ATENÇÃO PARA O TOQUE!

ESTA É UMA VERSÃO PARA AS PRODUÇÕES CRIADAS NO BLOG TOQUE MUSICAL. AQUI PODERÃO SER ENCONTRADAS AS CRIAÇÕES EXCLUSIVAS QUE INICIALMENTE SÃO POSTADAS POR LÁ.
PARA TER ACESSO AOS ARQUIVOS, VOCÊ PRECISA ESTAR ASSOCIADO AO GTM (GRUPO DO TOQUE MUSICAL). CLIQUE AQUI PARA SE INSCREVER. SEJA BEM VINDO!
Mostrando postagens com marcador Nuno Roland. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nuno Roland. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de março de 2020

Cantores No Carnaval – Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 154 (2020)



O Grand Record Brazil chega ao seu volume 154. E, como os dois anteriores, dedicado ao carnaval, trazendo 15 faixas raras nas vozes de intérpretes masculinos. Iniciando esta seleção, duas faixas com Francisco Alves, “o rei da voz”, ambas sucessos do carnaval de 1936, e com acompanhamento dos Diabos do Céu, de Pixinguinha. A primeira é a marchinha “A.M.E.I.”, de Nássara e Eratóstenes Frazão, cujos primeiros compassos estão calcados na ária “E lucevan le stelle”, da ópera “Tosca”, de Giacomo Puccini, composta em 1900. Gravação Victor de 7 de janeiro de 1936, uma terça-feira, lançada bem em cima da folia, em fevereiro, com o número 34033-B, matriz 80078. Chico Alves também cantou a música no filme “Alô, alô, carnaval”, da Cinédia. Na mesma sessão de estúdio, Chico gravou o “samba tristonho” “Comprei uma fantasia de Pierrô”, de Lamartine Babo e Alberto Ribeiro. A Victor o lançou, também em fevereiro de 36, sob número 34024-B, matriz 80079. Na faixa 3, Carlos Galhardo, “o cantor que dispensa adjetivos”, apresenta a marchinha “Girassol”, do carnaval de 1952, de autoria de Haroldo Lobo, Mílton de Oliveira e Wilson Frade. Gravação RCA Victor de 6 de setembro de 51, uma quinta-feira, lançada ainda em dezembro sob número 80-0844-A, matriz S-093062. Em seguida, duas faixas com Orlando Silva, “o cantor das multidões”. A primeira é a marchinha “Lero-lero”, de Benedito Lacerda e Eratóstenes Frazão, sucesso no carnaval de 1942, e com participação especial de Dalva de Oliveira, não creditada no selo original. Gravação Victor de 7 de outubro de 41, uma terça-feira, lançada ainda em dezembro com o número 34841-A, matriz S-052381. Em seguida, Orlando interpreta a marchinha “Carioca”, de Arlindo Marques Jr., Roberto Roberti e Eratóstenes Frazão, do carnaval de 1940. Também gravação Victor, esta de 24 de outubro de 39, uma terça-feira, lançada ainda em dezembro com o número 34536-A, matriz 33242. Na faixa 6, temos Nélson Gonçalves com o samba “Sabiá de Mangueira”, sucesso no carnaval de 1944, de autoria de Benedito Lacerda e Eratóstenes Frazão. Gravação Victor de 6 de outubro de 43, uma quarta-feira, lançada ainda em dezembro com o número 80-0134-A, matriz S-052842. Na faixa 7, Nuno Roland interpreta o samba “Seja o que Deus quiser”, de Mário Morais e Vadico, do carnaval de 1938. Gravação Odeon de 3 de outubro de 37, um domingo (!), lançada ainda em dezembro sob número 11546-A, matriz 5681. Na faixa 8, temos o primeiro grande sucesso de Jorge Veiga, “o caricaturista do samba”. É “Iracema”, samba de Raul Marques e Otolindo Lopes, gravação Odeon de 3 de fevereiro de 1944, uma quinta-feira, só lançada após o carnaval, em março, sob número 12428-B, matriz 7482. Na faixa 9, Gastão Formenti, acompanhado pelos Diabos do Céu, interpreta a marchinha “Coração na boca”, do carnaval de 1936, de exclusiva autoria de Oswaldo Santiago. Gravação Victor de 3 de dezembro de 35, uma terça-feira, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob número 34004-A, matriz 80028. Na faixa 10, Almirante, “a maior patente do rádio”, interpreta a marchinha “O cantar do galo”, do carnaval de 1938, de autoria de Benedito Lacerda e Darcy de Oliveira. Gravação Odeon de 25 de novembro de 37, uma quinta-feira, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob número 11562-B, matriz 5713. Na faixa 11, volta Orlando Silva, desta vez cantando a marchinha “A voz do povo”, de Francisco Malfitano e Eratóstenes Frazão, do carnaval de 1941. Gravação Victor de 10 de dezembro de 40, uma terça-feira, lançada bem em cima da folia, em fevereiro, sob número 34712-B, matriz 52071. Na faixa 12, temos o primeiro grande sucesso do cantor Albertinho Fortuna, que mais tarde se especializaria em música romântica, especialmente tangos: é a “Marcha dos gafanhotos”, de Roberto Martins e Eratóstenes Frazão, merecido êxito no carnaval de 1947. Gravação RCA Victor de 22 de outubro de 46, uma terça-feira, lançada um mês antes da folia, em janeiro, sob número 80-0489-A, matriz S-078631. Na faixa 13, volta Carlos Galhardo, desta vez apresentando o maior sucesso do carnaval de 1941: uma valsa! Por sinal, muito bem feita e divertida. É “Nós queremos uma valsa”, de Nássara e Eratóstenes Frazão, que Galhardo também interpretou no filme “Vamos cantar”, da Pan-América Filmes. Gravação Victor de 21 de dezembro de 40, um sábado (!), lançada bem em cima da folia, em fevereiro, sob número 34708-A, matriz 52089. Na faixa 14, volta Almirante, agora com o samba “Criança, toma juízo”, do carnaval de 1935 (que caiu em março), de autoria do flautista Benedito Lacerda (que também faz o acompanhamento com seu regional) em parceria com Russo do Pandeiro. Gravação Victor de 6 de dezembro de 34, uma quinta-feira, lançada dois meses antes da folia, em janeiro, sob número 33890-B, matriz 79798. E, para finalizar, Sílvio Caldas apresenta outro samba de sucesso do carnaval de 1935, “Eu sonhei”, com a respeitável assinatura de Ary Barroso. Gravação Odeon de 9 de novembro de 34, uma sexta-feira, lançada ainda em dezembro sob número 11178-B, matriz 4944. E nos próximos volumes teremos muito mais carnaval. Até lá!


a m e i - francisco alves
comprei uma fantasia de pierrot - francisco alves
girassol - carlos galhardo
lero-lero - orlando silva
sabiá de mangueira - nelson gonçalves
seja o que deus quiser - nuno roland
iracema - jorge veiga
coração na boca - gastão formenti
o cantor do galo - almirante
a voz do povo - orlando silva
marcha dos gafanhotos - albertinho fortuna
nós queremos uma valsa - carlos galhardo
criança toma juízo - almirante
eu sonhei - silvio caldas


*Texto de Samuel Machado Filho 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Nuno Roland - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 107 (2014)




A centésima-sétima edição do Grand Record Brazil é dedicada a um dos maiores cantores da era de ouro do rádio brasileiro. Estamos falando de Nuno Roland. Nosso focalizado veio ao mundo na cidade de Joinville, Estado de Santa Catarina, no dia primeiro de março de 1913, batizado com o nome de Reinold Correia de Oliveira. Ainda menino, ele tocava tarol e caixa na banda da cidade de Teixeira Soares, no Paraná. Aos 13 anos, mudou-se com a família para outra cidade catarinense, Porto União, tendo trabalhado como balconista, telegrafista e bancário. Após servir o exército, em 1931, transferiu-se para a cidade gaúcha de Passo Fundo, onde começou sua carreira, conseguindo emprego de cantor e baterista em um cassino, e apresentando-se com seu nome verdadeiro, Reinold de Oliveira. Em 1932, alistou-se como voluntário no Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, para entrar em combate na Revolução Constitucionalista daquele ano. Veio com sua tropa para São Paulo, e na ocasião fez amizade com outro soldado, então crooner da jazz band do batalhão: nada mais nada menos que Lupicínio Rodrigues, posteriormente célebre compositor. Encerrada a Revolução, o cantor voltou a Porto Alegre, e, com apenas 19 anos, assinou seu primeiro contrato profissional, com a Rádio Gaúcha, posto ter se destacado como cantor em uma apresentação radiofônica da jazz band do batalhão em que estava lotado. Em 1934, muda-se para São Paulo, onde fez sucesso apresentando-se inicialmente na Rádio Record (então “a maior”), recebendo pequenos cachês. Mais tarde,com o apoio do violonista Garoto, consegue um contrato com a Rádio Educadora Paulista.  E é nessa ocasião que passa a adotar o nome artístico pelo qual ficou conhecido em todo o Brasil: Nuno Roland.  Ainda em 1934, grava seu primeiro disco, na Odeon, com duas composições de Sivan Castelo Neto (pseudônimo de Ulysses Lelot Filho):  a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê”.  Dois anos mais tarde, Nuno muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se um dos pioneiros da PRE-8, Rádio Nacional, onde estreia no dia de sua inauguração, 12 de setembro de 1936. Durante onze anos foi também crooner da orquestra do Copacabana Palace Hotel.  Em cerca de quarenta anos de carreiro, Nuno Roland gravou ainda nos selos  Columbia, Victor, Belacap, Carroussel, Caravelle, Todamérica  e Continental. Nesta última marca, ele viveu a melhor fase de sua carreira, registrando inúmeros sucessos, no carnaval e no meio-de-ano. Seu currículo também inclui duetos com Cármen Miranda, Linda Batista e Emilinha Borba. Integrou ainda, juntamente com Albertinho Fortuna e Paulo Tapajós,o Trio Melodia, formado na Nacional para apoio do superprograma “Um milhão de melodias”, e as carreiras individuais de seus integrantes prosseguiriam sem quaisquer problemas. As participações de Nuno nos programas musicais da emissora da Praça Mauá eram consideradas de alta qualidade artística. Sua atividade artística declinou na década de 1960, gravando esporadicamente nesse período. Em 1968, participou, ao lado de Marlene e Blecaute, do espetáculo “Carnavália”, que ficou em cartaz no Rio por quase um ano.  Nuno Roland faleceu em 20 de dezembro de 1975, também no Rio, aos 62 anos. De sua gloriosa trajetória fonográfica, o GRB foi buscar dezoito faixas, notáveis exemplos de sua arte, assinadas por alguns de nossos maiores compositores populares.  Pedro Caetano, por exemplo, assina a faixa de abertura, “Guarapari”, célebre canção que homenageia a cidade do litoral do Espírito Santo famosa pelas suas praias com areias monazíticas. Nuno Roland a imortalizou na Todamérica em 8 de março de 1951, com lançamento em abril seguinte sob n.o TA-5053-B, matriz TA-102.  A faixa seguinte é um clássico imortal do carnaval brasileiro: a marchinha “Pirata da perna de pau”, uma das mais expressivas contribuições do grande João de Barro, o Braguinha, para o repertório momesco , aliás Nuno Roland  foi um dos melhores intérpretes do compositor. Imortalizada por ele na Continental em 3 de setembro de 1946, com lançamento em novembro seguinte sob n.o 15727-A,matriz 1591, “Pirata da perna de pau” foi merecido sucesso no carnaval de 47, sendo lembrada até hoje com muita, muita justiça. “Cai, sereno”, a faixa 3,é um batuque assinado por outro mestre, Assis Valente: “Cai, sereno”, que Nuno registrou na Odeon em 18 de maio de 1939, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11734-A, matriz 6094. O samba “Covardia”, que encontraremos logo em seguida, é de uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Mário Lago. Foi, aliás,o primeiro trabalho conjunto deles, de uma série de oito, entre eles os clássicos “Ai, que saudade da Amélia” e “Atire a primeira pedra”. Nuno gravou “Covardia”,também na Odeon, em 16 de agosto de 1938, com lançamento em outubro seguinte sob n.o 11646-B, matriz 5903. E quem nunca entoou aquela famosa música do “Lobo mau” (“Eu sou o lobo mau, lobo mau,lobo mau”...), da história de Chapeuzinho Vermelho, tão bem adaptada e musicada por Braguinha? Pois ele a reaproveita, junto com Antônio Almeida, na faixa 5, como marchinha para o carnaval de 1951, que Nuno Roland, à frente do já citado Trio Melodia, lançará na Continental em janeiro desse ano, disco 16344-A, matriz 2475. Outro presente de Ataulfo Alves para Nuno, agora tendo Jorge Faraj na parceria, é essa joia de valsa, “Mil corações”, que o cantor grava na Odeon em  28 de março de 1938,com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11603-A,matriz 5747. O beguine “Ballerina”, de Carl Sigman e Bob Russell, foi publicado nos EUA em 1947, tendo merecido gravações por Nat King Cole e Bing Crosby, entre outros.  Dois anos mais tarde, Oswaldo Santiago escreve a letra brasileira, com o título de “Bailarina” mesmo, para Nuno Roland gravar na Continental, com lançamento entre julho e setembro de 1949,sob n.o 16087-A, matriz 2102. Raridade absoluta é também o samba  “Dia dos meninos”,  da parceria Wilson Batista-Jorge de Castro, provavelmente gravado por Nuno Roland em 1960, numa etiqueta de curta duração, a Popular, tendo o disco recebido o número 0011-A,matriz DPM-21. “Peixe vivo”, motivo do folclore mineiro, e por sinal a música favorita de Juscelino Kubitschek de Oliveira, político nascido em Diamantina que chegou à presidência da República (governou de 1956 a 1961), é aqui apresentada por Nuno Roland em tempo de baião, ritmo então na moda, num arranjo de Antônio Almeida. Gravação Todamérica de 26 de junho de 1951, lançada em agosto seguinte com o número TA-5084-A, matriz TA-169. A dupla Alcebíades “Bide” Barcellos-Armando Marçal , responsável por clássicos como “Agora é cinza”, “Ando sofrendo” e “Barão das cabrochas”, aqui comparece com o samba “Perdão, meu bem”, que Nuno Roland grava na Odeon em 3 de novembro de 1939 para o carnaval de 40, sendo lançado um mês antes da folia, em janeiro, com o número 11807-B, matriz 6245. O famoso tango “Por ti eu me rasgo todo (Por vos yo me rompo todo)”, do uruguaio Francisco Canaro  (que, a exemplo do francês Carlos Gardel, fez carreira na Argentina), ganha aqui uma versão em ritmo de samba, com letra brazuca de César Siqueira, que Nuno Roland irá registrar também na Odeon em 5 de setembro de 1939, indo para as lojas em novembro com o n.o 11781-A,matriz 6191. Em seguida, por intermédio de Luiz Bittencourt e Murilo Caldas (irmão de Sílvio), Nuno Roland pergunta em ritmo de samba: “Quem  é que está com a razão?” Gravado na Continental em 3 de setembro de 1946, permaneceu, no entanto, quase um ano na gaveta, e só saiu em julho de 47 sob n.o 15787-A, matriz 1590. O samba do lado B, que vem logo em seguida, foi gravado em 2 de maio de 1947, matriz 1655, é mais um clássico imortal de Braguinha, aqui com seu inseparável parceiro Alberto Ribeiro: o belíssimo “Fim de semana em Paquetá”, sob medida para a notável interpretação de Nuno Roland, devidamente acompanhado pela orquestra de cordas de Eduardo Patané (a mesma do registro original de “Copacabana”, com Dick Farney). Até hoje é bastante conhecido e tem inúmeras regravações. Também de Braguinha e Alberto Ribeiro é outra antológica marchinha carnavalesca: “Tem gato na tuba”, da folia de 1948, que Nuno Roland imortaliza na mesma Continental em 23 de setembro de 47, com lançamento ainda em dezembro sob n.o 15843-B, matriz 1727. Vencedora do concurso oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, “Tem gato na tuba” foi também interpretada por Nuno Roland no filme “Esta é fina”, e jamais seria esquecida, tendo regravação até mesmo pela Turma do Balão Mágico!  Outra raridade é “Volta”, samba-canção de Radamés Gnattali e Luiz Bittencourt, que Nuno Roland lança em 1953 no LP coletivo de dez polegadas “Show”, da Musidisc  de Nilo Sérgio, por sinal uma das gravadoras pioneiras do vinil, e que encerrou definitivamente suas atividades em 2013. Braguinha, agora sem parceiro, é o responsável por outra imortal página carnavalesca:  a marchinha “Serenata chinesa”, um dos hits da folia de 1949, que Nuno imortaliza na Continental em 13 de outubro de 48 e vai para as lojas um mês antes do carnaval, em janeiro, com o número 15971-A, matriz 1983. Da santíssima trindade Wilson Batista-Claudionor Cruz-Pedro Caetano é o samba “Senhor do Bonfim te enganou”, dueto de Nuno Roland com Dircinha Batista, em gravação Odeon de 5 de outubro de 1939, só lançada em maio de 40, disco 11834-B, matriz 6240. Para encerrar com chave de ouro, outro grande hit carnavalesco de João “Braguinha” de Barro: “Tem marujo no samba”, em que Nuno Roland tem a notável companhia da eterna “Favorita”, Emilinha Borba.  Um dos hits do carnaval de 1949, por sinal um dos mais ricos musicalmente, foi gravado na Continental em 13 de outubro de 48, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 15980-B, matriz 1994, tendo sido também apresentada no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. Não poderia haver melhor fecho para esta brilhante retrospectiva que o GRB dedica a Nuno Roland. Divirtam-se e até a próxima!

Texto de Samuel Machado Filho

.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Era Getúlio Vargas - Seleção 78 RPM Do Toque Musical - Vol.19 (2012)


Nenhum outro presidente da República no Brasil ficou tanto tempo no poder quanto o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas (São Borja, RS-1882-Rio de Janeiro, 1954). Ele chegou à presidência em 1930, após a deposição de Washington Luís, de quem ironicamente havia sido ministro da Fazenda, e consequente fim da “política café com  leite”, em que São Paulo e Minas Gerais se.alternavam no comando da Nação. Daí em diante, ficou quinze anos ininterruptos, até ser deposto em 1945. Em 1951, Getúlio voltou ao poder, desta vez pelo voto direto, mas em virtude de forte oposição a seu governo (no qual inclusive foi criada a Petrobrás), acabou se suicidando no dia 24 de agosto de 1954, provocando comoção geral em todo o país. Somando-se esses dois períodos, Getúlio ficou no poder durante dezoito anos e sete meses, um recorde absoluto.
O Grand Record Brazil começa hoje a nos transportar para esse que foi um dos mais importantes períodos da História brasileira: a era getulista. Tudo começa com a derrota de Getúlio Vargas para Júlio Prestes, na eleição de 1930. A 26 de julho daquele ano, João Pessoa, candidato a vice na chapa derrotada, foi assassinado a tiros na Confeitaria A Glória, do Recife, por seu desafeto João Dantas, por motivos estritamente pessoais. Apesar disso, a oposição transformou o fato em instrumento político, jogando o povo contra o governo. Daí nasce a Aliança Liberal, formada pelos estados do Rio Grande do Sul, da Paraíba e de Minas Gerias, que depõe Washington Luíz e põe Getúlio no poder, a famosa Revolução de 30.
O disco que abre nossa seleção musical desta semana é o Columbia 5117, lançado em dezembro de 1929, com duas marchinhas de Hekel Tavares e Luiz Peixoto (parceiros na clássica canção “Casa de caboclo”) para o carnaval de 30, interpretadas pelo paulistano Jayme Redondo (1890-1952), com acompanhamento de grupo regional, e que refletem muito bem os momentos acirrados da sucessão de Washington Luís.  No lado A, a matriz 380430 apresenta “Harmonia! Harmonia!”, e o verso, matriz 380431, “Comendo bola”. Nessas duas músicas, há todo um rico documentário político de fatos e personagens: Barbado (Washington Luís), Antônio Carlos (então governador mineiro), as cartas turcas, 17 Estados a favor de Prestes e só três contra, etc. “Comendo bola” é nitidamente a favor de Júlio Prestes: “Getúlio, você tá comendo bola/ Não te mete com seu Júlio/ Não te mete com seu Júlio/ que seu Júlio tem escola”.
Evidentemente, por questão de bom senso, mostramos aqui também o outro lado, ou seja, o dos getulistas. Vitoriosa a Revolução de 30, com Getúlio já no poder, Lamartine Babo lança, para o carnaval de 1931, a marchinha “G-E-Gê (Seu Getúlio)”, fazendo velada propaganda do novo chefe da nação, com a exaltação da nova ordem para o povo brasileiro, a mudança custe o que custar. Possivelmente teria sido executada como “jingle” político na construção do apoio ao golpe contra Prestes. Almirante e o Bando de Tangarás ficaram incumbidos de lançá-la, pela Parlophon, em janeiro de 1931, no disco 13274-B, matriz 131057, com acompanhamento da Orquestra Guanabara.
Seis anos mais tarde, durante o chamado “governo provisório” getulista, fala-se na possibilidade de eleições para a escolha do sucessor de Getúlio na presidência, com dois fortes candidatos: o então governador de São Paulo Armando Salles de Oliveira (o seu Manduca), este com a candidatura já lançada, e o ministro Osvaldo Aranha (o seu Vavá), que na verdade nem sequer chegou a se candidatar. A 28 de novembro de 1936, Sílvio Caldas grava na Odeon, para o carnaval de 37, com lançamento em janeiro (11450-A, matriz 5468), a marchinha “A menina presidência”, de Nássara e Cristóvão de Alencar, vencedora de um concurso chamado “Quem será o homem?”, antecipando o desfecho nos versos finais do estribilho: “Na hora H quem vai ficar é seu Gegê”. E, de fato, as eleições não aconteceram, pois a 10 de novembro de 1937, Getúlio implanta no país o Estado Novo, com maior centralização do poder, ficando na presidência até sua deposição, em 1945.
Do Estado Novo já é a faixa seguinte, a marchinha “Glórias do Brasil”, de Zé Pretinho e Antônio Gilberto dos Santos. Foi gravada na Odeon em 16 de agosto de 1938, com lançamento em outubro seguinte com o número 11646-A, matriz 5902, na interpretação de Nuno Roland (Reinold Correia de Oliveira, 1913-1975), catarinense de Joinville, então em princípio de carreira. É uma verdadeira exaltação de cunho patriótico ao então chefe da Nação.
Mais tarde, seguindo o exemplo do governo fascista italiano, Getúlio decreta o aumento do imposto de renda dos solteiros, e incentiva com benefícios as famílias numerosas. Isso inspira o  poeta de Miraí, Ataulfo Alves, a compor com Felisberto Martins o samba “É negócio casar!”, que ele próprio grava na Odeon em 12 de junho de 1941, com acompanhamento da orquestra do maestro Fon-Fon (Otaviano Romero Monteiro), sendo o disco lançado em outubro seguinte com o número 12047-A, matriz 6686. Uma autêntica e interessante crônica.
Um ano mais tarde, foi lançado um sem número de canções patrióticas, refletindo a tensão provocada pela Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939  e que já preocupava e afetava o Brasil, visando levantar o orgulho e a consciência nacionais. Dessa época é o samba “Brasil brasileiro”, gravado por Carlos Galhardo na Victor com acompanhamento da orquestra do maestro Passos, em 9 de junho de 1942, com lançamento em agosto seguinte, disco 34951-A, matriz S-052546. Pouco tempo antes, em maio de 42, a Columbia lançou, na voz de Déo (Ferjallah Rizkallah, “o ditador de sucessos”), acompanhado por Chiquinho e seu ritmo, o samba “O sorriso do presidente”, de Alcyr Pires Vermelho e Alberto Ribeiro, disco 55336-A, matriz 525. Nesse mesmo ano, por força do torpedeamento de navios mercantes brasileiros, o Brasil declarava guerra aos países do Eixo, Alemanha, Itália e Japão, assim entrando no conflito.
Finalizando esta primeira parte, temos o grande Moreira da Silva, o eterno Kid Morenguera, inimitável rei do samba de breque, interpretando, de Henrique Gonçalez, “Diplomata”, gravado na Odeon em primeiro de outubro de 1942, com a declaração brasileira de guerra já consumada,  e lançamento em janeiro de 43 sob número 12252-A, matriz 7075. Devidamente acompanhado pelo regional do multi-instrumentista Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, 1915-1955, autor de “Duas contas”, “São Paulo quatrocentão” e “Gente humilde”), Moreira exalta a figura de Getúlio, um “homem de fibra”, e conclama o povo brasileiro à luta.
Enfim, são autênticas crônicas musicais desse período importante de nossa História. E fiquem ligados, pois semana que vem tem mais. Até lá!

TEXTO DE SAMUEL MACHADO FILHO