Em sua edição de número 77, o Grand Record Brazil inicia uma
retrospectiva dedicada a um dos maiores compositores que o Brasil já teve, cujo
centenário de nascimento é comemorado neste 2013 que ora finda: Wilson Batista.
Batizado como Wilson Batista de Oliveira, nosso focalizado nasceu na cidade de
Campos, litoral fluminense, no dia 3 de julho de 1913. Filho de um humilde
pintor de paredes, funcionário da guarda municipal da cidade, João Batista de
Oliveira, e de Isaurinha Alves de Oliveira, ainda menino participou, tocando
triângulo, da Lira de Apolo, banda organizada por seu tio, o maestro Ovídio
Batista. Era mulato, tinha 1,65m de altura, cabelos ondulados e rosto fino.
Ainda em seu berço natal, participou do Bloco Corbeille de Flores, para o qual
fez várias composições. Ainda frequentou o Instituto de Artes e Ofícios de
Campos, visando se habilitar no ofício de marceneiro, mas sem oportunidade de
adquirir muita instrução. Assinava seu
nome com grande esforço, e a coisa ficava ainda mais difícil na hora de
escrever um bilhete. No entanto, era capaz de escrever poemas com grande
facilidade. Em 1929, mudou-se sozinho para o Rio de Janeiro, disposto a ganhar
a vida como compositor, e indo morar por algum tempo com seu tio, que era
funcionário da limpeza pública. Logo que chegou ao Rio, chegou a trabalhar como
acendedor de lampiões da Light, mas por pouco tempo, pois tinha dificuldade de
se adaptar a empregos. Nessa ocasião, passou a frequentar os cabarés da Lapa e o
bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes, pontos de encontro de marginais e
compositores, tornando-se amigo dos irmãos Meira, malandros famosos da época, o
que lhe rendeu várias prisões. A seguir, começa a trabalhar como eletricista e
auxiliar de contra-regra no Teatro Recreio.
Fez seu primeiro samba aos 16 anos, “Na estrada da vida” (nesta
seleção), que Aracy Cortes lançou no Recreio e Luiz Barbosa gravou em 1933. O
samba “Lenço no pescoço”, lançado por Sílvio Caldas no mesmo ano, deu origem a
uma famosa polêmica musical com Noel Rosa, que respondeu com “Rapaz folgado”,
contestando a identificação do sambista
com o malandro, e por aí foi. Apesar
dessa longa “briga”, ambos depois se tornaram amigos... Sua primeira música gravada foi o samba “Por
favor, vai embora”, em 1932 (nesta seleção).
No mesmo ano, Wilson Batista passou a atuar como crooner e pandeirista
da orquestra de Romeu Malagueta. Sempre vendendo sambas e fazendo parcerias
ditas “comerciais”, Wilson conheceu, no lendário Café Nice (Avenida Rio Branco
esquina com Rua Bittencourt da Silva), o cantor e compositor Erasmo Silva, com
quem forma a Dupla Verde-Amarela (depois Verde e Amarelo). Ambos realizam
apresentações no Brasil e em Buenos Aires, a capital da Argentina. A dupla
seria desfeita em 1939, justamente com a ida de Erasmo Silva para a Argentina.
Reencontraram-se em 1948, e quatro anos mais tarde acontece a dissolução
definitiva da dupla. Nas composições de Wilson Batista, com ou sem parceiros, predominam temas populares, como carnaval,
futebol, jogo do bicho, e entre elas destacamos: “Acertei no milhar”, “Nêga
Luzia”, “O bonde São Januário”, “Emília”, “Dolores Sierra”, “Louco (Ela é o seu
mundo)”, “Samba rubro-negro”, “A mulher que eu gosto”, as marchinhas
“Balzaquiana”, “Sereia de Copacabana” e “Pedreiro Waldemar”, “Boca de siri”,
“Ganha-se pouco mas é divertido”, “Cabo Laurindo”, “História da Lapa”,
“Rosalina”, “Esta noite eu tive um sonho”, “Mundo de zinco”, etc. Embora
fanático torcedor do Flamengo, compôs para o carnaval de 1946 a marchinha “No
boteco do José”, sobre a conquista do Campeonato Carioca de Futebol pelo Vasco
da Gama, hit na voz de Linda Batista. Boêmio durante quase toda a vida,
trabalhou nos últimos anos de existência como fiscal da UBC (União Brasileira de
Compositores), entidade que ajudou a criar. Foi casado e pai de dois filhos,
mas a vida boêmia carioca o fazia ficar longe de casa até três dias (!), para
desespero da esposa. Apesar dos inúmeros hits como compositor, Wilson Batista
morreu pobre, no dia 7 de julho de 1968, quatro dias depois completar 55 anos,
de problemas cardíacos. E seu corpo foi sepultado na tumba da UBC, no
cemitério do Catumbi. Nesta primeira
parte da retrospectiva que o GRB oferece por ocasião do centenário de
nascimento de Wilson Batista, foram escolhidos onze de seus trabalhos,
interpretados por grandes nomes da MPB de seu tempo. Nossa seleção começa com o
samba ‘Vinte e cinco anos”, parceria de Wilson com o “amigo velho”, Cristóvão
de Alencar, gravado por outro grande compositor, Newton Teixeira (aquele da
“Deusa da minha rua”, por exemplo), em 12 de agosto de 1940, sendo lançado pela
Odeon em dezembro do mesmo ano, sob n.o 11925-A, matriz 6450, evidentemente
visando o carnaval de 41. Newton, por sinal, acabara de com-pletar 25 anos
quando gravou a música, daí o título. Em seguida, Murilo Caldas, irmão de
Sílvio, interpreta o samba “Refletindo bem”, parceria de Wilson Batista com J.
Cascata, em gravação Victor de 21 de agosto de 1939, lançada em novembro do
mesmo ano com o n.o 34511-B, matriz 33143. A faixa seguinte é justamente a
estreia de Wilson Batista em disco, em parceria com Benedito Lacerda e Osvaldo
Silva: o samba “Por favor, vá embora”, que Patrício Teixeira, então já
veterano, imortalizou na mesma Victor em 14 de novembro de 1932, com lançamento
em dezembro seguinte para o carnaval de 33, por certo, disco 33600-A, matriz
65594. O samba “O bonde São Januário”, de Wilson com outro mestre, Ataulfo
Alves, sucesso no carnaval de 1941 na voz de Cyro Monteiro, vem aqui em uma
curiosa gravação instrumental do pianista Heriberto Muraro, em ritmo de fox,
feita também na Victor em 27 de maio do mesmo ano de 1941, com lançamento em
julho seguinte, disco 34762-A, matriz 52163. Em seguida vem o primeiro samba
feito por Wilson Batista, sem parceiro, “Na estrada da vida”, rotulado no selo
como samba-canção, mas nem parece. A gravação coube a Luiz Barbosa (1910-1938),
na Victor, em 28 de abril de 1933, com lançamento em dezembro seguinte, disco
33732-A, matriz 65722. A marchinha ‘Grito das selvas”, parceria de Wilson
Batista com Augusto Garcez, é outra gravação Victor, de 14 de novembro de 1940,
lançada em dezembro seguinte com o n.o 34694-B, matriz 52047, visando, é claro,
o carnaval de 41. Quem canta é Silvino Neto, compositor (“Valsa dos namorados”,
‘Cinco letras que choram” etc.)e também humorista de prestígio no rádio,
apresentando o programa ‘Pimpinela Escarlate”, onde fazia imitações de
políticos famosos da época e contava piadas. Era pai do também humorista Paulo
Silvino, figurinha carimbada dos humorísticos da TV Globo nos anos 1970/80.
Outra obra-prima do samba é “Estás no meu caderno”, mais uma parceria de Wilson
Batista com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva, magistral criação de Mário Reis
na Victor em 11 de maio de 1934, lançada em agosto do mesmo ano, disco 33810-A,
matriz 79640. “Emília”, outro samba clássico, em que Wilson tem outro ilustre
parceiro, Haroldo Lobo. É uma exaltação à então denominada mulher ideal,
prendada e submissa, surgida um pouco antes da não menos clássica Amélia de
Ataulfo Alves e Mário Lago. Foi imortalizado na Columbia por Vassourinha (Mauro
Ramos de Oliveira) em 23 de junho de 1941, sendo lançado em outubro do mesmo
ano com o n.o 55302-A, matriz 441. Talento promissor, revelado pela Rádio
Record de São Paulo, Vassourinha, entretanto, morreria prematuramente, aos 19
anos, vítima de osteomielite, deixando apenas seis discos 78 com doze músicas
(“Emília” é do segundo deles), que mereceriam mais tarde reedições em LP e CD.
Depois vem um trio “brabo”: Francisco Alves, Murilo Caldas e Castro Barbosa,
interpretando o samba “Desacato”, feito também a três mãos (Wilson Batista,
Murilo Caldas e Paulo Vieira). Foi gravado na Odeon em 18 de julho de 1933 e
lançado em agosto do mesmo ano com o n.o 11042-B, matriz 4699, atingindo
sucesso “desacatador”, conforme diz com bom humor a partitura impressa. Em
seguida, o samba-exaltação “Cidade de São Sebastião”, parceria de Wilson
Batista com Nássara, gravado na mesma Odeon por Francisco Alves em 10 de julho
de 1941, e lançado em agosto do mesmo ano, disco 12028-A, matriz 6710. Foi
feito para a segunda edição da peça musical “Joujoux e Balangandãs”, levada a
cena, a exemplo da primeira, de 1939, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Por iniciativa da então primeira dama do Brasil, Darcy Vargas, “socialites” da
época apresentavam seus dotes artísticos no palco e mostrar generosidade na
bilheteria, em prol de suas obras assistenciais. No palco, “Cidade de São
Sebastião” foi interpretado em dueto por
Jenny Hime e Roberto Rocha, e a gravação de Chico Alves foi mais tarde
relançada com o n.o 12950-B. Para finalizar, a divertida marchinha “As pupilas
do senhor Bocage”, parceria de Wilson Batista com Arnaldo Paes, lançado para o
carnaval de 1939 pela Columbia, em fevereiro desse ano, na interpretação do
também comediante Barbosa Júnior (que marcou época no rádio brasileiro com o
programa infantil “Picolino”), com o n.o 55016-B. O título cita o romance ‘As
pupilas do senhor reitor”, do escritor lusitano Júlio Diniz (que no Brasil virou
até telenovela) e demonstra claramente a errônea associação do poeta Bocage
(1765-1805), também português, a piadas eróticas, maliciosas e picantes, isso
pelo fato de ele ter escrito poemas eróticos e satíricos. E esta seleção é
apenas o começo: vem mais Wilson Batista por aí. Aguardem!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

