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terça-feira, 27 de outubro de 2015
Paraguassú - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 141 (2015) Parte 2
Estamos de volta com o Grand Record Brazil, em sua edição de número 141, apresentando a segunda parte do retrospecto que dedicamos a Paraguassu, “o cantor das noites enluaradas”. São mais dezessete gravações de inestimável valor histórico e artístico que oferecemos aos amigos cultos, ocultos e associados do TM. Abrindo esta seleção, o tango-canção “Tenho pena dos meus olhos”, de Angelino de Oliveira, gravação Columbia de 1931, lançada provavelmente no mês de maio, disco 22016-A, matriz 380982. Em seguida, a bela canção “Todo poeta nasceu para sofrer”, de Mílton Amaral, lançada pela Columbia em fevereiro de 1932, disco 22093-A, matriz 381122. “O violero do luá” (assim mesmo, em caipirês), é outra primorosa canção, do próprio Paraguassu com versos de Assumpção Fleury, e a Columbia a editou em janeiro de 1933, sob número 22183-A, matriz 381408. Ainda de 33 é “Esse boêmio sou eu”, outra canção, esta de Paraguassu sem parceiro, que abre o Columbia 22209, matriz 381409. “Portera véia” (também com título em caipirês) é mais uma canção do próprio Paraguassu sem parceiro, em gravação Columbia de 1934, disco 22255-A, matriz 3003. Em seguida temos o clássico “Luar do sertão”, com versos de Catulo da Paixão Cearense e melodia também a ele creditada, mas que teria sido feita pelo violonista João Pernambuco a partir do tema folclórico nordestino “É do Maitá”. Lançada por Mário Pinheiro em 1914, como “toada sertaneja”, a canção tem várias gravações, e Paraguassu aqui a revive em registro Columbia de 1936, disco 8196-A, matriz 3261. “Zabumbo do bombo” é uma toada de Roberto de Andrade, que ele mesmo canta junto com Paraguassu em outra gravação Columbia de 1936, disco 8208-B, matriz 3315. Em seguida, outra modinha clássica, “Talento e formosura”, com versos de Catulo da Paixão Cearense e melodia de Edmundo Otávio Ferreira, também lançada originalmente por Mário Pinheiro, em 1904. A gravação de Paraguassu abre o disco Columbia 8280, de 1937, matriz 3430. A seguir, um outro clássico: a toada “Tristeza do jeca”, obra máxima de Angelino de Oliveira, verdadeiro hino do caipira paulista. Surgiu em disco pela primeira vez em 1925, na execução da Orquestra Brasil-América, e, um ano depois, Patrício Teixeira a gravou cantada, com sucesso. Merecedora de inúmeras gravações, é interpretada aqui por Paraguassu em registro Columbia de 1937, disco 8287-A, matriz 3431. No verso, matriz 3433, uma regravação da canção “A choça do monte”, outra obra totalmente creditada a Catulo da Paixão Cearense. Foi lançada por Eduardo das Neves em 1913, e Paraguassu já havia feito gravação anterior, pela Odeon, em 1927. Apresentamos em seguida as duas músicas do disco gravado por Paraguassu em dueto com Nhá Zefa (Maria di Léo), considerada a caipira mais preferida de Cornélio Pires, embora fosse paulistana do Brás, onde também nasceu Paraguassu, e, como ele, filha de imigrantes italianos. São duas batucadas que a Columbia editou sob número 8328, por certo visando o carnaval de 1938: “Baiana dengosa”, motivo popular adaptado pelo próprio Paraguassu, matriz 3581, e “Olá, seu Barnabé”, dele mesmo sem parceria, matriz 3582. Da curta passagem de Paraguassu pela Victor é a rancheira “Natal dos caboclos”, dele próprio em parceria com o já mencionado Capitão Furtado (Ariowaldo Pires), com participação vocal do Quarteto Tupã, formado pelo compositor Georges Moran, russo radicado no Brasil, e integrado pelas então jovenzinhas Salomé Cotelli, Consuelo, Hedymar Martins (irmã de Herivelto Martins) e Lourdes, que mais tarde fariam parte de outros grupos mais famosos. Gravação de 26 de setembro de 1938, lançada pela marca do cachorrinho Nipper em dezembro do mesmo ano, disco 34397-B, matriz 80904. É nesse período que, como já informamos, as gravações de Paraguassu ficam cada vez mais espaçadas. Tanto que as duas faixas seguintes são de 1945, na Continental, ambas com acompanhamento do conjunto do violonista Antônio Rago, e gravadas em 12 de julho desse ano. “Perdão, Emília”, outra famosa modinha brasileira, tem versos de José Henriques da Silva (1855-1930), poeta e jornalista português radicado desde menino na cidade de São João da Barra (RJ). Ele os escreveu em 1874, com apenas 19 anos, com o título de “Vingança no cemitério”, sendo musicada depois pelo sanjoanense Juca Pedaço (“Perdão, Emília foi título dado por batismo popular). O registro de Paraguassu, o único feito na fase elétrica de gravação, foi lançado pela Continental em agosto de 1945, sob número 15411-A, matriz 10444. “Estela” é outra modinha clássica, com versos de Adelmar Tavares e melodia de Abdon Lyra. Feito na mesma sessão de “Perdão, Emília”, a 12 de julho de 1945, o registro de Paraguassu foi lançado pela Continental em setembro do mesmo ano sob número 15419-A, matriz 10445. A moda campeira “Gaúcho guapo”, do próprio Paraguassu, foi por ele gravada na mesma Continental em 16 de abril de 1948, matriz 10849, mas o disco só saiu em março-abril de 49, sob número 16064-A. Por fim, apresentamos “Janela fechada”, valsa-canção do próprio Paraguassu, lado B de seu derradeiro disco 78, o Chantecler 78-0303-B, lançado em agosto de 1960, matriz C8P-606. Enfim, é a homenagem do GRB ao notável e legendário Paraguassu, que através de seu canto resgatou inúmeras páginas musicais genuinamente nossas e lançou outras tantas, e deve ser sempre enaltecido pela contribuição preciosa que deixou para a MPB.
*Texto de Samuel Machado Filho
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Selo Grand Record Brazil
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Paraguassú - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 140 - Parte 1 (2015)
Finalmente está chegando aos amigos cultos, ocultos e
associados do TM uma novíssima edição do Grand Record Brazil, a de número 140.
Apresentamos nesta quinzena a primeira de duas partes de um retrospecto
dedicado a Paraguassu, certamente um dos pioneiros do disco e do rádio no Brasil.
Batizado com o nome de Roque Ricciardi, o cantor nasceu em
São Paulo, a 25 de maio de 1894. Seus pais, italianos, tiveram seis filhos,
sendo nosso focalizado o terceiro deles, e primeiro a nascer no Brasil. O falecimento
de seu pai, dono de armazém e ferraria, abalou a tranquila vida familiar, e o
menino Roque foi logo encaminhado ao trabalho, como tipógrafo, por pouco tempo,
e como seleiro, por muitos anos, chegando a mestre no ofício. Desde criança ele
estava empolgado com a música e, ainda imberbe, depois do trabalho, já se
apresentava em cafés-cantantes, serestas e rodas boêmias, de violão em punho.
Mesmo falando perfeitamente o italiano e conhecendo as canções da terra de seus
pais, ele só cantava modinhas brasileiras. Em 1908, o grande Eduardo das Neves,
em temporada paulistana, tem a oportunidade de ouvi-lo no Café Donato e o
convida para o espetáculo que daria. Foi uma emoção inesquecível para o menino
de catorze anos. Contava Paraguassu que fez suas primeiras gravações em 1912,
em São Paulo, sob o selo Phoenix, mas esses discos não têm sido localizados por
nenhum colecionador. Comprovadamente,
gravou na pioneira Casa Edison (selo Odeon), em 1926/27, um total de sete discos
com catorze músicas, ainda na fase mecânica. Já havia ingressado, em 1924, sem
ganhar um só tostão, na pioneira Rádio Educadora Paulista, que funcionava nas
torres do Palácio das Indústrias de São Paulo, e onde se cantava “num
telefone”. Seus companheiros de então eram Alberto Marino e Américo “Canhoto”
Jacomino, sendo que este último Paraguassu conheceu numa seresta, em plena rua.
Em 1927, no início da fase elétrica de registros fonográficos, registra na
Odeon dois discos com duas músicas. Em 1929, a convite, ingressa no elenco da
nóvel Columbia, sob a direção artística do maestro Gaó (Odmar Amaral Gurgel), então com apenas 20
anos de idade. Paraguassu, embora na casa dos 34 anos, já representava a “velha
guarda”. Até esse momento, tinha
aparecido nos selos dos discos com seu nome verdadeiro, Roque Ricciardi.
Cansado de ser chamado de “italianinho do Brás”, escolheu um pseudônimo bem
brasileiro, Paraguassu, fazendo questão dos dois “ss”. Recordando episódios da
história do Brasil, lembrou-se dos índios Caramuru e Paraguassu e escolheu este
último, que aliás era índia, e não índio. E passaria a ser “o cantor das noites
enluaradas”. Foi na Columbia que Paraguassu desfrutou de sua fase áurea, entre
1929 e 1937, gravando 77 discos com 146 músicas. Em seguida, suas gravações iriam
se espaçar cada vez mais: na Victor (1938), Odeon (idem), novamente na Columbia
(1939 e 1942), Continental (1945 a
1949), Todamérica (1953) e Chantecler (1960), perfazendo um total de 101 discos
78 rpm com 192 músicas. Ainda gravaria LPs rememorativos, em 1958 e 1969.
Também foi bom compositor, mas não se inibiria em apresentar, como suas,
algumas canções tradicionais, inclusive gravadas por outros antes dele. Um
expediente sobretudo prático de reservar para si direitos musicais que, na
maioria dos casos, não seriam destinados a ninguém. Paraguassu faleceu em sua
Pauliceia natal, no dia 5 de janeiro de 1976, aos 81 anos de idade.
De seu extenso e bastante expressivo legado fonográfico, o
GRB foi buscar, nesta primeira parte, dezessete preciosas gravações,
apresentadas em ordem cronológica. Abrindo esta seleção, temos a modinha “Lua de fulgores”, com
acompanhamento ao violão de Américo Jacomino, o Canhoto, gravação Odeon de
1926, disco 122938. Dada como “arranjo” do intérprete, é na verdade a famosa
“Lua branca”, de Chiquinha Gonzaga, surgida em 1912 na burleta teatral
“Forrobodó”. A letra foi bastante alterada, e pode se dizer que Paraguassu cometeu, na verdade, um “desarranjo”... Em seguida, temos “Madalena”, o outro lado
desse disco, número 122939, também adaptação do próprio Paraguassu. Do mesmo
ano é “Morrer de amor”, de autoria do próprio intérprete, disco Odeon 123194, matriz 1019. Estas duas faixas,
também modinhas. As gravações seguintes já são da fase áurea de Paraguassu na
Columbia. O samba Siá Maria, do próprio Paraguassu, é cantado por ele ao lado
de Manuel dos Santos, o Pilé (c.1900, São Paulo-idem, c.1970). Saiu no primeiro
suplemento da Columbia, em fevereiro de 1929, sob número 5006-A, matriz 380035.
Em seguida, as duas músicas do Columbia 5026, lançado em março de 1929.
Abrindo-o, matriz 380092, o “samba apaixonado” “Triste caboclo”, do próprio
Paraguassu. E, no verso, matriz 380093, a “modinha popular” “Lamentos” . Consta
na edição que a música é do próprio Paraguassu, com letra de XXX, mas trata-se
de uma célebre modinha do século XIX, de autor desconhecido, já gravada por
Mário Pinheiro com o título de “Se soubesses”, por volta de 1906. Do Columbia
5029, editado nessa mesma ocasião, é outra modinha clássica, famosa e gravada
inúmeras vezes, “Casinha pequenina”, matriz 380100. Sua autoria ficou ignorada
por mais de um século, até que, em 1979, o pesquisador Vicente Sales descobriu
ser provavelmente um xote do carteiro paraense Bernardino Belém de Souza, que a
publicou em Belém no começo do século passado. Em seguida vem o outro lado do
disco, matriz 380101, “Não posso te amar”. De autoria creditada ao próprio
Paraguassu, esta modinha é, talvez, de origem tradicional, com outro título.
“Na casa branca da serra” é outra “modinha popular” bastante apreciada e
regravada, com letra do jornalista e poeta Guimarães Passos (1867-1909). Ele
escreveu o poema em Buenos Aires, por ocasião de seu exílio, decorrente da
Revolta da Armada, em 1893, e publicou-o em seu livro “Horas mortas”, em 1901, A
melodia é de Miguel Emídio Pestana. O registro de Paraguassu saiu pela Columbia
em julho de 1929 sob número 5062-B, matriz 380191. “Balança os cachos, Calú” é
uma embolada de Constantino Pinheiro, e saiu pela Columbia em outubro de 1929,
disco 5090-A, matriz 380234. Na mesma ocasião, sob número 5091-A, matriz
380248, saiu a canção "Nunca mais”, de Eduardo dos Santos e Gutemberg
Cruz. “O beijo” é uma canção de Fonseca Costa com versos de Catulo da Paixão
Cearense, e foi bastante gravada na fase mecânica. O registro de Paraguassu foi
lançado pela Columbia em outubro de 1929, disco 5100-B, matriz 380251.
“Sofrer”, toada-canção de Emílio Marques, saiu em dezembro de 1929 com o número
5122-A, matriz 380248. Da parceria Hekel Tavares-Luiz Peixoto é a canção “Azulão”,
que a Columbia editou em fevereiro de 1930 sob número 5141-A, matriz 380474. “Amô
de caboco” é uma “toada nortista” de autoria de João Pernambuco, que fez também
o clássico “Sons de carrilhões”. Ele e José Sampaio acompanham Paraguassu aos
violões nesta gravação Columbia, lançada em maio de 1930, disco 5193-A, matriz
380592. Ary Kerner, compositor carioca inspirado, tanto em música romântica
quanto regional, hoje injustamente esquecido, assina a toada “Coco de Indaiá”,
lançada pela Columbia em junho de 1930, disco 5220-A, matriz 380650. Encerrando
esta primeira parte, Paraguassu interpreta o “Hino social do Clube Atlético
Santista”, de Fábio Montenegro, Furtado de Oliveira e Carlos Sotomayor, que saiu pela Columbia provavelmente em novembro de 1930,
disco 7044-A, matriz 380941. Um fecho realmente de ouro para a primeira parte
deste retrospecto que o GRB dedica a Paraguassu. Na próxima quinzena tem mais.
Aguardem!
* Texto de Samuel Machado Filho
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