo, de insuficiência cardiorrespiratória, aos 91 anos, tornando-se assim o artista sertanejo que mais atuou na história de nossa música.
O GRB começa a trazer um pouco da história musical dos inesquecíveis irmãos Tonico e Tinoco. As gravações que apresentamos são todas de sua primeira fase, na Continental, feitas entre 1945 e 1948. Em ordem de lançamento, são: a já citada “Tudo tem no sertão”; “Sertão do Laranjinha”, motivo popular adaptado pela dupla mais o Capitão Furtado, matriz 10453, tendo no verso do disco 15418, gravado em 22 de julho de 1945 e lançado em setembro seguinte, o cateretê “Percorrendo o meu Brasil”, de João Martins, matriz 10451. Temos depois a moda de viola “Cuiabana” de Tonico e Bonfim Pereira, gravada em 16 de agosto de 1945, com lançamento em outubro (15447-A, matriz 10469). Em seguida o disco 15681, gravado em 10 de abril de 1946 e lançado em agosto do mesmo ano, apresentando a valsa “Cortando estradão”, de Anacleto Rosas Jr., matriz 10578, e no lado B, matriz 10579, uma toada que todo mundo sabe de cor, embora pungente: “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro. Aliás, quando Tonico e Tinoco foram gravar a música, os dirigentes da Continental lhes informaram que esse seria o último disco deles na empresa, pois já haviam gravado outros cinco com nove músicas e os ouvintes reclamavam não entender a pronúncia caipira da dupla. É claro que isso não aconteceu, e, com o dinheiro resultante do sucesso de “Chico Mineiro”, eles conseguiram comprar sua primeira casa para viver com a família. Do Continental 15706, gravado em primeiro de junho de 1946 e lançado em setembro seguinte, vem o lado A, matriz 10606, apresentando a moda de viola “Peão vaqueiro”, de Tonico sozinho. E não há quem nunca tenha ouvido “Tristeza do jeca”, toada clássica de Angelino de Oliveira, originalmente lançada em 1926 por Patrício Teixeira. Esta é a primeira das muitas gravações que Tonico e Tinoco fizeram desta página antológica, em pleno feriado de Tiradentes (21 de abril) de 1947, matriz 10706, com lançamento pela Continental em julho sob n.o 15795-B. Na sequência vem a toada “Vingança do Chico Mineiro”, de Tonico e Sebastião de Oliveira, sequência natural do sucesso de “Chico Mineiro”. Saiu no lado A do Continental 15913, em gravação de 3 de maio de 1948, lançada no suplemento para o trimestre de julho a setembro desse ano, matriz 10867, tendo no verso, matriz 10866, a moda de viola “Goiana”, de Tonico e Teddy Vieira (autor do clássico “O menino da porteira”, entre outras), também aqui apresentada. E é assim que o GRB começa a reviver a gloriosa trajetória de Tonico e Tinoco nas 78 rotações por minuto. E olha: semana que vem tem mais. Combinado?

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Vários - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 31 (2012)


Estamos de volta com o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil, em sua edição de número 32, apresentando mais uma seleção interpretada exclusivamente por cantoras. Nunca esquecendo de mencionar as pessoas da radialista Biancamaria Binazzi e do jornalista Ronaldo Evangelista, idealizadores do blog Goma Laca (www.goma-laca.com), de onde foi extraída a seleção musical completa de nossa edição número 29, e a quem eu e o Augusto agradecemos o toque e a lembrança, inclusive aproveitando fonogramas raros desse mesmo blog sempre que possível, unidos que estamos por um só ideal, que é a preservação de nossa memória musical.
Esta semana, começamos nossa seleção musical com a soprano Cristina Maristany (Porto, Portugal, 1906-Rio Claro, SP, 1966), na pia batismal Cristina Navarro de Andrade Costa, que veio parta o Brasil com poucos meses de idade. Ela gravou seus primeiros discos com o nome de Cristina Costa, e mudou o sobrenome artístico quando casou-se com o jornalista Breno Maristany. Não tiveram filhos, e mesmo depois de se desquitar, Cristina conservou o sobrenome Maristany na vida artística. Cristina aqui comparece com o disco Odeon X-3273, da série azul internacional da “marca do templo”, gravado em outubro de 1941. No lado A, matriz 6824, a clássica modinha “Quem sabe?” (“Tão longe, de mim, distante”...), de autoria do paulista (de Campinas)Antônio Carlos Gomes (1836-1896), aquele mesmo do “Guarani”, com versos do sergipano Bittencourt Sampaio (1834-1895), poeta e futuro governador do Espírito Santo. Foi inspirada em Ambrosina, o primeiro amor de Carlos Gomes, que morava na sua Campinas natal, e composta em 1859, mesmo ano em que o parceiro Bittencourt Sampaio se formou em Direito. Muito gravada, até mesmo por Agnaldo Timóteo. No verso, matriz 6825, a toada “Quando uma flor desabrocha”, de autoria de Francisco Mignone, que por sinal acompanha Cristina com seu quarteto de cordas nesse disco, música também muito conhecida.
Em seguida, tiramos do esquecimento Olga Praguer Coelho (Manaus, AM, 1909-Rio de Janeiro, 2008), cantora e pesquisadora de música folclórica aplaudida no Brasil e no mundo, inclusive nos Estados Unidos, onde residiu por vários anos, e lá moram dois filhos seus atualmente. Olga comparece inicialmente com uma gravação feita em Nova York nos anos 1940: a canção “Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira, cuja primeira gravação entre nós é de 1944, na voz de Alice Ribeiro. Depois, tem o ponto de macumba “Estrela do céu”, motivo popular por ela adaptado, em gravação Victor de 30 de julho de 1936, porém só lançada em junho de 1938, disco 34325-B, matriz 80182. No lado A desse disco, matriz 80137, gravação de 22 de abril de 1936, a conhecida modinha “Mulata”, também chamada de “Mucama” ou “Mestiça”, com versos de Gonçalves Crespo e melodia de autor até hoje ignorado, peça também merecedora de inúmeras gravações desde 1902. Olga encerra sua participação neste volume com “Róseas flores”, outro motivo popular por ela adaptado, em gravação Victor de 29 de novembro de 1935, só lançada em abril de 36, disco 34042-A, matriz 80024.
Gaúcha de Uruguaiana, Elisa de Carvalho Coelho(1909-2001)criou-se porém na capital catarinense, Florianópolis. Foi casada com o deputado Lopo Coelho e mãe do jornalista e apresentador de TV Goulart de Andrade, o do bordão “Vem comigo”. Sua discografia, nos selos Victor, Odeon e Parlophon, abrange 15 discos 78 com 30 músicas, entre 1930 e 1932, incluindo hits como “No rancho fundo” e “Caco velho”, ambas de Ary Barroso e a primeira com letra de Lamartine Babo. Dessa discografia, o GRB apresenta a toada “Ciúme de caboca” (assim mesmo, em caipirês), de Josué de Barros, descobridor de Cármen Miranda, e Domingos Magarinos, em registro Victor de 11 de junho de 1930, só lançado, porém mais de um ano depois, em agosto de 1931, com o número 33444-B, matriz 50308 (o lado A é “No rancho fundo”, que fica pra uma próxima).
 A paulistana Helena Pinto de Carvalho (1909-1937) foi funcionária pública, trabalhando na Secretaria das Municipalidades de São Paulo. Iniciou sua carreira artística no rádio, em 1929, e dois anos mais tarde participou do primeiro filme sonoro produzido no Brasil, “Coisas nossas”. Helena faleceu prematuramente, com apenas 28 anos, de ataque cardíaco, em sua casa, deixando seis 78 com doze músicas. Ei-la aqui no Columbia 22021, de 1931, interpretando de um lado, matriz 380984, o samba “Já cansei de chorar por você”, e , de outro, matriz 380991, uma deliciosa marchinha de Jayme Redondo, “Chi! Iaiá tá brava”.
De longa carreira no teatro de revista, a carioca Aracy Cortes (Zilda de Carvalho Espíndola, 1904-1985) não gravou tanto quanto poderia, talvez porque a maior parte de seus rendimentos viesse mesmo dos palcos. Já veterana, em 1965, participou do show “Rosa de ouro”, ao lado de Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Aracy está presente nesta edição com dois sucessos inesquecíveis lançados em selo Parlophon: o primeiro, lançado em novembro de 1928 em disco 12868, é o samba “Jura”, de Sinhô, lançado por ela na revista musicada “Microlândia”. Ironicamente, porém, ela a foi a segunda a gravá-lo, pois “Jura” teve dois registros na mesma sessão, fato inusitado: o primeiro por Mário Reis (matriz 2070, lançado com o selo Odeon, da qual a Parlophon era subsidiária), e em seguida o de Aracy (matriz 2071), ambos de sucesso e com acompanhamento da Orquestra Pan American de Simon Bountman, aqui como Simão Nacional Orquestra. Em seguida outro clássico, extraído do disco 12926-A, matriz 2366, lançado em março de 1929: “Iaiá”, ou “Meiga flor”, de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto, que ficou mais conhecido como “Ai, Ioiô”, considerado o primeiro samba-canção brasileiro, também cantado por Aracy na revista “Miss Brasil”. Tinha recebido duas letras anteriormente: a primeira por Freire Júnior (“Meiga Flor”), gravada por Francisco Alves, e a segunda por Cândido Costa (“Linda flor”), na voz de Vicente Celestino, mas a que pegou foi mesmo este “Ai, Ioiô”, com Aracy Cortes.
Logo depois, trazemos de volta a cantora-folclorista Elsie Houston (Rio de Janeiro, 1902-Nova York, EUA, 1943), agora interpretando um  motivo popular adaptado por Ary Kerner (também autor de “Na Serra da Mantiqueira” e “Trepa no coqueiro”, entre outras), o samba “Morena cor de canela”, extraído do disco Columbia 5217-A, lançado em junho de 1930, matriz 380649.
Na faixa seguinte, temos a carioca Laura Suárez (1909-c.1990), a primeira “garota de Ipanema” de que se tem notícia, afinal foi Miss Ipanema em 1929. Atuou também em teatro (ao qual dedicou mais de 50 anos de carreira) e cinema, tendo participado de filmes como 'Tudo azul” e 'Mulheres cheguei”. Só gravou na Brunswick, marca americana de curta duração entre nós, em 1930/31: 13 discos com 26 músicas, e aqui se apresenta com um samba de sua autoria, “Você... você”, lançado em setembro de 1930 pela Brunswick com o número 10092-B, matriz 422.
Encerrando, trazemos Neide Martins, cantora cuja biografia é uma incógnita. Ela deixou uma discografia escassa, e dela aqui está sua gravação de estreia, o frevo-canção “Que fim você levou?”, de Nélson Ferreira, para o carnaval pernambucano de 1937,  lançado em janeiro daquele ano pela Victor e gravado ainda em 10 de dezembro de 36, disco 34142-A, matriz 80293. Enfim, mais uma edição do GRB com cantoras que deixaram sua marca na história da MPB, e que não podem nem devem ser esquecidas.

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Johnny Alf & Zezé Motta - Projeto Pixinguinha 1978 (2012)

Boa noite amigos cultos, ocultos e associados! Ainda no último minuto consegui marcar o ponto, ou melhor dizendo, a postagem da quinta feira. Como cheguei tarde e já sem muita paciência para ficar em frente ao computador, vou lançar mão de mais um artifício para momentos como este. Ao invés de um ‘disco de gaveta’, vamos a um ‘arquivo de gaveta’. Mais exatamente, outro volume “Projeto Pixinguinha”, extraído do excelente site da Funarte, “Brasil Memória das Artes”. Desta vez temos o memorável show de Zezé Mota e Johnny Alf. Como convém, deixo os detalhes para serem lidos no próprio site.
Como sempre, um show excelente, que vale a pena ser ouvido com carinho.

oxum
ilusão atoa – trocando em miúdos – rapaz de bem
anunciação
sai da frente – eu e a brisa
dores de amores
magrelinha
rita baiana
dengue – oxum



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aurora Miranda - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 31 (2012)


Prosseguindo em sua brilhante trajetória, o Grand Record Brazil chega a seu trigésimo-primeiro volume, apresentando alguns dos melhores momentos da cantora Aurora Miranda, irmã mais nova de Cármen. Ao contrário da irmã famosa, que era portuguesa de nascimento, Aurora Miranda da Cunha nasceu no Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1915. Assim como suas irmãs (havia também Cecília, que não seguiu carreira de cantora), nossa Aurora gostava de cantar desde a mais tenra idade, alegrando os frequentadores da pensão dirigida pela mamãe, a dona Emília (esta, portuguesa, com certeza). Embora, na opinião de muitos, ela tenha sido a melhor voz entre as Mirandas, o destino fez Aurora começar no rádio à sombra do êxito retumbante da mana Cármen. Ainda aos 18 anos, foi convidada por Josué de Barros, o mesmo descobridor de Cármen, para cantar um número na Rádio Mayrink Veiga e, com o sucesso, passou a se apresentar no programa de Ademar Casé (avô da atriz e comediante Regina Casé), na PRAX, Rádio Philips. Em 1933, levada pelo próprio Josué de Barros, gravou seu primeiro disco, na Odeon, com duas faixas em dueto com Francisco Alves: a marchinha junina “Cai, cai, balão”, de Assis Valente (considerada pioneira desse gênero entre nós), e o samba “Toque de amor”, de Floriano Ribeiro de Pinho. Um mês depois, novo dueto com Chico Alves no fox “Você só… mente”, dos irmãos Hélio e Noel Rosa, que Aurora interpretaria, em 1989, no filme “Dias melhores virão”, de Cacá Diegues. Aos 25 anos, casou-se com o comerciante Gabriel Richaid, e ambos depois decidiram residir nos Estados Unidos junto com Cármen Miranda. É Aurora, inclusive, quem canta “Os quindins de Iaiá”, de Ary Barroso, no filme “Você já foi á Bahia? (The three caballeros)”, de Walt Disney (1944), misturando “live action” com animação. Nessa época, também participou de programas radiofônicos ao lado de Orson Welles e Rudy Vallee, e fez apresentações no Teatro Roxy e na Boate Copacabana, em Nova York. Voltou ao Brasil em 1952, e após a morte da irmã Cármen, em 1955, contribuiu em muito para perpetuar a memória da “pequena notável”, tendo participado, em 1995, de uma homenagem a Cármen no Lincoln Center de Nova York, além de dar entrevistas quando dos 90 anos de seu nascimento, em 1999, ocasião em que inaugurou inúmeras mostras alusivas ao evento. Aurora Miranda faleceu de forma discreta, em sua casa no Rio de Janeiro, a 22 de dezembro de 2005, de ataque cardíaco, deixando uma discografia de 81 discos de 78 rpm com 161 músicas, além de um LP na Sinter. Desse legado, o GRB foi buscar onze fonogramas bastante representativos. Para começar, temos a marchinha “Ano novo”, de Custódio Mesquita e Zeca Ivo, gravação Odeon de 23 de outubro de 1935, lançada em dezembro seguinte, disco 11292-A, matriz 5174. Em seguida, o samba-canção “Nêgo… neguinho”, de Custódio Mesquita e Luiz Peixoto, gravado em 27 de abril de 35, com lançamento em junho (11227-B, matriz 5023). A terceira faixa é o samba ‘Câmbio de amor”, também de Custódio Mesquita em parceria com Paulo Orlando, destinado ao carnaval de 1935 (gravação de 7 de agosto de 34, lançada ainda em novembro, disco 11165-B, matriz 4888). Para o Natal de 1935, Aurora gravou a marchinha “Natal divino”, de Mílton Amaral, em  4 de dezembro desse ano, com lançamento a toque de caixa pela Odeon, disco 11288-A, matriz 5173. A faixa 5 é o samba-canção clássico de Ary Barroso, “Risque”, lançado por Aurora na Continental após sua volta ao Brasil, depois de 15 anos de permanência nos Estados Unidos, em março-abril de 1952, disco 16540-B, matriz C-2818 (na faixa 11 vem o lado A, matriz C-2817, uma regravação do samba “Faixa de cetim”, também de Ary, originalmente lançado em 1942 por Orlando Silva). O disco tem orquestração e regência do maestro Radamés Gnattali, com o pseudônimo de Vero, mas “Risque” não fez sucesso na voz de Aurora, segundo ela mesma por  falta de empenho da Continental na divulgação do disco, e só no início de 1953 é que a música fez sucesso, com Linda Batista. A faixa 6 apresenta, do quinto disco de Aurora, e pela Odeon (11074-B, matriz 4733), um grande sucesso do carnaval de 1934, “Se a lua contasse”, de Custódio Mesquita (e, segundo alguns estudiosos, em parceria com o médico e radialista Paulo Roberto, não creditado na edição e no disco), gravação de 21 de outubro de 1933 lançada ainda em novembro desse ano. Há uma participação vocal de João Petra de Barros (“a voz de 18 quilates”), também não creditada no selo original. Em seguida seis gravações feitas nos EUA pela Decca, com acompanhamento do Bando da Lua: a da marchinha “Seu condutor”, de Herivelto Martins, Alvarenga e Ranchinho (sucesso destes dois últimos no carnaval de 1938), que Aurora realizou em 14 de agosto de 1941,  alguns dias antes, 17 de julho, ela fez a de “Meu limão, meu limoeiro”, tema folclórico adaptado por José Carlos Burle que voltaria a fazer sucesso no final dos anos 1960 com Wilson Simonal. Ambas as gravações não foram lançadas na época nem mesmo nos Estados Unidos, e só chegariam ao Brasil em LP de 1975. Dessa fase também é o registro de Aurora para a clássica marchinha carnavalesca que leva seu nome, de Roberto Martins e Mário Lago, originalmente sucesso de Joel e Gaúcho em 1940 e regravado por Aurora em 20 de agosto de 1941, registro esse lançado no Brasil pela Odeon com o número 18186-A, matriz DLA-2666. A seguir, outro clássico,“Cidade maravilhosa”, marchinha de André Filho que reproduzimos aqui em seu registro original (faixa 14), feito na Odeon em dueto com o próprio autor em 4 de setembro de 1934, com lançamento em outubro seguinte (11154-A, matriz 4901). Hit no carnaval de 1935, foi oficializada como hino da cidade do Rio de Janeiro em 1960, e vale como lembrança de uma cidade que perdeu todo o glamour do passado (mas quem sabe um dia volta?). A faixa 13 é outro registro da Decca americana com Aurora e o Bando da Lua, e outro clássico carnavalesco: “Pastorinhas”, de João “Braguinha” de Barro e Noel Rosa, hit na folia de 1938 com Sílvio Caldas e regravado pela cantora em 20 de agosto de 1941, no Brasil o lado B de “Aurora”, matriz DLA-2666. Na faixa 12, mais um flagrante de Aurora Miranda na Decca: “A jardineira”, marchinha de Benedito Lacerda e Humberto Porto que tomou os salões em 1939 na voz de Orlando Silva e regravada por Aurora nos EUA em 20 de agosto de 1941, tendo o disco saído no Brasil pela Odeon com o número 50029-A, matriz DLA-2642. Para encerrar, uma faixa do primeiro disco de Aurora Miranda, em dueto com Francisco Alves: o já citado samba “Toque de amor”, de Floriano Ribeiro de Pinho, gravação Odeon de 22 de maio de 1933, lançada em junho seguinte sob número 11018-B, matriz 4675. Enfim, uma pequena retrospectiva do trabalho de Aurora Miranda, que, ao contrário da irmã Cármen, nunca mereceu uma ou mais coletâneas individuais de suas gravações, nem em LP nem em CD. Esperamos que, com esta edição do GRB, essa injustiça comece desde já a ser reparada!
TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Vários - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 30 (2012)


E chegamos à trigésima edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil! Esta semana, estamos apresentando alguns registros significativos da primeira fase do rock and roll em nosso país (chamada por especialistas de pré-Jovem Guarda), e algumas músicas em homenagem ao Dia dos Pais, já transcorrido este ano, mas que deve ser todos os dias.
Iniciamos esta seleção com um desses roqueiros pioneiros: Carlos Gonzaga. Interpretando basicamente versões de hits internacionais, o cantor deixou sua marca na história de nosso incipiente rock and roll. Eis aqui duas destas versões, gravadas na RCA Victor em 9 de outubro de 1959 e lançadas em janeiro de 60 no disco 80-2155: “Oh! Carol”, de Neil Sedaka e Howard Greenfield, vertida para o português por Fred Jorge, é o lado A, e o verso, matriz 13-K2PB-0801, nos traz uma composição de Paul Anka, vertida por Odair Marzano, “Rapaz solitário” (no original, “Lonely boy”). Ambas as gravações também sairiam no LP “The best seller”.
 O disco seguinte, o Odeon 14328, lançado em junho de 1958, é um testemunho de início de carreira de outros dois grande s nomes roqueiros da época: os irmãos Tony e Celly Campello. No dia 11 de abril daquele ano, eles inciaram sua trajetória em disco gravando uma faixa cada um no mesmo 78! E com duas musicas de autoria do acordeonista Mário Gennari Filho em parceria com Celeste Novaes, ambas em inglês.e especialmente compostas.  De um lado, Celly canta “Handsome boy” (Belo rapaz), matriz 12468, e do outro Tony ataca de “Forgive me” (Perdoa-me), matriz 12467. Interessante é que o disco saiu também em compacto simples de 45 rpm, o primeiro editado pela Odeon no Brasil! E ambas as músicas iriam também sair, em 1959, nos primeiros álbuns em vinil dos irmãos, “Forgive me” no de Tony Campello, sem título, e “Handsome boy” no de Celly (“Estúpido Cupido”, que trouxe no selo o título “Come rock with me”!). O acompanhamento é do conjunto do próprio Mário Gennari Filho, com coro formado pelos Titulares do Ritmo. Será impossível não se divertir...
Em seguida voltaremos bem mais no tempo, mais exatamente a 1954. É exatamente desse ano o disco Copacabana 5286, com Betinho e seu Conjunto. Betinho, aliás, Alberto Borges de Barros, era filho de Josué de Barros, descobridor de Cármen Miranda, e, ainda adolescente, acompanhou a cantora ao violão muitas vezes. Já nos anos 1950, formou um conjunto que logo se tornou o mais solicitado para animar os bailes então “modernos”. No lado A, matriz M-866, o conhecidíssimo fox “Neurastênico”, parceria dele com Nazareno de Brito, sucesso inesquecível que seria revivido, em 1976, na novela “Estúpido Cupido”, escrita por Mário Prata para a TV Globo, como tema do velho Guimarães, personagem interpretado pelo ator Oswaldo Louzada, que gravava as vozes dos mortos... No lado B, matriz M-867, o mambo “Burrinho leiteiro”, só do Betinho. Ambas as músicas, claro, chegariam ao LP, naquele tempo de dez polegadas, um ano depois. Betinho chegou a ser considerado “o rei da noite”, mas abandonou tudo para cumprir missão evangelizadora.
O “Clube do Guri” foi um programa radiofônico que marcou época nos anos 1950, apresentado nas manhãs de domingo pelas emissoras do grupo Diários Associados, então o maior conglomerado de mídia do país (a edição portoalegrense do programa, na Rádio Farroupilha, revelou nada mais nada menos que Elis Regina). No Rio de Janeiro, era apresentado pela Rádio Tamoio, outra emissora Associada. Pois o  coral infantil do programa aqui está com o disco Odeon 14485, gravado em 17 de junho de 1959 e lançado em julho seguinte, com duas músicas de Silvino Neto, compositor e humorista, homenageando o Dia dos Pais: o samba “Papai é o maior”, matriz 13590, e a canção “Parabéns pro papai”, matriz 13591.
O carioca Pelópidas Brandão Guimarães Gracindo ganhou a imortalidade com o pseudônimo de Paulo Gracindo (1911-1995). Foi apresentador e ator de rádio e televisão dos mais conceituados, e, nas novelas da TV Globo, interpretou personagens inesquecíveis, como o Tucão de “Bandeira 2”, o Odorico Paraguaçu de “O bem-amado” (depois seriado), o João Maciel de “O casarão” e o coronel Ramiro Bastos na primeira versão de “Gabriela”. Marcou época igualmente como o Primo Rico do humorístico “Balança, mas não cai”, na lendária Rádio Nacional (mais tarde também apresentado na TV pela Globo), contracenando com o Primo Pobre, Brandão Filho. Gracindo aqui comparece em outra homenagem ao Dia dos Pais, declamando um poema de mesmo nome, assinado por seu colega na Nacional, Giuseppe Ghiaroni, lançado pela Sinter em abril de 1956 com o número 464-B, matriz S-1035.
Angela Maria e João Dias, que já haviam feito sucesso estrondoso gravando em dueto a valsa “Mamãe”, de Herivelto Martins e David Nasser, em 1956, registrariam em 57 outra valsa dos mesmos autores, agora homenageando os pais, nada mais justo. Trata-se de “Deus te abençoe, papai”, matriz M-1986, lançada no disco 20038-A, dentro de uma série considerada “internacional”, ou seja, de exportação.
Por fim, apresentamos uma das “cantorinhas” reveladas na edição carioca do “Clube do Guri”, da Rádio Tamoio. Trata-se de Zaíra Cruz, que homenageia, curiosamente, os avós, nesta valsa de Arcênio de Carvalho e Lourival Faissal, intitulada justamente “Dia dos nossos avós”, gravação RCA Victor de 15 de março de 1956, lançada em maio seguinte, disco 80-1600-A, matriz BE6VB-1021 (lembrando que o Dia dos Avós é festejado a 26 de julho, dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria Santíssima e, por tabela, avós de Jesus). É esta faixa que encerra o nosso trigésimo GRB, que certamente proporcionará momentos proveitosos de entretenimento. Quem lembra, vai adorar recordar, e quem nunca ouviu poderá conhecer. Bom divertimento!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO
      

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

MPB-4 - Lembranças Do Magro (2012)


Boa noite, amigos cultos, ocultos e associados! Hoje, infelizmente, perdemos mais um grande artista da nossa Música Popular Brasileira, José Waghabi Filho, o Magro do MPB-4. Ele faleceu vítima de um câncer de próstata, o qual já carregada há alguns anos.
É estranho como a gente nunca se acostuma com a morte. Fiquei chocado quando soube que o Magro morreu. Tive a honra de conhecê-lo através do blog. Ele era um grande incentivador do Toque Musical. Enviei várias vezes para o Magro discos que ele procurava para tocar em seu programa de rádio “Vozes Brasileiras”. Hoje posso dizer, foi ele quem me enviou o primeiro disco do MPB-4, um compacto raríssimo, lançado em 1964.
Em homenagem ao maestro, arranjador e multinstrumentisa Magro Waghabi, reuni aqui vinte e uma músicas de fases distintas de seu quarteto. Não sei bem ao certo quais e quantas dessas músicas tiveram os seus arranjos. O importante é que em todos esses momentos ele esteve presente. Fica aqui a nossa saudação.
mudei de ideia
sentinela
amigo é pra essas coisas
menina da ladeira
viva zapátria
benvinda
tereza triste
o cafona
andaluzia
fica
ana luiza (com quarteto em cy)
galope
vera cruz
faz tempo
aparecida
a lua
se meu jardim der flor (com boca livre)
mascarada
samba da minha terra
pout pourri noel rosa
roda viva (com chico buarque)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Vários - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Volume 29 (2012)


Após uma semana de ausência, motivada pelo aniversário do nosso Toque Musical, estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 29. O coquetel da semana tem quinze fonogramas com os mais variados intérpretes, para enriquecer os acervos de muitos colecionadores.
Para começar, apresentamos uma cantora incluída entre as pioneiras na interpretação e gravação de temas folclóricos: Elsie Houston (Rio de Janeiro, 1902-Nova York, EUA, 1943), soprano que era filha de um dentista americano do Tennessee, no Rio desde 1892, e de uma carioca descendente de portugueses da Ilha da Madeira. Estudou canto lírico na Alemanha em 1922 e tomou o gosto por nosso folclore ao conhecer o maestro e compositor Luciano Gallet. Casou-se, em 1927, com o poeta e militante trotskista Benjamin Peret, durante temporada em Paris, e tiveram um filho em 1931. No mesmo ano, hostilizado pelo governo getulista, o casal mudou-se para a França. Em 1936, Peret foi lutar na Guerra Civil Espanhola e se envolveu com uma pintora hispano-americana, motivo que faria Elsie, um ano mais tarde, mudar-se para Nova York. Em 1939-40 apresentou na rede de rádio NBC o programa “Fiesta pan-americana”, onde divulgava nossa música. No dia 20 de fevereiro de 1943, Elsie Houston foi encontrada morta em seu apartamento na Park Avenue, não se sabe até hoje se por assassinato ou suicídio! Aqui, poderemos ouvi-la numa gravação de 26 de setembro de 1933, feita na Gramophone Company de Paris,  na qual interpreta dois temas harmonizados por ela mesma: “Berceuse africano-brasilienne” e Óia o sapo”, disco original K-7055-B, matriz OPG 1017-1. Em seguida, Gastão Formenti (Guaratinguetá, SP, 1894-Rio de Janeiro, 1974) apresenta um de seus mais queridos e conhecidos sucessos: o cateretê (que mais parece rumba) “De papo pro á”, da parceria Joubert de Carvalho-Olegário Mariano, em gravação Victor de 28 de agosto de 1931, lançada em outubro do mesmo ano, disco 33469-A, matriz 65226. Convém lembrar aliás que jereré, citada na letra, não é uma cidade mas sim um tipo de rede de pesca. Pescar de jereré equivale a pescar de anzol. Editado como “canção regional”, “De papo pro á” tem vários registros e é até hoje muito conhecida e lembrada. O contracanto é feito por Castro Barbosa, sem crédito no selo e o acompanhamento por “orquestra típica”. Dilú Mello (Maria de Lourdes Argollo Oliver, Viana, MA, 1913-Rio de Janeiro, 2000) também foi séria pesquisadora de nosso folclore, e deixou mais de cem composições. Aqui, um de seus hits, bastante conhecido: a toada “Fiz a cama na varanda”, dela em parceria com Ovídio Chaves, lançada pela Continental em abril de 1944, disco 15126-A, matriz 724, com acompanhamento do Conjunto Tocantins, que também faz coro. Outra peça que tem inúmeros registros, entre eles os de Stelinha Egg, Inezita Barroso e Nara Leão. De ascendência alemã, o carioca Breno Ferreira Hehl (1907-1966) foi cantor enquanto estudava direito, e abandonou a advocacia depois de se formar. Também foi pioneiro do cooperativismo no Brasil, tendo publicado vários livros técnicos, e foi o descobridor de Dolores Duran. Eis Breno Ferreira em sua obra mais conhecida, por certo: a embolada “Andorinha preta”, por ele composta em 1925, e que gravaria sete anos depois, na Columbia, neste registro lançado em maio de 1932, disco 22136-B, matriz 381255. Foi regravada mais tarde, entre outros, por Nat King Cole, Trio Irakitan e (vejam vocês!) Hebe Camargo. Os Trigêmeos Vocalistas aqui comparecem com um corimá (gênero afro-brasileiro) de João da Baiana, “Ogum Nilê”, por eles gravado na Odeon em 31 de maio de 1950, com lançamento em agosto seguinte com o n.o 13033-A, matriz 8633. No selo original, é dado como co-autor Raul Carrazatto, um dos Trigêmeos, mas em 1957, quando o próprio João da Baiana regravou a música, Raul sumiu da parceria, nem sequer sendo creditado! Por que será? Vamos agora comentar sobre três gravações do GRB desta semana, feitas em 7-8 de agosto de 1940, a bordo do navio “S.S.Uruguai”, então atracado no porto carioca, sob a supervisão do maestro britânico Leopold Stokowski (Londres, 1882-Hampshire, 1977), que então excursionava com sua All American Youth Orchestra. A nata da MPB naqueles tempos foi escalada para fazer uma série de 40 gravações, com plateia formada pelos músicos da orquestra de Stokowski. Destas, dezessete saíram em disco nos EUA pela Columbia, no início de 1942, em dois álbuns de 78 rpm com quatro cada um, intitulados “Native brazilian music”. O GRB apresenta, desta série que só saiu no Brasil em 1987, em LP da Funarte, três registros preciosíssimos: o ponto de macumba “Caboclo do mato”, de Getúlio “Amor” Marinho e João da Baiana, interpretado por ele mesmo em dupla com Janir Martins, sendo a flauta do mestre Pixinguinha (disco 36504-B, matriz CO-30151),  a embolada “Bambo do bambu”, de Donga e Patrício Teixeira, interpretada por Jararaca e Ratinho (disco 36505-B, matriz CO-30156), e o samba, também de Donga, “Passarinho bateu asas” (disco 36508-B, matriz CO-30149), na voz de Zé da Zilda. Histórico! Isaura Garcia, a “personalíssima”, cantora de longa carreira e inúmeros sucessos, vem aqui com um deles, em dueto com o mineiro (de Viçosa) Hervê Cordovil: o baião “Pé de manacá”, de Hervê com Mariza Pinto Coelho, em gravação RCA Victor de 22 de junho de 1950, lançada em setembro do mesmo ano, disco 80-0686-A, matriz S-092695. Eles já cantavam a música em dueto na Rádio Record de São Paulo, e o sucesso se repetiu em disco. Conhecidos como “os reis do riso”, Alvarenga e Ranchinho aqui estão em uma das páginas mais conhecidas e apreciadas de seu repertório: a “valsa fúnebre” “Romance de uma caveira”, deles próprios mais Chiquinho Sales, em gravação Odeon de 2 de fevereiro de 1940, lançada em março seguinte, disco 11831-A, matriz 6301. No acompanhamento, o conjunto do violonista Rogério Guimarães. Quem nunca ouviu que atire a primeira pedra! A seguir, duas gravações lançadas somente em LP: a primeira é a conhecida toada “Chuá, chuá”, de Pedro de Sá Pereira, Ary Pavão e Marques Porto, os três por coincidência gaúchos. Foi lançada na revista teatral “Comidas, meu santo!”, em 1925,  por Roberto Vilmar, sendo depois levada a disco pelo cantor Fernando. Aqui, quem a interpreta, acompanhada pela orquestra de Rafael Puglielli, é a dupla Cascatinha e Inhana, em registro lançado pela Todamérica em 1958 no álbum “Os sabiás do sertão” (LPP-TA-316). A outra é a canção “Azulão”, de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, cuja primeira gravação, na voz de Paraguassu (1930), apresentamos na edição anterior do GRB. Aqui, a regravação de Patrício Teixeira, feita em 1956 para o LP de dez polegadas da Sinter “Festival da velha guarda” (SLP-1074), o único registro por ele feito após seu último 78 rpm, que saiu em 1944. Stefana de Macedo (Recife, PE, 1903-Rio de Janeiro, 1975) também foi séria pesquisadora do folclore brasileiro. Ela aqui comparece com o coco “Ronca o bisouro na fulô”, recolhido por ela mesma, em gravação lançada pela Columbia em fevereiro de 1930, disco 5147-A, matriz 380432. Pra finalizar esta nossa edição do GRB, duas composições do mestre baiano Dorival Caymmi. A primeira, interpretada por ele mesmo, é a clássica canção praieira “O mar”, em registro Columbia de 7 de novembro de 1940, lançado em dezembro seguinte, disco 55247, matrizes 328-329, ocupando os dois lados do disco. O acompanhamento orquestral foi concebido por Guerra Peixe, conduzido com maestria por Lírio Panicalli. A segunda é uma canção de ninar interpretada pelo Trio de Ouro em sua primeira fase (Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas): “História pra sinhozinho”, gravação Odeon de 15 de março de 1945, lançada em maio seguinte com o n.o 12573-B, matriz 7779, e acompanhamento de conjunto de estúdio da “marca do templo”, faixa esta que encerra com chave de ouro o nosso GRB da semana. Para apreciar e sobretudo guardar!
TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO
*ESTA SELEÇÃO MUSICAL FOI EXTRAÍDA DO SITE GOMA-LACA, RESPONSÁVEL PELA DIGITALIZAÇÃO DOS FONOGRAMAS.

sábado, 28 de julho de 2012

Marcos Roberto - Singles E Raridades (2012)


Boa noite, amigos cultos, ocultos e associados! Hoje eu estava certo de que iria faltar à postagem, pois o dia foi puxado. Literalmente puxado e arrastado. Estou com uma sensação de derrota perante a minha própria e impiedosa autocrítica. Ser virginiano é uma merda!  Mas depois de mais uma dose de whisky para acalmar (e acalmei), decidi sair do bode e voltar atrás. Quem posta, seus males espanta. Lá vou eu...
Me lembrei que estava em falta com o amigo Marujo. Na semana passada ele enviou esta seleção musical, montada com capricho, em homenagem ao cantor Marcos Roberto, falecido no sábado, dia 21 deste mês. Confesso a vocês que nunca dei muita boa para uma boa parte de artistas da Jovem Guarda que acabaram caindo no gênero brega fácil. Marcos Roberto, dentro do que eu conheço, foi um desses artistas que acabaram entrando no esquemão para não cair no esquecimento. Posso estar parecendo meio injusto, mas estou dizendo essas coisas diante ao que eu vi e agora estou ouvindo. Temos aqui uma seleção de ‘singles’ e raridades do cantor. Coisas que eu mesmo nem conhecia. E para o meu espanto e contradição, descubro aqui um artista que eu não conhecia. Algumas de suas músicas, do período da Jovem Guarda, superam em muito a maioria da turma (sem falar, obviamente, em Roberto e Erasmo). Pô, estou aqui delirando com músicas como “Bem mais de 100”; “Prisioneiro”; “Quem pôs tanta coisa em sua cabeça” e “Queime as minhas roupas”. Bom, se o Black & White ajudou eu não sei. O fato é que estou gostando. Por favor, não me falem de ressaca. Confiram aí a seleção, que acima de tudo foi feita com muito carinho e é também a nossa homenagem ao artista.  
vou rir de ti
pedacinho de sabão
no te tengo a ti
yo te quiero asi
la ultima carta
si tu quieres partir
prisioneiro
quem pôs tanta coisa na sua cabeça
maria rosa
queime minhas roupas
ah, antes que eu me esqueça
erros
vida, minha vida
bem mais que 100
muito obrigado
querida
vontade de voltar
deixa é comigo
lembranças de você
menina triste
te amo, te amo, te amo

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vários - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 28 (2012)

Fratura no joelho é um troço bem complicado... O nosso Augusto TM que o diga! Mas depois de mais um período de ausência forçada (até eu senti saudades), eis aqui a vigésima-oitava edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil, apresentando mais dez preciosos fonogramas da era das 78 rotações por minuto para enriquecer os acervos de nossos amigos cultos e associados. E começamos com um sucesso de Patrício Teixeira (1893-1972), carioca da Rua São Leopoldo, na lendária Praça Onze, que começou a gravar ainda pelo processo mecânico e continuou de maneira bem sucedida na fase elétrica, até quando saiu seu último disco, em 1944. (depois disso, ainda gravaria a canção “Azulão”, de Hekel Tavares e Luiz Peixoto, para um LP da Sinter).  Foi até professor de violão, e entre suas alunas mais ilustres estão Nara Leão e as irmãs Linda e Dircinha Batista. E Patrício aqui comparece com um clássico: o samba “Gavião calçudo”, do mestre Pixinguinha, com letra de Cícero “Baiano” de Almeida, cujo sucesso desaguaria no carnaval de 1930. Saiu em duas gravações de Patrício: a primeira no selo Parlophon, em março de 1929, e esta segunda, com o selo Odeon, lançada em agosto do mesmo ano com o n.o 10436-A, matriz 2685, na qual o intérprete canta a letra completa, acompanhado de piano e violão (no registro original era com orquestra, e nele só foram apresentados o estribilho e uma das estrofes). “Azulão” também está aqui, mas no registro original do “cantor das noites enluaradas”, Paraguassu (Roque Ricciardi, 1894-1976), lançado pela Columbia em fevereiro de 1930, disco 5141-A, matriz 380474.
Em seguida, um monólogo divertidíssimo interpretado pelo ator Pinto Filho. Trata-se de “Guerra ao mosquito”, de Luiz Peixoto e Marques Porto, lançado pela Parlophon em agosto de 1929 com o n.o 12989-A, matriz 2670. Mais atual impossível, uma vez que o Brasil tem sido, nos últimos tempos, atingido por endemias tropicais como a dengue, especialmente no verão. Não faltam farpas a políticos de prestígio na época, como o então candidato a presidente da República Júlio Prestes.
A próxima faixa vem a ser o primeiro grande sucesso nacional de Ary Barroso como compositor: a marchinha “Dá nela”, interpretada por Francisco Alves com a Orquestra Pan American de Simon Bountman, e um dos hits do carnaval de 1930. Gravação de 9 de janeiro daquele ano, lançada pouco depois sob n.o 10558-A, matriz 3258. No dia 18, a música venceu um concurso promovido no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, e com o dinheiro ganho (cinco contos de réis!), Ary Barroso teve condições de se casar (com Yvonne Belfort Arantes) e ainda recebeu seu diploma de advogado. De letra extremamente machista (característica da época), “Dá nela” também deu nome a uma revista do Teatro Recreio, nela interpretada (de calça comprida!) por Zaíra Cavalcanti.
Um dos clássicos de Ary Barroso em parceria com Luiz Peixoto, o samba-canção “Na batucada da vida” (subintitulado “A canção da enjeitada”) tornou-se inovador na época do lançamento, pelo realismo com que tratava uma temática de cunho social. Originalmente saiu em 1934, na voz de Cármen Miranda, e aqui é apresentada no registro de Dircinha Batista, feito na Odeon em 14 de abril de 1950 e lançado em agosto seguinte, disco 13031-B, matriz 8685, com acompanhamento de piano do próprio mestre de Ubá. Como bem sabem os fãs de Elis Regina, em 1974 ela também fez um registro memorável desta composição.
O inesquecível Kid Morenguera, o grande Moreira da Silva (1902-2000), insubstituível rei do samba de breque, aqui comparece com o raríssimo disco Star 225, datado de 1951, com acompanhamento do conjunto do violonista Claudionor Cruz, destacando-se o saxofone de Portinho (Antônio Porto Filho), também maestro e arranjador de prestígio. De um lado, o samba-choro “Entrevista”, do próprio Moreira, e no verso, nesse mesmo ritmo, a homenagem do GRB aos motoristas na semana do dia deles e de seu santo padroeiro, São Cristóvão: “Sou motorista”!
Humberto Marsicano fez parte da geração de artistas paulistas surgidos no final dos anos 1920. De sua escassa discografia como cantor (apenas 16 fonogramas distribuídos em nove 78 rpm), apresentamos o disco Columbia 5051, lançado em julho de 1929, com acompanhamento da orquestra de Álvaro Ghiraldini. Abrindo-o, matriz 380143, o samba-choro “Mulher sem coração”, composto por um nome que iniciava então sua carreira, José Maria de Abreu (1911-1966), paulista de Jacareí, responsável por sucessos inesquecíveis, tais como “E tome polca”, “Alguém como tu”, “Dançando com você” e muitos outros. No verso, matriz 380144, o delicioso “sambinha-embolada” Tico-tico vuô”, de Juca Paulista e Juvenal de Abreu.
Para encerrar, uma marchinha do carnaval de 1957, lançada pela Continental em janeiro desse mesmo ano, com o n.o 17375-B, matriz C-3912. É “Seu Romeu”, de João Rosa, Arnaldo Moraes e do paulistano Ruy Rey (1915-1995), sendo este último o intérprete. Ruy, que se chamava Domingos Zeminian, foi também exímio “bandleader”, e especializou-se em ritmos hispano-americanos, precursores da atual salsa. Enfim, um belo apanhado com o qual o GRB mata as saudades de todos que estavam aguardando esta retomada. Divirtam-se e recordem! 

* TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO