E aqui vamos “nóis” para mais uma edição caipira do Grand
Record Brazil, a de número 65, oferecendo, como já aconteceu anteriormente, uma
parcela do rico acervo da música regional brasileira, a chamada música caipira,
que, como os ouvintes irão perceber, é bem diferente do sertanejo dito
“universitário” , tão divulgado pelos meios de comunicação nos dias atuais. São,
como sempre, 13 gravações preciosas, representativas de um gênero e daqueles
tempinhos “bãos” em que se ouvia músicas como essas no radinho, tomando o café
da manhã... E começamos justamente com
os eternos “reis do riso”, Alvarenga e Ranchinho. São duas gravações Odeon com a formação
original da dupla, Murilo Alvarenga (Itaúna, MG, 1991-São Paulo, 1978) e o
primeiro dos três Ranchinhos, Diésis dos Anjos Gaia (Jacareí, SP, 1911-São Paulo, 1991). Eles aqui
nos apresentam a moda de viola “Você já viu o cruzeiro?”, do Capitão Furtado,
seu descobridor, mais outra dupla, Palmeira e Piraci, gravada a 15 de setembro
de 1943 e lançada em novembro do mesmo ano com o n.o 12376-B, matriz 7384. É
uma alusão à então nova unidade monetária brasileira, instituída um ano antes e
que, após passar por mudanças e ser substituída até mesmo pelo cruzado, deixaria de existir em 1994, com o início do
Plano Real. Também tem a primeira gravação com letra do clássico choro “Tico-tico
no fubá”, de Zequinha de Abreu (1880-1935), feita por Alvarenga, tendo como subtítulo “Vamos dançar, comadre”,
datada de 27 de julho de 1942 e lançada em
outubro do mesmo ano com o n.o 12202-A, matriz 7021. A 10 de agosto
desse mesmo ano, em seu primeiro disco, Ademilde Fonseca incluiu este choro
clássico em seu primeiro disco, com os versos assinados pelo dentista Eurico
Barreiros, e sua gravação foi talvez a de maior sucesso. Focalizamos em seguida
a acordeonista Carmela Bonano, mais conhecida como Zezinha, nascida em São Paulo no dia 16 de janeiro de 1928 e
que formou com Luizinho e Limeira (os irmãos, também paulistanos, Luiz
e Ivo Raimundo) um trio ainda
hoje lembrado com muitas saudades por seus contemporâneos. Zezinha gravou seu
primeiro disco como solista de acordeon em 1951, na Todamérica, com duas
composições suas em parceria com Luizinho: a valsa “Brejeira” e a mazurca “Alegria”. Para este
volume do GRB foram escalados o arrasta-pé “Oito baixos”, dela mesma e de
Messias Garcia, gravação Odeon de 11 de março de 1960 lançada em outubro
seguinte com o n.o 14681-A, matriz 50478 (relançado com a marca Orion sob n.o
R-079), e o baião “Saudade que machuca”,
de Vicente Lia e do radialista Nino Silva, lançado pela Todamérica em agosto de
1955 com o n.o TA-5563-B, matriz TA-1315, ambas com vocais de Luizinho e
Limeira, sem crédito nos selos. Na faixa 6, ela, agora com Luizinho e Limeira
devidamente creditados, acompanha-os no arrasta-pé “Casamento é uma gaiola”, do
Compadre Generoso, gravado na Odeon em 2 de abril de 1959 e lançado em junho
seguinte sob n.o 14463-B, matriz 50158, depois relançado com a marca Orion sob
n.o R-058. Música que seria regravada com sucesso por Sérgio Reis, anos mais tarde. Com o
falecimento de Luizinho, em 1982, Zezinha abandonou de vez a carreira, por isso
muitas biografias dizem ter ela falecido nesse ano, a 11 de maio, em Perdizes, São Paulo (outras
dizem que a morte da acordeonista aconteceu em 2002, nesse mesmo dia). A
maranhense (de Viana) Dilu Mello (Maria de Lourdes Argolo Oliver, 1913-2000)
também deixou sua contribuição para a história de nossa música popular. Tocava
diversos instrumentos: sanfona, piano, violão, harpa, violino e até serrote, causando
o maior escândalo ao executar nele uma peça de Schumann! É co-autora e
intérprete da clássica toada “Fiz a cama na varanda”, que já apresentamos em
edição anterior do GRB, e apenas uma de suas mais de cem composições. Para esta edição, foi escalado o xote “Qual o
valor da sanfona?”, composição sua em parceria com J. Portela (o jota seria de
Jeová), gravação Continental de 31 de julho de 1948, porém só lançada em
março-abril de 49 sob n.o 16024-B, matriz 10916. A faixa 7 nos apresenta a
gravação original de uma balada humorística que muitos conhecem na
interpretação dos irmãos Sandy e Júnior: é nada mais nada menos que “Maria
Chiquinha”, de autoria de Geysa Bôscoli e Guilherme Figueiredo. Ela saiu pela
RGE em agosto de 1961, sob n.o 10336-B, matriz RGO-2218, num divertido dueto
entre Evaldo Gouveia (compositor, cearense de Orós, autor de vários hits,
sobretudo em parceria com Jair Amorim, e que integrou como cantor o Trio Nagô)
e a comediante Sônia Mamede (1936-1990), “a garota do biquíni vermelho”. Bonita
e de corpo escultural, Sônia foi estrela das chanchadas da Atlântida (“Garotas
e samba”, “De vento em popa”), tendo feito outros 14 filmes nesse e em outros
estúdios, e ficou famosa na televisão
como a Ofélia do programa humorístico “Balança mas não cai”, da Globo (seu
bordão era “eu só abro a boca quando tenho certeza!”), ao lado de Lúcio Mauro,
o Fernandinho. “Maria Chiquinha” foi um sucesso absoluto em 1961, e nesse ano
também seria gravada por Marinês, em dueto com Luiz Cláudio, na RCA Victor. Os
trios Melodia (Albertinho Fortuna, Paulo Tapajós e Nuno Roland) e Madrigal
(Edda Cardoso, Magda Marialba e Lolita Koch Freire) interpretam aqui, em ritmo
de baião, “Maricota, sai da chuva”,
motivo folclórico adaptado por Marcelo Tupinambá, em gravação
Continental de 19 de março de 1952, lançada em julho desse ano com o n.o
16600-A, matriz C-2813. A primeira gravação, ainda na fase mecânica, foi do
Grupo O Passos no Choro, em 1919, apenas instrumental. Recordaremos em seguida outra dupla sertaneja
famosa: Silveira (Nivaldo Pedro da Silveira, 1934-1999) e Barrinha (Abílio
Barra, 1929-1984) ambos mineiros, Silveira, de Uberaba, e Barrinha, de Conquista. Aqui eles interpretam a moda campeira “Coração
da pátria”, de Silveira, Lourival dos Santos e do também radialista Sebastião
Victor, em gravação RCA Camden de 25 de
maio de 1962, disco CAM-1133-A, matriz N3CAB-1712, uma exaltação ao estado de
Goiás, que já abrigava, desde 1960, nossa atual capital, Brasília (lembrando
que o Distrito Federal é um município nêutro). Teve regravações por Nalva
Aguiar e até mesmo por Beth Guzzo, filha do humorista Valentino Guzzo (a Vovó
Mafalda do programa do Bozo, lembram-se?). Apresentamos logo depois as duas
músicas do primeiro dos três únicos 78 rpm da dupla Biá e Biazinho no selo
Sertanejo da Chantecler, o PTJ-10087, gravado junto com o acordeonista Alberto
Calçada, e lançado em maio de 1960, apresentando duas canções rancheiras ao
estilo mexicano: “Nunca mais” de
Fernando Dias, matriz S9-173, e “Só Deus castiga”, de Nízio e Teddy Vieira,
matriz S9-174. E reservamos para o final a joia da coroa desta edição: o único
disco gravado por Tonico e Tinoco (“a dupla coração do Brasil”) junto com Aracy
de Almeida (“ o samba em pessoa”, “a dama da Central”, “a dama do Encantado”),
todos três já relembrados pelo GRB. Uma autêntica preciosidade que chega a
nossos amigos cultos, ocultos e associados por generosa cortesia do amigo Indalêncio, grande e notório restaurador de
rádios antigos. É o Continental 17251, gravado em 28 de julho de 1955, mas só
lançado em fevereiro-março de 56, com dois cateretês. Abrindo-o, matriz 11764,
“Ingratidão”, de autoria de Mário Vieira, parceiro de Hervê Cordovil no
clássico “Sabiá na gaiola” e mais tarde fundador e proprietário da gravadora e
editora musical Califórnia, que existe até hoje, no bairro paulistano do
Tatuapé, dirigida pela terceira geração da família. Mário assina também o lado
B, matriz 11765, “Tô chegando agora”, desta vez em parceria com Juracy Rago,
primo do violonista Antônio Rago. Uma preciosidade que o Indalêncio mui
gentilmente nos cedeu e que encerra com chave de ouro esta edição regional do
GRB., para alegria e deleite dos “cumpades” e cumades” de todas as idades e
deste Brasilzão!
* texto de Samuel Machado Filho
