terça-feira, 4 de novembro de 2014
Sambas - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 123 (2014)
E prossegue a gloriosa trajetória do Grand Record Brazil. Já estamos na edição de número 123, e nela estamos apresentando uma seleção especialmente dedicada ao samba. São 15 gravações, com sambas de autores consagrados do gênero, interpretados pelos melhores cantores de sua época. Abrindo esta edição, temos “Capital do samba”, de José Ramos (1913-2001), fluminense de Campos, que ajudou a fundar a ala de compositores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, na interpretação do sempre notável Gilberto Alves. Gravação Odeon de 9 de setembro de 1942, lançada em outubro do mesmo ano, disco 12214-A, matriz 7053. Dos cariocas João da Baiana (João Machado Guedes, 1887-1974) e Babaú da Mangueira (Waldomiro José da Rocha, 1914-1993) é “Sorris de mim”, a faixa seguinte, interpretada por Odete Amaral, “a voz tropical do Brasil”. Ela o gravou na Victor em 9 de julho de 1940,com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34657-B, matriz 33463. De Paquito (Francisco da Silva Fárrea Júnior, 1915-1975) e do lendário Paulo da Portela (Paulo Benjamin de Oliveira, 1901-1949), foi escalado “Arma perigosa”, na interpretação de Linda Rodrigues (Sophia Gervasoni, 1919-1995). É o lado A de seu terceiro 78, o Continental 15423, lançado em setembro de 1945, matriz 1136. Na quarta faixa, um clássico indiscutível do mestre Ary Barroso: é “Morena boca de ouro”, na interpretação de Sílvio Caldas, que o imortalizou na Victor em 4 de julho de 1941, com lançamento em setembro do mesmo ano, disco 34793-A, matriz S-052259. Foi várias vezes regravado,inclusive por João Gilberto, que o incluiu em seu primeiro LP, “Chega de saudade”, em 1959. O dito popular “Quem espera sempre alcança” dá título à nossa quinta faixa, mais uma composição do lendário Paulo da Portela. Quem canta este samba é Mário Reis, em gravação lançada pela Odeon em setembro de 1931, disco 10837-B, matriz 4272, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, do palestino Simon Bountman. “Quem mandou, Iaiá?” é de Benedito Lacerda (também no acompanhamento com sua flauta mágica e inconfundível) e Oswaldo “Baiaco” Vasques, e foi lançado pela Columbia para o carnaval de 1934, em janeiro desse ano, na voz de Arnaldo Amaral, disco 22262-A, matriz 1005. Também de Baiaco, em parceria com João dos Santos, é nossa sétima faixa, “Conversa puxa conversa”, gravação Victor de Almirante (“a maior patente do rádio”) em 24 de abril de 1934, lançada em julho do mesmo ano com o n.o 33800-A, matriz 79615, com acompanhamento da orquestra Diabos do Céu, formada e dirigida por Pixinguinha. Babaú da Mangueira volta em nossa faixa 8, “Ela me abandonou”, samba do carnaval de 1949, em parceria com Taú Silva. Novamente aqui comparece Gilberto Alves, em gravação RCA Victor de 23 de dezembro de 48, lançada um mês antes da folia,em janeiro,disco 80-0591-B, matriz S-078852. Autor de clássicos do samba, Ismael Silva (1905-1978) mostra seu lado de intérprete em “Me deixa sossegado”, que assina junto com Francisco Alves e Nílton Bastos, e foi lançado pela Odeon em dezembro de 1931, disco 10858-B,matriz 4281. De família circense, sobrinho do lendário palhaço Piolim, o comediante paulista Anchizes Pinto, o Ankito (1924-2009), considerado um dos cinco maiores nomes da era das chanchadas em nosso cinema, bate ponto aqui com “É fogo na jaca”, samba de Raul Marques, Estanislau Silva e Mateus Conde. Destinado ao carnaval de 1954, foi lançado pela Columbia (depois CBS e hoje Sony Music) em janeiro desse ano, sob n.o CB-10017-B, matriz CBO-152. Paulo da Portela volta na faixa 11, assinando com Heitor dos Prazeres “Cantar pra não chorar”, do carnaval de 1938. Quem canta é Carlos Galhardo, “o cantor que dispensa adjetivos”, em gravação Victor de 15 de dezembro de 37, lançada um mês antes da folia, em janeiro, disco 34278-B, matriz 80634. Na faixa 12, volta José Ramos, agora assinando com o irmão, Marcelino Ramos, “Jequitibá”. Gravação de Zé e Zilda (“a dupla da harmonia”), em 1949, na Star, disco 151-B, por certo visando o carnaval de 50. A eterna “personalíssima”, Isaura Garcia, vem com o samba “Mulher de malandro”, de Hervê Cordovil. Gravado na Victor em 23 de outubro de 1945, seria lançado apenas em setembro de 46, sob n.o 80-0431-B, matriz S-078380. Ernani Alvarenga, o Alvarenga da Portela, assina “Fica de lá”, samba do carnaval de 1939, em gravação Odeon de Francisco Alves, datada de 16 de dezembro de 38 e lançada bem em cima da folia,em fevereiro, disco 11700-A,matriz 5995. Por fim, temos o samba “Não quero mais”, samba de autoria de Zé da Zilda (também conhecido por Zé com Fome e José Gonçalves) e Carlos Cachaça (Carlos Moreira de Castro, que apareceu no selo com o sobrenome errado, “da Silva”), gravado na Victor por Aracy de Almeida em 9 de setembro de 1936 e lançado em dezembro do mesmo ano, disco 34125-A, matriz 80214, certamente com vistas ao carnaval de 37. Note-se, a respeito deste samba, que Cartola tinha feito duas segundas partes, mas Zé da Zilda fez uma outra segunda parte por conta própria e, assim, eliminou Cartola da co-autoria. Enfim, é uma excelente seleção de sambas que o GRB nos oferece, para apreciação de todos aqueles que apreciam o melhor de nossa música popular.
Texto de Samuel Machado Filho
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terça-feira, 21 de outubro de 2014
Sertanejos - Seleção78 RPM o Toque Musical Vol.122 (2014)
Já em sua
edição de número 122, o Grand Record Brazil volta a oferecer significativa
parcela do rico acervo da chamada música sertaneja de raiz aos amigos cultos,
ocultos e associados do TM. Uma seleção de quinze preciosíssimas gravações, que
por certo farão a alegria dos apreciadores do gênero, especialmente aqueles que estão decepcionados
com o dito “sertanejo universitário”, que tanto tem infestado a mídia nos dias
correntes.
Abrindo esta seleção,
um representante da música regional nordestina, Zé do Norte (Alfredo Ricardo do
Nascimento, Cajazeiras, PB, 18/12/1908-idem, 2/10/1979). Ele nos apresenta aqui
uma bela toada que fez em parceria com José Martins, “Lua bonita”, por ele
mesmo interpretada no filme “O cangaceiro”, da Vera Cruz, êxito internacional
que, no entanto, não impediu a falência do estúdio, pois tal repercussão
beneficiou apenas sua distribuidora, a multinacional Columbia Pictures.
Gravação RCA Victor de 29 de janeiro de 1953, lançada em abril do mesmo ano,
disco 80-1100-B, matriz SB-093595. Conhecido como “a maravilha negra das
Américas”, Edson Lopes (c.1930-?) aqui nos oferece o jongo “Cafuné”, assinado
pelo campineiro Dênis Brean (Oswaldo Duarte Ribeiro) em parceria com Gilberto
Martins. Originalmente lançado por Aracy de Almeida, em 1955, é revivido aqui
por Edson em gravação Odeon de primeiro de fevereiro de 1957, lançada em maio
do mesmo ano, disco 14202-A, matriz 11543. Da escassa discografia da dupla
Coqueiro e Belinha (apenas cinco discos 78 com dez músicas), foi escalada a
guarânia “Lei de um mandamento”, de Coqueiro sem parceria. Foi gravada na Odeon em 13 de junho de 1960, e
lançada emjulho do memso ano, disco 14639-A, matriz 50567, sendo que a “marca
do templo” o reeditou mais tarde com o selo Orion, sob número R-072. Em seguida
apresentamos as faixas do único 78 da dupla Ibirama e Maruí, o RCA Camden
CAM-1092, gravado em 17 de outubro de 1961 e lançado em janeiro de 62,com
músicas assinadas por Pavãozinho. No lado A, matriz M3CAB-1508, o xote “Linda
gaúcha”, em que Pavãozinho tem a parceria de Sereno. No lado B, matriz
M3CAB-1509, a canção rancheira “Deixe eu sofrer”, de Pavãozinho sem
parceiro. O “trio orgulho do Brasil”,
Luizinho, Limeira e Zezinha, aqui bate ponto com o conhecidíssimo baião
“Casamento é uma gaiola”, de autoria do Compadre Generoso (muita gente se
lembra dessa música na voz do Sérgio Reis, e aqui vai o registro original) ,
por eles gravado na Odeon em 2 de abril de 1959 e lançado em junho do mesmo ano
sob número 14463-B, matriz 50108, sendo depois relançado com o selo Orion sob
número R-058, além de figurar em LP sem título.
A dupla Mariano e Cobrinha, ambos de Piracicaba, SP, apresentam aqui a
toada “Mágoas de carreiro”, de autoria do comediante e ventríloquo Batista
Júnior, pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. Lançada em 1929 pelo próprio
autor, é aqui apresentada em gravação feita por Mariano e Cobrinha na
Continental em 6 de abril de 1948 e lançada em maio-junhoi do mesmo ano, disco
15902-B, matriz 10839. O próprio Batista Júnior, aliás, agradeceu pessoalmente
a dupla por esta regravação. Do único 78 da dupla Oswaldinho e Vieirinha, o RCA
Victor 80-1818, gravado em 25 de março de 1957 e lançado em julho do mesmo ano,
aqui está o lado B, a toada “Canção do tropeiro”, de exclusiva autoria de Vieirinha,
matriz 13-H2PB-0078. Temos em seguida, as faixas do único disco da dupla
feminina Chiquita e Chinita,o Columbia CB-10280, lançado em outubro de 1956,
ambas de autoria de Francisco Lacerda com parceiros, um em cada música. No lado
B, o valseado ‘Cavalinho pampa”, matriz CBO-821, o parceiro de Lacerda é
Ricardo Jardim, e no lado A, o tango “Parabéns, meu amor”, matriz CBO-820, o
co-autor é José Maffei. Outra dupla
feminina de discografia escassa (seis discos 78 com doze músicas, todos pela
Columbia), as Irmãs Cavalcanti (Noemi, que foi vocalista do Trio de Ouro em sua
segunda fase, e Odemi) aqui comparecem
com as faixas do disco de estreia, número CB-10029. No lado A, delas próprias,
matriz CBO-170, o baião “Lumiô, lumiô”, e no lado B, matriz CBO-171, a guarânia
“Ponta Porã”, de Pereirinha e Jamir da Silva Araújo. As Irmãs Maria (Thereza
Gadotti e Maria Aparecida Oliveira), também de curta carreira discográfica,
aqui apresentam o huapango “Por te querer”, de Piaozinho e Maria Aparecida
Oliveira, lançadopela Continental, selo Caboclo, em julho de 1961, disco
CS-457-A. Silveira e Barrinha, “a dupla
dos 22 Estados”, nos oferece a clássica moda campeira “Coração da pátria”, de
Silveira, Lourival dos Santos e Sebastião Victor, gravação RCA Camden de 25 de
maio de 1962, disco CAM-1133-A, matriz N3CAB-1712. E, encerrando esta seleção,
Zé Carreiro e Carreirinho, “os maiores violeiros do Brasil”, apresentam o
cururu clássico “Saudades de Araraquara”, de exclusiva autoria de Zé Carreiro,
gravado na Continental em 9 de maio de 1952 e lançado entre esse mês e junho do
mesmo ano, disco 16580-A, matriz 11381. Enfim, a mais autêntica música do
sertão brasileiro, para fazer a gente recordar, como diz meu colega de YouTube
Adalésio Vieira, “um tempo em que realmente havia música sertaneja”... Deliciem-se!
*Texto de Samuel Machado Filho
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
4 Ases & 1 Coringa (parte 2) - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.121 (2014)
O Grand Record Brazil, em sua edição de número 121,
apresenta a segunda parte de sua retrospectiva dedicada aos Quatro Ases e um Coringa, grupo vocal e instrumental cearense que, de
fato, deu as cartas durante sua carreira, tanto no rádio quanto no disco.
São mais catorze gravações históricas e indispensáveis para
quem estuda , pesquisa e cultua a música popular brasileira dessa época, feitas pelo grupo cearense na Odeon e na RCA
Victor. Abrindo esta seleção, o samba “Meu bairro canta”, de Waldemar
Ressurreição, gravado na RCA Victor em 14 de abril de 1950 e lançado em julho
do mesmo ano com o número 80-0663-B, matriz S-092658. A faixa seguinte é o
clássico baião “Paraíba”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, lançado pouco antes
por Emilinha Borba e regravado pelos Quatro Ases e um Coringa na marca do
cachorrinho Nipper em 10 de agosto de 1950, com lançamento em outubro seguinte
sob número 80-0698-B, matriz S-092732. Temos depois outro clássico, o samba “No
Ceará é assim”, de Carlos Barroso, gravação Odeon de 14 de maio de 1942, lançada
em agosto do mesmo ano, disco 12183-B, matriz 6565. O divertido samba “Coisas
do carnaval”, de Ary Barroso (história de alguém que se apaixona por uma bela
mulher e no fim... ) é gravação de 3 de março de 1942, que a “marca do templo”
lança em abril seguinte com o número 12137-B, matriz 6909. Outro clássico que
temos em seguida é a marchinha “Trem de ferro”, composta pelo cearense (e
conterrâneo do grupo) Lauro Maia (1912-1950)e imortalizada na mesma Odeon em 3
de agosto de 1943 e lançado em setembro seguinte sob número 12355-A, matriz 7350.
Foi regravada inclusive por João Gilberto, em seu terceiro LP, de 1961. Lauro
Maia aqui comparece também com o batuque “Eu vi um leão”, sucesso inclusive na
Argentina, onde os Quatro Ases e um Coringa se apresentaram durante uma
excursão pelos países da região do Rio Prata. Foi por eles imortalizado na
“marca do templo” em 16 de abril de 1942, e lançado em junho seguinte sob
número 12160-A, matriz 6943. Voltando à RCA Victor, temos o samba “O dinheiro
que ganho”, de Assis Valente, gravação
de14 de abril de 1951, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0791-B, matriz
S-092954. Traduz muito bem as dificuldades financeiras por que passava Assis,
que o levariam ao suicidio, em 1958 (ele bebeu uma mistura de guaraná com
formicida), depois de várias tentativas.
“Garota dos discos”, de Wilson Batista e Afonso Teixeira, gravação de
primeiro de julho de 1952 e lançado em setembro do mesmo ano, disco 80-0975-B,
matriz SB-093343. A garota em questão trabalhava, logicamente, em uma loja de
discos, tipo de estabelecimento comercial que praticamente perdeu força com o
advento da internet e posterior surgimento de portais de aquisição de músicas,
como o iTunes (hoje existem pouquíssimas lojas de discos no Brasil). A “Marcha
do caracol”, de Peterpan e Afonso Teixeira, que os Quatro Ases e um Coringa
também interpretaram no filme “Aviso aos navegantes”, da Atlântida, foi
merecido sucesso no carnaval de 1951, mostrando que o problema da falta de
moradia nas grandes cidades brasileiras vem de muito tempo. Gravação RCA Victor de 4 de outubro de 1950,
lançada ainda em dezembro sob número 80-0728-A, matriz S-092771. O samba “Maria
Luiza”, de Pedro Caetano e Hélio Ribeiro, foi gravado na Odeon pelo conjunto
cearense em 13 de abril de 1945, e lançado em junho do mesmo ano, disco
12585-A, matriz 7800. Em seguida temos o lado A do disco de estreia oficial dos
Quatro Ases e um Coringa, o Odeon 12066, gravado em 23 de setembro de 1941 e lançado
em novembro do mesmo ano, matriz 6794: é a marchinha “Os dois errados”, de
Estanislau Silva, Álvaro Nunes e Nélson Trigueiro. O samba “Rendeira”, outra
composição de Carlos Barroso,é gravação Odeon de 14 de maio de 1942, lançada em
outubro seguinte sob número 12204-B, matriz 6967. Evenor Pontes (líder e
fundador do grupo) e Luiz Assunção assinam a rancheira “Sá Mariquinha”, gravado
na “marca do templo” em 18 de abril de 1947 e lançado em julho do mesmo ano,
disco 12784-A, matriz 8212. Encerrando esta seleção, temos o clássico “Baião de
dois”, outro grande produto da parceria Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira lançado
por Emilinha Borba, em 1950, e que os Quatro Ases e um Coringa regravariam na
RCA Victor logo em seguida, no lado A de “Paraíba”, matriz S-092731. Sem
dúvida, uma merecida homenagem aos Quatro Ases e um Coringa, verdadeiro tributo
ao legado de um dos mais expressivos conjuntos vocais e instrumentais que a
música popular brasileira já teve!
*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
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4 Ases & 1 Coringa,
Selo Grand Record Brazil
terça-feira, 7 de outubro de 2014
4 Ases & 1 Coringa (parte 1) - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol.120 (2014)
Prosseguindo sua brilhante trajetória, o Grand Record
Brazil, em sua edição de número 120, apresenta a primeira de duas partes de uma
retrospectiva dedicada a um dos maiores conjuntos vocais e instrumentais que o
Brasil já teve: os Quatro Ases e um Coringa. A história do grupo começa em
1939, quando os irmãos cearenses Evenor, Permínio e José Pontes de Medeiros,
que estudavam no Rio de Janeiro, decidiram formar um quarteto vocal e
instrumental juntamente com seu amigo Andre Batista Vieira, o Melé. Dois anos
mais tarde, após formar-se em Química, eles viajaram para Fortaleza,
apresentando-se na Ceará Rádio Clube com o nome de Bando Cearense (Evenor e
José aos violões, Permínio na gaita e André ao pandeiro, além, é claro, dos
vocais). Foi então que se juntou a eles o violonista e vocalista Esdras Falcão
Guimarães, o Pijuca. Por sugestão do poeta e jornalista Demócrito Rocha, eles
passaram a se chamar Quatro Ases e um Melé. De volta ao Rio, apresentaram-se
por três meses na Rádio Mayrink Veiga, mas não houve contrato. Foram então
encaminhados à Rádio Tupi por João Dunmar, diretor da Ceará Rádio Clube, que
estava no Rio por acaso, e substituiu o termo “melé” por “coringa”, termo mais
conhecido no sul, que, no baralho, significa a mesma coisa. O sucesso foi
imediato. No primeiro disco, lançado pela Odeon em setembro de 1941, sem menção
no selo, acompanharam Dircinha Batista nos sambas “Ele disse que dá” e “Costela
de cera”. Estreia pra valer acontece em novembro do mesmo ano, quando a “marca
do templo” lança “Os dois errados”, e, do outro lado do disco, “Dora, meu
amor”. O grupo teve inúmeros
sucessos,tais como: “No Ceará é assim”, “Onde estão os tamborins?”, “Baião”,
“Terra seca”, “É com esse que eu vou”, “Siridó”, “Cabelos brancos”, “Eu vi um
leão”, “Trem de ferro”, “Eu vou até de manhã”, “Chega, chega, chegadinho”,
“Marcha do caracol”, “O periquito da madame”,
“Apanhador de papel”. Em 1945,
fizeram uma longa temporada no Prata, principalmente na Argentina, seguida do
Chile. No cinema, atuaram nos filmes
“Fogo na canjica”, “Essa é fina”, “Aviso aos navegantes” e “Tudo azul”.
Em 1952, o Coringa André desligou-se do conjunto, e outros três o sucederam:
Jorginho do Pandeiro, Nilo Falcão e,por último, Miltinho. Nessa ocasião,a
carreira do conjunto começa a declinar,até sua dissolução, nos anos 1960. Em
cerca de vinte anos de carreira, os Quatro Ases e um Coringa gravaram mais
de100 discos em 78 rpm, nos selos Odeon, RCA Victor, Mocambo, Todamérica e
Marajoara, além do LP “É com esse que eu vou”, também pela Odeon, com regravações,
e alguns compactos. Só lançariam um segundo e último LP em 1975, “Novamente...
Quatro Ases e um Coringa”, selo Alvorada/Chantecler, e depois sairiam de cena
definitivamente.
Nesta primeira parte, o GRB oferece catorze preciosas
gravações dos Quatro Ases e um Coringa, verdadeiras joias da música popular
brasileira, a maior parte em gravações Odeon. Abrindo o programa,”Terra seca”,
samba que Ary Barroso considerava sua obra-prima, inspirado na triste fase da
escravidão dos negros no Brasil. O grupo cearense o imortalizou na “marca do
templo” em 20 de setembro de 1943,com
lançamento em novembro do mesmo ano, disco 12375-A, matriz 7387. Da dupla
Bide-Marçal, autora de sambas clássicos da MPB, é “Pra que chorar?”, também
samba, este do carnaval de 1943, gravação de 27 de outubro de 42, lançada ainda
em dezembro, disco 12235-A, matriz 7121. Outro clássico é o balanceio “Eu vou
até de manhã”, do cearense (como eles) Lauro Maia, gravado em 8 de fevereiro de
1945 e lançado em abril do mesmo ano sob número 12568-A, matriz 7760. Temos
depois a deliciosa marchinha “Pica-pau”, outra composição do mestre Ary
Barroso, do carnaval de 1942, gravação de 14 de novembro de 41, lançada um mês
antes da folia, em janeiro, com o número 12096-A, matriz 6849. “Barão das
cabrochas” é outro samba da grande dupla Bide-Marçal aqui incluído, sucesso do
carnaval de 1946. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram em 22 de novembro de 45, e o lançamento se deu
um mês antes do carnaval, em janeiro, disco 12655-A, matriz 7939. Depois tem...
“Feijoada”! É uma marchinha de Rubens Soares, gravada em 2 de fevereiro de 1943 e lançada em março
seguinte com o número 12277-A, matriz 7196. Torcedor fervoroso do América
Futebol Clube, Lamartine Babo compôs os hinos não só desse como também de todos
os grandes clubes do futebol carioca. Caso do famoso “Sempre Flamengo” (“Uma
vez Flamengo, Flamengo até morrer”), marcha-hino que os Quatro Ases e um
Coringa imortalizaram na “marca do templo” em 2 de dezembro de 1944, com
lançamento em janeiro de 45, disco 12541-B, matriz 7719. Do carnaval de 1947 é
a marchinha “O periquito da madame”, de Nestor de Holanda, Carvalhinho e Afonso
Teixeira, um sucesso que o grupo cearense gravou na Odeon em 9 de julho de 46
(vejam só a antecedência!) com lançamento ainda em novembro, disco 12735-B,
matriz 8070. Do carnaval de 1943 é a marchinha “Deixai para mim as
cabrochinhas”, de Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, gravada na “marca do
templo” em 21de novembro de 42,lançada um mês antes da folia, me janeiro, disco
12246-A, matriz 7150. “A ribeira do Caxia” é uma “ligeira” de Lauro Maia,
gravação de 29 de junho de 1945, lançada em agosto seguinte sob número
12612-A,matriz 7868. Lançado em 1945 por Manezinho Araújo, o “calango mineiro”
“Dezessete e setecentos”, motivo folclórico adaptado por Luiz Gonzaga e Miguel Lima,
foi regravado pelos Quatro Ases e um Coringa em 18 de abril de 1947, com
lançamento em julho seguinte com o número 12784-B, matriz 8213 (conta errada,
mas sucesso certeiro). As duas últimas faixas são da safra do grupo cearense na
RCA Victor. “Xaxado”, de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil, é gravação de 14 de
maio de 1952, lançada em julho do mesmo ano, disco 80-0938-B, matriz SB-093346,
merecendo logo em seguida registro do próprio Gonzagão. O xaxado é definido
como “primo do baião” e foi divulgado pelo Nordeste do Brasil por Lampião e seu
bando de cangaceiros. O nome da dança é derivado da onomatopeia xa-xa-xa, que
os dançarinos fazem ao arrastar as alpercatas no chão. Por fim,o samba “Boneca
de pano”, de Assis Valente, considerado seu último grande sucesso como
compositor. Os Quatro Ases e um Coringa o imortalizaram na marca do cachorrinho
Nipper em 10 de julho de 1950, com lançamento em setembro do mesmo ano sob
número 80-0693-B, matriz S-092712. E na próxima semana traremos mais gravações
desse notável conjunto cearense. Aguardem!
*Texto de SAMUEL
MACHADO FILHO.
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