Estamos de volta com o meu, o seu, o nosso Grand Record
Brazil, em sua edição de número 32, apresentando mais uma seleção interpretada
exclusivamente por cantoras. Nunca esquecendo de mencionar as pessoas da
radialista Biancamaria Binazzi e do jornalista Ronaldo Evangelista,
idealizadores do blog Goma Laca (www.goma-laca.com),
de onde foi extraída a seleção musical completa de nossa edição número 29, e a
quem eu e o Augusto agradecemos o toque e a lembrança, inclusive aproveitando
fonogramas raros desse mesmo blog sempre que possível, unidos que estamos por
um só ideal, que é a preservação de nossa memória musical.
Esta semana, começamos nossa seleção musical com a soprano
Cristina Maristany (Porto, Portugal, 1906-Rio Claro, SP, 1966), na pia batismal
Cristina Navarro de Andrade Costa, que veio parta o Brasil com poucos meses de
idade. Ela gravou seus primeiros discos com o nome de Cristina Costa, e mudou o
sobrenome artístico quando casou-se com o jornalista Breno Maristany. Não
tiveram filhos, e mesmo depois de se desquitar, Cristina conservou o sobrenome
Maristany na vida artística. Cristina aqui comparece com o disco Odeon X-3273,
da série azul internacional da “marca do templo”, gravado em outubro de 1941.
No lado A, matriz 6824, a clássica modinha “Quem sabe?” (“Tão longe, de mim,
distante”...), de autoria do paulista (de Campinas)Antônio Carlos Gomes
(1836-1896), aquele mesmo do “Guarani”, com versos do sergipano Bittencourt
Sampaio (1834-1895), poeta e futuro governador do Espírito Santo. Foi inspirada
em Ambrosina, o primeiro amor de Carlos Gomes, que morava na sua Campinas
natal, e composta em 1859, mesmo ano em que o parceiro Bittencourt Sampaio se
formou em Direito. Muito gravada, até mesmo por Agnaldo Timóteo. No verso,
matriz 6825, a toada “Quando uma flor desabrocha”, de autoria de Francisco
Mignone, que por sinal acompanha Cristina com seu quarteto de cordas nesse
disco, música também muito conhecida.
Em seguida, tiramos do esquecimento Olga Praguer Coelho
(Manaus, AM, 1909-Rio de Janeiro, 2008), cantora e pesquisadora de música
folclórica aplaudida no Brasil e no mundo, inclusive nos Estados Unidos, onde
residiu por vários anos, e lá moram dois filhos seus atualmente. Olga comparece
inicialmente com uma gravação feita em Nova York nos anos 1940: a canção
“Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira, cuja primeira gravação entre nós é
de 1944, na voz de Alice Ribeiro. Depois, tem o ponto de macumba “Estrela do
céu”, motivo popular por ela adaptado, em gravação Victor de 30 de julho de
1936, porém só lançada em junho de 1938, disco 34325-B, matriz 80182. No lado A
desse disco, matriz 80137, gravação de 22 de abril de 1936, a conhecida modinha
“Mulata”, também chamada de “Mucama” ou “Mestiça”, com versos de Gonçalves
Crespo e melodia de autor até hoje ignorado, peça também merecedora de inúmeras
gravações desde 1902. Olga encerra sua participação neste volume com “Róseas
flores”, outro motivo popular por ela adaptado, em gravação Victor de 29 de
novembro de 1935, só lançada em abril de 36, disco 34042-A, matriz 80024.
Gaúcha de Uruguaiana, Elisa de Carvalho
Coelho(1909-2001)criou-se porém na capital catarinense, Florianópolis. Foi
casada com o deputado Lopo Coelho e mãe do jornalista e apresentador de TV
Goulart de Andrade, o do bordão “Vem comigo”. Sua discografia, nos selos
Victor, Odeon e Parlophon, abrange 15 discos 78 com 30 músicas, entre 1930 e
1932, incluindo hits como “No rancho fundo” e “Caco velho”, ambas de Ary
Barroso e a primeira com letra de Lamartine Babo. Dessa discografia, o GRB
apresenta a toada “Ciúme de caboca” (assim mesmo, em caipirês), de Josué de
Barros, descobridor de Cármen Miranda, e Domingos Magarinos, em registro Victor
de 11 de junho de 1930, só lançado, porém mais de um ano depois, em agosto de
1931, com o número 33444-B, matriz 50308 (o lado A é “No rancho fundo”, que
fica pra uma próxima).
A paulistana Helena
Pinto de Carvalho (1909-1937) foi funcionária pública, trabalhando na
Secretaria das Municipalidades de São Paulo. Iniciou sua carreira artística no
rádio, em 1929, e dois anos mais tarde participou do primeiro filme sonoro
produzido no Brasil, “Coisas nossas”. Helena faleceu prematuramente, com apenas
28 anos, de ataque cardíaco, em sua casa, deixando seis 78 com doze músicas.
Ei-la aqui no Columbia 22021, de 1931, interpretando de um lado, matriz 380984,
o samba “Já cansei de chorar por você”, e , de outro, matriz 380991, uma
deliciosa marchinha de Jayme Redondo, “Chi! Iaiá tá brava”.
De longa carreira no teatro de revista, a carioca Aracy
Cortes (Zilda de Carvalho Espíndola, 1904-1985) não gravou tanto quanto
poderia, talvez porque a maior parte de seus rendimentos viesse mesmo dos
palcos. Já veterana, em 1965, participou do show “Rosa de ouro”, ao lado de
Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Aracy
está presente nesta edição com dois sucessos inesquecíveis lançados em selo
Parlophon: o primeiro, lançado em novembro de 1928 em disco 12868, é o samba
“Jura”, de Sinhô, lançado por ela na revista musicada “Microlândia”.
Ironicamente, porém, ela a foi a segunda a gravá-lo, pois “Jura” teve dois
registros na mesma sessão, fato inusitado: o primeiro por Mário Reis (matriz
2070, lançado com o selo Odeon, da qual a Parlophon era subsidiária), e em seguida
o de Aracy (matriz 2071), ambos de sucesso e com acompanhamento da Orquestra
Pan American de Simon Bountman, aqui como Simão Nacional Orquestra. Em seguida
outro clássico, extraído do disco 12926-A, matriz 2366, lançado em março de
1929: “Iaiá”, ou “Meiga flor”, de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques
Porto, que ficou mais conhecido como “Ai, Ioiô”, considerado o primeiro
samba-canção brasileiro, também cantado por Aracy na revista “Miss Brasil”.
Tinha recebido duas letras anteriormente: a primeira por Freire Júnior (“Meiga
Flor”), gravada por Francisco Alves, e a segunda por Cândido Costa (“Linda
flor”), na voz de Vicente Celestino, mas a que pegou foi mesmo este “Ai, Ioiô”,
com Aracy Cortes.
Logo depois, trazemos de volta a cantora-folclorista Elsie
Houston (Rio de Janeiro, 1902-Nova York, EUA, 1943), agora interpretando
um motivo popular adaptado por Ary
Kerner (também autor de “Na Serra da Mantiqueira” e “Trepa no coqueiro”, entre
outras), o samba “Morena cor de canela”, extraído do disco Columbia 5217-A,
lançado em junho de 1930, matriz 380649.
Na faixa seguinte, temos a carioca Laura Suárez
(1909-c.1990), a primeira “garota de Ipanema” de que se tem notícia, afinal foi
Miss Ipanema em 1929. Atuou também em teatro (ao qual dedicou mais de 50 anos
de carreira) e cinema, tendo participado de filmes como 'Tudo azul” e 'Mulheres
cheguei”. Só gravou na Brunswick, marca americana de curta duração entre nós,
em 1930/31: 13 discos com 26 músicas, e aqui se apresenta com um samba de sua
autoria, “Você... você”, lançado em setembro de 1930 pela Brunswick com o
número 10092-B, matriz 422.
Encerrando, trazemos Neide Martins, cantora cuja biografia é
uma incógnita. Ela deixou uma discografia escassa, e dela aqui está sua
gravação de estreia, o frevo-canção “Que fim você levou?”, de Nélson Ferreira,
para o carnaval pernambucano de 1937,
lançado em janeiro daquele ano pela Victor e gravado ainda em 10 de
dezembro de 36, disco 34142-A, matriz 80293. Enfim, mais uma edição do GRB com
cantoras que deixaram sua marca na história da MPB, e que não podem nem devem
ser esquecidas.