No dia 15 de maio último, um domingo, por volta das 23h50, em
São Paulo, o Brasil perdia um de seus mais expressivos cantores, e o último
remanescente da fase áurea do rádio:
Cauby Peixoto. Há tempos ele vinha
enfrentando problemas de saúde (em 2000, por exemplo, Cauby implantou seis
pontes de safena no coração), mas ainda assim continuou a se apresentar
artisticamente, inclusive em um show ao lado de Ângela Maria, grande amiga e
colega de profissão, comemorando os 60 anos de carreira de cada um, cuja
temporada terminaria no sábado, 21 de maio. E o Grand Record Brazil, “braço de
cera” do TM, evidentemente, não poderia deixar de homenagear este notável astro
da MPB, apresentando, em duas partes, um retrospecto musical de sua carreira. Com
o nome completo de Cauby Peixoto Barros, nosso focalizado veio ao mundo no
bairro de Santa Rosa, em Niterói, litoral do estado do Rio de Janeiro, em 10 de
fevereiro de 1931, oriundo de uma família musical: era sobrinho do pianista
Romualdo Peixoto, o Nonô, seu pai, Eliziário, era violonista, a mãe, Alice,
adorava cantar, e seus cinco irmãos (Cauby era o caçula) também tinham dotes
musicais: Moacyr era pianista, Araken, pistonista, e as irmãs Aracy, Andyara e Iracema também
cantavam. Mas seu parente mais famoso era Cyro Monteiro, “o cantor das mil e uma
fãs”. Foi ouvindo discos de Orlando Silva e Sílvio Caldas (e também,
logicamente, pelo rádio, então já
veículo de massa) que nosso Cauby teve seus primeiros contatos com a música.
Aos 14 anos de idade, para ajudar nas finanças da casa, ele começou a trabalhar
no comércio, além de estudar à noite. Em 1949, antes de demitir-se de uma
perfumaria em que trabalhava, fez suas primeiras apresentações no rádio,
através do programa “Hora do comerciário”, da PRG-3, Rádio Tupi, transmitido
nos finais de tarde dos sábados. Depois, passou a se apresentar no Teatro
Rival, na Cinelândia, além de pedir para dar “canjas” em boates como a Vogue.
Em 1951, grava seu primeiro disco, no selo Carnaval, da Star, com duas músicas
para a folia daquele ano: o samba “Saia branca” e a marchinha “Ai, que
carestia”. No ano seguinte, transferiu-se para São Paulo, cantando nas boates
Arpége e Oasis,e na Rádio Excelsior. Suas performances impressionaram o futuro
empresário Di Veras, q ue aos
poucos lhe criou uma estratégia de marketing completa: repertório, roupas,
atitudes nos palcos etc. Após dois discos na Todamérica, em 1953, Cauby é
contratado pela Columbia, hoje Sony Music, e, um ano mais tarde, obtém seu
primeiro grande hit: “Blue gardenia”, versão de Antônio Carlos para a
música-tema do filme de mesmo nome, que daria título, mais tarde, a seu
primeiro LP. Ainda em 54, ingressa na lendária Rádio Nacional do Rio, e
consolida sua popularidade, lançando êxitos sobre êxitos em disco, o maior
deles, por certo, “Conceição”, seu prefixo pessoal para sempre, além de
aparecer cantando em alguns filmes. Foi o primeiro a gravar um rock cem por
cento brasileiro, letra e música, em 1957, “Rock and roll em Copacabana”, de
Miguel Gustavo. Cauby passou várias temporadas nos EUA, e em uma delas, com o
pseudônimo de Ron Coby, gravou em inglês, e em ritmo de calipso, o clássico
“Maracangalha”, de Dorival Caymmi, com o título de “I go”. No decorrer dos anos
1960, foi proprietário da boate Drink, do Rio de Janeiro, em sociedade com os
irmãos. Encantando gerações com sua voz e interpretação, ao longo da carreira,
Cauby recebeu inúmeros prêmios, e sempre foi reconhecido como notável
intérprete, que cantava de tudo e em qualquer idioma, sem qualquer embaraço. Em
2015, foi lançado o documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez”, de Nélson
Hoineff, contando toda a sua trajetória. Nos últimos anos de vida,
apresentava-se às segundas-feiras no Bar Brahma, em São Paulo, onde permaneceu
por mais de uma década.
Nesta primeira parte da homenagem que o GRB faz a Cauby
Peixoto, estão catorze preciosíssimas gravações, várias delas prensadas em 78
rpm e também em LP (nunca esquecendo que foram feitas numa época de transição
de formatos). Abrindo esta seleção, o
bolero “A pérola e o rubi (The ruby and the pearl)”, de Jay Livingstone e Ray
Evans, em versão de Haroldo Barbosa., composto para o filme “Uma aventura na
Índia (Thunder at the East)”, produzido em 1952 pela Paramount. Cauby o gravou
em Hollywood, EUA, durante sua primeira temporada naquele país, com a orquestra
do maestro Paul Weston, e a Columbia o lançou no Brasil por volta de agosto de
1955, sob número CB-11000-B, matriz RHCO-33427. Curiosamente, o lado A é a
última faixa desta seleção, o samba-canção “Final de amor”, de Haroldo Barbosa,
Cidinho e Di Veras (o polêmico empresário do cantor), matriz RHCO-33427. Ambas
as músicas entraram depois no primeiro LP do cantor, o dez polegadas “Blue
gardênia” (cuja faixa-título estará em nosso próximo volume). A segunda faixa revela o Cauby compositor, no
samba-canção “Lealdade”, parceria com Santos Silva, gravação RCA Victor de 20
de julho de 1960, lançada em setembro do mesmo ano, sob número 80-2243-A,
matriz L2CAB-1032. Em seguida temos justamente o lado B do 78: o bolero
clássico “Ninguém é de ninguém”, de Umberto Silva, Toso Gomes e Luiz Mergulhão,
matriz L2CAB-1033, bastante regravado e até hoje conhecido. As duas faixas
apareceram depois no compacto duplo de 45 rpm n.o 583-5062, também chamado
“Ninguém é de ninguém”, e a faixa-título ainda entrou no LP “Perdão para dois”.
A quarta música é simplesmente o maior sucesso da carreira de Cauby:
“Conceição”, samba-canção de Waldemar “Dunga” de Abreu e Jair Amorim, seu
eterno prefixo e obrigatório em qualquer show que ele fizesse. Lançado pela
Columbia em maio-junho de 1956 no LP de dez polegadas “Você, a música e Cauby”,
chegaria ao 78 rpm em setembro do mesmo ano, com o número CB-10285-A, matriz
CBO-770. Dircinha Batista também gravou “Conceição” no mesmo ano, mas o sucesso
foi mesmo de Cauby, que ainda interpretou a música no filme “Com água na boca”,
da Herbert Richers. Originalmente uma balada-fado, “De degrau em degrau”, dos
portugueses Jerônimo Bragança e Nóbrega e Souza, é apresentado por Cauby em
ritmo de fox, numa gravação Columbia de 1960, editada sob número 3114-A, matriz
CBO-2231. O lado carnavalesco de nosso Cauby é mostrado na faixa seguinte, “Mil
mulheres”, marchinha da folia de 1955, Assinada por Herivelto Martins, Cyro
Monteiro e Salvador Miceli, saiu pela Columbia ainda em dezembro de 54, sob
número CB-10109-A, matriz CBO-374. Originalmente gravado em 1938 por Orlando
Silva, o fox-canção clássico “Nada além”, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, é
aqui revivido por Cauby em gravação RCA Victor de 22 de agosto de 1956, lançada
em novembro seguinte com o número 80-1691-A, matriz BE6VB-1261, aparecendo
ainda no LP de dez polegadas “Ouvindo Cauby” e no compacto duplo de 45 rpm n.o
583-0031. “Ser triste sozinho (Learning the blues)”, fox de Dolores Vicki
Silvers em versão de Lourival Faissal, saiu originalmente no LP de dez
polegadas “Você, a música e Cauby”, em 1956, só chegando ao 78 rpm em julho de
57, sob número CB-10353-B, matriz CO-55562. “Prece de amor”, samba-canção de
Renê Bittencourt, foi um dos maiores hits de Cauby, lançado originalmente em
fins de 1956 pela Columbia no LP de dez polegadas “O show vai começar” e
reeditado depois em 78 rpm com o número CB-10337-A, matriz CBO-772. Ainda teve
outra gravação, por Dalva de Oliveira. “Enrolando o rock”, de Heitor Carillo e
Betinho, foi lançado por este último em 1957, e Cauby aqui o interpreta em
gravação que a Columbia editou por volta de março de 58, sob número CB-11008-B,
matriz CBO-1299. A balada “A noiva (La novia)”, de origem chilena, é de autoria
de Joaquín Prieto, e foi gravada na Argentina por seu irmão, o ator e cantor
Antonio Prieto. Com letra brazuca de Fred Jorge, logo recebeu várias gravações,
como esta de Cauby, feita na RCA Victor em 15 de março de 1961 e lançada em
abril seguinte com o número 80-2321-B, matriz M2CAB-1242, aparecendo depois no
compacto duplo de 45 rpm n.o 583-5068 e no LP “Perdão para dois”. “Muito além”
é versão do radialista Júlio Nagib para o fox italiano “Al di la”, de Carlo
Donida e Mogol, e é o lado A de “A noiva”, matriz M2CAB-1243, também constando
do mesmo compacto duplo dessa faixa. Composto pelo lendário César de Alencar,
colega de Cauby na Rádio Nacional, o samba “Se você pensa” foi lançado pela
Columbia ainda em dezembro de 54, no lado B de “Mil mulheres”, matriz CBO-375.
Enfim, uma homenagem à altura para aquele foi, com justiça, “o professor da
MPB”. Aguardem o próximo volume, com mais Cauby pra vocês!
* Texto de Samuel Machado Filho


