E aqui estamos com
mais uma edição do meu, do seu, do nosso Grand Record Brazil. É a de número 63,
desta feita apresentando músicas cuja característica é o bom humor,
interpretados por comediantes que marcaram época em nossa mídia. São treze
gravações como sempre preciosas, que por certo vão deixar lembranças muitíssimo
agradáveis em quem vivenciou a época deles, e surpresa igualmente agradável
para quem não conhece, e tem à disposição, portanto, uma oportunidade rara de
conhecer.
Muitos se lembram com saudade, inclusive eu próprio, do
palhaço Arrelia, aliás, Waldemar Seyssel
(Jaguariaíva, PR, 1905-São Paulo, 2005). Ele começou a atuar no circo
aos seis meses de idade, e não parou mais. Veio de uma família circense
tradicional, cujo avô, Júlio Seyssel, era
nascido e residente na França, tendo sido até mesmo professor da famosa
Universidade de Sorbonne. Nessa ocasião,
Júlio conheceu uma jovem espanhola, artista de circo, claro, que fazia
acrobacias em cima de um cavalo. Os dois se casaram, e Júlio trocou a
universidade pelo picadeiro. O casal
veio ao Brasil durante uma temporada do Grande Circo Inglês, dos irmãos
Charles, e resolveu ficar por aqui mesmo. Já Arrelia (apelido que lhe foi dado
por seu tio, Henrique)começou no circo
saltando, passando depois pelo trapézio, cama elástica e outras
acrobacias. Quando seu pai, cansado,
deixou o picadeiro, passou a dedicar-se à arte de divertir o público. Seu
primeiro parceiro foi o ator Feliz Batista, que fazia o palhaço de cara branca,
vindo depois o irmão, Henrique Sobrinho. Após anos de trabalho no picadeiro, Arrelia
troca o circo pela televisão, por questões financeiras. Seu “Circo do Arrelia”,
iniciado em 1953, passou pela TV Paulista (hoje Globo) e pela Record, e é aí
que surge seu parceiro mais famoso: seu
sobrinho Walter Seyssel, o Pimentinha (Juiz de Fora, MG, 1926-Itu, SP, 1992). É
com ele que Arrelia interpreta as faixas escaladas para esta edição do GRB.
Para começar, a marchinha “Muito bem (Como vai?)”, utilizando um bordão famoso
do grande Arrelia: “Como vai, como vai, vai, vai? Muito bem, muito bem, bem,
bem!” O próprio Arrelia, mais Manoel Ferreira e Antônio Mojica, transformam
esse bordão clássico em marchinha de sucesso no carnaval de 1957, lançada pela
Copacabana em seu selo Carnaval, com o número 051-A, matriz M-1831. Um ano mais
tarde, em janeiro de 1958, a Copacabana lança para a folia desse ano outra
marchinha por eles interpretada: “Hom’essa!”, do próprio Arrelia e José
Saccomani, matriz M-2075, curiosamente em dois 78 rpm diferentes: 5855 e 5861,
ambos no lado A! Temos ainda outros
registros do Pimentinha em dueto: com Déo Maia (cantora e atriz que foi
professora primária antes de se dedicar ao teatro de revista), ele canta o
samba ‘Dengo”, de autoria do mestre Ary Barroso, gravação Odeon de 3 de junho
de 1953, lançada em agosto seguinte com o n.o 13483-B, matriz 9747. Ainda com o
tiozão Arrelia, ele interpreta outra marchinha, “Cacho de banana”, do próprio
Arrelia mais José Saccomani e Ercílio Consoni, para o carnaval de 1958, e que a
Copacabana lança em janeiro desse ano também em dois 78 rpm diferentes: 5855-B, e 5862-A, com a mesmíssima matriz,
M-2094! Como solista, Pimentinha interpreta outra marchinha, por ele próprio
assinada em parceria com José & Emílio Saccomani: “Na bodega”, para o
carnaval de 1960, editada pela mesma Copacabana ainda em dezembro de 59 com o
n.o 6067-B, matriz M-2548. Déo Maia
ainda canta com ele o choro “Vou a Paris”, de Vicente Paiva e Luiz Peixoto,
lado A do 78 de “Dengo”, o Odeon 13483, matriz 9745, e obviamente registrado na
mesma sessão. Encerrando sua
participação neste volume, Pimentinha canta a “Marcha do Cacareco”,de Elzo
Augusto, Edaor e Romaris, lançada pela
Copacabana no lado A de “Na bodega”, matriz M-2547, para o carnaval de 1960. O
Cacareco em questão é um rinoceronte que foi trazido do Jardim Zoológico do Rio
de Janeiro para o de São Paulo, e houve uma polêmica generalizada na época
sobre se ele deveria permanecer em Sampa ou voltar pro Rio. Enquanto isso, nas
eleições de 1959, os paulistanos, decepcionados com os políticos
candidatos a vereadores (como até hoje),
acabaram votando, em sinal de protesto, no Cacareco, que recebeu mais de 100
mil votos (todos nulos, claro), mais até que o vereador mais votado, que teve
95.000 votos! Isso aconteceria em 1978 com o jogador de futebol Biro-Biro,
então no Corinthians, que mais tarde candidatou-se a vereador por São Paulo e
se elegeu de verdade. Dois casos
impossíveis de se repetir nestes tempos de urna eletrônica...
Em seguida relembraremos Oscar Lorenzo Jacinto de la
Imaculada Concepción Tereza Díaz (Málaga, Espanha, 1906-Rio de Janeiro, 1970),
que ganhou a imortalidade com o pseudônimo de Oscarito. Filho de pai alemão e mãe portuguesa, veio
para o Brasil com um ano de idade, mas só se naturalizou brazuca em 1949.
Começou nos picadeiros de circo, aos cinco anos (afinal ele, como Arrelia e
Pimentinha, era membro de família circense), como palhaço, trapezista, acrobata
e ator, além de aprender a tocar violino! Foi marcante figura no teatro de
revista, onde começou em 1932 na peça “Calma, Gegê” (sátira a Getúlio Vargas) e
no cinema, onde debutou três anos mais tarde, atuando em “Noites cariocas”. Seu
nome está ligado à história da Atlântida, estúdio que se caracterizava por suas
chanchadas, onde atuou em inúmeros filmes,
alguns em parceria com Grande Otelo, como “A dupla do barulho’ (1953) e
“Matar ou correr” (1954). Outros títulos de destaque em sua filmografia são
“Carnaval no fogo” (1949), “Aviso aos navegantes” (1950), “Barnabé, tu és meu”
(1952), “Nem Sansão nem Dalila’ (1954), “De vento em popa” (1957), “Esse milhão
é meu” (1958) e “Os dois ladrões” (1960). Seu último trabalho no cinema foi em
“Jovens pra frente”, de 1968. Foi casado
com a também atriz Margot Louro, com quem teve dois filhos. Oscarito teve seu
nome como paralelo aos maiores cômicos do cinema internacional, como o americano Charles Chaplin e o mexicano
Cantinflas. Evidentemente, Oscarito
também gravou algumas músicas, predominantemente carnavalescas, que também
interpretava em seus filmes. E eis aqui nesta edição do GRB seis delas. Pra
começar, a famosa “Marcha do gago” (“Tá, tá, tá tá na hora/ Va-va-vale tudo
agora”), de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas , indiscutivelmente seu maior
sucesso musical, lançado em dezembro de 1949 pela Star com o número 177-A, e um
dos maiores sucessos da folia de 1950, fazendo inclusive referência a Carlo
Pintacuda, um famoso automobilista da época. Da mesma dupla, agora com o
reforço de David Nasser, é o lado B, a marchinha “Greve no harém”, que apresentamos
na faixa 10. O disco também saiu com o selo Carnaval, com o número 049, e ambas
as músicas fizeram parte do filme ‘Carnaval no fogo”. Completando este programa, quatro gravações
Sinter: a marchinha “Toureiro de
Cascadura” (faixa 12), de Armando Cavalcanti e David Nasser, matriz S-39, e o
samba “Garota boa”, (faixa 9), de Saint Clair-Senna, matriz S-40, do disco
00-00.018, editado em dezembro de 1950 para a folia de 51, para a qual também
saiu o disco 00-00.019, em seguida mesmo, com duas composições dos mesmos
Armando Cavalcanti e Klécus Caldas: a famosa “Marcha do neném” (“Ié, ié, ié,
faz o neném”, faixa 13), matriz S-41, e a também marcha “Pouca roupa” (faixa
11), todas quatro do filme “Aviso aos navegantes”, outro estouro de bilheteria
na época. Enfim, música e bom humor mais
uma vez encontram-se nesta edição do GRB, para alguns lembrarem, outões
conhecerem, e para todos se divertirem muito!
TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO