Para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM,
o Grand Record Brasil, dedicado à musicografia brasileira em 78 rpm, está de
volta. Nesta, que é a edição de número 149, apresentamos um pouco da
preciosíssima obra de Dorival Caymmi, o poeta seresteiro da Bahia, interpretada
por ele próprio em gravações originais. Caymmi veio ao mundo no dia 30 de abril
do ano da graça de 1914, na capital baiana, Salvador. Era descendente de
italianos pelo lado paterno, e seu bisavô chegou ao Brasil para trabalhar no
reparo do Elevador Lacerda. Ainda criança, iniciou-se na música, ouvindo
parentes ao piano. O pai, Durival (assim mesmo, com “u”!) Henrique Caymmi, funcionário
público e músico amador, tocava ainda violão e bandolim, e a mãe, Aurelina
Soares Caymmi, dona-de-casa, mestiça de portugueses e africanos, cantava apenas
no lar. Ainda menino, nosso Caymmi era baixo-cantante em um coro de igreja. Aos
13 anos, interrompeu os estudos e passou a trabalhar como auxiliar na redação
do jornal “O Imparcial”. Com o fechamento do periódico, em 1929, passou a
vender bebidas. Escreve sua primeira música, “No sertão”, em 1930 e, aos vinte
anos, faz suas primeiras apresentações como cantor e violonista em programas da Rádio Clube da
Bahia. Em 1935, passa a ter um programa só seu, “Caymmi e suas canções praieiras”.
Aos 22 anos, vence um concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia
também dá”. Incentivado por um diretor da Rádio Clube da Bahia, Gilberto
Martins, resolve seguir carreira no Sul do Brasil, e embarca para o Rio de
Janeiro, então Capital da República, em abril de 1938, num ita (navio que
cruzava o Brasil de sul a norte) , a fim de obter emprego como jornalista e
estudar Direito. Com a ajuda de parentes e amigos, fez alguns pequenos
trabalhos como repórter em “O Jornal”, periódico dos Diários Associados, ainda
assim continuando a compor e cantar. Em seguida, estreou como cantor na PRG-3,
Rádio Tupi (“o cacique do ar”), apresentando-se dois dias por semana. Foi no
programa “Dragão da Rua Larga” que Caymmi apresentou, pela primeira vez, seu
samba “O que é que a baiana tem?”, mais tarde interpretado por Cármen Miranda
no filme “Banana da terra”, e que muito
contribuiu para a consagração internacional da “pequena notável”. E foi com ele
que Caymmi estreou em disco, em dueto com Cármen, em 1939, tendo no verso “A
preta do acarajé” (incluído nesta seleção).
Era o pontapé inicial para inúmeros outros sucessos, gravados por ele
próprio e por outros intérpretes, em mais de 50 anos de atividade musical, entre
os quais, além dos presentes nesta edição do GRB, podemos citar: “A jangada
voltou só”, “Marina”, “Acalanto”, “A vizinha do lado”, “Saudade da Bahia”,
“Pescaria (Canoeiro)”, “Tão só”, “Sábado em Copacabana”, “Samba da minha terra”,
“Eu não tenho onde morar”, “São Salvador”, “Modinha para Gabriela”, “Das
Rosas”, “Eu cheguei lá”, “Vou ver Juliana”, “Maracangalha”, “Adeus”, “Trezentas
e sessenta e cinco igrejas”, “Oração de Mãe Menininha”, “O bem do mar” e muitos
mais. Uma gloriosa trajetória que também inclui apresentações no exterior. Possuía um estilo pessoal de compor e cantar,
com espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica. Além da música,
dedicou-se intensamente à pintura. Em 1986, foi merecidamente homenageado pela
Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com o enredo “Caymmi mostra ao
mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”, com o qual a “verde-e-rosa” sagrou-se
campeã do carnaval carioca. Do casamento de Caymmi com Adelaide Tostes (que,
como cantora, usava o pseudônimo de Stella Maris), resultaram três filhos que
também seguiram carreira musical, e estão na estrada até hoje: Nana, Dori e Danilo, além da neta Alice. Dorival
Caymmi faleceu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, de
insuficiência renal.
Para esta edição do GRB, foram selecionadas doze
preciosas gravações de mestre Caymmi, verdadeiras joias da nossa música
popular, documentando parcela substancial de sua obra como autor e intérprete. Abrindo
o programa, temos “Cantiga”, gravação RCA Victor de 5 de novembro de 1947,
lançada em maio de 48 sob número 80-0585-A, matriz S-078820. O samba “Dois de
fevereiro”, em homenagem a Iemanjá, “a
rainha do mar”, é gravação Odeon de primeiro de setembro de 1957, com
acompanhamento orquestral de Léo Peracchi, lançada em dezembro seguinte com o
número 14286-A, matriz 12000, aparecendo também no LP “Caymmi e o mar”, quarto
vinil do artista baiano e primeiro no formato-padrão de doze polegadas. Voltando
à RCA Victor, temos “Festa de rua”, “cena baiana” gravada em 18 de abril de
1949 e lançada em julho seguinte com o número 80-0596-B, matriz S-078868. Temos
em seguida uma amostra do Caymmi apenas intérprete, no samba-jongo “Navio
negreiro”, de Alcyr Pires Vermelho, J. Piedade e Sá Roris, gravação Odeon de 5
de março de 1940, com suporte orquestral do palestino Simon Bountman, lançada em maio do mesmo ano sob número
11850-A, matriz 6311. Uma das obras-primas de Caymmi, o samba-canção “Nem eu”,
que o autor já havia interpretado no filme “Terra é sempre terra”, da Vera
Cruz, foi por ele gravado na mesma Odeon em 14 de maio de 1952, com lançamento
em julho do mesmo ano, com o número 13288-B, matriz 9305. “Nem eu” tem
regravações por Ângela Maria, Gal Costa e até mesmo por Hebe Camargo, entre
outras. Logo depois, outra obra-prima do mestre baiano: a canção praieira “O
mar”, por ele interpretada com acompanhamento orquestral de Radamés Gnattali. A
gravação ocupou os dois lados do disco Columbia 55247, registrado em 7 de
novembro de 1940 e lançado em dezembro do mesmo ano, matrizes 328 e 329. “Noite
de temporal”, outra canção praieira do gênio baiano, é o lado B de “Navio
negreiro”, e foi gravado um dia antes, em 4 de março de 1940, matriz 6310. Caymmi
a interpreta acompanhado pelos violões de Laurindo de Almeida, Dilermando Reis
e Rogério Guimarães. E tome clássico: “Dora”, samba com introdução de frevo,
que Caymmi fez no Recife, inspirado numa mulata que dançava o frevo com
perfeição, à frente de um bloco que passava em frente a um hotel da capital
pernambucana. Antológica gravação Odeon de 18 de junho de 1945, com
acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon , lançada em agosto seguinte sob
número 12606-A, matriz 7856. O samba “Lá vem a baiana” foi gravado por seu
autor na RCA Victor em 11 de julho de 1947, com lançamento em agosto do mesmo
ano, com o número 80-0536-B, matriz S-078763. O samba-canção “João Valentão” foi
inspirado em um pescador amigo de Caymmi, Carapeba, e é considerado um dos
melhores perfis humanos traçados pelo mestre baiano. Foi por ele imortalizado
na Odeon em 28 de maio de 1953, acompanhado pela orquestra de Oswaldo Borba,
com lançamento em agosto seguinte sob número 13478-A, matriz 9726, e tem sido
bastante regravado, como aliás quase todas as suas obras. “Saudade de Itapoã” é
outra obra-prima que o próprio Caymmi imortalizou, desta vez na RCA Victor, em
5 de novembro de 1947, com lançamento em abril de 48, sob número 80-0576-B,
matriz S-078823. Para encerrar, uma gravação do início da carreira de Caymmi: a
“cena típica baiana” “A preta do acarajé”, que ele interpreta ao lado de Cármen
Miranda. Registro Odeon de 27 de fevereiro de 1939, lançado em abril seguinte
com o número 11710-B, matriz 6024. Caymmi recolheu o pregão da voz de uma negra
vendedora de acarajé , que todas as noites passava por sua rua, em Salvador, e
ao servir os fregueses também dizia: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho
que dá pra fazer é que é”. Segundo o próprio Caymmi, “em verdade essa canção é
muito mais daquela preta que vendia acarajé do que minha”... Enfim, uma
pequena-grande amostra do talento, da poesia e da musicalidade de Dorival
Caymmi como autor e intérprete, que o GRB tem a grata satisfação de oferecer.*Texto de Samuel Machado Filho

