O Grand Record Brazil chega à sua sexagésima edição
apresentando uma seleção musical com dois grandes nomes da cultura popular
nordestina: Luiz Gonzaga e seu pai Januário.
Lavrador, sanfoneiro e consertador de sanfonas, Januário
José dos Santos, autêntico rei dos oito baixos, nasceu em 25 de setembro de
1888, não se sabe se em Flores ou Pajeú das Flores, em Pernambuco. Adolescente,
fugindo da seca, ele chegou, em 1905, à Fazenda Caiçara, nascente do Riacho da
Brígida, a 12 quilômetros de Exu, na Serra do Araripe, bem na divisa Norte de
Pernambuco com o Ceará, ao lado de seu irmão Pedro Anselmo. Era motivo de
alegria e admiração para quem escutava a sua sanfona, sendo sempre respeitado
por onde quer que passasse. Só falava o necessário e tinha grande entendimento
intelectual, apesar de nunca ter sentado em um banco de escola. Além de exímio
sanfoneiro, foi durante toda a vida um homem dedicado à família. Ao lado da
primeira esposa, Dona Santana, soube muito bem educar seus nove filhos
(Gonzagão foi o segundo) na tradição religiosa e no respeito humano.
O “Vovô do Baião” sempre amou seu querido Araripe. Prova
disso é que, em 1960, com o falecimento de Dona Santana e já com os nove filhos
radicados no Rio de Janeiro, ficou morando sozinho por lá de junho a novembro,
quando contraiu segundas núpcias com Dona Maria Raimunda de Jesus. O novo casal
adotou, em 1962, um bebê com três dias de nascido, e registrado como filho
legítimo com o nome de João Batista Januário, ainda hoje residindo em Exu.
Grande exemplo de pai e bom vizinho, “seu” Januário partiu
para a eternidade no dia 11 de junho de 1978, deixando imensa saudade em todos
que o conheceram lá em Exu, apreciando suas performances sanfoneiras todo final
de tarde. As tradições religiosas do município forma preservadas por muito
tempo recebendo a colaboração do “Vovô do Baião”.
Já Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu, a 13 de dezembro de
1912, lá mesmo na Fazneda Caiçara, onde ele e seus irmãos foram criados, e
ainda menino se interessou pelos oito baixos do pai, a quem ajudava na animação
de forrós e festas. Aos 17 anos, saiu de casa e se alistou como voluntário no
Exército, em Fortaleza, Ceará, e em 1930 rumou com seu batalhão de caçdores, o
22, para a Paraíba, agitada com a revolta de Princesa. Com a vitória de Getúlio
Vargas, a tropa se desloca para Belém do Pará, Teresina, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, a fim de pacificar os resistentes. Corneteiro, recebeu em BH o
apelido de “Bico de Aço”. E soprando a corneta seguiu para São Paulo, em 1932,
no movimento constitucionalista, e para Mato Grosso, a fim de proteger nossa
fronteira da Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia. Já em tempos mais
clamos, Gonzagão serviu em Juiz de Fora e Ouro Fino, em Minas Gerais, e deu
baixa em 1939, após dez anos de Exército (uma nova lei impedia o reengajamento
além desse tempo). Em vez de voltar a sua Exu, resolve ficar no Rio de Janeiro,
onde desembarcara na companhia de uma sanfona branca comprada em São Paulo
pouco antes. Nas ruas, nos bares e no Mangue, passando o pires, apresentava um
repertório bem ao gosto dos marinheiros e suas acompanhantes: tangos, boleros,
valsas, canções, foxes. Certa noite, um grupo de universitários cearenses pede
para ele tocar alguma coisa lá do Nordeste. Aí, Gonzagão tira da memória
xaxados, cocos, xotes, xamegos, e é aí que alimenta o ideal de um dia tocar
tudo isso para todo o povo do Sul. Inscreve-se no programa de calouros do
temível Ary Barroso tocando seu xamego “Vira e mexe”, sendo aplaudidíssimo pela
plateia e obtendo nota máxima! Em 1941, é levado à RCA Victor para acompanhar
Genésio Arruda na gravação de “A viagem do Genésio”, e tem a oportunidade de
tocar seu “Vira e mexe” para o diretor artístico, sendo de pronto escalado para
gravar dois discos como acordeonista-solo: “Véspera de São João”/”Numa
serenata” e “Saudades de São João del Rey”/”Vira e mexe”. A oportunidade de
gravar como cantor só aparece em 1945, com “Dança, Mariquinha”, mazurca sua e
de Miguel Lima. Em pouco tempo tornou-se ídolo nacional, de ponta a ponta,
também como compositor, tendo parceiros expressívos: Miguel Lima, Humberto
Teixeira, Zé Dantas, e sucessos sem conta, seja como autor, seja apenas como
intérprete: “Baião”, “Asa branca”, 'Vozes da seca”, “Chofer de praça”,
“Paraíba”, “Macapá”, “Lorota boa”, “Riacho do Navio”, “Boiadeiro”, “Cigarro de
páia”, “Xanduzinha” e muitos, muitos mais. Com o aparecimento do rock e da
bossa nova, Gonzagão ficou praticamente esquecido no Sul do País, sobretudo no
eixo Rio-São Paulo, mas continuou a se apresentar pelo interior do Brasil, onde
sempre teve grande público. Em 1968, o espertíssimo Carlos Imperial planta um
boato de que o quarteto britânico The Beatles iria gravar “Asa branca”. Isso,
claro, não aconteceu, mas chamou a atenção das novas gerações de então para sua
obra, sendo então redescoberto e novamente experimentando o sucesso em discos e
shows nos grandes centros urbanos, tendo inclusive se apresentado no exterior.
O trono de Rei do Baião é e sempre será seu. Gonzagão morreu em 2 de agosto de
1989, no Recife, de osteoporose seguida de pneumonia (sofria também de câncer
na próstata), deixando um legado imortal que até hoje influencia a MPB. Seu
corpo foi sepultado, conforme seu desejo, ao lado de seus pais, em Exu.
Nesta edição do GRB, apresentamos uma seleção dedicada a
Januário e Gonzagão, pai e filho, com oito fonogramas originais RCA Victor.
Para começar, quatro gravações do mestre Januário, com participação expressiva
dos filhos, inclusive, claro, Luiz Gonzaga: o xote dele mesmo “Januário vai
tocar”, gravação de 3 de agosto de 1955, lançada em outubro do mesmo ano com o
número 80-1498-A, matriz BE5VB-0823. No verso, matriz BE5VB-0824, o “Calango do
Irineu”, também do próprio Januário, que apresentamos logo em seguida. Depois,
as faixas do disco 80-1322, gravado em 18 de maio de 1954 e lançado em agosto:
o baião “O balaio de Veremundo”, da parceria Luiz Gonzaga-Zé Dantas,
espirituosa alusão a um “coronel” da
cidade pernambucana de Salgueiro, famosa por suas carnes de bode salgadas, e
inventor da dança do balaio. Da mesma parceria é o lado B, matriz BE4VB-0456,
outro baião: “Pronde tu vai. Luí?”, com solo vocal do próprio Gonzagão, “of
course”. Completando este pequeno grande programa, quatro expressivas gravações
de Gonzagão de seu início como cantor-solo. Na faixa seis, exatamente sua
estreia nessa área, após 24 discos como solista de sanfona: a mazurca “Dança,
Mariquinha”, gravada em 11 de abril de 1945 e lançada em maio seguinte, matriz
S-078152. Luiz Gonzaga chegou a dizer ao então diretor artístico da RCA Victor,
Vittorio Lattari, brincando, que a Odeon queria lançá-lo como cantor em disco.
Mas Vittorio, claro, decidiu que ele ficaria na Victor, e perguntou: “Como é?
Já tem repertório pra cantar?” Isso, claro, não faltava... Na faixa oito, o
chamego “Penerô xerem”, chamego da parceria Luiz Gonzaga-Miguel Lima, gravação
de 13 de junho de 1945, lançada em agosto do mesmo ano (80-0306-A, matriz
S-078189). A 6 de setembro do mesmo ano, Gonzagão grava, de sua autoria mais
Miguel Lima e J. Portela (o jota é de Jeová), outra mazurca de sucesso,
“Cortando pano”, expressiva homenagem aos alfaiates, que a Victor lançara em
novembro seguinte com o número 80-0344-B, matriz S-078283. Nessa época, quase
todos os cantores brasileiros costumavam lançar músicas para o carnaval, pois,
como então se dizia, eram “da fuzarca”. E mostrando o lado carnavalesco do Rei
do Baião, foi escalada a faixa 7 desta nossa edição do GRB, a marcha-tarantela
“Festa napolitana”, do compositor Sereno, para a folia de 1946, que a Victor
lançou em janeiro desse ano, em gravação de 14 de novembro de 45, disco
80-0374-A, matriz S-078389. Enfim, uma pequena grande amostra que certamente
irá agradar aos fãs de Luiz Gonzaga, de seu pai Januário e da boa música nordestina,
deixando na boca aquele irresistível gostinho de quero-mais...
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO