Iniciando com o pé direito o ano de 2016, o Grand Record
Brazil apresenta a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um
dos mais expressivos compositores de nossa música popular, também
instrumentista e dançarino: Getúlio “Amor” Marinho. Nosso focalizado nasceu em
Salvador, Bahia, no dia 15 de novembro de 1889, o mesmo da Proclamação da
República, recebendo na pia batismal o nome de Getúlio Marinho da Silva. Filho
de Paulina Tereza de Jesus e Antônio Marinho da Silva, o “Marinho que Toca”,
mudou-se para o Rio de Janeiro aos seis anos de idade, junto com a família, é
claro. Com a mesma idade, ingressou no Rancho Dois de Ouro. Foi criado frequentando as casas de tias
baianas como Gracinda, Bebiana, Calu Boneca e a lendária Ciata. Participou dos
primeiros ranchos carnavalescos cariocas criados por baianos, então residentes
no bairro da Saúde. Getúlio saía como porta-machado no Dois de Ouros, e ainda
desfilava no Concha de Ouro. Frequentou as rodas de samba organizadas por
baianos que se reuniam no Café Paraíso, então situado à Rua Larga de São
Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano. Mestre-sala de inúmeros ranchos
carnavalescos (Flor do Abacate, Quem Fala de Nós Tem Paixão, Reinado de Silva),
aprendeu a coreografia com o pioneiro Hilário Jovino Ferreira, tornando-se
grande especialista nessa arte. Estava sempre vestido de forma impecável, com
roupas de fidalgo, sapatos de fivela e salto alto, de luvas e cabeleira
empoada, como se fosse alguém vindo das cortes francesas. Sua coreografia era
sóbria, sem acrobacias nem presepadas, e
exatamente por sua finesse, recebia os aplausos do público presente aos
desfiles. Em 1916, iniciou sua carreira artística, atuando como dançarino na
revista “Dança de velho”, encenada no Teatro São José. Sua primeira composição
gravada foi o samba “Não quero amor”, em 1930, pelo Conjunto Africano.
Frequentou terreiros de macumba e conheceu
pais de santo afamados, como João Alabá, Assumano e Abedé, recolhendo
pontos do gênero e levando-os ao disco, juntamente com Elói Antero Dias, o Mano
Elói. Outros pontos de macumba por ele compostos foram gravados por Moreira da
Silva. De 1940 a 1946, Getúlio foi o “cidadão-samba” do carnaval carioca. Entre
suas composições de maior sucesso, destacam-se o samba “Apanhando papel” e a marchinha
junina “Pula a fogueira”. Era também considerado grande tocador de omelê,
antigo nome da cuíca. Em 1963, já quase esquecido, adoeceu seriamente, e foi
internado no Hospital dos Servidores da então Guanabara, vindo a falecer a 31
de janeiro do ano seguinte, 1964. Nesta primeira parte da retrospectiva que o
GRB dedica a Getúlio “Amor” Marinho, apresentamos oito de seus pontos de
macumba, um jongo e um samba, perfazendo
um total de dez fonogramas históricos e importantes. Começamos com o “Ponto de
Inhansan” (ou Iansã), que ele gravou com
seu Conjunto Africano na Odeon em 9 de março de 1937, com lançamento em junho
do mesmo ano, disco 11481-A, matriz 5533. Logo em seguida temos o lado B,
“Ponto de Ogum”, matriz 5534, regravação de música que já lançara em 1930, em
dueto com Mano Elói. Foi lançada justamente nesse ano, mais precisamente em
outubro de 30, nossa faixa seguinte, o “Canto de Exú”, de domínio público,
igualmente pelo Conjunto Africano, disco Odeon 10690-A, matriz 3879. Depois temos o lado B desse disco, “Canto de
Ogum”, outro motivo popular, matriz 3880. Apresentamos em seguida as músicas do
único disco de João Quilombô, o Parlophon 13400, lançado por volta de abril de
1932, justamente dois pontos de macumba de “Amor”: “Pisa no toco”, matriz
131362, e “Quilombô”, matriz 131363. “Vou te dar”, samba do carnaval de 1933, é
uma parceria de “Amor” com Alcebíades “Bide” Barcellos, e foi lançado pela
Odeon em janeiro desse ano, na voz de Luiz Barbosa, disco 10971-B, matriz
4586. O jongo “Ê timbetá”, de “Amor” sem
parceiro, foi gravado na Victor por J. B. de Carvalho, acompanhado de seu
Conjunto Tupi, em 27 de maio de 1936, com lançamento em julho do mesmo ano,
disco 34075-B, matriz 80168. Encerrando esta primeira parte, dois pontos de
macumba que “Amor” compôs com João da Baiana, interpretados pelo parceiro com
seu conjunto, em gravações Victor de 21 de março de 1938,
lançadas em maio seguinte no disco 34313. No lado A, matriz 80707, “Sereia”, e
no B, matriz 80708, “Folha por folha”.
Na próxima edição do GRB, mais um pouco da obra musical de Getúlio
“Amor” Marinho. Até lá!
*Texto de Samuel Machado Filho
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