Esta semana, em sua sexagésima-sexta edição, o Grand Record
Brasil apresenta a primeira de duas partes de uma retrospectiva dedicada a um
dos maiores cantores que o Brasil já teve, e cujo centenário de nascimento
comemoramos neste 2013: Cyro Monteiro, o “Formigão” (apelido que lhe foi dado
pelo compositor Eratóstenes Frazão), também conhecido como “o cantor das mil e
uma fãs”.
Sobrinho do pianista Nonô (Romualdo Peixoto), o “Paderevsky
do samba” e, por tabela, primo de Cauby
Peixoto, Cyro Monteiro era carioca da gema, nascido no subúrbio do Rocha
em 28 de maio de 1913, em uma família de
nove irmãos, todos com nomes começados com a letra C! O pai de Cyro era
dentista, capitão do Exército e funcionário público. O futuro astro passou a
infância e a juventude em Niterói, litoral fluminense, para onde se mudou com a
família quando tinha só dois anos de idade. Fez seus estudos no Grupo Escolar
Alberto Brandão, na Escola Profissional Washington Luiz e no Instituto de
Humanidades. Costumava cantar informalmente para os amigos, no conforto de seu
sacrossanto lar, doce lar, e em festas, acompanhado do irmão Careno, até que um
dia, em 1933, Sílvio Caldas, que frequentava sua casa, chamou-o para substituir
Luiz Barbosa, com quem cantava em dupla, em um programa da Rádio Educadora. Um
ano depois, Cyro foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga, escalado de início
para um programa diurno mas logo subindo para os noturnos, marcando o ritmo com
sua indefectível caixa de fósforos, assim como Luiz Barbosa fazia com o chapéu
de palha.
Grava seu primeiro
disco na Odeon, para o carnaval de 1936, com dois sambas que na tiveram muito
sucesso, até porque o ano foi
concorridíssimo: “Vê se desguia” e “Perdoa”. Um ano depois, grava dois discos
particulares na RCA Victor, por encomenda, a fim de promover a tradicional
Festa da Uva de Jundiaí, SP. E
finalmente, em 1938, vem o primeiro grande sucesso, com um clássico do samba:
“Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, seu
primeiro disco comercial na marca do cachorrinho Nipper. E esse foi o pontapé
inicial para inúmeros outros hits inesquecíveis:” Os quindins de Iaiá”, “Falsa
baiana”, “Deus me perdoe”, “Oh! Seu Oscar”, “Botões de laranjeira”, “Beija-me”,
“A mulher que eu gosto”, “O bonde São Januário”, “Boogie-woogie na favela”, “O
que se leva dessa vida”, “Escurinho”, “Quatro loucos num samba”, “Tem que
rebolar” (dueto com Mariúza), e muitos, muitos mais.
Cyro foi casado com a cantora Odete Amaral (“a voz tropical
do Brasil”), com quem teve um filho, dela separando-se em 1949. Além da voz, do
ritmo e da capacidade de modular e
improvisar, ele também sabia fazer amigos, com seu calor humano e bondade
infinitos. Em 1956, participou, como ator, da peça “Orfeu da Conceição”, de
Vinícius de Moraes com música de Tom Jobim, interpretando o personagem Apolo.
Na fase áurea da TV Record de São Paulo, era cadeira cativa no programa
“Bossaudade”, apresentado por Elizeth Cardoso. Gravou também vários LPs, o último deles ao
lado de Jorge Veiga, em 1971, “De leve”.
Torcedor convicto do Flamengo, de quem torcedores de outros clubes também
gostavam, certa vez mandou de presente para a recém-nascida filha de Chico
Buarque e Marieta Severo, Sílvia (hoje atriz), então residentes na Itália, uma
camisa do Flamengo. Chico, que sempre torceu para o Fluminense, respondeu de
forma bem-humorada com a música “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar
casaca de neném”.
Cyro Monteiro faleceu no dia 13 de julho de 1973, em seu Rio
de Janeiro natal, aos 60 anos de idade. Seu corpo foi sepultado no Cemitério
São João Batista, ao som do hino do Flamengo, cantado pela torcida jovem do
clube, com o caixão coberto com a bandeira do mesmo e também com a de sua
escola de samba de coração, a Mangueira.
Começamos, então, a relembrar o grande “Formigão”,
apresentando treze joias de seu
repertório, todas em gravações RCA Victor.
A presente seleção inclui os primeiros sambas gravados do mestre Nélson
Cavaquinho (1911-1986), lançados justamente por Cyro, a saber: “Apresenta-me aquela mulher” (faixa 12),
parceria com Augusto Garcez e G. de Oliveira, gravação de 25 de maio de 1943,
lançada em setembro seguinte com o n.o 80-0107-B, matriz S-052779, “Não te dói
a consciência” (faixa 11), parceria de Nélson e Augusto Garcez com Ari
Monteiro, também de 1943, gravada a 6 de julho com lançamento em outubro sob
n.o 80-0119-B, matriz S-052799, “Aquele bilhetinho’ (faixa 6), também de Nélson
e Garcez mais Arnô Canegal, gravado em 13 de abril de 1945 e lançado em maio
seguinte com o n.o 80-0282-A, matriz
S-078154, e, por fim, o clássico “Rugas” (faixa 3), outra parceria do poeta
Nélson com Augusto Garcez e Ari Monteiro, gravação de 21 de março de 1946
lançada em maio seguinte com o n.o 80-0406-A, matriz S-078450. De Alvaiade
(Oswaldo dos Santos, 1913-1981) Cyro nos apresenta quatro sambas: “A saudade me
devora” (faixa de abertura desta seleção), parceria com Djalma Mafra, gravado
em 25 de janeiro de 1945 e lançado em abril do mesmo ano com o n.o 80-0264-B,
matriz S-078121, “Meu trabalho” (faixa 7), parceria com Alberto Maia, gravado
em 17 de abril de 1947 e lançado em agosto seguinte com o n.o 80-0529-B, matriz
S-078746, “Pensando no futuro” (faixa 8), outra parceria de Alvaiade com Djalma
Mafra, gravação de 10 de maio de 1944 lançada em julho do mesmo ano com o n.o
80-0193-B, matriz S-052961, e “Aliança de casada” (faixa 10), outra parceria de
Alvaiade com Alberto Maia, gravação de 17 de julho de 1946 lançada em outubro
seguinte, disco 80-0456-A, matriz S-078563. Geraldo Pereira (1918-1955), que
deu a Cyro Monteiro o clássico “Falsa baiana”, aqui comparece com outros dois sambas, ambos
em parceria com Augusto Garcez: “Acabou
a sopa” (faixa 2), gravação de 11 de setembro de 1940 lançada em novembro do
mesmo ano, disco 34671-B, matriz 33499, e “Ela não teve paciência” (faixa 4),
gravado em 24 de junho de 1941 e lançado em setembro do mesmo ano sob n.o
34800-A, matriz S-052251. Djalma Mafra (c.1900-1974) também assina outras três
composições nesta seleção: o samba “Domine
a sua paixão” (faixa 5), parceria com
João Bastos Filho, que o “Formigão” grava na marca do cachorrinho Nipper em 10
de maio de 1943 com lançamento em julho
seguinte sob n.o 80-0098-A, matriz S-052770, a batucada “Tire a mão do meu
bolso” (com Nicola Bruni, faixa 9), gravação de Cyro a 13 de dezembro de 1943
lançada bem em cima do carnaval de 44, em fevereiro, disco 80-0163-A, matriz
S-052906, e a faixa de encerramento desta primeira parte, a marchinha “Op op
op”, do carnaval de 1947, parceria com Ari Monteiro, gravação de 26 de outubro
de 46 que a Victor lançará ainda em dezembro, sob n.o 80-0480-B, matriz
S-078612. É o que o GRB oferece com muito prazer e alegria para comemorar o
centenário de nascimento do eterno “Formigão”, com o compromisso de retornar com
mais Cyro Monteiro na próxima semana. Encontro marcado!

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