Muita gente se lembra de Aracy de Almeida apenas como a
jurada ranzinza, implacável e exigente dos programas de calouros da
televisão (Chacrinha, Sílvio Santos,
etc.), sempre imperdoável. Mas era um tipo que forçava mais para estimular a
plateia a dar sonoras vaias, e o público, no fundo, a amava. Além disso, como
cantora, a “Araca” escreveu um importantíssimo capítulo da história de nossa
música popular. O próprio Noel Rosa (1910-1937) a considerava a melhor
intérprete de suas composições, e foi quem primeiro a incentivou na carreira.
É justamente a Aracy-cantora que focalizamos nesta
sexagésima-quarta edição do Grand Record Brazil. Aracy Teles de Almeida (ou
d’Almeida, como aparecia sem seus primeiros discos)nasceu no Rio de Janeiro, em
19 de agosto de 1914, no subúrbio do Encantado, no seio de uma família
evangélica (era de confissão Batista).
Tanto que começou sua carreira cantando no coro de sua igreja, e para
ser também fiel ao samba, também se apresentava em festinhas, escola de samba e
até terreiro de candomblé!
Em 1932, levada por um amigo lá mesmo do Encantado, Aracy
apresentou-se pela primeira vez numa estação radiofônica, a Rádio Educadora do
Brasil, interpretando a marchinha “Bom dia, meu amor”, de Joubert de Carvalho,
do repertório de Cármen Miranda. Sua estreia em disco dá-se na Columbia, que,
em janeiro de 1934, lança para o carnaval duas marchinhas por ela interpretadas:
“Em plena folia”, de Julieta de Oliveira, e “Golpe errado”, de Jaci, uma em
cada disco. No terceiro e último disco de Aracy nessa marca, já aparece um
samba de seu amigo Noel, “Riso de criança”.
Em 1935, vai para a RCA Victor, passando a lançar sucessos sobre
sucessos, tanto de Noel (“Palpite infeliz”, “Triste cuíca”, “Cansei de pedir”,
“Último desejo”, “Século do progresso”) quanto de outros autores (Wilson
Batista, Cyro de Souza, Ary Barroso etc). Grava também na Odeon, na
Continental, na Polydor, na Sinter (e sua sucessora, a Philips), na Elenco,
enfim, em vários selos, lançando também LPs e compactos. Outros de seus hits
são “Não me diga adeus” (Paquito, Luiz Soberano e João Corrêa da Silva), “Fez
bobagem’ (Assis Valente), “Louco, ela é seu mundo’ (Wilson Batista e Henrique
de Almeida), e mais os presentes nesta edição do GRB, que comentaremos a
seguir. Embora fosse mestra da gíria e gostasse de frequentar a noite, Aracy
não comentava sua vida sentimental. Teve
um romance com o goleiro Rey, do Vasco da Gama, seu time de coração, e foi
casada com um médico, do qual se separou amistosamente, sem filhos. Chamada de
“O samba em pessoa” , receberia do estilista de moda Dener Pamplona de Abreu,
seu grande amigo, um outro apelido, “Dama da Central”, pois ela só viajava de
trem, por medo de acidente de avião. “Araca” lia os melhores autores e gostava de
um bate-papo inteligente.
Nos anos 1950, Aracy praticamente fez sua base em São Paulo,
mas sem abandonar seu querido Encantado (tanto que era também “A dama do
Encantado”, título de um álbum que Olívia Byington dedicou a ela). Sempre muito querida e reverenciada,
apresentava-se nas melhores casas noturnas paulistanas e cariocas, e tornou-se
uma espécie de musa de círculos artísticos e sociais. Em 1954, por exemplo,
foi-lhe oferecido um jantar comemorativo de seus 23 anos de carreira, do qual
compareceu até mesmo o então governador paulista Lucas Nogueira Garcez.
Com o passar do tempo, a Aracy-cantora daria lugar à
Aracy-jurada. Sempre foi muito grata a Sílvio Santos: “Bom patrão, é gente que
sabe tratar. Esse é em cima. Tudo que a gente quer, ele dá”. Em 1988, Aracy tem
um edema pulmonar e se interna em São Paulo, sendo transferida para o hospital
do SEMEG, no bairro da Tijuca, em seu Rio de Janeiro natal. Após dois meses em
coma, recuperou a lucidez, mas, após dois dias, a 20 de junho, tem um súbito
aumento de pressão e vem a falecer,
deixando infelizmente para as novas gerações apenas a imagem da jurada
de TV.
Pois nesta edição do GRB, apresentamos dezesseis dos
melhores momentos da Aracy cantora, que
não pode nem deve ser esquecida, sendo ontem,
hoje e sempre, “o samba em pessoa”.
Começando a seleção com o pé direito, “Tenha penha de mim”, de Cyro de
Souza e Babaú, gravação Victor de 17 de agosto de 1937 lançada em novembro
desse ano com o número 34229-A, matriz 80596, e um dos maiores hits do carnaval
de 38. Também da Victor e de um ano antes, é a faixa seguinte, “Contentamento”,
de Bucy Moreira e Raul Marques, que ela gravou em 9 de setembro de 1936 com lançamento em
novembro seguinte, disco 34106-A, matriz 80215. A faixa seguinte, o samba-rumba
ou sambatuque “Nasci para bailar, nasci para sambar”, ostenta uma curiosidade:
foi composta e gravada por Joel de Almeida na época em que ele morava na
Argentina, período esse que ele próprio considerava o melhor de sua vida. Com
letra em espanhol do próprio Joel e de Tasiro, recebeu versão por Fernando
Lobo, que Aracy grava na Odeon em 19 de julho de 1948, com lançamento em setembro
desse ano sob número 12876-A, matriz
8390. Um ano depois, Fernando Lobo escreveu novos versos para a música, e essa
outra letra seria gravada por Marlene com o título reduzido para “Nasci para
bailar”, e sem o nome de Tasiro no selo.
Retornando à Victor, temos uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Wilson
Batista, assinando “Eu não sou daqui”, gravação de 3 de abril de 1941, lançada
em julho do mesmo ano com o n.o 34757-A, matriz 52170. Wilson assina a faixa
seguinte com Cyro de Souza, “Ganha-se pouco mas é divertido”, gravação de 2 de
junho de 1941 lançada em agosto seguinte com o n.o 34780-A, matriz S-052232. Wilson
Batista também fez com Rubens Soares “Gênio mau”, que Aracy imortaliza na marca
do cachorrinho Nipper na mesma sessão de “Ganha-se pouco...” e é lançado
em setembro do mesmo ano no disco
34787-A, matriz S-052230. Não para por aí: também em 2 de junho de 1941 a
“Araca” imortaliza “Falta de sorte”, de Geraldo Pereira e Marino Pinto, matriz
S-052233, e será o lado B de “Ganha-se pouco mas é divertido”. Em janeiro de
1953, Aracy lança na Continental, para o carnaval desse ano, outro samba, “Por
que é que você chora?”, de Bucy Moreira
e do cantor Ary Cordovil, com o número 16695-B, matriz C-3017.
Retornando à Victor, temos “Oh! Dona Inês”, da dupla Wilson Batista-Marino
Pinto, gravação de 27 de março de 1940 que vai para as lojas em junho com o n.o
34609-A, matriz 33364, disco do qual também foi escalado o verso, da mesma
dupla, matriz 33365, “Brigamos outra vez”.
“Mal agradecida”, também de Wilson Batista, aqui com Bucy Moreira, por
sinal neto da lendária Tia Ciata, é gravado na Odeon pela “Araca” em 9 de junho
de 1948, com lançamento em julho sob n.o
12867-B, matriz 8378. Outro nome lendário do samba, João da Baiana,
assina com o ex-pugilista Kid Pepe “Pra que tanto orgulho?”, batucada que Aracy
grava na Victor em 2 de outubro de 1939 e lança em novembro sob n.o 34518-B,
matriz 33169, visando o carnaval de 40. A faixa seguinte é um autêntico
clássico do mestre Ary Barroso: “Camisa amarela”, imortalizado pela “Araca” na
mesma Victor em 31 de março de 1939 com lançamento em junho seguinte sob
n.o 34445-A, matriz 33047, e que o
próprio Ary considerava a melhor gravação deste seu samba. Temos depois a
sensível e comovente interpretação de Aracy para a “canção regional” “Mamãe
baiana”, de Xerém e do teatrólogo Joracy Camargo, autor da famosa peça “Deus
lhe pague”, imortalizada em 14 de fevereiro de 1940 com lançamento em abril do
mesmo ano com o n.o 34586-A, matriz 33322. Foi também escalada outra canção,
constante do verso desse disco e gravada na mesma sessão, matriz 33325: “Minha
saudade”, concebida pelo violonista Laurindo de Almeida (1920-1995), que mais
tarde passaria a residir nos EUA, onde desenvolveu uma carreira repleta de
prestígio e prêmios. Encerrando esta seleção, um samba de Haroldo Barbosa,
também jornalista, roteirista e produtor de programas de rádio e televisão,
inclusive de cunho humorístico: “Quando esse nêgo chega”, gravação Odeon de 19
de julho de 1948, lançada em setembro desse ano com o n.o 12876-B, matriz 8389, o outro lado de ‘Nasci
para bailar, nasci para sambar”. Uma seleção assinada, como se vê, por grandes
autores, e que comprova a observação feita pelo pesquisador Abel Cardoso
Júnior: “Se Aracy de Almeida não perdoava falsos valores, é porque ela
mesma jamais deu ao público nada menos
que o melhor”. Ouçam e comprovem!
* Texto de SAMUEL MACHADO FILHO
Nenhum comentário:
Postar um comentário