Esta semana o Grand Record Brazil apresenta a primeira de
duas partes de uma retrospectiva dedicada à cantora que ganhou o slogan de “a
voz tropical do Brasil”: Odete Amaral. Nossa biografada veio ao mundo na cidade de
Niterói, litoral fluminense, no dia 28 abril de 1937, e era a filha caçula do
casal de lavradores Alfredo Amaral e Albertina Ferreira do Amaral. Quando ela
tinha um ano de vida, a família mudou-se para o Rio, então a Capital da
República, onde seu pai se empregou como caminhoneiro. Aos seis anos, ingressou no Colégio Uruguai,
onde fez o curso primário completo. Em 1929, empregou-se como bordadeira na
Américas Fabril, continuando seus estudos no período noturno. Dona de bela e
primorosa voz, era sempre convidada a cantar no teatro da escola, e em festas
de aniversário. Foi aí que sua irmã, que sempre a admirava, e muito, levou-a
para a Rádio Guanabara, em 1935, para fazer um teste. Acompanhada pelo pianista Felisberto Martins,
interpretou o samba “Minha embaixada chegou”, de Assis Valente, hit de então na
voz de Cármen Miranda. Aprovada pelo diretor da emissora, Alberto Manes, Odete
é de pronto escalada para o ”Programa suburbano”, onde também batiam ponto nomes como Sílvio
Caldas, Maríla Batista, Noel Rosa, Linda e Dircinha Batista, e Almirante. Por
iniciativa deste último, passa a se apresentar também na Rádio Clube do Brasil.
Ainda em 1935, participa da inauguração do Cassino Atlântico e apresenta-se em
rádios como Ipanema, Sociedade, Philips e Cruzeiro do Sul, além de atuar em uma
revista no Teatro João Caetano interpretando a marchinha “Ganhou mas não leva”,
de Mílton Amaral. É ele quem assina as músicas do primeiro disco de Odete, gravado na Odeon em 1936, apresentando os
sambas “Palhaço” (parceria com Roberto Cunha) e “Dengoso”. No mesmo ano, assina seu primeiro contrato
profissional, com a Rádio Mayrink Veiga, e participa do filme “Bonequinha de
seda”, produção da Cinédia, onde, um ano depois, fará outra produção
cinematográfica, “O samba da vida”. Ainda em 1936, participa da inauguração da
PRE-8, Rádio Nacional, e é levada por Ary Barroso para a Victor, onde ela
estreia com duas músicas do mestre de Ubá para o carnaval de 1937, a marchinha “Colibri”
e a batucada “Foi de madrugada”. Em
1938, casou-se com o cantor Cyro Monteiro, da união, que durou onze anos,
resultando um filho, Cyro Monteiro Júnior. Odete e Cyro fariam inúmeras
apresentações juntos por todo o país. A cantora teve também uma curta passagem
pela Columbia, voltando à Odeon em 1941. Gravou ainda nos selos Star, Todamérica,
Polydor, Copacabana, RMS e Carper, entre outros. Entre seus hits destacam-se
“Não pago o bonde”, “Murmurando” , “A batucada começou” e “Chicletes com
banana”. Em 1939, Odete Amaral muda-se
para São Paulo, contratada pela Rádio Cultura, onde permanece um ano e meio, e
em 1941 volta ao Rio de Janeiro natal e à Rádio Mayrink Veiga, onde permanece
seis anos, indo depois para a Mundial e, em 1951, para a Tupi (“o cacique do
ar”). Gravou também LPs, e um dos mais
interessantes foi “Do outro lado da vida – Os que perderam a liberdade contam
sua história”, ao lado do filho Cyro Monteiro Júnior, em que ambos interpretam
músicas compostas por presidiários do Rio e de São Paulo. Em 1968, gravou o
álbum “Fala, Mangueira!”, a lado de Cartola, Carlos Cachaça, Nélson Cavaquinho
e Clementina de Jesus. Em 1975, participou de uma série de 30 programas da
Rádio MEC, “MPB 100 ao vivo”, na qual, ao lado de Paulo Marquês, interpretava hits
dos anos 1930. Da série resultaram oito álbuns produzidos por Ricardo Cravo
Albim. Em 1977, Odete e Paulo, mais o flautista Altamiro Carrilho, participam
do show “Café Nice”, igualmente produzido por Cravo Albim. Falecida no dia 11
de outubro de 1984, aos 67 anos, Odete Amaral, embora não tenha atingido o
estrelato de outras cantoras de sua época
(Cármen Miranda, Aracy de Almeida, irmãs Batista), é ainda hoje
considerada uma das melhores intérpretes brasileiras dos anos 1930 e de todos
os tempos. E isso começaremos a constatar nesta primeira parte da retrospectiva
que o GRB lhe dedica, apresentando 12 gravações suas na Odeon e na Victor. Para
começar, a divertida marchinha “Vitaminas”, de Amaro Silva, Djalma Mafra e
Domício Augusto, gravação Odeon de 11 de novembro de 1942, lançada em janeiro
de 43, para o carnaval, logicamente, com o número 12244-A, matriz 7137 (a
vitamina T, de trabalho, ainda incomoda muita gente...). Temos também aqui, na
faixa 5, o verso desse disco, matriz 7131: o samba “Você quis”, de Nicola Bruni
e Alvaiade, gravado seis dias antes, ou seja, a 5 de novembro. A faixa 2 nos
traz o sambatucada “É mato”, também de
Alvaiade, agora com Wilson Batista, gravação Odeon de 13 de outubro de 1941,
lançada em dezembro seguinte para a folia de 42, disco 12071-B, matriz 6806. Geraldo
Pereira e Djalma Mafra assinam o samba da faixa 3, “Jamais acontecerá”, gravado
por Odete na “marca do templo” em 9 de novembro de 1943 e lançado em janeiro de
44, também para o carnaval, sob n.o 12398-B, matriz 7421. A faixa 4 é o samba
“Vem, amor”, de Jorge de Castro, Isaías Ferreira e Enézio Silva, gravado igualmente
na Odeon em 4 de novembro de 1953 e lançado para a folia momesca de 54, em
janeiro, disco 13580-B, matriz 9963. Na faixa 6, temos uma marchinha de
meio-de-ano, “Eta Rio”, de Nicola Bruni, Alvaiade A. F. Silva, gravada em 20 de
agosto de 1943 e lançada pela Odeon em outubro seguinte com o n.o 12359-A,
matriz 7365. O samba “Por causa de alguém” leva a respeitável assinatura de
Ismael Silva, em gravação de 6 de abril de 1942, lançada pela “marca do templo”
em junho seguinte com o n.o 12157-B, matriz 6932. Da fase de Odete Amaral na
Victor é “Chinelo velho”, samba de Wilson Batista e Marino Pinto, gravação de
14 de outubro de 1940, lançada ainda em dezembro para o carnaval de 41, disco
34683-B, matriz 52023. O lírico samba-canção “História de criança”, também de
Wilson Batista, agora em parceria com Germano Augusto, teve sua gravação
em 10 de maio de 1940, com lançamento
pela marca do cachorrinho Nipper em julho seguinte sob n.o 34683-B, matriz
33426. Em seguida temos o lado A, matriz 33425, outra composição do mestre
Wilson Batista com Marino Pinto, o samba “Depois da discussão”. Wilson Batista também assina, agora com outro
mestre, Ataulfo Alves, o samba “Quando dei adeus”, gravação Victor de 18 de
novembro de 1939, lançada em janeiro de 40 para o carnaval sob n.o 34558-B,
matriz 33281. Para finalizar, e também em clima carnavalesco, a marchinha “O
gato e o rato”, outra música de Wilson Batista, agora acompanhado por Arnô
Canegal e Augusto Garcez, também para a folia de 1940, gravada igualmente na
Victor em 24 de outubro de 39 e lançada um mês antes do carnaval, em janeiro,
sob n.o 34542-A, matriz 33241. E semana que vem a gente se encontra com mais
Odete Amaral. Até lá!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
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