Depois de Cartola, na semana passada, o Grand Record Brazil,
em sua sexagésima-nona edição, homenageia mais um nome que faz parte da
história da Mangueira, e, por tabela, do samba e da MPB: Nélson Cavaquinho.
Nélson Antônio da Silva, seu nome verdadeiro, nasceu no dia
29 de outubro de 1911, na Rua Mariz e Barros, no bairro carioca da Tijuca. Seu
pai, o Sr. Brás Antônio da Silva, era
músico da Banda da Polícia Militar, tocava tuba, e seu tio Elvino era exímio
violinista, e também organizava rodas de samba em sua casa. A mãe de
Nélson, a sra. Maria Paula da Silva, foi
lavadeira do Convento de Santa Tereza. Por volta de 1919, a família, fugindo do
aluguel, muda-se para a Lapa, ocasião em que Nélson frequenta a escola primária Evaristo da
Veiga, abandonando o curso para trabalhar como eletricista. Nesse bairro boêmio
carioca, fez amizade com os “valentes” de então, Brancura, Edgar e Camisa
Preta. Na adolescência, transferiu-se
para o subúrbio de Ricardo de
Albuquerque, para finalmente se estabelecer em uma vila operária na Gávea. Ali, frequenta os bailes dos clubes Gravatá,
Carioca Musical e Chuveiro de Ouro, conhecendo músicos decisivos em sua
formação, alguns deles empregados de uma
fábrica de tecidos local, tais como Edgar Flauta da Gávea, Heitor dos Prazeres,
Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha, de quem receberia lições de
cavaquinho, .daí nascendo o pseudônimo com que ficaria para a posteridade:
Nélson Cavaquinho. Já na maturidade, optaria pelo violão, desenvolvendo um
estilo inimitável de tocá-lo, usando apenas dois dedos da mão direita.
Em 1931, com apenas 20 anos de idade, Nélson conhece Alice Ferreira Neves, com quem se casa meses
depois, da união resultando quatro filhos. Em seguida, graças a seu pai,
consegue um emprego na Polícia Militar, fazendo rondas noturnas a cavalo. E é
durante essas rondas, montado no seu querido “Vovô”, que conhece e passa a frequentar o morro da Mangueira,
travando contato com sambistas como Cartola e Carlos Cachaça. Isso lhe rendeu
várias detenções, pois passava dias sem ir ao quartel, em decorrência da
boemia. O ambiente da prisão era tranquilo, e ele ficava lá compondo... Em
1938, antes de ser expulso da polícia, consegue dar baixa e, separado da mulher e afastado dos filhos,
ingressa definitivamente na boemia e na música, mudando-se para o morro da
Mangueira em 1952. Teve diversos outros relacionamentos até finalmente, no
início dos anos 1960, encontrar
Durvalina, 30 anos mais nova que ele, com quem viveria pelo resto de sua
existência. Entre suas mais de 400
composições, várias em parceria com
Guilherme de Brito, destacam-se: “Rugas”, “Degraus da vida”, “Luz negra”, “A flor e o espinho”, “Pranto de
poeta”, “Quando eu me chamar saudade”, “Juízo final”, “Cuidado com a outra” e
“Eu e as flores”. Eram canções feitas
com extrema simplicidade, e letras quase sempre remetendo a questões como o
violão, botequins, mulheres e, principalmente, a morte. Que, inevitavelmente,
aconteceria na madrugada de 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, de enfisema
pulmonar. Como intérprete, estreou em
disco no ano de 1966, gravando algumas faixas em um álbum que a cantora
Thelma Costa dedicou à sua obra. Depois,
em 1970, viria seu primeiro LP-solo, “Depoimento do poeta”, pela Castelinho
(que não passou desse disco!). O segundo viria dois anos mais tarde, pela RCA,
primeiro volume da Série Documento, e o terceiro pela Odeon, em 1973. Também participou, em 1977, do álbum da RCA
”Quatro grandes do samba”, ao lado de seu mais constante parceiro, Guilherme de
Brito, mais Candeia e Elton Medeiros.
Nesta edição do GRB, apresentamos dez gravações originais em
78 rpm, com sambas de Nélson Cavaquinho interpretados por vários cantores e
feitos com parceiros diversos. Abrindo a seleção, “Palavras malditas”, feita
com seu mais constante parceiro, Guilherme de Brito, gravação de Ary Cordovil
na Todamérica em 6 de setembro de 1957, disco TA-5724-B, matriz TA-100091, que
seria regravada em 2011 por Beth Carvalho.
Ary também canta “Cheiro de vela”, de Nélson com José Ribeiro (faixa 3), lançada no extinto
selo Vila em 1958 (ou 61, não há certeza), disco 10003-B, matriz V-7801-B. Ruth
Amaral, também compositora, interpreta outras duas faixas nesta seleção, ambas
em gravações Columbia: “Cinzas”, de Nélson e Guilherme mais Renato Gaetani,
lançada em novembro de 1955 sob n.o CB-10210-A, matriz CBO-584, e “Garça”, só
de Nélson e Guilherme, lançada pouco antes, em maio desse ano, com o n.o CB-10192-A,
matriz CBO-192 (faixa 5). A faixa 4 traz
também a regravação de Nerino Silva para “Cinzas’, lançada pela Chantecler em
janeiro de 1963, disco 78-0677-B, matriz C8P-1354. “Negaste um cigarro”,
parceria de Nélson Cavaquinho com José Batista, foi gravada em fins de 1962 por
Orlando Gil em outro selo extinto, o Albatroz, disco A-121-B. A “Divina”
Elizeth Cardoso aqui comparece com um samba do carnaval de 1954, de Nélson,
Roldão Lima e Gilberto Teixeira, gravação Todamérica de 12 de novembro de 53,
lançada ainda em dezembro sob n.o TA-5380-B, matriz TA-591. Francisco Ferraz Neto, o Risadinha,
apresenta “Minha fama”, de Nélson
Cavaquinho com Magno de Oliveira, gravação Odeon de 4 de setembro de 1952, só
lançada em junho de 53, disco 13455-B, matriz 9413. O grande Jorge Veiga
interpreta “O fruto da maldade”, de Nélson com César Brasil, lançado pela
Continental entre julho e setembro de 1951 com o n.o 16434-B, matriz 2632. Por
fim, Vítor Bacelar interpreta outro samba de Nélson Cavaquinho em parceria com
César Brasil: “Não brigo mais”, gravado na Todamérica em 23 de agosto de 1954 e
lançado em setembro seguinte sob n.o TA-5471-B, matriz TA-723. Esta é a
homenagem do GRB a mais este poeta da Mangueira e do samba carioca que foi
Nélson Cavaquinho!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
Nenhum comentário:
Postar um comentário