Vejam vocês, amigos cultos, ocultos e associados do TM: já
estamos na sexagésima-primeira edição do Grand Record Brazil! Sinceramente, eu
e o Augusto não esperávamos que a coisa fosse tão longe, o que muito devemos ao
apoio e ao prestígio de vocês. Esta semana, apresentamos a primeira de duas
partes de uma nova retrospectiva dedicada ao eterno Rei da Voz, Francisco de
Moraes Alves.
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de agosto de 1898 e
tragicamente falecido em acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra,
na altura de Pindamonhangaba, SP (seu carro, um Buick, chocou-se com um
caminhão que entrara na contramão, e se incendiou), em 27 de setembro de 1952,
Francisco Alves deixou a maior discografia em 78 rpm da história de nossa
música popular, e gravou somente nesse formato: foram 524 discos com 983
fonogramas! Uma carreira que começou em 1919, numa modesta gravadora de fundo
de quintal, a Disco Popular, para a qual foi levado pelo compositor Sinhô. Em
sua estreia, Chico gravou três músicas de Sinhô: a marchinha “O pé de anjo”
(sucesso no carnaval de 1920) e os sambas “Fala, meu louro” e “Alivia estes
olhos”. O cantor só teria nova oportunidade em disco na Odeon, em 1924,
gravando quatro músicas, também carnavalescas, que não obtiveram êxito. E é a
partir de 1927, com a implantação do sistema elétrico de gravação, substituindo
o mecânico, que Chico Viola desponta de vez para a popularidade. Aliás, gravava
na Odeon como Francisco Alves e na Parlophon, sua subsidiária, como Chico
Viola. É na “marca do templo” que se passará quase toda a sua carreira
fonográfica, com breves saídas para a RCA Victor (1934 a 1937) e para a
Columbia, futura Continental (1939 a 1941).
Desta longa e vitoriosa trajetória de Chico Alves em disco,
foram escaladas para este primeiro volume catorze joias de seu repertório.
Abrindo-a, o samba “Me faz carinhos”, lançado pela Odeon em janeiro de 1928
para o carnaval, disco 10100-B, matriz 1480, dado como sendo de exclusiva
autoria de Chico, mas que na verdade é de Ismael Silva, de quem o Rei da Voz o
comprou (Ismael queria o dinheiro no ato, por necessidade imediata), e ele
também o interpretaria na revista “Você quer é carinho”, encenada no Teatro
Carlos Gomes. No acompanhamento, a Orquestra Pan American do Cassino Copacabana,
dirigida pelo palestino Simon Bountman, e também conhecida como Orquestra
Copacabana, Simão Nacional Orquestra e Orquestra Parlophon (tudo a mesma
coisa...). A faixa 2 é “Não é isso que eu procuro”, outra parceria de Chico
Alves com Ismael Silva,dedicada ao maestro Martinez Grau, lançada em setembro
do mesmo ano com o número 10251-B, matriz 1876, tendo no acompanhamento a
Orquestra Rio Artists. O cantor também interpretou esse samba em duas revistas
encenadas no Teatro Carlos Gomes: “Eu quero é nota”, em dueto com Célia
Zenatti, sua primeira mulher, e outra também chamada “Não é isso que eu
procuro”. “Deixa essa mulher chorar” faz parte da antológica série de gravações
que Chico fez em dupla com Mário Reis, datada de 9 de setembro de 1930 com
lançamento em dezembro do mesmo ano, disco 10715-A, matriz 3969. Oficialmente o
samba é de Sílvio Fernandes, o Brancura (c.1908-1935), malandro histórico do
Estácio, que ganhou seu apelido por sua cor negra reluzente, mas segundo Bucy
Moreira, era de Maciste da Mangueira, que deu parceria a Brancura. “Apanhando
papel”, gravação de 30 de janeiro de 1931, lançada em março do mesmo ano com o
número 10767-A, matriz 4124, é de Getúlio Marinho da Silva, o Amor (Salvador,
BA, 1889-Rio de Janeiro, 1964) e Ubiratan da Silva. Foi escalado também o lado
B, “Ironia”, do próprio Chico Alves em parceria com Ismael Silva e Nílton
Bastos, matriz 4136. Nesse disco, o acompanhamento é dos Bambas do Estácio, e o
bandolim é provavelmente do mestre Luperce Miranda. “Nem é bom falar”, que vem
antes de “Ironia” em nossa seleção, é do mesmo trio de autores e com o mesmo
acompanhamento, gravação de 27 de novembro de 1930, lançada em janeiro de 31
com o número 10755-A, matriz 4067, e um dos hits do carnaval desse ano. Ao
ouvir o verso “Eu quero uma mulher bem nua”, durante apresentação do cantor na
Rádio Sociedade, seu proprietário, Roquette Pinto, também pioneiro da
radiodifusão no Brasil, comentou: “Todos nós queremos, mas não é preciso
dizer”... A santíssima trindade Chico
Alves-Ismael Silva-Nílton Bastos também assina “É bom evitar”, samba lançado
pela “marca do templo” em setembro de 1931 com o número 10837-A, matriz 4271. A
marchinha “Gosto mas não é muito” saiu pela Parlophon em dezembro de 1931, com
vistas ao carnaval de 32, com o número 13375-A, matriz 131302. É creditada a
Francisco Alves e Ismael Silva, mas sua segunda parte foi composta por Noel
Rosa, não creditado nem no disco nem na edição. Nessa época, o governo
provisório de Getúlio Vargas admitia milhares de correligionários no serviço
público, a ponto de, para brecar novos pedidos, em tempos de crise profunda,
ser exigido dos postulantes requerimento estampilhado, com foto e selos, daí o
verso “Traz o retrato e a estampilha”. Temos também o lado B, matriz 131308:
“Amar”, samba do próprio Chico mais Ismael Silva e Nílton Bastos, este último
não creditado na edição. Do Parlophon 13377, também lançado em dezembro de 1931
para o carnaval de 32, temos o lado A, matriz 131306: o samba “Sonhei”, do
mesmo trio de autores da faixa anterior. Chico Alves e Ismael Silva assinam a
faixa seguinte, o samba “Gandaia”, gravação Odeon de 23 de março de 1932,
lançada em maio do mesmo ano, disco 10906-B, matriz 4420. Da parceria Noel
Rosa-Ismael Silva é o samba “Ando cismado”, gravação de 27 de outubro de 1932,
lançada em dezembro seguinte com o número 10936-A, matriz 4532. Para encerrar,
duas faixas do período final de Chico Alves na Odeon, ambas canções visando as
festas natalinas, e gravadas em 5 de dezembro de 1950, porém só lançadas um ano
mais tarde, dezembro de 51, com o número 13198: “Sinos de Natal” (lado B,
matriz 8877), de Victor Simon (autor dos clássicos “Bom dia, café” e “O
vagabundo”) e Wilson Roberto, e a “Canção de Natal do Brasil”, parceria do
próprio Rei da Voz com David Nasser e Felisberto Martins, na época diretor
artístico da “marca do templo” (lado A, matriz 8876). Embora ainda estejamos
longe do Natal, as faixas são apropriadas para encerrar a primeira parte deste
nosso retrospecto. Semana que vem a gente se encontra com mais Chico Alves. Até
lá!
Texto de SAMUEL MACHADO FILHO.