

Em sua
sexagésima-oitava edição, o Grand Record Brazil nos brinda com as primeiras
composições gravadas de um grande nome do samba e da MPB. Estamos falando de
Cartola. Angenor de Oliveira – que só por ocasião de seu casamento com Zica
(Euzébia Silva do Nascimento) descobriria que seu pré-nome era Angenor e não
Agenor, como vinha assinando – nasceu em 11 de outubro de 1908, na Rua Ferreira
Viana n.o 9, no bairro do Catete, Rio de Janeiro. Era o primeiro dos oito
filhos do primeiro casamento de Sebastião, com Aída. Aos oito anos, foi morar
na Rua das Laranjeiras e teve despertado seu interesse pela música no contato
com ranchos e clubes de operários e, ora, pois, pois, portugueses. Quando ele
tinha 11 anos, a situação da família piorou, fazendo com que se mudasse para o
morro da Mangueira, então ainda com características rurais e pouquíssimo
habitado. Aí conhece Carlos Cachaça (1902-1999), marcando o início de uma
estreita e duradoura amizade, inclusive na música, sendo parceiros de grandes
sambas. O primeiro emprego de Cartola, primeiro de muitos trabalhos humildes,
foi numa modesta tipografia. Na profissão de pedreiro, ele passou a usar um
chapéu-coco a fim de proteger o cabelo do reboco, daí nascendo o pseudônimo com
que ficou para a posteridade. Com apenas 18 anos, amasia-se com Deolinda (que
era casada, tinha uma filha e era sete anos mais velha que ele!). Integrado na
roda dos batuqueiros, integra a formação, anos depois, do Bloco dos
Arengueiros, cujo maior prazer entre seus componentes era promover arruaças,
fazendo jus ao nome. Um dia, porém, seus componentes concluem ser chegada a
hora de acalmar os nervos, sem perder a finalidade musical. Assim nasceu, em
1928, a lendária Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, cujas cores,
verde e rosa, foram adotadas por sugestão do próprio Cartola (eram as mesmas
cores do Rancho dos Arrepiados, por ele frequentado no tempo em que morara na
cidade). Entre 1929 e 1933 teve suas
primeiras oito composições gravadas, cinco por Francisco Alves , o maior cantor
da época, uma por Cármen Miranda, uma por Sílvio Caldas e uma pelo iniciante
Arnaldo Amaral. Essa primeira fase de músicas gravadas seria interrompida, pois
os rendimentos eram parcos, e Cartola dedicou-se apenas a compor para sua
querida Mangueira, da qual se tornou figura lendária, lançando esporadicamente
em disco um ou outro samba, inclusive gravando para o maestro Leopold
Stokowski, em 1940, o samba “Quem me vê sorrir” (ou “Quem me vê sorrindo”),
parceria com Carlos Cachaça, registro que na época só saiu nos EUA. Nos anos
40, teve inúmeras dificuldades, tanto financeiras quanto pessoais,
abalado pelo falecimento de sua Deolinda e gravemente doente. Nessa ocasião,
Cartola se afasta da Mangueira e chega até a ser dado como morto. Em meados da
década de 1950, o jornalista e escritor Sérgio Porto o redescobre na penúria,
como lavador de carros numa garagem de Ipanema. Sérgio anuncia a boa nova de
que Cartola ainda vivia, e lhe arranja um emprego menos árduo. Aos poucos, o
mestre mangueirense começa sua reintegração ao meio musical. É quando se casa
com sua querida Dona Zica, bela cabrochinha de olhos brilhantes, e também
exímia e celebrada cozinheira. Ambos instalam, num antigo casarão da Rua da
Carioca, o lendário restaurante Zicartola, que funcionou de 1963 a 1965,
tornando-se ponto de encontro de sambistas de morro com nomes ditos elitizados
, dando também oportunidade para o surgimentos de novos valores, Cartola
comandando o samba e Dona Zica o “rango”. Entre suas composições mais
conhecidas destacam-se “O sol nascerá”, “As rosas não falam”, “Acontece”, “O
mundo é um moinho”, “Sim” e “Alvorada”. Entre 1974 e 1978, Cartola grava quatro
LPs, dois pela Marcus Pereira e outros dois pela RCA, bastante elogiados pela
crítica e bem acolhidos pelo público. Cercado do respeito e reconhecimento
gerais, faleceu em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos, sendo seu corpo velado
na sede da Mangueira com todas as homenagens, e sepultado no cemitério do Caju.
Para esta edição do Grand Record Brazil, foram
selecionadas nove faixas, gravadas em 78 rpm.
Abrindo esta seleção, temos a primeira composição gravada de Cartola,
“Que infeliz sorte!”, lançada pela Odeon em dezembro de 1929, na voz de
Francisco Alves, disco 10519-A, matriz 3095. Mário Reis chegou a adquirir os
direitos de gravação deste samba por 300 mil-réis, mas preferiu repassá-lo ao
Rei da Voz. Em seguida, Cármen Miranda, já então “o maior nome feminino da
fonografia nacional”, interpreta “Tenho um novo amor” gravação Victor de 11 de
maio de 1932, lançada em julho seguinte sob n.o 33575-B, matriz 65486, com
acompanhamento do mestre Pixinguinha, à frente do Grupo da Guarda Velha. É uma parceria de Cartola com Noel Rosa, não
creditado no selo e na edição. Vem também a ser o caso das faixas seguintes,
interpretadas por Francisco Alves e por ele gravadas na Odeon: “Não faz, amor”,
gravação de 7 de julho de 1932, disco 10927-A, matriz 4481, e “Qual foi o mal
que eu te fiz?”, imortalizado pelo Rei da Voz em 30 de dezembro de 32 mas só
lançado em maio de 1933 sob n.o 10995-B, matriz 4574. Noel e Cartola, sem
dinheiro, procuraram Chico Alves no Largo do Maracanã e lhe pediram algum.
Chico concordou, desde que cada um fizesse um samba naquele momento. Foi aí que
compuseram “Qual foi o mal que eu te fiz?”, com toda a segunda parte de Noel,
que nessa ocasião fez sozinho “Estamos esperando”, gravado por Chico em dupla
com Mário Reis. No dia 3 de janeiro de 1933, Francisco Alves retorna aos
estúdios da Odeon para gravar outro samba de Cartola, agora sem parceiro:
“Divina dama”, que será lançado logo em seguida com o número 10977-B, matriz
4575, constituindo-se no maior sucesso da primeira fase de composições gravadas
do poeta mangueirense. A faixa seguinte,
“Na floresta”, foi gravação de Sílvio Caldas, parceiro de Cartola neste samba,
em 13 de julho de 1932, matriz 65546,
mas a Victor só o lançou em outubro de 33 com o n.o 33712-A. Isso em virtude de
atritos entre Sílvio e Francisco Alves. Bucy Moreira compôs um samba chamado
‘Foi um sonho”, do qual Chico Alves gostava da letra, mas não da melodia. Então
o Rei da Voz encaixou a de “Na floresta”, deixando a letra de lado. Os versos
seriam musicados e gravados por Sílvio Caldas, e Francisco Alves,
evidentemente, surtou e quis impedir o lançamento do disco. Mas Sílvio Caldas
convenceu o Rei da Voz de que ele tinha comprado apenas a melodia: “Você deixou
a letra de lado e o Cartola precisa ganhar dinheiro!” E Chico deixou os atritos
também de lado... A faixa seguinte é
“Não posso viver sem ela”, parceria de Cartola com Alcebíades “Bide” Barcelos,
gravada na Odeon por Ataulfo Alves, à frente de sua Academia de Samba, em 27 de
novembro de 1941, com lançamento bem em cima do carnaval de 42, fevereiro, sob
n.o 12106-B, matriz 6870. Entretanto, o hit maior desse disco foi o clássico
“Ai, que saudades da Amélia”, de Ataulfo e Mário Lago, que ofuscou esta aqui. O
samba-canção “Grande Deus” foi composto por Cartola em 1946, quando contraiu
meningite e demorou mais de um ano para se recuperar. Porém, só em agosto de
1958 é que a música foi lançada em disco, na voz do grande Jamelão, pela
Continental, sob n.o 17573-A, matriz C-4099. E, para encerrar mais este
pequeno-grande programa do GRB, o samba “Festa da Penha”, parceria de Cartola
com Asobert (pseudônimo e anagrama de Adalberto Alves de Souza). Foi gravado em
1958 por Ary Cordovil para o extinto selo Vila, em disco de número 10003-A,
matriz V-7801-A. A festa em questão acontecia todo ano no mês de outubro, com
romaria de fiéis percorrendo o longo
caminho até a igreja (com escadaria e tudo), que até hoje fica bem em cima do
morro da Penha, numa demonstração de fé e oportunidade para apresentação de
novas músicas, sempre com um olho profano em direção ao carnaval. Esta é a
homenagem do GRB ao mestre Cartola, nome que tem seu lugar garantido entre os
imortais de nossa música popular.
* Texto de Samuel Machado Filho