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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Vários - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 65 (2013)

E aqui vamos “nóis” para mais uma edição caipira do Grand Record Brazil, a de número 65, oferecendo, como já aconteceu anteriormente, uma parcela do rico acervo da música regional brasileira, a chamada música caipira, que, como os ouvintes irão perceber, é bem diferente do sertanejo dito “universitário” , tão divulgado pelos meios de comunicação nos dias atuais. São, como sempre, 13 gravações preciosas, representativas de um gênero e daqueles tempinhos “bãos” em que se ouvia músicas como essas no radinho, tomando o café da manhã...  E começamos justamente com os eternos “reis do riso”, Alvarenga e Ranchinho.  São duas gravações Odeon com a formação original da dupla, Murilo Alvarenga (Itaúna, MG, 1991-São Paulo, 1978) e o primeiro dos três Ranchinhos, Diésis dos Anjos Gaia  (Jacareí, SP, 1911-São Paulo, 1991). Eles aqui nos apresentam a moda de viola “Você já viu o cruzeiro?”, do Capitão Furtado, seu descobridor, mais outra dupla, Palmeira e Piraci, gravada a 15 de setembro de 1943 e lançada em novembro do mesmo ano com o n.o 12376-B, matriz 7384. É uma alusão à então nova unidade monetária brasileira, instituída um ano antes e que, após passar por mudanças e ser substituída até mesmo pelo cruzado,  deixaria de existir em 1994, com o início do Plano Real. Também tem a primeira gravação com letra do clássico choro “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu (1880-1935), feita por Alvarenga, tendo  como subtítulo “Vamos dançar, comadre”, datada de 27 de julho de 1942 e lançada em  outubro do mesmo ano com o n.o 12202-A, matriz 7021. A 10 de agosto desse mesmo ano, em seu primeiro disco, Ademilde Fonseca incluiu este choro clássico em seu primeiro disco, com os versos assinados pelo dentista Eurico Barreiros, e sua gravação foi talvez a de maior sucesso. Focalizamos em seguida a acordeonista Carmela Bonano, mais conhecida como Zezinha, nascida  em São Paulo no dia 16 de janeiro de 1928 e que formou com Luizinho e Limeira (os irmãos, também paulistanos,  Luiz  e  Ivo Raimundo) um trio ainda hoje lembrado com muitas saudades por seus contemporâneos. Zezinha gravou seu primeiro disco como solista de acordeon em 1951, na Todamérica, com duas composições suas em parceria com Luizinho: a valsa  “Brejeira” e a mazurca “Alegria”. Para este volume do GRB foram escalados o arrasta-pé “Oito baixos”, dela mesma e de Messias Garcia, gravação Odeon de 11 de março de 1960 lançada em outubro seguinte com o n.o 14681-A, matriz 50478 (relançado com a marca Orion sob n.o R-079),  e o baião “Saudade que machuca”, de Vicente Lia e do radialista Nino Silva, lançado pela Todamérica em agosto de 1955 com o n.o TA-5563-B, matriz TA-1315, ambas com vocais de Luizinho e Limeira, sem crédito nos selos. Na faixa 6, ela, agora com Luizinho e Limeira devidamente creditados, acompanha-os no arrasta-pé “Casamento é uma gaiola”, do Compadre Generoso, gravado na Odeon em 2 de abril de 1959 e lançado em junho seguinte sob n.o 14463-B, matriz 50158, depois relançado com a marca Orion sob n.o R-058. Música que seria regravada com sucesso  por Sérgio Reis, anos mais tarde. Com o falecimento de Luizinho, em 1982, Zezinha abandonou de vez a carreira, por isso muitas biografias dizem ter ela falecido nesse ano, a  11 de maio, em Perdizes, São Paulo (outras dizem que a morte da acordeonista aconteceu em 2002, nesse mesmo dia). A maranhense (de Viana) Dilu Mello (Maria de Lourdes Argolo Oliver, 1913-2000) também deixou sua contribuição para a história de nossa música popular. Tocava diversos instrumentos: sanfona, piano, violão, harpa, violino e até serrote, causando o maior escândalo ao executar nele uma peça de Schumann! É co-autora e intérprete da clássica toada “Fiz a cama na varanda”, que já apresentamos em edição anterior do GRB, e apenas uma de suas mais de cem composições.  Para esta edição, foi escalado o xote “Qual o valor da sanfona?”, composição sua em parceria com J. Portela (o jota seria de Jeová), gravação Continental de 31 de julho de 1948, porém só lançada em março-abril de 49 sob n.o 16024-B, matriz 10916. A faixa 7 nos apresenta a gravação original de uma balada humorística que muitos conhecem na interpretação dos irmãos Sandy e Júnior: é nada mais nada menos que “Maria Chiquinha”, de autoria de Geysa Bôscoli e Guilherme Figueiredo. Ela saiu pela RGE em agosto de 1961, sob n.o 10336-B, matriz RGO-2218, num divertido dueto entre Evaldo Gouveia (compositor, cearense de Orós, autor de vários hits, sobretudo em parceria com Jair Amorim, e que integrou como cantor o Trio Nagô) e a comediante Sônia Mamede (1936-1990), “a garota do biquíni vermelho”. Bonita e de corpo escultural, Sônia foi estrela das chanchadas da Atlântida (“Garotas e samba”, “De vento em popa”), tendo feito outros 14 filmes nesse e em outros estúdios,  e ficou famosa na televisão como a Ofélia do programa humorístico “Balança mas não cai”, da Globo (seu bordão era “eu só abro a boca quando tenho certeza!”), ao lado de Lúcio Mauro, o Fernandinho. “Maria Chiquinha” foi um sucesso absoluto em 1961, e nesse ano também seria gravada por Marinês, em dueto com Luiz Cláudio, na RCA Victor. Os trios Melodia (Albertinho Fortuna, Paulo Tapajós e Nuno Roland) e Madrigal (Edda Cardoso, Magda Marialba e Lolita Koch Freire) interpretam aqui, em ritmo de baião, “Maricota, sai da chuva”,  motivo folclórico adaptado por Marcelo Tupinambá, em gravação Continental de 19 de março de 1952, lançada em julho desse ano com o n.o 16600-A, matriz C-2813. A primeira gravação, ainda na fase mecânica, foi do Grupo O Passos no Choro, em 1919, apenas instrumental.  Recordaremos em seguida outra dupla sertaneja famosa: Silveira (Nivaldo Pedro da Silveira, 1934-1999) e Barrinha (Abílio Barra, 1929-1984) ambos mineiros, Silveira, de Uberaba, e  Barrinha, de Conquista.  Aqui eles interpretam a moda campeira “Coração da pátria”, de Silveira, Lourival dos Santos e do também radialista Sebastião Victor, em gravação RCA Camden  de 25 de maio de 1962, disco CAM-1133-A, matriz N3CAB-1712, uma exaltação ao estado de Goiás, que já abrigava, desde 1960, nossa atual capital, Brasília (lembrando que o Distrito Federal é um município nêutro). Teve regravações por Nalva Aguiar e até mesmo por Beth Guzzo, filha do humorista Valentino Guzzo (a Vovó Mafalda do programa do Bozo, lembram-se?). Apresentamos logo depois as duas músicas do primeiro dos três únicos 78 rpm da dupla Biá e Biazinho no selo Sertanejo da Chantecler, o PTJ-10087, gravado junto com o acordeonista Alberto Calçada, e lançado em maio de 1960, apresentando duas canções rancheiras ao estilo mexicano:  “Nunca mais” de Fernando Dias, matriz S9-173, e “Só Deus castiga”, de Nízio e Teddy Vieira, matriz S9-174. E reservamos para o final a joia da coroa desta edição: o único disco gravado por Tonico e Tinoco (“a dupla coração do Brasil”) junto com Aracy de Almeida (“ o samba em pessoa”, “a dama da Central”, “a dama do Encantado”), todos três já relembrados pelo GRB. Uma autêntica preciosidade que chega a nossos amigos cultos, ocultos e associados por generosa cortesia do amigo  Indalêncio, grande e notório restaurador de rádios antigos.  É o Continental  17251, gravado em 28 de julho de 1955, mas só lançado em fevereiro-março de 56, com dois cateretês. Abrindo-o, matriz 11764, “Ingratidão”, de autoria de Mário Vieira, parceiro de Hervê Cordovil no clássico “Sabiá na gaiola” e mais tarde fundador e proprietário da gravadora e editora musical Califórnia, que existe até hoje, no bairro paulistano do Tatuapé, dirigida pela terceira geração da família. Mário assina também o lado B, matriz 11765, “Tô chegando agora”, desta vez em parceria com Juracy Rago, primo do violonista Antônio Rago. Uma preciosidade que o Indalêncio mui gentilmente nos cedeu e que encerra com chave de ouro esta edição regional do GRB., para alegria e deleite dos “cumpades” e cumades” de todas as idades e deste Brasilzão!

* texto de Samuel Machado Filho 


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Aracy De Almeida - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 64 (2013)

Muita gente se lembra de Aracy de Almeida apenas como a jurada ranzinza, implacável e exigente dos programas de calouros da televisão  (Chacrinha, Sílvio Santos, etc.), sempre imperdoável. Mas era um tipo que forçava mais para estimular a plateia a dar sonoras vaias, e o público, no fundo, a amava. Além disso, como cantora, a “Araca” escreveu um importantíssimo capítulo da história de nossa música popular. O próprio Noel Rosa (1910-1937) a considerava a melhor intérprete de suas composições, e foi quem primeiro a incentivou na carreira.
É justamente a Aracy-cantora que focalizamos nesta sexagésima-quarta edição do Grand Record Brazil. Aracy Teles de Almeida (ou d’Almeida, como aparecia sem seus primeiros discos)nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de agosto de 1914, no subúrbio do Encantado, no seio de uma família evangélica (era de confissão Batista).  Tanto que começou sua carreira cantando no coro de sua igreja, e para ser também fiel ao samba, também se apresentava em festinhas, escola de samba e até terreiro de candomblé!
Em 1932, levada por um amigo lá mesmo do Encantado, Aracy apresentou-se pela primeira vez numa estação radiofônica, a Rádio Educadora do Brasil, interpretando a marchinha “Bom dia, meu amor”, de Joubert de Carvalho, do repertório de Cármen Miranda. Sua estreia em disco dá-se na Columbia, que, em janeiro de 1934, lança para o carnaval duas marchinhas por ela interpretadas: “Em plena folia”, de Julieta de Oliveira, e “Golpe errado”, de Jaci, uma em cada disco. No terceiro e último disco de Aracy nessa marca, já aparece um samba de seu amigo Noel, “Riso de criança”.  Em 1935, vai para a RCA Victor, passando a lançar sucessos sobre sucessos, tanto de Noel (“Palpite infeliz”, “Triste cuíca”, “Cansei de pedir”, “Último desejo”, “Século do progresso”) quanto de outros autores (Wilson Batista, Cyro de Souza, Ary Barroso etc). Grava também na Odeon, na Continental, na Polydor, na Sinter (e sua sucessora, a Philips), na Elenco, enfim, em vários selos, lançando também LPs e compactos. Outros de seus hits são “Não me diga adeus” (Paquito, Luiz Soberano e João Corrêa da Silva), “Fez bobagem’ (Assis Valente), “Louco, ela é seu mundo’ (Wilson Batista e Henrique de Almeida), e mais os presentes nesta edição do GRB, que comentaremos a seguir. Embora fosse mestra da gíria e gostasse de frequentar a noite, Aracy não comentava sua vida sentimental.  Teve um romance com o goleiro Rey, do Vasco da Gama, seu time de coração, e foi casada com um médico, do qual se separou amistosamente, sem filhos. Chamada de “O samba em pessoa” , receberia do estilista de moda Dener Pamplona de Abreu, seu grande amigo, um outro apelido, “Dama da Central”, pois ela só viajava de trem, por medo de acidente de avião.  “Araca” lia os melhores autores e gostava de um bate-papo inteligente.
Nos anos 1950, Aracy praticamente fez sua base em São Paulo, mas sem abandonar seu querido Encantado (tanto que era também “A dama do Encantado”, título de um álbum que Olívia Byington dedicou a ela).  Sempre muito querida e reverenciada, apresentava-se nas melhores casas noturnas paulistanas e cariocas, e tornou-se uma espécie de musa de círculos artísticos e sociais. Em 1954, por exemplo, foi-lhe oferecido um jantar comemorativo de seus 23 anos de carreira, do qual compareceu até mesmo o então governador paulista Lucas Nogueira Garcez.
Com o passar do tempo, a Aracy-cantora daria lugar à Aracy-jurada. Sempre foi muito grata a Sílvio Santos: “Bom patrão, é gente que sabe tratar. Esse é em cima. Tudo que a gente quer, ele dá”. Em 1988, Aracy tem um edema pulmonar e se interna em São Paulo, sendo transferida para o hospital do SEMEG, no bairro da Tijuca, em seu Rio de Janeiro natal. Após dois meses em coma, recuperou a lucidez, mas, após dois dias, a 20 de junho, tem um súbito aumento de pressão e vem a falecer,  deixando infelizmente para as novas gerações apenas a imagem da jurada de TV.
Pois nesta edição do GRB, apresentamos dezesseis dos melhores momentos  da Aracy cantora, que não pode nem deve ser esquecida,  sendo ontem, hoje e sempre, “o samba em pessoa”.  Começando a seleção com o pé direito, “Tenha penha de mim”, de Cyro de Souza e Babaú, gravação Victor de 17 de agosto de 1937 lançada em novembro desse ano com o número 34229-A, matriz 80596, e um dos maiores hits do carnaval de 38. Também da Victor e de um ano antes, é a faixa seguinte, “Contentamento”, de Bucy Moreira e Raul Marques, que ela gravou em  9 de setembro de 1936 com lançamento em novembro seguinte, disco 34106-A, matriz 80215. A faixa seguinte, o samba-rumba ou sambatuque “Nasci para bailar, nasci para sambar”, ostenta uma curiosidade: foi composta e gravada por Joel de Almeida na época em que ele morava na Argentina, período esse que ele próprio considerava o melhor de sua vida. Com letra em espanhol do próprio Joel e de Tasiro, recebeu versão por Fernando Lobo, que Aracy grava na Odeon em 19 de julho de 1948, com lançamento em setembro desse ano sob número  12876-A, matriz 8390. Um ano depois, Fernando Lobo escreveu novos versos para a música, e essa outra letra seria gravada por Marlene com o título reduzido para “Nasci para bailar”, e sem o nome de Tasiro no selo.  Retornando à Victor, temos uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Wilson Batista, assinando “Eu não sou daqui”, gravação de 3 de abril de 1941, lançada em julho do mesmo ano com o n.o 34757-A, matriz 52170. Wilson assina a faixa seguinte com Cyro de Souza, “Ganha-se pouco mas é divertido”, gravação de 2 de junho de 1941 lançada em agosto seguinte com o n.o 34780-A, matriz S-052232. Wilson Batista também fez com Rubens Soares “Gênio mau”, que Aracy imortaliza na marca do cachorrinho Nipper na mesma sessão de “Ganha-se pouco...” e é lançado em  setembro do mesmo ano no disco 34787-A, matriz S-052230. Não para por aí: também em 2 de junho de 1941 a “Araca” imortaliza “Falta de sorte”, de Geraldo Pereira e Marino Pinto, matriz S-052233, e será o lado B de “Ganha-se pouco mas é divertido”. Em janeiro de 1953, Aracy lança na Continental, para o carnaval desse ano, outro samba, “Por que é que você chora?”, de Bucy Moreira  e do cantor Ary Cordovil, com o número 16695-B, matriz C-3017. Retornando à Victor, temos “Oh! Dona Inês”, da dupla Wilson Batista-Marino Pinto, gravação de 27 de março de 1940 que vai para as lojas em junho com o n.o 34609-A, matriz 33364, disco do qual também foi escalado o verso, da mesma dupla, matriz 33365, “Brigamos outra vez”.  “Mal agradecida”, também de Wilson Batista, aqui com Bucy Moreira, por sinal neto da lendária Tia Ciata, é gravado na Odeon pela “Araca” em 9 de junho de 1948, com lançamento em julho sob n.o  12867-B, matriz 8378. Outro nome lendário do samba, João da Baiana, assina com o ex-pugilista Kid Pepe “Pra que tanto orgulho?”, batucada que Aracy grava na Victor em 2 de outubro de 1939 e lança em novembro sob n.o 34518-B, matriz 33169, visando o carnaval de 40. A faixa seguinte é um autêntico clássico do mestre Ary Barroso: “Camisa amarela”, imortalizado pela “Araca” na mesma Victor em 31 de março de 1939 com lançamento em junho seguinte sob n.o  34445-A, matriz 33047, e que o próprio Ary considerava a melhor gravação deste seu samba. Temos depois a sensível e comovente interpretação de Aracy para a “canção regional” “Mamãe baiana”, de Xerém e do teatrólogo Joracy Camargo, autor da famosa peça “Deus lhe pague”, imortalizada em 14 de fevereiro de 1940 com lançamento em abril do mesmo ano com o n.o 34586-A, matriz 33322. Foi também escalada outra canção, constante do verso desse disco e gravada na mesma sessão, matriz 33325: “Minha saudade”, concebida pelo violonista Laurindo de Almeida (1920-1995), que mais tarde passaria a residir nos EUA, onde desenvolveu uma carreira repleta de prestígio e prêmios. Encerrando esta seleção, um samba de Haroldo Barbosa, também jornalista, roteirista e produtor de programas de rádio e televisão, inclusive de cunho humorístico: “Quando esse nêgo chega”, gravação Odeon de 19 de julho de 1948, lançada em setembro desse ano com o n.o  12876-B, matriz 8389, o outro lado de ‘Nasci para bailar, nasci para sambar”. Uma seleção assinada, como se vê, por grandes autores, e que comprova a observação feita pelo pesquisador Abel Cardoso Júnior: “Se Aracy de Almeida não perdoava falsos valores, é porque ela mesma  jamais deu ao público nada menos que o melhor”. Ouçam e comprovem!

* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO 


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Oscarito - Pimentinha E Arrelia - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - VOL. 63 (2013)

E  aqui estamos com mais uma edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. É a de número 63, desta feita apresentando músicas cuja característica é o bom humor, interpretados por comediantes que marcaram época em nossa mídia. São treze gravações como sempre preciosas, que por certo vão deixar lembranças muitíssimo agradáveis em quem vivenciou a época deles, e surpresa igualmente agradável para quem não conhece, e tem à disposição, portanto, uma oportunidade rara de conhecer.
Muitos se lembram com saudade, inclusive eu próprio, do palhaço Arrelia, aliás, Waldemar Seyssel  (Jaguariaíva, PR, 1905-São Paulo, 2005). Ele começou a atuar no circo aos seis meses de idade, e não parou mais. Veio de uma família circense tradicional, cujo avô, Júlio Seyssel, era  nascido e residente na França, tendo sido até mesmo professor da famosa Universidade de Sorbonne.  Nessa ocasião, Júlio conheceu uma jovem espanhola, artista de circo, claro, que fazia acrobacias em cima de um cavalo. Os dois se casaram, e Júlio trocou a universidade pelo picadeiro.  O casal veio ao Brasil durante uma temporada do Grande Circo Inglês, dos irmãos Charles, e resolveu ficar por aqui mesmo. Já Arrelia (apelido que lhe foi dado por seu tio,  Henrique)começou no circo saltando, passando depois pelo trapézio, cama elástica e outras acrobacias.  Quando seu pai, cansado, deixou o picadeiro, passou a dedicar-se à arte de divertir o público. Seu primeiro parceiro foi o ator Feliz Batista, que fazia o palhaço de cara branca, vindo depois o irmão, Henrique Sobrinho.  Após anos de trabalho no picadeiro, Arrelia troca o circo pela televisão, por questões financeiras. Seu “Circo do Arrelia”, iniciado em 1953, passou pela TV Paulista (hoje Globo) e pela Record, e é aí que surge seu parceiro mais famoso:  seu sobrinho Walter Seyssel, o Pimentinha (Juiz de Fora, MG, 1926-Itu, SP, 1992). É com ele que Arrelia interpreta as faixas escaladas para esta edição do GRB. Para começar, a marchinha “Muito bem (Como vai?)”, utilizando um bordão famoso do grande Arrelia: “Como vai, como vai, vai, vai? Muito bem, muito bem, bem, bem!” O próprio Arrelia, mais Manoel Ferreira e Antônio Mojica, transformam esse bordão clássico em marchinha de sucesso no carnaval de 1957, lançada pela Copacabana em seu selo Carnaval, com o número 051-A, matriz M-1831. Um ano mais tarde, em janeiro de 1958, a Copacabana lança para a folia desse ano outra marchinha por eles interpretada: “Hom’essa!”, do próprio Arrelia e José Saccomani, matriz M-2075, curiosamente em dois 78 rpm diferentes: 5855 e 5861, ambos no lado A!  Temos ainda outros registros do Pimentinha em dueto: com Déo Maia (cantora e atriz que foi professora primária antes de se dedicar ao teatro de revista), ele canta o samba ‘Dengo”, de autoria do mestre Ary Barroso, gravação Odeon de 3 de junho de 1953, lançada em agosto seguinte com o n.o 13483-B, matriz 9747. Ainda com o tiozão Arrelia, ele interpreta outra marchinha, “Cacho de banana”, do próprio Arrelia mais José Saccomani e Ercílio Consoni, para o carnaval de 1958, e que a Copacabana lança em janeiro desse ano também em dois 78 rpm diferentes:  5855-B, e 5862-A, com a mesmíssima matriz, M-2094! Como solista, Pimentinha interpreta outra marchinha, por ele próprio assinada em parceria com José & Emílio Saccomani: “Na bodega”, para o carnaval de 1960, editada pela mesma Copacabana ainda em dezembro de 59 com o n.o  6067-B, matriz M-2548. Déo Maia ainda canta com ele o choro “Vou a Paris”, de Vicente Paiva e Luiz Peixoto, lado A do 78 de “Dengo”, o Odeon 13483, matriz 9745, e obviamente registrado na mesma sessão.  Encerrando sua participação neste volume, Pimentinha canta a “Marcha do Cacareco”,de Elzo Augusto, Edaor e Romaris,  lançada pela Copacabana no lado A de “Na bodega”, matriz M-2547, para o carnaval de 1960. O Cacareco em questão é um rinoceronte que foi trazido do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro para o de São Paulo, e houve uma polêmica generalizada na época sobre se ele deveria permanecer em Sampa ou voltar pro Rio. Enquanto isso, nas eleições de 1959, os paulistanos, decepcionados com os políticos candidatos  a vereadores (como até hoje), acabaram votando, em sinal de protesto, no Cacareco, que recebeu mais de 100 mil votos (todos nulos, claro), mais até que o vereador mais votado, que teve 95.000 votos! Isso aconteceria em 1978 com o jogador de futebol Biro-Biro, então no Corinthians, que mais tarde candidatou-se a vereador por São Paulo e se elegeu de verdade.  Dois casos impossíveis de se repetir nestes tempos de urna eletrônica...
Em seguida relembraremos Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Tereza Díaz (Málaga, Espanha, 1906-Rio de Janeiro, 1970), que ganhou a imortalidade com o pseudônimo de Oscarito.  Filho de pai alemão e mãe portuguesa, veio para o Brasil com um ano de idade, mas só se naturalizou brazuca em 1949. Começou nos picadeiros de circo, aos cinco anos (afinal ele, como Arrelia e Pimentinha, era membro de família circense), como palhaço, trapezista, acrobata e ator, além de aprender a tocar violino! Foi marcante figura no teatro de revista, onde começou em 1932 na peça “Calma, Gegê” (sátira a Getúlio Vargas) e no cinema, onde debutou três anos mais tarde, atuando em “Noites cariocas”. Seu nome está ligado à história da Atlântida, estúdio que se caracterizava por suas chanchadas, onde atuou em inúmeros filmes,  alguns em parceria com Grande Otelo, como “A dupla do barulho’ (1953) e “Matar ou correr” (1954). Outros títulos de destaque em sua filmografia são “Carnaval no fogo” (1949), “Aviso aos navegantes” (1950), “Barnabé, tu és meu” (1952), “Nem Sansão nem Dalila’ (1954), “De vento em popa” (1957), “Esse milhão é meu” (1958) e “Os dois ladrões” (1960). Seu último trabalho no cinema foi em “Jovens pra frente”,  de 1968. Foi casado com a também atriz Margot Louro, com quem teve dois filhos. Oscarito teve seu nome como paralelo aos maiores cômicos do cinema internacional, como o  americano Charles Chaplin e o mexicano Cantinflas.  Evidentemente, Oscarito também gravou algumas músicas, predominantemente carnavalescas, que também interpretava em seus filmes. E eis aqui nesta edição do GRB seis delas. Pra começar, a famosa “Marcha do gago” (“Tá, tá, tá tá na hora/ Va-va-vale tudo agora”), de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas , indiscutivelmente seu maior sucesso musical, lançado em dezembro de 1949 pela Star com o número 177-A, e um dos maiores sucessos da folia de 1950, fazendo inclusive referência a Carlo Pintacuda, um famoso automobilista da época. Da mesma dupla, agora com o reforço de David Nasser, é o lado B, a marchinha “Greve no harém”, que apresentamos na faixa 10. O disco também saiu com o selo Carnaval, com o número 049, e ambas as músicas fizeram parte do filme ‘Carnaval no fogo”.  Completando este programa, quatro gravações Sinter:  a marchinha “Toureiro de Cascadura” (faixa 12), de Armando Cavalcanti e David Nasser, matriz S-39, e o samba “Garota boa”, (faixa 9), de Saint Clair-Senna, matriz S-40, do disco 00-00.018, editado em dezembro de 1950 para a folia de 51, para a qual também saiu o disco 00-00.019, em seguida mesmo, com duas composições dos mesmos Armando Cavalcanti e Klécus Caldas: a famosa “Marcha do neném” (“Ié, ié, ié, faz o neném”, faixa 13), matriz S-41, e a também marcha “Pouca roupa” (faixa 11), todas quatro do filme “Aviso aos navegantes”, outro estouro de bilheteria na época.  Enfim, música e bom humor mais uma vez encontram-se nesta edição do GRB, para alguns lembrarem, outões conhecerem, e para todos se divertirem muito!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO 


domingo, 4 de agosto de 2013

Coletânea Compactos Do Toque Musical Vol. 2 (2013)

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Há tempos eu venho querendo 'desovar' alguns compactos e continuar a série "Coletânea Compactos", mas vou sempre adiando. Desta vez consegui preparar o segundo volume e dentro do possível, logo teremos outros... Compacto é em postagem como fazer um lanche rápido, satisfaz no momento, mas depois deixa a gente com fome. Por isso é que dependendo dos disquinhos, prefiro postá-los em blog, como uma coletânea.
Nesta leva, reuni quatro grupos de música pop. Digo pop, porque aqui a coisa fica na base das versões, ou bem influenciado por essas e porque não dizer, a música estrangeira, moderninha da época. Temos aqui o grupo Brazilian Boys em disco de 1974, apresentado duas versões, para "Mrs. Vandebilt", de Paul MacCartney e "Cecilia", de Paul Simon. Depois temos o grupo Impacto com a versão para "Dreamin`", de B. Kinsley e uma autoral, "Conselho de amigo", bem na mesma linha pop. Este compacto, inclusive, já havia sido postado anteriomente no Toque Musical. Na sequência temos o Lee Jackson, que entre os demais se destaca pela qualidade e aqui vem num compacto duplo com os temas tão variados quanto a prórpia trajetória do conjunto. De "Adelita", "El Bodeguero", passando por "Allah lá o", Hino do Flamengo, dois clássicos do Jorge Ben ("Mais que nada" e "Xica da Silva) e finalizando com "Only You" e "There's a kind of hush". Completando a coletânea, temos outro grupo de destaque, o Light Reflections. Este último com dois temas originais (autorais), cantados em inglês, como manda o figurino :)

eu pensei - brazilan boys
cecília - brazilian boys
sonho - impacto
conselho de amigo - impacto
adelita - lee jackson
mas que nada - xica da silva - lee jackson
only you - there's a kind of hush - my pledge of love - lee jackson
el bodeguero - allah la o - hino do flamengo - lee jackson
welcome welcome - light reflections
that love - light reflections

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Toque Musical - 6 Anos!

Bom dia, amigos cultos e ocultos! Hoje, dia 29 de julho, o blog Toque Musical está completando 6 anos de atividades. Ao longo desse tempo muita água boa rolou. A fonte aqui é natural e da melhor qualidade e talvez por isso mesmo é que saímos do 'badalado' para o 'cultuado', para poucos. Tivemos aqui várias mudanças, inclusive de endereço por conta de algumas perseguições. Quando se chega ao topo ficamos também sujeitos a muita exposição. Percebo também que o Toque Musical fez escola, muitos outros blogs surgiram buscando um mesmo formato, usando uma mesma forma de apresentação e publicando inclusive muito do que já postei aqui. Acho isso muito legal, pois vejo o quanto o TM foi influente.
Mas, se é bom por um lado, por outro nem sempre. Muitas vezes o TM se tornou alvo do despeito, da falta de compreensão e de algumas baixarias. Tivemos momentos que eu realmente fiquei desanimado, mas não vacilei, mantive o blog e as postagens diárias. Por conta dos boicotes, das denúncias infundadas, das perseguições num geral, criei outras versões do blog e as mantive abertas ao público. Hoje temos três versões do Toque Musical, as quais os amigos podem recorrer: "Toque Musical Refinado", onde são postadas as produções exclusivas do TM; o "Toque Musical Galeria", que é a versão blogspot da matriz atual, o "TM site".
Tem muita gente que acha complicado o funcionamento do Toque Musical, mais ainda depois que criei o GTM (Grupo do Toque Musical). Sinceramente, eu não queria complicar, mas diante à perseguição aos meus links, me vi obrigado a criar esse grupo que tem a função única de preserva-los. Limitei o meu público, mas mantive a minha rotina. Por conta também de denúncias, praticamente quase todos os meus arquivos foram perdidos. Até hoje ainda estou fazendo a reposição. Os pedidos não param de chegar e como sou sozinho nessa empreitada, tudo acaba sendo muito devagar. Não tenho como atender a todos de imediato. Além do mais, tem as postagens diárias, essas são prioritárias!
Infelizmente a maioria dos visitantes no blog não tomam o trabalho de ler as postagens e muito menos as orientações para se ingressarem no GTM. Daí, me trazem mais trabalho tendo que explicar repetidas vezes a mesma coisa. De uns tempos pra cá passei a não mais responder perguntas cujas respostas são óbvias e se encontram explícitas no TM.
Continuo a peleja, mas sempre preservando o essencial prazer de fazer o blog como eu gosto e posso. Não mais estou interessado em atingir um grande público e nem peço mais um 'feedback' em comentários.
O Toque Musical é apenas um local onde se escuta música com outros olhos. Infelizmente, poucos são aqueles que conseguem ouvir isso. Mas tá valendo...


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Francisco Alves 2:2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 62 (2013)

Estamos de volta com a segunda parte da  retrospectiva que o Grand Record Brazil dedica ao inesquecível Francisco Alves, o Rei da Voz (1898-1952). Desta feita, mais treze gravações preciosas e imprescindíveis para colecionadores, pesquisadores e apreciadores em geral.
Abrindo nosso roteiro, três sambas de Sílvio Fernandes, o Brancura, histórico malandro carioca, de quem falamos na edição anterior. O primeiro é “Coração volúvel”, lançado pela Odeon em junho de 1929, disco 10399-A, matriz 2532, do qual também foi escalado o lado B, matriz 2531, “Mulher venenosa”, na faixa 3, ambas com acompanhamento da Orquestra Pan American de Simon Bountman. Antes dele virá “Você chorou”, subintitulado “Me admiro é você”, primeiro verso da letra, gravação Victor de 8 de julho de 1935 (ano do falecimento de Brancura), lançado em agosto seguinte com o número 33959-A, matriz 79968, e incluído na burleta teatral “Da Favela ao Catete”, de Freire Júnior. O acompanhamento é da Orquestra Diabos do Céu, formada e dirigida pelo mestre Pixinguinha.Voltando à Odeon, o samba “Olê-lê-ô”, da santíssima trindade Francisco Alves-Ismael Silva-Nílton Bastos, gravado em 27 de novembro de 1930 e lançado em janeiro de 31 para o carnaval, disco 10745-B, matriz 4068 (o lado A é “Nem é bom falar”, da nossa edição anterior). Ismael e Nílton faziam parte do grupo Bambas do Estácio, que acompanha Chico Alves neste registro. Neto da lendária Tia Ciata,  Bucy Moreira assina em parceria com Norival Reis, o Nazinho (ou Nozinho), o samba “Em uma linda tarde”, que Chico Alves gravou com os Diabos do Céu na Victor em 16 de abril de 1935, com lançamento em julho seguinte sob n.o 33946-B, matriz 79877. Autêntica raridade vem em seguida, o samba “Meu batalhão”, também da trindade Chico (acompanhado de seu “Esquadrão”)-Ismael Silva-Nílton Bastos, lançado pela Odeon em janeiro de 1931 para o carnaval com o n.o 10748-B, matriz 4091. E quem não conhece a marchinha junina “Pula a fogueira”? Só quem nunca foi numa festa junina... Da parceria Getúlio “Amor” Marinho-João Bastos Filho, foi imortalizada pelo Rei da Voz na Victor em 21 de maio de 1936, matriz 80163, com lançamento em julho seguinte (o que tem sua lógica, pois as festas juninas em algumas cidades costumam se estender até esse mês) sob n.o 34068-A. A marchinha “Você gosta de mim”, da parceria Francisco Alves-Ismael Silva, saiu pela Parlophon em dezembro de 1931, disco 13377-B, matriz 131307, visando o carnaval de 32. Outro clássico é o samba “Para me livrar do mal”, da parceria de Ismael Silva com Noel Rosa, imortalizado por Chico Alves na Odeon em 29 de junho de 1932, disco 10922-B, matriz 4467, e que ele também interpretou no segundo show da série “Broadway cocktail”, um espetáculo palco-tela encenado no recém-inaugurado Cine Broadway, do qual também participaram Cármen Miranda, Almirante e Noel. Destaque, na gravação, para o piano de Nonô (Romualdo Peixoto), tio dos cantores Cyro Monteiro e Cauby Peixoto. “Choro, sim”, samba de Ismael Silva sem parceiro, foi gravado por Chico na Victor com os Diabos do Céu em 21 de novembro de 1934, matriz 79784. Destinava-se ao carnaval de 1935,  segundo consta da edição, mas só foi para as lojas em julho desse ano, com o número 33946-B. Dando um salto no tempo, vem em seguida outro samba, “Cidade de São Sebastião”, de Wilson Batista e Nássara, gravação Odeon de 10 de julho de 1941, lançada em agosto do mesmo ano com o número 12028-A, matriz 6710, com acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon (Otaviano Romero Monteiro, 1908-1951). A música fez parte do segundo espetáculo da série “Joujoux e Balangandãs”, levado à cena no Teatro Municipal do Rio, no qual a então primeira-dama da Nação, Darcy Vargas, convocava a alta-sociedade carioca a apresentar seus dotes artísticos no palco e demonstrar generosidade na bilheteria, em prol de suas obras assistenciais. Nele, “Cidade de São Sebastião” foi interpretado por Jenny Hime e Roberto Rocha. “Fica de lá” é de Ernâni Alvarenga, “o samba falado da Portela”, e este aqui destinou-se ao carnaval de 1939, lançado pela Odeon bem em cima da folia, em fevereiro, com o número 11700-A, tendo sido gravado em 16 de dezembro de 38, matriz 5995. Por fim, uma marcha natalina do mestre Ary Barroso em parceria com nosso Chico Alves, “Meu Natal”, da safra do Rei da Voz na Victor, com o devido apoio instrumental dos Diabos do Céu de Pixinguinha & Cia., gravada em 19 de outubro de 1934 e lançada, claro, em dezembro, com o número 33857-A, matriz 79762. Ela encerra, e com chave de ouro, esta retrospectiva que o GRB dedica ao imortal Francisco de Moraes Alves, e entrega com muita alegria aos amigos cultos, ocultos e associados do GRB. Até a próxima e obrigado pelo prestígio!

Texto de  SAMUEL MACHADO FILHO. 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Francisco Alves 1:2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 61 (2013)


Vejam vocês, amigos cultos, ocultos e associados do TM: já estamos na sexagésima-primeira edição do Grand Record Brazil! Sinceramente, eu e o Augusto não esperávamos que a coisa fosse tão longe, o que muito devemos ao apoio e ao prestígio de vocês. Esta semana, apresentamos a primeira de duas partes de uma nova retrospectiva dedicada ao eterno Rei da Voz, Francisco de Moraes Alves.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de agosto de 1898 e tragicamente falecido em acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Pindamonhangaba, SP (seu carro, um Buick, chocou-se com um caminhão que entrara na contramão, e se incendiou), em 27 de setembro de 1952, Francisco Alves deixou a maior discografia em 78 rpm da história de nossa música popular, e gravou somente nesse formato: foram 524 discos com 983 fonogramas! Uma carreira que começou em 1919, numa modesta gravadora de fundo de quintal, a Disco Popular, para a qual foi levado pelo compositor Sinhô. Em sua estreia, Chico gravou três músicas de Sinhô: a marchinha “O pé de anjo” (sucesso no carnaval de 1920) e os sambas “Fala, meu louro” e “Alivia estes olhos”. O cantor só teria nova oportunidade em disco na Odeon, em 1924, gravando quatro músicas, também carnavalescas, que não obtiveram êxito. E é a partir de 1927, com a implantação do sistema elétrico de gravação, substituindo o mecânico, que Chico Viola desponta de vez para a popularidade. Aliás, gravava na Odeon como Francisco Alves e na Parlophon, sua subsidiária, como Chico Viola. É na “marca do templo” que se passará quase toda a sua carreira fonográfica, com breves saídas para a RCA Victor (1934 a 1937) e para a Columbia, futura Continental (1939 a 1941).
Desta longa e vitoriosa trajetória de Chico Alves em disco, foram escaladas para este primeiro volume catorze joias de seu repertório. Abrindo-a, o samba “Me faz carinhos”, lançado pela Odeon em janeiro de 1928 para o carnaval, disco 10100-B, matriz 1480, dado como sendo de exclusiva autoria de Chico, mas que na verdade é de Ismael Silva, de quem o Rei da Voz o comprou (Ismael queria o dinheiro no ato, por necessidade imediata), e ele também o interpretaria na revista “Você quer é carinho”, encenada no Teatro Carlos Gomes. No acompanhamento, a Orquestra Pan American do Cassino Copacabana, dirigida pelo palestino Simon Bountman, e também conhecida como Orquestra Copacabana, Simão Nacional Orquestra e Orquestra Parlophon (tudo a mesma coisa...). A faixa 2 é “Não é isso que eu procuro”, outra parceria de Chico Alves com Ismael Silva,dedicada ao maestro Martinez Grau, lançada em setembro do mesmo ano com o número 10251-B, matriz 1876, tendo no acompanhamento a Orquestra Rio Artists. O cantor também interpretou esse samba em duas revistas encenadas no Teatro Carlos Gomes: “Eu quero é nota”, em dueto com Célia Zenatti, sua primeira mulher, e outra também chamada “Não é isso que eu procuro”. “Deixa essa mulher chorar” faz parte da antológica série de gravações que Chico fez em dupla com Mário Reis, datada de 9 de setembro de 1930 com lançamento em dezembro do mesmo ano, disco 10715-A, matriz 3969. Oficialmente o samba é de Sílvio Fernandes, o Brancura (c.1908-1935), malandro histórico do Estácio, que ganhou seu apelido por sua cor negra reluzente, mas segundo Bucy Moreira, era de Maciste da Mangueira, que deu parceria a Brancura. “Apanhando papel”, gravação de 30 de janeiro de 1931, lançada em março do mesmo ano com o número 10767-A, matriz 4124, é de Getúlio Marinho da Silva, o Amor (Salvador, BA, 1889-Rio de Janeiro, 1964) e Ubiratan da Silva. Foi escalado também o lado B, “Ironia”, do próprio Chico Alves em parceria com Ismael Silva e Nílton Bastos, matriz 4136. Nesse disco, o acompanhamento é dos Bambas do Estácio, e o bandolim é provavelmente do mestre Luperce Miranda. “Nem é bom falar”, que vem antes de “Ironia” em nossa seleção, é do mesmo trio de autores e com o mesmo acompanhamento, gravação de 27 de novembro de 1930, lançada em janeiro de 31 com o número 10755-A, matriz 4067, e um dos hits do carnaval desse ano. Ao ouvir o verso “Eu quero uma mulher bem nua”, durante apresentação do cantor na Rádio Sociedade, seu proprietário, Roquette Pinto, também pioneiro da radiodifusão no Brasil, comentou: “Todos nós queremos, mas não é preciso dizer”...  A santíssima trindade Chico Alves-Ismael Silva-Nílton Bastos também assina “É bom evitar”, samba lançado pela “marca do templo” em setembro de 1931 com o número 10837-A, matriz 4271. A marchinha “Gosto mas não é muito” saiu pela Parlophon em dezembro de 1931, com vistas ao carnaval de 32, com o número 13375-A, matriz 131302. É creditada a Francisco Alves e Ismael Silva, mas sua segunda parte foi composta por Noel Rosa, não creditado nem no disco nem na edição. Nessa época, o governo provisório de Getúlio Vargas admitia milhares de correligionários no serviço público, a ponto de, para brecar novos pedidos, em tempos de crise profunda, ser exigido dos postulantes requerimento estampilhado, com foto e selos, daí o verso “Traz o retrato e a estampilha”. Temos também o lado B, matriz 131308: “Amar”, samba do próprio Chico mais Ismael Silva e Nílton Bastos, este último não creditado na edição. Do Parlophon 13377, também lançado em dezembro de 1931 para o carnaval de 32, temos o lado A, matriz 131306: o samba “Sonhei”, do mesmo trio de autores da faixa anterior. Chico Alves e Ismael Silva assinam a faixa seguinte, o samba “Gandaia”, gravação Odeon de 23 de março de 1932, lançada em maio do mesmo ano, disco 10906-B, matriz 4420. Da parceria Noel Rosa-Ismael Silva é o samba “Ando cismado”, gravação de 27 de outubro de 1932, lançada em dezembro seguinte com o número 10936-A, matriz 4532. Para encerrar, duas faixas do período final de Chico Alves na Odeon, ambas canções visando as festas natalinas, e gravadas em 5 de dezembro de 1950, porém só lançadas um ano mais tarde, dezembro de 51, com o número 13198: “Sinos de Natal” (lado B, matriz 8877), de Victor Simon (autor dos clássicos “Bom dia, café” e “O vagabundo”) e Wilson Roberto, e a “Canção de Natal do Brasil”, parceria do próprio Rei da Voz com David Nasser e Felisberto Martins, na época diretor artístico da “marca do templo” (lado A, matriz 8876). Embora ainda estejamos longe do Natal, as faixas são apropriadas para encerrar a primeira parte deste nosso retrospecto. Semana que vem a gente se encontra com mais Chico Alves. Até lá!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Januário E Luiz Gonzaga - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 60 (2013)


O Grand Record Brazil chega à sua sexagésima edição apresentando uma seleção musical com dois grandes nomes da cultura popular nordestina: Luiz Gonzaga e seu pai Januário.
Lavrador, sanfoneiro e consertador de sanfonas, Januário José dos Santos, autêntico rei dos oito baixos, nasceu em 25 de setembro de 1888, não se sabe se em Flores ou Pajeú das Flores, em Pernambuco. Adolescente, fugindo da seca, ele chegou, em 1905, à Fazenda Caiçara, nascente do Riacho da Brígida, a 12 quilômetros de Exu, na Serra do Araripe, bem na divisa Norte de Pernambuco com o Ceará, ao lado de seu irmão Pedro Anselmo. Era motivo de alegria e admiração para quem escutava a sua sanfona, sendo sempre respeitado por onde quer que passasse. Só falava o necessário e tinha grande entendimento intelectual, apesar de nunca ter sentado em um banco de escola. Além de exímio sanfoneiro, foi durante toda a vida um homem dedicado à família. Ao lado da primeira esposa, Dona Santana, soube muito bem educar seus nove filhos (Gonzagão foi o segundo) na tradição religiosa e no respeito humano.
O “Vovô do Baião” sempre amou seu querido Araripe. Prova disso é que, em 1960, com o falecimento de Dona Santana e já com os nove filhos radicados no Rio de Janeiro, ficou morando sozinho por lá de junho a novembro, quando contraiu segundas núpcias com Dona Maria Raimunda de Jesus. O novo casal adotou, em 1962, um bebê com três dias de nascido, e registrado como filho legítimo com o nome de João Batista Januário, ainda hoje residindo em Exu.
Grande exemplo de pai e bom vizinho, “seu” Januário partiu para a eternidade no dia 11 de junho de 1978, deixando imensa saudade em todos que o conheceram lá em Exu, apreciando suas performances sanfoneiras todo final de tarde. As tradições religiosas do município forma preservadas por muito tempo recebendo a colaboração do “Vovô do Baião”.
Já Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu, a 13 de dezembro de 1912, lá mesmo na Fazneda Caiçara, onde ele e seus irmãos foram criados, e ainda menino se interessou pelos oito baixos do pai, a quem ajudava na animação de forrós e festas. Aos 17 anos, saiu de casa e se alistou como voluntário no Exército, em Fortaleza, Ceará, e em 1930 rumou com seu batalhão de caçdores, o 22, para a Paraíba, agitada com a revolta de Princesa. Com a vitória de Getúlio Vargas, a tropa se desloca para Belém do Pará, Teresina, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a fim de pacificar os resistentes. Corneteiro, recebeu em BH o apelido de “Bico de Aço”. E soprando a corneta seguiu para São Paulo, em 1932, no movimento constitucionalista, e para Mato Grosso, a fim de proteger nossa fronteira da Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia. Já em tempos mais clamos, Gonzagão serviu em Juiz de Fora e Ouro Fino, em Minas Gerais, e deu baixa em 1939, após dez anos de Exército (uma nova lei impedia o reengajamento além desse tempo). Em vez de voltar a sua Exu, resolve ficar no Rio de Janeiro, onde desembarcara na companhia de uma sanfona branca comprada em São Paulo pouco antes. Nas ruas, nos bares e no Mangue, passando o pires, apresentava um repertório bem ao gosto dos marinheiros e suas acompanhantes: tangos, boleros, valsas, canções, foxes. Certa noite, um grupo de universitários cearenses pede para ele tocar alguma coisa lá do Nordeste. Aí, Gonzagão tira da memória xaxados, cocos, xotes, xamegos, e é aí que alimenta o ideal de um dia tocar tudo isso para todo o povo do Sul. Inscreve-se no programa de calouros do temível Ary Barroso tocando seu xamego “Vira e mexe”, sendo aplaudidíssimo pela plateia e obtendo nota máxima! Em 1941, é levado à RCA Victor para acompanhar Genésio Arruda na gravação de “A viagem do Genésio”, e tem a oportunidade de tocar seu “Vira e mexe” para o diretor artístico, sendo de pronto escalado para gravar dois discos como acordeonista-solo: “Véspera de São João”/”Numa serenata” e “Saudades de São João del Rey”/”Vira e mexe”. A oportunidade de gravar como cantor só aparece em 1945, com “Dança, Mariquinha”, mazurca sua e de Miguel Lima. Em pouco tempo tornou-se ídolo nacional, de ponta a ponta, também como compositor, tendo parceiros expressívos: Miguel Lima, Humberto Teixeira, Zé Dantas, e sucessos sem conta, seja como autor, seja apenas como intérprete: “Baião”, “Asa branca”, 'Vozes da seca”, “Chofer de praça”, “Paraíba”, “Macapá”, “Lorota boa”, “Riacho do Navio”, “Boiadeiro”, “Cigarro de páia”, “Xanduzinha” e muitos, muitos mais. Com o aparecimento do rock e da bossa nova, Gonzagão ficou praticamente esquecido no Sul do País, sobretudo no eixo Rio-São Paulo, mas continuou a se apresentar pelo interior do Brasil, onde sempre teve grande público. Em 1968, o espertíssimo Carlos Imperial planta um boato de que o quarteto britânico The Beatles iria gravar “Asa branca”. Isso, claro, não aconteceu, mas chamou a atenção das novas gerações de então para sua obra, sendo então redescoberto e novamente experimentando o sucesso em discos e shows nos grandes centros urbanos, tendo inclusive se apresentado no exterior. O trono de Rei do Baião é e sempre será seu. Gonzagão morreu em 2 de agosto de 1989, no Recife, de osteoporose seguida de pneumonia (sofria também de câncer na próstata), deixando um legado imortal que até hoje influencia a MPB. Seu corpo foi sepultado, conforme seu desejo, ao lado de seus pais, em Exu.
Nesta edição do GRB, apresentamos uma seleção dedicada a Januário e Gonzagão, pai e filho, com oito fonogramas originais RCA Victor. Para começar, quatro gravações do mestre Januário, com participação expressiva dos filhos, inclusive, claro, Luiz Gonzaga: o xote dele mesmo “Januário vai tocar”, gravação de 3 de agosto de 1955, lançada em outubro do mesmo ano com o número 80-1498-A, matriz BE5VB-0823. No verso, matriz BE5VB-0824, o “Calango do Irineu”, também do próprio Januário, que apresentamos logo em seguida. Depois, as faixas do disco 80-1322, gravado em 18 de maio de 1954 e lançado em agosto: o baião “O balaio de Veremundo”, da parceria Luiz Gonzaga-Zé Dantas, espirituosa  alusão a um “coronel” da cidade pernambucana de Salgueiro, famosa por suas carnes de bode salgadas, e inventor da dança do balaio. Da mesma parceria é o lado B, matriz BE4VB-0456, outro baião: “Pronde tu vai. Luí?”, com solo vocal do próprio Gonzagão, “of course”. Completando este pequeno grande programa, quatro expressivas gravações de Gonzagão de seu início como cantor-solo. Na faixa seis, exatamente sua estreia nessa área, após 24 discos como solista de sanfona: a mazurca “Dança, Mariquinha”, gravada em 11 de abril de 1945 e lançada em maio seguinte, matriz S-078152. Luiz Gonzaga chegou a dizer ao então diretor artístico da RCA Victor, Vittorio Lattari, brincando, que a Odeon queria lançá-lo como cantor em disco. Mas Vittorio, claro, decidiu que ele ficaria na Victor, e perguntou: “Como é? Já tem repertório pra cantar?” Isso, claro, não faltava... Na faixa oito, o chamego “Penerô xerem”, chamego da parceria Luiz Gonzaga-Miguel Lima, gravação de 13 de junho de 1945, lançada em agosto do mesmo ano (80-0306-A, matriz S-078189). A 6 de setembro do mesmo ano, Gonzagão grava, de sua autoria mais Miguel Lima e J. Portela (o jota é de Jeová), outra mazurca de sucesso, “Cortando pano”, expressiva homenagem aos alfaiates, que a Victor lançara em novembro seguinte com o número 80-0344-B, matriz S-078283. Nessa época, quase todos os cantores brasileiros costumavam lançar músicas para o carnaval, pois, como então se dizia, eram “da fuzarca”. E mostrando o lado carnavalesco do Rei do Baião, foi escalada a faixa 7 desta nossa edição do GRB, a marcha-tarantela “Festa napolitana”, do compositor Sereno, para a folia de 1946, que a Victor lançou em janeiro desse ano, em gravação de 14 de novembro de 45, disco 80-0374-A, matriz S-078389. Enfim, uma pequena grande amostra que certamente irá agradar aos fãs de Luiz Gonzaga, de seu pai Januário e da boa música nordestina, deixando na boca aquele irresistível gostinho de quero-mais...

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO 

domingo, 30 de junho de 2013

Conjunto Mafasoli (1967)


Boa noite, amigos cultos e ocultos! Vocês sabem que eu sou um cara que adora 'invetar moda' e sempre que é preciso eu estou lá... Eu hoje encasquetei de postar um disco o qual não tinha a capa. Na verdade, a capa estava um lixo e eu até pensei em restaurar, mas diante ao trabalho, achei melhor criar uma outra. Acho que ficou até legal, porém quem vê e não conhece o artista, vai pensar que é algum disco de jazz. Mas, não se enganem, a coisa aqui está mais para Jovem Guarda. Bom, agora já está feito e pronto...
Temos aqui o Conjunto Mafasoli, ou melhor dizendo, Carlinhos Mafasoli. Um nome que indica uma dezena de discos gravados e participação em trabalhos de tantos outros artistas e edições. Porém, se formos procurar a sua biografia, ou mesmo algum dado artístico, vamos ficar na mão... Caramba, não há nada na rede sobre o Carlinhos Mafasoli, apenas seus velhos discos vendidos no Mercado Livre. Bom, do pouco que sei, este artista foi um músico atuante nos anos 50 e 60. Ele aparece em vários discos e dos mais variados gêneros tocando acordeon, sanfona, piano ou orgão. Seus lps não são trabalhos autorais, ao que tudo indica ele era apenas um instrumentista e intérprete. Neste álbum, lançado pelo selo Som Maior em 1967, vamos encontrá-lo pilotando um orgão, dedilhando os temas em voga na época. Um repertório misto, com músicas nacionais e internacionais, feito então para tentar agradar tanto os mais velhos quanto os mais moços. Os arranjos e regência são do maestro Portinho.

penny lane
coração de papel
puppet on a string
bus stop
tell the boys
there's a kind of hush
never, never
call me
funeral de um lavrador
this is my song
green grass
o bilhetinho


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Elvira Pagã - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 59 (2013)

E eis de volta o Grand Record Brazil, para alegria dos amigos cultos, ocultos e associados do TM. Nesta quinquagésima-oitava edição, estamos trazendo de volta, mais uma vez graças ao esforço do amigo e colecionador Beto de Oliveira, parcela substancial da carreira-solo de Elvira Pagã.
Nossa biografada, cujo nome de batismo era Elvira Olivieri Cozzolino, nasceu na cidade paulista de Itararé, divisa de São Paulo com o Paraná, no dia 6 de setembro de 1920. Ainda pequena, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde estudou num colégio de freiras, o Imaculada Conceição. Ainda estudante, organizava com a irmã, Rosina, inúmeras festas onde travariam inúmeras relações com o meio artístico da então Capital da República, sobretudo com os integrantes do Bando da Lua. Ainda na década de 1930, Rosina e Elvira atuaram em um espetáculo de inauguração do Cine Ipanema, ao lado dos Anjos do Inferno. Nessa ocasião receberam, de Heitor Beltrão, o apelido de Irmãs Pagãs (como a dupla ainda não tinha nome, Heitor a considerava “pagã”), que adotariam para o resto da vida.
As Irmãs Pagãs se apresentaram em inúmeras emissoras de rádio, como a Mayrink Veiga, e gravaram juntas um total de treze discos. Por quatro meses, excursionaram pela Argentina, Peru e Chile. Atuaram nos filmes  “Alô, alô, carnaval”(1935), “O bobo do rei”, “Cidade-mulher” (ambos de 1936), “Favela” (1939), “Laranja da China” (1940) e a produção argentina “Trés anclados em Paris” (1938).
A dupla encerrou-se em 1940, com o casamento de Elvira, e ambas passam a seguir carreiras independentes. Elvira Pagã tornou-se uma das maiores estrelas do teatro de revista, disputando com Luz del Fuego (Dora Vivacqua, Cachoeiro de Itapemirim, ES, 1917-Rio de Janeiro, 1967) o papel de destaque entre as mulheres brasileiras mais ousadas de seu tempo: foi a primeira a trajar biquini em Copacabana e, nos anos 1950, posou nua para uma foto, que distribuiu, vejam vocês, como cartão de Natal! Elvira foi também responsável direta por uma das tentativas de suicídio do compositor Assis Valente (ele cortou os pulsos, mas foi salvo), ao cobrar dele uma dívida escandalosa de 4.000 cruzeiros. Sua beleza e sensualidade lhe fizeram a fama (e lhe causaram até mesmo inúmeras prisões), tornado-a uma das “sex symbols” mais cobiçadas da época. Seu fã mais ardoroso era o perigosíssimo bandido Carne Seca, cuja cela na prisão estava abarrotada de fotos de Elvira, com destaque para uma na qual a vedete estava deitada sobre uma pele de onça, e onde se lia a dedicatória: “Para Carne Seca, um consolo de Elvira Pagã”.  Foi a primeira rainha do carnaval carioca – uma inovação nos festejos de Momo, que até hoje se mantém. No cinema, participou dos filmes “Carnaval no fogo” e “Dominó negro”, ambos de 1949, e “Aviso aos navegantes”, de 1950, também fazendo pontas em “Vegas nights” (1948) e “Écharpe de seda” (1950).
A partir dos anos 1970, passou a dedicar-se à pintura, adotando um estilo esotérico, mas não obteve muito destaque nessa atividade. Com a maturidade, Elvira foi se tornando misantropa e temperamental, evitando qualquer tipo de contato pessoal, principalmente com jornalistas e pesquisadores.
Elvira Pagã faleceu no Rio de Janeiro, em 8 de maio de 2003, fato este só divulgado três meses depois pela irmã, Rosina, então residindo nos EUA.
Como cantora-solo, Elvira gravou, em 78 rpm, doze discos com vinte e três músicas, onze delas de sua própria autoria (sendo a primeira delas o samba-jongo “Batuca daqui, batuca de lá”), entre 1944 e 1959. Desta produção, o GRB apresenta 16 preciosíssimos fonogramas. Para começar, as músicas de seu disco de estreia como solista, o Continental 15174, lançado em junho de 1944, apresentado os sambas “Arrastando o pé”, de Peterpan e Afonso Teixeira, matriz 829, e “Samburá”, de Gadé e Walfrido Silva, matriz 830. Em seguida,, os sambas de seu terceiro disco, também na então “marca dos três sininhos”, lançado em junho de 45 sob número 15353: “Na Feira do Cais Dourado”, de Nélson Teixeira e Nélson Trigueiro, matriz 1112, e “Um ranchinho na lua”, de Babi de Oliveira, matriz 1111. Em dezembro de 1949, Elvira lança pela Star, para o carnaval de 50, disco 169, duas composições de Sebastião Gomes e Nélson Teixeira: a “Marcha do ré” e o samba “Sangue e areia”. Ainda de 1950, apresentamos o disco Star 217, com o baião “Vamos pescar”, da própria Elvira mais Valentim, e o baião “Sururu de capote”, de José Cunha e Ramiro Guará, referência a uma iguaria gastronômica muito apreciada em Alagoas, em que o sururu, um molusco, é cozido ainda dentro da concha com leite de coco, tomate, cheiro verde e outros temperos. Depois, retira-se o caldo e serve-se o sururu, tanto como petisco como refeição, acompanhado de muita pimenta, pirão e purê de macaxeira (“Sururu de capote” deu título até mesmo a uma música do alagoano Djavan, por ele gravada em seu primeiro álbum, e à banda que o acompanhava em seus shows).
Para a folia de 1951, Elvira lança sob o selo Carnaval, da Star, disco 038, a marchinha “A rainha da mata”, dela própria com Valentim (referência direta à sua eleição para rainha do carnaval carioca, a primeira de longa dinastia) e o samba “Pau rolou”, de Sátiro de Melo e Manoel Moreira. Ainda em 51, a mesma Star lança, com o número 269, duas composições da própria Elvira: no lado A, o samba ”Cassetete, não!”, sem parceiro, ironizando os maus-tratos por ela sofridos em uma delegacia depois de uma de suas muitas passagens pela polícia, dada sua postura, então considerada imoral e agressiva por muitos. A música fez tanto sucesso que era cantada por travestis, que sofriam (como ainda hoje sofrem) perseguições policiais. Os “travecos”, quando davam as caras com os homens da lei, cantavam a música imitando os trejeitos de Elvira! No verso desse disco, apareceu o baião “Saudade que vive em mim”, parceria dela com Valentim.
 Apresentamos depois as músicas do único 78 de Elvira Pagã no selo Ritmos, para o carnaval de 1956, número 20-0060, com duas composições próprias: a marchinha “Marreta o bombo” e o samba “Condenada”. Por fim, as músicas de seu penúltimo disco, o Marajoara MA-10009, para o carnaval de 1959, também da própria Elvira: a marchinha “Papel pintado”, matriz M-17, com parceria de Orlando Gazzaneo, e o samba “Você partiu”. Matriz M-18, que ela fez com Airão Reis e Nélson de Oliveira. Enfim, é com muita alegria que apresentamos esta retrospectiva de Elvira Pagã, e quem tiver as cinco músicas que ainda faltam para completar sua discografia-solo, entre em contato com o amigo Beto pelo email: betodec39@yahoo.com.br, que ele está no aguardo!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Linda Rodrigues 3 1/2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 58 (2013)


Como vocês bem se recordam, os três últimos volumes do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil apresentaram a discografia quase completa em 78 rpm da cantora Linda Rodrigues, fruto de esforçadíssimo trabalho do nosso amigo e colaborador Alberto de Oliveira. Pois bem: para este último volume, reservamos uma surpresa bastante agradável: as cinco gravações de Linda que faltavam! Afinal, quem deve tem que pagar, e só agora é que o Beto conseguiu essas faixas, porém nunca é tarde, não é mesmo? Portanto, é com muita alegria que completamos a coleção de Linda Rodrigues em 78 rpm com estas cinco faixas: “Enxugue as lágrimas”, samba lançado em janeiro de 1945, de Elpídio Viana e Carneiro da Silva, lado A do primeiro disco da cantora, o Continental 15222, matriz 892; “Os dias que lhe dei”, samba-canção de Newton Teixeira e Ayrton Amorim, lado A do disco Star 243, de 1951; “De mão em mão”, samba de Lecinho e Jaú, lançado também pela Star em dezembro de 1951 para o carnaval de 52 (disco 308-B); “Fique em casa”, samba-canção de Raymundo Olavo e Benê Alexandre, lançado em abril de 1954 (disco 16944-A, matriz C-3327); e “Chorar pra quê?”, samba de Aldacir Louro e Silva Jr., gravado na RCA Victor em 9 de outubro de 1957, com lançamento em janeiro de 58 para o carnaval (disco 80-1901-A, matriz 13-H2PB-0265). E, como complemento, apresentamos uma das últimas gravações da cantora: o samba-canção “Maldade”, extraída do primeiro dos dois compactos simples por ela gravados em esquema de produção independente. Aliás, o Beto conseguiu essa faixa graças a uma sugestão que dei a ele: o Beto viu no canal do MC Paulinho, no YouTube, um vídeo com essa gravação, e sugeri a ele que baixasse o vídeo, convertendo o áudio para mp3. Deu certo, como vocês ouvirão. Enfim, serviço completo para nossos amigos cultos, ocultos e associados! Afinal, quem espera sempre alcança... Lembrando que as músicas “Parceiro de Schubert” e “Escrava Isaura”, que revivemos no primeiro volume desta retrospectiva, são de Paulo Marques e Aylce Chaves, sendo que na “Isaura” eles têm Napoleão Alves como parceiro. Até a próxima, pessoal!

Texto de SAMUEL MACHADO FILHO 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Linda Rodrigues 3 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 57 (2013)

E chegamos, nesta edição do Grand Record Brazil, a de número 57, à terceira e última parte da retrospectiva por nós dedicada à cantora e compositora Linda Rodrigues. E, de acordo com reportagem publicada pela “Revista do Rádio” em 1963, Linda era mesmo carioca, do bairro da Tijuca. Formou-se em enfermagem pela Escola Ana Nery, atendendo a um pedido de sua mãe, mas jamais exerceu a profissão. Linda se apresentou artisticamente como cantora pela primeira vez em 1935, na Rádio Transmissora carioca, sob a orientação de Renato Murce, atuando com outros futuros astros da MPB e então também amadores como ela: Emilinha Borba, Ciro Monteiro, Orlando Silva e Odete Amaral. Linda atuou dois anos na Rádio Clube do Pará, em Belém, cidade onde também iniciou seus estudos de enfermagem, e ao regressar a seu Rio de Janeiro natal, cantou na Rádio Cruzeiro do Sul. Em 1939, fez sua primeira viagem artística, atuando na Feira de Amostras do Recife (PE), e também passou dois meses na Bahia. Voltando ao Rio, foi contratada pela lendária Rádio Nacional. Também atuou em São Paulo, na PRG-2, Rádio Tupi (então “a mais poderosa emissora paulista”) e em shows, no ano de 1940. De volta a seu Rio natal, foi contratada para cantar nos cassinos da Urca e Icaraí. Em 1943, Linda transfere-se para a PRG-3, Rádio Tupi do Rio (“o cacique do ar”) e troca a Urca pelo Cassino Atlântico. Volta mais tarde ao Icaraí, onde fica até a proibição do jogo no Brasil, em 1946. De 1945 a 1957, com uma interrupção durante um período em que adoecera, Linda atuou na Rádio Mayrink Veiga, para a qual voltou em 1962, desta feita ficando um ano, transferindo-se para a Rádio Mauá, onde encerrou sua trajetória radiofônica.
E é com este volume que encerramos o retrospecto da carreira de Linda Rodrigues em disco, iniciada, como vocês bem se lembram, em 1945. Desta feita, apresentamos 13 preciosas e históricas gravações. Abrindo nossa seleção da semana, as faixas de seu segundo 78 rpm na RCA Victor, n.o 80-1798, gravado em 21 de março de 1957 e lançado em junho seguinte, ambas sambas-canções: “Pianista”, de Irany de Oliveira e Ari Monteiro, matriz 13-H2PB-0067 (curiosamente regravado por Cauby Peixoto em 1989), “Comentário barato”, de autoria do violonista Jayme Florence, o Meira dos regionais, e J. Santos, matriz 13-H2PB-0068. De seu terceiro disco na marca do cachorrinho Nipper, destinado ao carnaval de 1958, n.o 80-1901, apresentamos o lado B, o samba “Quando o sol raiar”, de Mirabeau Pinheiro (também co-autor dos clássicos “Cachaça”, “Jarro da saudade” e “Tem nêgo bebo aí”, entre outras), Sebastião Mota e Urgel de Castro. Gravado em 9 de outubro de 1957 e lançado em janeiro de 58, matriz 13-H2PB-0272, também fez parte do LP coletivo “Carnaval RCA Victor – volume 1” (não esquecendo de que esta era uma época de transição de formatos, do 78 para o vinil, que desbancou de vez a quebradiça bolacha de cera em 1964). A 28 de janeiro de 1958, Linda grava “Sereno no samba”, de Aldacir Louro  e Dora Lopes, matriz 13-J2PB-0345, e, fiel à dor-de-cotovelo que era sua especialidade, um bolero dela mesma em parceria com o mesmo Aldacir, “Nada me falta”, matriz 13-J2PB-0346. Gravações estas que foram para as lojas em abril do mesmo ano com o n.o 80-1935.  Já para o carnaval de 1959, a primeiro de outubro de 58, Linda Rodrigues grava duas composições próprias com parceiros: o samba “Tem areia” (com José Batista), matriz 13-J2PB-0499, e a “Marcha da folia” (com Aldacir Louro e Silva Júnior), matriz 13-J2PB-0500, lançadas um mês antes da folia, em janeiro, com o n.o 80-2025. Em 27 de janeiro de 1959, Linda grava seu último disco na RCA Victor, n.o 80-2054, lançado em abril seguinte. Abrindo-o, um bolero que fez com Aldacir Louro, “Meu romance”, matriz 13-K2PB-0577 (regravado por Francisco Carlos em 1985). No verso, matriz 13-K2PB-0578, o samba-canção “Mesa discreta”, de Elias Cortes. Em seguida, por causa de mudanças na direção artística da RCA Victor, Linda Rodrigues teve rescindido seu contrato com a empresa. Um ano mais tarde, lança seus dois últimos 78 rpm, pela Chantecler: em agosto, sai o disco 78-0297, que abre com o clássico samba-canção “Negue”, de Adelino Moreira em parceria com o radialista Enzo de Almeida Passos (criador dos programas “Telefone pedindo bis” e “A grande parada Brasil”), matriz C8P-593, lançado em janeiro do mesmo ano por Roberto Vidal e inúmeras vezes regravado (em 1978, Maria Bethânia o reviveu com sucesso em seu LP “Álibi”). No verso, matriz C8P-594, um samba-canção da própria Linda mais um certo Castelo: “Tenho moral”. E, em novembro de 1960, sai o disco 78-0357, que abre com o samba-canção “Companheiras da noite”, dela mesma com Aylce Chaves e William Duba, matriz C8P-713, e no verso, matriz C8P-714, apareceu a segunda gravação que fez para o clássico “Lama”, de Paulo Marques e Aylce Chaves. “Companheiras da noite”, por sinal, deu título àquele que, ao que parece, seria seu único LP gravado (Chantecler CMG-2119), editado em 1961, e no qual as três outras faixas que gravou na “marca do galinho madrugador” também apareceram, sendo a regravação de “Lama” a faixa de abertura. Enfim, é com muita satisfação e a alegria do dever cumprido, que encerramos esta retrospectiva que o GRB dedicou a Linda Rodrigues, agradecendo a imprescindível colaboração do amigo Alberto Oliveira. Como percebem vocês, um esforço que valeu a pena, e muito!

*Texto de Samuel Machado Filho 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Linda Rodrigues 2 - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 56 (2013)


Em sua quinquagésima-sexta edição, o meu, o seu, o nosso Grand Record Brazil apresenta a segunda de três partes que resgatam parcela substancial do legado da cantora Linda Rodrigues, uma personagem tão fascinante quanto misteriosa da história de nossa música popular. Ninguém sabe por que razão pouco ou nada se sabe a respeito desta talentosa cantora-compositora. Mas o GRB aqui está para oferecer tudo o que foi possível reunir das gravações de Linda em 78 rpm, por iniciativa do amigo e colaborador Alberto Oliveira.
Nesta segunda parte de nosso retrospecto, oferecemos vinte preciosos fonogramas de Linda. Abrindo-a, o bolero “Nossos caminhos”, de Ayrton Amorim e Nogueira Xavier, gravado na Continental em 10 de abril de 1952 e lançado em maio-junho seguintes, matriz C-2840, o lado B do disco 16559 (cujo lado A, o clássico “Lama”, encerrou nosso volume anterior). Na sequência, os dois lados do Continental 16742,  lançado em maio-junho de 1953: os sambas-canções, ambos de Paulo Marques, “Fui amigo”(parceria de David Barcelos, matriz C-3065) e “Mesa de bar” (parceria da notável Dora Lopes, matriz C-3066). No Continental 16822, lançado em setembro-outubro de 1953, Linda interpreta o fox “O homem que eu amo”, matriz C-3178, versão de Mayu Atty (quem seria?) para o standard americano “The man I love”, dos irmãos Ira e George Gershwin, publicado em 1927 e desde então muito gravado, e o samba-canção “Flor do lodo”, de Ary Mesquita, matriz C-3179, cuja gravação original saiu em março do mesmo ano, na interpretação da já veterana Aracy Cortes. Em seguida, vêm duas músicas que Linda gravou na Sinter para o carnaval de 1953, e lançadas em janeiro desse ano com o número 00-00.182: o samba “Sombra e água fresca”, de Ruço do Pandeiro e Geraldo Mendonça, matriz S-391, e a marchinha “Bambeio mas não caio”, de seus inseparáveis amigos e parceiros Paulo Marques e Aylce Chaves, mais a vedete Elvira Pagã, que formou dupla de sucesso com a irmã Rosina (eram as famosas Irmãs Pagãs), matriz S-392.  Vem mais carnaval em seguida, agora o de 1954, no Continental 16888, lançado em janeiro desse ano: o samba “Sereno cai”, de Raul Sampaio (cantor e compositor que integrou a terceira formação do Trio de Ouro, ao lado de seu fundador, Herivelto Martins, e de Lourdinha Bittencourt) em parceria com Ricardo Galeno, matriz C-3224, e a marchinha “Tá tão bom”, assinada por um trio chamado Os Três Amigos (quem seriam?), matriz C-3223. Do Continental 16944, lançado em abril de 1954, apresentamos o lado B, o samba-canção “Farrapo de calçada”, matriz C-3328, composição da própria Linda Rodrigues sem parceria, mais tarde regravado pelo cantor Roberto Muller. Em seguida, as duas faixas do Continental 17058, lançado em janeiro de 1955, ambas sambas-canções. Abrindo-o, “Ninguém me compreende”, matriz C-3456, de autoria de Peterpan (José Fernandes de Almeida, Maceió, AL, 1911-Rio de Janeiro, 1983). Autor de clássicos como “Última inspiração”, “Se queres saber” e “Fita meus olhos”, Peterpan era cunhado da cantora Emilinha Borba, que, curiosamente, regravaria “Ninguém me compreende” em 2003, em seu último disco, o CD independente “Emilinha pinta e Borba”. No verso, matriz C-3457, outro hit de Linda Rodrigues, por ela composto em parceria com José Braga, “Vício”, regravado em 1980 por Cármen Costa. Depois temos os dois lados do Continental 17158, gravado em 18 de março de 1955 e lançado em outubro do mesmo ano. Abrindo-o, matriz C-3604, o samba “Olha no espelho”, da dupla Zé e Zilda (José Gonçalves, o Zé da Zilda, havia falecido em outubro de 1954, de AVC). No verso, matriz C-3606, o fox “Aquilo que eu vejo”, de Vicente Paiva e Chianca de Garcia, amigos e colegas desde os tempos do Cassino da Urca. Para o carnaval de 1956, Linda Rodrigues grava na Todamérica, a 18 de outubro de 55, com lançamento ainda em novembro sob número TA-5591, a marchinha “Rico é gente bem”, de Ari Monteiro, A  Rebelo e J. Rupp, matriz TA-889, e o samba 'Folha de papel”, também de Ari Monteiro em parceria com Paulo Marques e Sávio Barcelos, matriz TA-890. Linda despediu-se de vez da Continental com o disco 17279, editado em abril-maio de 1956. De um lado, um samba-canção dela própria em parceria com Aylce Chaves, “Farrapo humano”, matriz C-3796, certamente inspirado no filme americano de mesmo nome (no original, “The lost weekend”), de 1945, produzido pela Paramount e estrelado por Ray Milland. No verso, matriz C-3797, um samba de Noel Rosa (1910-1937) em parceria com Henrique Brito, seu companheiro no Bando de Tangarás, “Queimei teu retrato”, até então inédito em disco e cujo ano de composição é ignorado. Para finalizar, apresentamos as faixas do disco de estreia da cantora na RCA Victor, número 80-1705, gravado em 13 de setembro de 1956 e lançado em novembro seguinte, visando o carnaval de 57, ambas marchinhas: “A dona da casa”, de Arnô Canegal (Rio de Janeiro, 1915-idem, 1986) e uma certa Dina, matriz BE6VB-1301, e “Barca da Cantareira”, de Arnaldo Ferreira e J. Rupp, matriz BE6VB-1302. A barca do título fazia na época o trajeto do Rio de Janeiro a Niterói, antes da construção da ponte fixa. Das duas faixas, “A dona da casa” foi a única a chegar também ao LP, no álbum coletivo “Carnaval RCA Victor”. Na próxima semana, encerraremos esta nossa retrospectiva dedicada a Linda Rodrigues. Até lá!


*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cyro Monteiro - 100 Anos - Coletânea Comemorativa Toque Musical (2013)

Boa noite, amigos cultos e ocultos! Ontem, dia 28, eu por descuido, deixei passar em branco a comemoração de centenário de Cyro Monteiro. Se estivesse vivo, estaria completando 100 anos. Como foi dito por alguns, nesta data poucos foram aqueles que lembraram do grande artista. Afinal, Cyro Monteiro não foi apenas mais um cantor de samba. Muito aliás, foi cantor e compositor. Teve uma atuação marcante na música popular brasileira, sendo responsável por inúmeros sambas de sucessos, que se tornaram clássicos.
Para celebrar este centenário, montei aqui agora, meio às pressas, essa coletânea, trazendo doze momentos ainda da fase do bolachão. Cyro Monteiro até merecia mais, uma coletânea de peso, equivalente a um álbum triplo. Mas para que tenhamos em outras oportunidades novas postagens com o artista, vou limitando a seleção, que por certo irá agradar. Vamos conferir?

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Linda Rodrigues - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol. 55 (2013)

Esta semana, o Grand Record Brazil, em sua edição de número 55, apresenta a primeira parte, de uma série de três, em que iremos focalizar o trabalho de uma cantora excelente, que teve sua época, mas que infelizmente foi esquecida com o passar do tempo. Refiro-me a Linda Rodrigues.
Nossa focalizada recebeu, na pia batismal, o nome de Sophia Gervasoni, e veio ao mundo no dia 11 de agosto de 1919, provavelmente no Estado do Rio de Janeiro. Embora seu primeiro disco tenha sido lançado para o carnaval de 1945, pela Continental, Linda Rodrigues é considerada uma das intérpretes da música popular brasileira que melhor representa e celebra a chamada dor-de-cotovelo. Linda também foi compositora, e fez trabalhos para outros artistas, em parceria com nomes do quilate de J. Piedade e Aylce Chaves, entre outros. Sua discografia, além da Continental,  inclui passagens pelos selos Star, Carnaval, Sinter, Todamérica, RCA Victor e Chantecler. Nesta última, em 1961, lançou aquele que parece ter sido seu único LP, “Companheiras da noite”. Seu maior sucesso foi o samba-canção “Lama”, de Paulo Marques e Aylce Chaves (que está neste volume), e outros hits da cantora foram os sambas-canções “Vício”, dela própria com José Batista, e “Negue”, clássico de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, que apresentaremos nos próximos volumes deste nosso retrospecto. Em 78 rpm, Linda gravou um total de 30 discos com 59 fonogramas, além do LP já mencionado, e alguns compactos de produção independente, e faleceu no Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 1995, aos 76 anos, de infecção pulmonar e problemas cardíacos (miocardiopatia e arritmia).
Neste primeiro volume que o GRB dedica a Linda Rodrigues, apresentamos 21 preciosos fonogramas, correspondentes aos primeiros anos de sua carreira. Trabalho esse resultante do esforço do amigo e colaborador Alberto Oliveira, que reuniu as gravações de Linda em 78 rpm que iremos apresentar nestes 3 volumes. Ficaram faltando cinco delas, mas o esforço dele valeu a pena, como vocês irão constatar.
De seu 78 de estreia, o Continental 15222, lançado em janeiro de 1945 para o carnaval, está o lado B, o samba “Abaixo do nível”, de Alvaiade e Odaurico Mota, matriz 893. O disco seguinte, o Continental 15280, lançado em março de 1945, vem com as duas faixas, também sambas: “Você não sabe amar”, de João Bastos Filho e Antônio Amaral, matriz 1028, e “...E Odete não voltou”, de Paquito e José Marcílio, matriz 1027. Em setembro de 1945, saíram mais dois sambas, no disco 15423: “Arma perigosa”, de Paquito e Paulo da Portela, matriz 1136, e “Cantora de samba”, de Amado Régis, matriz 1137. Para o carnaval de 1946, Linda lança quatro músicas, todas aqui incluídas: no Continental 15554, lançado ainda em dezembro de 45, o samba “Sublime perdão”, de Amado Régis, matriz 1315, e a marchinha “Quando a gente fica velho”, matriz 1316, dela própria com Aylce Chaves e o mesmo Amado Régis que assina a música do lado ª Em janeiro de 46 sai o disco 15585, com a marchinha “Atchim!”, de J.Piedade e Príncipe Pretinho, matriz 1381, e o samba “Claudionor”, de Cândido Moura e Miguel Baúso, matriz 1382. Em março de 1946, Linda lança o samba “Não adianta chorar”, de Ari Monteiro e Felisberto Martins, no Continental 15591-A, matriz 1399 (o outro lado é com Emilinha Borba, apresentando a batucada “Ai, Luzia!”, de Guaraná e Jararaca). Em junho de 1946, no Continental 15644, saem dois sambas de Paquito (Francisco da Silva Fárrea Júnior, 1915-1975), consagrado compositor de sucessos carnavalescos: “Banco de jardim”, parceria dele com Dorival Aires e Jaime de Souza, matriz 1444, e “Banco de praça”, que ele assina junto com Carlos de Souza e João Bastos Filho, matriz 1443. A primeiro de julho de 1948, Linda grava a rumba “Jack, Jack, Jack”, de Haroldo Barbosa e Armando Castro, matriz 1900, e o samba “Mais um amor, mais uma desilusão”, de José Maria de Abreu, matriz 1901, que a Continental irá lançar para seu suplemento de julho a setembro desse ano, com o número 15926. A marchinha “Parceiro de Schubert” e o samba “A escrava Isaura” saíram pela Star, para o carnaval de 1948, disco 0009, que não consta nem mesmo na Discografia Brasileira em 78 rpm, e eu próprio não encontrei informações a respeito de quem seriam seus autores, quem souber favor informar pra gente. Para a folia de 1951, Linda grava o disco Carnaval 008, com o samba  “Vou partir”, de Aylce Chaves e Paulo Gesta, e a batucada “Batuqueiro novo”, de Tancredo Silva, Rual Marques e José Alcides. Do disco Star 243, também de 1951, vem o lado B, o samba africano “Raça negra”, também de Aylce Chaves e Paulo Gesta. Por essa mesma gravadora, futura Copacabana, Linda lança, para o carnaval de 1952, e ainda em dezembro de 51, o disco 308, do qual apresentamos o lado A, a marchinha “Recruta 23” (referência a programa humorístico da Rádio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, então grande rival da poderosa Nacional, e de grande audiência na época), de autoria do radialista, compositor e pianista  Aloysio Silva Araújo e do comediante Zé Trindade (aquele do bordão “Mulheres, cheguei!”). Por fim, encerrando esta primeira parte, apresentamos aquele que foi o maior sucesso da carreira de Linda Rodrigues: o samba-canção “Lama”, de Paulo Marques e Aylce Chaves, regravado mais tarde por Ângela Maria e Maria Bethânia, entre outros intérpretes, e até hoje um clássico. Linda o imortalizou na Continental em 10 de abril de 1952, com lançamento em maio-junho do mesmo ano sob número 16559-A, matriz C-2839. Um fecho realmente de ouro para a primeira parte desta nossa retrospectiva a respeito de Linda Rodrigues. Até a próxima!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO