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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Paraguassú - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 140 - Parte 1 (2015)



Finalmente está chegando aos amigos cultos, ocultos e associados do TM uma novíssima edição do Grand Record Brazil, a de número 140. Apresentamos nesta quinzena a primeira de duas partes de um retrospecto dedicado a Paraguassu, certamente um dos pioneiros do disco  e do rádio no Brasil.
Batizado com o nome de Roque Ricciardi, o cantor nasceu em São Paulo, a 25 de maio de 1894. Seus pais, italianos, tiveram seis filhos, sendo nosso focalizado o terceiro deles, e primeiro a nascer no Brasil. O falecimento de seu pai, dono de armazém e ferraria, abalou a tranquila vida familiar, e o menino Roque foi logo encaminhado ao trabalho, como tipógrafo, por pouco tempo, e como seleiro, por muitos anos, chegando a mestre no ofício. Desde criança ele estava empolgado com a música e, ainda imberbe, depois do trabalho, já se apresentava em cafés-cantantes, serestas e rodas boêmias, de violão em punho. Mesmo falando perfeitamente o italiano e conhecendo as canções da terra de seus pais, ele só cantava modinhas brasileiras. Em 1908, o grande Eduardo das Neves, em temporada paulistana, tem a oportunidade de ouvi-lo no Café Donato e o convida para o espetáculo que daria. Foi uma emoção inesquecível para o menino de catorze anos. Contava Paraguassu que fez suas primeiras gravações em 1912, em São Paulo, sob o selo Phoenix, mas esses discos não têm sido localizados por nenhum colecionador.  Comprovadamente, gravou na pioneira Casa Edison (selo Odeon), em 1926/27, um total de sete discos com catorze músicas, ainda na fase mecânica. Já havia ingressado, em 1924, sem ganhar um só tostão, na pioneira Rádio Educadora Paulista, que funcionava nas torres do Palácio das Indústrias de São Paulo, e onde se cantava “num telefone”. Seus companheiros de então eram Alberto Marino e Américo “Canhoto” Jacomino, sendo que este último Paraguassu conheceu numa seresta, em plena rua. Em 1927, no início da fase elétrica de registros fonográficos, registra na Odeon dois discos com duas músicas. Em 1929, a convite, ingressa no elenco da nóvel Columbia, sob a direção artística do maestro Gaó  (Odmar Amaral Gurgel), então com apenas 20 anos de idade. Paraguassu, embora na casa dos 34 anos, já representava a “velha guarda”.  Até esse momento, tinha aparecido nos selos dos discos com seu nome verdadeiro, Roque Ricciardi. Cansado de ser chamado de “italianinho do Brás”, escolheu um pseudônimo bem brasileiro, Paraguassu, fazendo questão dos dois “ss”. Recordando episódios da história do Brasil, lembrou-se dos índios Caramuru e Paraguassu e escolheu este último, que aliás era índia, e não índio. E passaria a ser “o cantor das noites enluaradas”. Foi na Columbia que Paraguassu desfrutou de sua fase áurea, entre 1929 e 1937, gravando 77 discos com 146 músicas. Em seguida, suas gravações iriam se espaçar cada vez mais: na Victor (1938), Odeon (idem), novamente na Columbia (1939 e 1942), Continental  (1945 a 1949), Todamérica (1953) e Chantecler (1960), perfazendo um total de 101 discos 78 rpm com 192 músicas. Ainda gravaria LPs rememorativos, em 1958 e 1969. Também foi bom compositor, mas não se inibiria em apresentar, como suas, algumas canções tradicionais, inclusive gravadas por outros antes dele. Um expediente sobretudo prático de reservar para si direitos musicais que, na maioria dos casos, não seriam destinados a ninguém. Paraguassu faleceu em sua Pauliceia natal, no dia 5 de janeiro de 1976, aos 81 anos de idade.

De seu extenso e bastante expressivo legado fonográfico, o GRB foi buscar, nesta primeira parte, dezessete preciosas gravações, apresentadas em ordem cronológica. Abrindo esta seleção, temos  a modinha “Lua de fulgores”, com acompanhamento ao violão de Américo Jacomino, o Canhoto, gravação Odeon de 1926, disco 122938. Dada como “arranjo” do intérprete, é na verdade a famosa “Lua branca”, de Chiquinha Gonzaga, surgida em 1912 na burleta teatral “Forrobodó”. A letra foi bastante alterada, e pode se dizer que Paraguassu  cometeu, na verdade, um “desarranjo”...  Em seguida, temos “Madalena”, o outro lado desse disco, número 122939, também adaptação do próprio Paraguassu. Do mesmo ano é “Morrer de amor”, de autoria do próprio intérprete, disco Odeon  123194, matriz 1019. Estas duas faixas, também modinhas. As gravações seguintes já são da fase áurea de Paraguassu na Columbia. O samba Siá Maria, do próprio Paraguassu, é cantado por ele ao lado de Manuel dos Santos, o Pilé (c.1900, São Paulo-idem, c.1970). Saiu no primeiro suplemento da Columbia, em fevereiro de 1929, sob número 5006-A, matriz 380035. Em seguida, as duas músicas do Columbia 5026, lançado em março de 1929. Abrindo-o, matriz 380092, o “samba apaixonado” “Triste caboclo”, do próprio Paraguassu. E, no verso, matriz 380093, a “modinha popular” “Lamentos” . Consta na edição que a música é do próprio Paraguassu, com letra de XXX, mas trata-se de uma célebre modinha do século XIX, de autor desconhecido, já gravada por Mário Pinheiro com o título de “Se soubesses”, por volta de 1906. Do Columbia 5029, editado nessa mesma ocasião, é outra modinha clássica, famosa e gravada inúmeras vezes, “Casinha pequenina”, matriz 380100. Sua autoria ficou ignorada por mais de um século, até que, em 1979, o pesquisador Vicente Sales descobriu ser provavelmente um xote do carteiro paraense Bernardino Belém de Souza, que a publicou em Belém no começo do século passado. Em seguida vem o outro lado do disco, matriz 380101, “Não posso te amar”. De autoria creditada ao próprio Paraguassu, esta modinha é, talvez, de origem tradicional, com outro título. “Na casa branca da serra” é outra “modinha popular” bastante apreciada e regravada, com letra do jornalista e poeta Guimarães Passos (1867-1909). Ele escreveu o poema em Buenos Aires, por ocasião de seu exílio, decorrente da Revolta da Armada, em 1893, e publicou-o em seu livro “Horas mortas”, em 1901, A melodia é de Miguel Emídio Pestana. O registro de Paraguassu saiu pela Columbia em julho de 1929 sob número 5062-B, matriz 380191. “Balança os cachos, Calú” é uma embolada de Constantino Pinheiro, e saiu pela Columbia em outubro de 1929, disco 5090-A, matriz 380234. Na mesma ocasião, sob número 5091-A, matriz 380248, saiu a canção "Nunca mais”, de Eduardo dos Santos e Gutemberg Cruz. “O beijo” é uma canção de Fonseca Costa com versos de Catulo da Paixão Cearense, e foi bastante gravada na fase mecânica. O registro de Paraguassu foi lançado pela Columbia em outubro de 1929, disco 5100-B, matriz 380251. “Sofrer”, toada-canção de Emílio Marques, saiu em dezembro de 1929 com o número 5122-A, matriz 380248. Da parceria Hekel Tavares-Luiz Peixoto é a canção “Azulão”, que a Columbia editou em fevereiro de 1930 sob número 5141-A, matriz 380474. “Amô de caboco” é uma “toada nortista” de autoria de João Pernambuco, que fez também o clássico “Sons de carrilhões”. Ele e José Sampaio acompanham Paraguassu aos violões nesta gravação Columbia, lançada em maio de 1930, disco 5193-A, matriz 380592. Ary Kerner, compositor carioca inspirado, tanto em música romântica quanto regional, hoje injustamente esquecido, assina a toada “Coco de Indaiá”, lançada pela Columbia em junho de 1930, disco 5220-A, matriz 380650. Encerrando esta primeira parte, Paraguassu interpreta o “Hino social do Clube Atlético Santista”, de Fábio Montenegro, Furtado de Oliveira e Carlos Sotomayor, que saiu pela Columbia provavelmente em novembro de 1930, disco 7044-A, matriz 380941. Um fecho realmente de ouro para a primeira parte deste retrospecto que o GRB dedica a Paraguassu. Na próxima quinzena tem mais. Aguardem!

* Texto de Samuel Machado Filho 

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