E chegamos à edição número 51 do Grand Record Brazil, apresentando a
quarta e última parte desta retrospectiva dedicada a este mestre das cordas que
foi Jacob do Bandolim. E neste volume, o acervo do pesquisador Sérgio Terra nos
revela 20 gravações que nunca foram lançadas comercialmente, feitas em gravador
doméstico durante os antológicos “saraus” que o mestre promovia em sua casa, no
bairro carioca de Jacarepaguá, semanalmente. Abrindo esta seleção, a valsa
“Quando me lembro”, de outro bandolinista famoso, Luperce Miranda (1904-1977),
por ele próprio gravada originalmente em 1932. O choro “Murmurando”, que vem em
seguida, não é a famosa composição do maestro Fon-Fon, parece ser um outro
choro do próprio Jacob. “O voo da mosca”, também do mestre, é uma réplica ao
“Voo do besouro”, de Rinsky e Korsakov, e seria por ele gravada na RCA Victor
em 1962, no álbum “Primas e bordões”. “Mariposa da luz” é da pianista e
professora de música Neusa França, só gravado comercialmente em 1973, pelo
citarista Avena de Castro. Na faixa 6, outro clássico do choro, “Flor do
abacate”, de autoria de Álvaro Sandim (1862-1919), surgido em 1913, na fase
mecânica de gravação, em registros do Grupo Faceiro e dos Chorosos do Abacate.
Jacob do Bandolim o gravou duas vezes pela RCA Victor, em 1949 e 1960. E já
que, neste 2013, comemoramos os 150 anos de nascimento do compositor e pianista
Ernesto Nazareth (1863-1934), ele comparece nesta seleção de inéditas do mestre
Jacob com uma de suas obras mais famosas, a polca-choro “Apanhei-te
cavaquinho”, faixa 4, surgida em disco no ano de 1916, na gravação do flautista
Passos, e inúmeras vezes regravada, inclusive pelo próprio Nazareth em solo de
piano. Temas clássicos também batem ponto nesta seleção: a “Valsa número 7 de
Chopin” (temos também a “número 1”) e as “Czardas”, do italiano Vittorio Monti
(1868-1922). “Noites cariocas” é outro choro clássico do mestre Jacob, por ele
lançado em 1957 e com inúmeras regravações, sendo até hoje peça obrigatória no
repertório de qualquer “chorão”. “Receita de samba” e “Vibrações” são outras
composições muito apreciadas do mago do bandolim, e foram por ele gravadas na
RCA Victor em 1967, no excelente álbum “Vibrações”. Um certo doutor Formiga
(quem seria?) recita um “Poema para Jacob”, por ele feito em justa homenagem ao
mestre. Chico Buarque comparece aqui com “Carolina”, composição surgida em 1967
no Terceiro Festival Internacional da Canção (FIC), da TV Globo, defendida por
Cynara e Cybele, recém-saídas do Quarteto em Cy. Jacob muito admirava Chico, e
previu, acertadamente, que ele “atravessaria os anos”. O mestre também
apresenta sua valsa “Santa Morena”, cuja gravação comercial, de 1954, está no
volume 3 de nosso retrospecto. A clássica valsa “Velho realejo”, de Custódio
Mesquita e Sadi Cabral, é outro clássico de nosso cancioneiro, e foi lançada em
1940 na voz de Sílvio Caldas, sendo várias vezes regravada. Outro clássico é
“Três estrelinhas”, de autoria de Anacleto de Medeiros (1866-1907), músico,
compositor, fundador e regente da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de
Janeiro. Recebeu depois letra de Catulo da Paixão Cearense, sendo rebatizada
como “O que tu és”. Antônio d'Áuria (1912-1988) aparece como uma espécie de
convidado especial, nas faixas “Poesia e amor”, de Mário Álvares Conceição, só
gravada comercialmente em 1976 por outro bandolinista, Déo Rian, e “Helena”,
valsa de Albertino Pimentel, surgida ainda no tempo da gravação mecânica, em
1909, em execução da já mencionada Banda do Corpo de Bombeiros carioca.
Encerrando esta seleção tempos “Marilene”, choro de Pixinguinha e Benedito
Lacerda, por eles próprios lançado em 1950, com o mestre Pizindim ao saxofone e
Benedito à flauta (na verdade a música é só de Pixinguinha, e Benedito entrou
como parceiro por acordo comercial entre ambos). Enfim, um tesouro raro, de
notável importância histórica, que o GRB oferece a tantos quantos apreciem a
boa música instrumental brasileira. As 122 fitas cassetes gravadas por Jacob do
Bandolim durante seus “saraus” foram doadas ao Museu da Imagem e do Som do Rio de
Janeiro, e aqui apresentamos uma preciosíssima amostra deste trabalho. Bom
divertimento!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.
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