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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Nuno Roland - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 107 (2014)




A centésima-sétima edição do Grand Record Brazil é dedicada a um dos maiores cantores da era de ouro do rádio brasileiro. Estamos falando de Nuno Roland. Nosso focalizado veio ao mundo na cidade de Joinville, Estado de Santa Catarina, no dia primeiro de março de 1913, batizado com o nome de Reinold Correia de Oliveira. Ainda menino, ele tocava tarol e caixa na banda da cidade de Teixeira Soares, no Paraná. Aos 13 anos, mudou-se com a família para outra cidade catarinense, Porto União, tendo trabalhado como balconista, telegrafista e bancário. Após servir o exército, em 1931, transferiu-se para a cidade gaúcha de Passo Fundo, onde começou sua carreira, conseguindo emprego de cantor e baterista em um cassino, e apresentando-se com seu nome verdadeiro, Reinold de Oliveira. Em 1932, alistou-se como voluntário no Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, para entrar em combate na Revolução Constitucionalista daquele ano. Veio com sua tropa para São Paulo, e na ocasião fez amizade com outro soldado, então crooner da jazz band do batalhão: nada mais nada menos que Lupicínio Rodrigues, posteriormente célebre compositor. Encerrada a Revolução, o cantor voltou a Porto Alegre, e, com apenas 19 anos, assinou seu primeiro contrato profissional, com a Rádio Gaúcha, posto ter se destacado como cantor em uma apresentação radiofônica da jazz band do batalhão em que estava lotado. Em 1934, muda-se para São Paulo, onde fez sucesso apresentando-se inicialmente na Rádio Record (então “a maior”), recebendo pequenos cachês. Mais tarde,com o apoio do violonista Garoto, consegue um contrato com a Rádio Educadora Paulista.  E é nessa ocasião que passa a adotar o nome artístico pelo qual ficou conhecido em todo o Brasil: Nuno Roland.  Ainda em 1934, grava seu primeiro disco, na Odeon, com duas composições de Sivan Castelo Neto (pseudônimo de Ulysses Lelot Filho):  a valsa “Pensemos num lindo futuro” e a canção “Cantigas de quem te vê”.  Dois anos mais tarde, Nuno muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se um dos pioneiros da PRE-8, Rádio Nacional, onde estreia no dia de sua inauguração, 12 de setembro de 1936. Durante onze anos foi também crooner da orquestra do Copacabana Palace Hotel.  Em cerca de quarenta anos de carreiro, Nuno Roland gravou ainda nos selos  Columbia, Victor, Belacap, Carroussel, Caravelle, Todamérica  e Continental. Nesta última marca, ele viveu a melhor fase de sua carreira, registrando inúmeros sucessos, no carnaval e no meio-de-ano. Seu currículo também inclui duetos com Cármen Miranda, Linda Batista e Emilinha Borba. Integrou ainda, juntamente com Albertinho Fortuna e Paulo Tapajós,o Trio Melodia, formado na Nacional para apoio do superprograma “Um milhão de melodias”, e as carreiras individuais de seus integrantes prosseguiriam sem quaisquer problemas. As participações de Nuno nos programas musicais da emissora da Praça Mauá eram consideradas de alta qualidade artística. Sua atividade artística declinou na década de 1960, gravando esporadicamente nesse período. Em 1968, participou, ao lado de Marlene e Blecaute, do espetáculo “Carnavália”, que ficou em cartaz no Rio por quase um ano.  Nuno Roland faleceu em 20 de dezembro de 1975, também no Rio, aos 62 anos. De sua gloriosa trajetória fonográfica, o GRB foi buscar dezoito faixas, notáveis exemplos de sua arte, assinadas por alguns de nossos maiores compositores populares.  Pedro Caetano, por exemplo, assina a faixa de abertura, “Guarapari”, célebre canção que homenageia a cidade do litoral do Espírito Santo famosa pelas suas praias com areias monazíticas. Nuno Roland a imortalizou na Todamérica em 8 de março de 1951, com lançamento em abril seguinte sob n.o TA-5053-B, matriz TA-102.  A faixa seguinte é um clássico imortal do carnaval brasileiro: a marchinha “Pirata da perna de pau”, uma das mais expressivas contribuições do grande João de Barro, o Braguinha, para o repertório momesco , aliás Nuno Roland  foi um dos melhores intérpretes do compositor. Imortalizada por ele na Continental em 3 de setembro de 1946, com lançamento em novembro seguinte sob n.o 15727-A,matriz 1591, “Pirata da perna de pau” foi merecido sucesso no carnaval de 47, sendo lembrada até hoje com muita, muita justiça. “Cai, sereno”, a faixa 3,é um batuque assinado por outro mestre, Assis Valente: “Cai, sereno”, que Nuno registrou na Odeon em 18 de maio de 1939, com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11734-A, matriz 6094. O samba “Covardia”, que encontraremos logo em seguida, é de uma dupla “braba”, Ataulfo Alves e Mário Lago. Foi, aliás,o primeiro trabalho conjunto deles, de uma série de oito, entre eles os clássicos “Ai, que saudade da Amélia” e “Atire a primeira pedra”. Nuno gravou “Covardia”,também na Odeon, em 16 de agosto de 1938, com lançamento em outubro seguinte sob n.o 11646-B, matriz 5903. E quem nunca entoou aquela famosa música do “Lobo mau” (“Eu sou o lobo mau, lobo mau,lobo mau”...), da história de Chapeuzinho Vermelho, tão bem adaptada e musicada por Braguinha? Pois ele a reaproveita, junto com Antônio Almeida, na faixa 5, como marchinha para o carnaval de 1951, que Nuno Roland, à frente do já citado Trio Melodia, lançará na Continental em janeiro desse ano, disco 16344-A, matriz 2475. Outro presente de Ataulfo Alves para Nuno, agora tendo Jorge Faraj na parceria, é essa joia de valsa, “Mil corações”, que o cantor grava na Odeon em  28 de março de 1938,com lançamento em julho do mesmo ano, disco 11603-A,matriz 5747. O beguine “Ballerina”, de Carl Sigman e Bob Russell, foi publicado nos EUA em 1947, tendo merecido gravações por Nat King Cole e Bing Crosby, entre outros.  Dois anos mais tarde, Oswaldo Santiago escreve a letra brasileira, com o título de “Bailarina” mesmo, para Nuno Roland gravar na Continental, com lançamento entre julho e setembro de 1949,sob n.o 16087-A, matriz 2102. Raridade absoluta é também o samba  “Dia dos meninos”,  da parceria Wilson Batista-Jorge de Castro, provavelmente gravado por Nuno Roland em 1960, numa etiqueta de curta duração, a Popular, tendo o disco recebido o número 0011-A,matriz DPM-21. “Peixe vivo”, motivo do folclore mineiro, e por sinal a música favorita de Juscelino Kubitschek de Oliveira, político nascido em Diamantina que chegou à presidência da República (governou de 1956 a 1961), é aqui apresentada por Nuno Roland em tempo de baião, ritmo então na moda, num arranjo de Antônio Almeida. Gravação Todamérica de 26 de junho de 1951, lançada em agosto seguinte com o número TA-5084-A, matriz TA-169. A dupla Alcebíades “Bide” Barcellos-Armando Marçal , responsável por clássicos como “Agora é cinza”, “Ando sofrendo” e “Barão das cabrochas”, aqui comparece com o samba “Perdão, meu bem”, que Nuno Roland grava na Odeon em 3 de novembro de 1939 para o carnaval de 40, sendo lançado um mês antes da folia, em janeiro, com o número 11807-B, matriz 6245. O famoso tango “Por ti eu me rasgo todo (Por vos yo me rompo todo)”, do uruguaio Francisco Canaro  (que, a exemplo do francês Carlos Gardel, fez carreira na Argentina), ganha aqui uma versão em ritmo de samba, com letra brazuca de César Siqueira, que Nuno Roland irá registrar também na Odeon em 5 de setembro de 1939, indo para as lojas em novembro com o n.o 11781-A,matriz 6191. Em seguida, por intermédio de Luiz Bittencourt e Murilo Caldas (irmão de Sílvio), Nuno Roland pergunta em ritmo de samba: “Quem  é que está com a razão?” Gravado na Continental em 3 de setembro de 1946, permaneceu, no entanto, quase um ano na gaveta, e só saiu em julho de 47 sob n.o 15787-A, matriz 1590. O samba do lado B, que vem logo em seguida, foi gravado em 2 de maio de 1947, matriz 1655, é mais um clássico imortal de Braguinha, aqui com seu inseparável parceiro Alberto Ribeiro: o belíssimo “Fim de semana em Paquetá”, sob medida para a notável interpretação de Nuno Roland, devidamente acompanhado pela orquestra de cordas de Eduardo Patané (a mesma do registro original de “Copacabana”, com Dick Farney). Até hoje é bastante conhecido e tem inúmeras regravações. Também de Braguinha e Alberto Ribeiro é outra antológica marchinha carnavalesca: “Tem gato na tuba”, da folia de 1948, que Nuno Roland imortaliza na mesma Continental em 23 de setembro de 47, com lançamento ainda em dezembro sob n.o 15843-B, matriz 1727. Vencedora do concurso oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, “Tem gato na tuba” foi também interpretada por Nuno Roland no filme “Esta é fina”, e jamais seria esquecida, tendo regravação até mesmo pela Turma do Balão Mágico!  Outra raridade é “Volta”, samba-canção de Radamés Gnattali e Luiz Bittencourt, que Nuno Roland lança em 1953 no LP coletivo de dez polegadas “Show”, da Musidisc  de Nilo Sérgio, por sinal uma das gravadoras pioneiras do vinil, e que encerrou definitivamente suas atividades em 2013. Braguinha, agora sem parceiro, é o responsável por outra imortal página carnavalesca:  a marchinha “Serenata chinesa”, um dos hits da folia de 1949, que Nuno imortaliza na Continental em 13 de outubro de 48 e vai para as lojas um mês antes do carnaval, em janeiro, com o número 15971-A, matriz 1983. Da santíssima trindade Wilson Batista-Claudionor Cruz-Pedro Caetano é o samba “Senhor do Bonfim te enganou”, dueto de Nuno Roland com Dircinha Batista, em gravação Odeon de 5 de outubro de 1939, só lançada em maio de 40, disco 11834-B, matriz 6240. Para encerrar com chave de ouro, outro grande hit carnavalesco de João “Braguinha” de Barro: “Tem marujo no samba”, em que Nuno Roland tem a notável companhia da eterna “Favorita”, Emilinha Borba.  Um dos hits do carnaval de 1949, por sinal um dos mais ricos musicalmente, foi gravado na Continental em 13 de outubro de 48, com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 15980-B, matriz 1994, tendo sido também apresentada no filme “Estou aí?”, de Moacyr Fenelon. Não poderia haver melhor fecho para esta brilhante retrospectiva que o GRB dedica a Nuno Roland. Divirtam-se e até a próxima!

Texto de Samuel Machado Filho

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terça-feira, 1 de julho de 2014

João Petra De Barros - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 106 (2014)



Já estamos na centésima-sexta edição do Grand Record Brazil, o “braço de cera” do Toque Musical.  E prosseguimos esta brilhante e vitoriosa trajetória focalizando mais um grande nome da era de ouro de nossa música popular, cujo centenário de nascimento celebramos neste 2014: João Petra de Barros. Nosso focalizado veio ao mundo no dia 23 de junho de 1914, no Rio de Janeiro, e era irmão do também cantor Mário Petra de Barros. Começou sua carreira no início dos anos 1930 no “Programa Casé”, apresentado por Ademar Casé (avô de Regina Casé) na PRAX, Rádio Philips, que pertencia ao grupo holandês de mesmo nome. Em pouco tempo, João Petra se notabilizou por ter  timbre de voz parecido com o de Francisco Alves, grande astro do rádio e do disco nessa época, logo sendo cognominado  “a voz de dezoito quilates”.  Era figura constante em rodas de samba, ao lado de “cracões”  tipo Noel  Rosa, Custódio Mesquita , Chico Alves, Lamartine Babo, Benedito Lacerda, e com eles frequentava o então célebre Café da Uma Hora, na Rua São Francisco Xavier, zona norte carioca. A estreia de João Petra em disco acontece em 1933, na Odeon, com dois sambas para o carnaval desse ano,  ambos neste CD: “Quero falar com você” (Lauro dos Santos) e o clássico “Até amanhã” (Noel Rosa), ambos presentes nesta seleção e dos quais daremos mais detalhes a seguir. Um ano mais tarde, participa de um recital em benefício do Sindicato Brasileiro de Artistas de Rádio, ao lado de outros grandes cartazes da época, tais como Cármen Miranda e Custódio Mesquita, com eles também se apresentando em inúmeros programas radiofônicos  e espetáculos teatrais. Seria um dos pioneiros da Rádio Globo, fundada no Rio de Janeiro em 1944, em substituição à Rádio Transmissora, adquirida anos antes junto à antiga proprietária, a multinacional americana RCA Victor.  Mas essa carreira promissora e auspiciosa sofreria um abalo de monta exatamente no dia 22 de julho de 1946.  João Petra de Barros viajava no estribo de um bonde pela Rua da Assembleia, a caminho da Praça XV. De repente, uma caminhonete da Escola de Aeronáutica choca-se com o bonde, e atinge o terço médio da perna direita de João Petra. O cantor é logo atendido nem um pronto-socorro, mas tem sua perna amputada, fato que o traumatiza e o deixa inconsolável, a ponto de retirar-se da cena artística. Sabedora da tragédia nos EUA, onde então residia, sua amiga e colega Cármen Miranda chegou a lhe oferecer tratamento médico por lá, mas não foi possível salvá-lo. Após duas tentativas, João Petra de Barros suicidou-se no dia 11 de janeiro de 1947, com apenas 32 anos de idade. Em sua curta carreira, João Petra de Barros gravou 48 discos com 94 músicas. Desse legado, o Grand Record Brazil foi buscar as vinte e quatro faixas desta edição, muitas delas sucessos inesquecíveis, interpretados por ele com profundo sentimento. Abrindo-a, o samba “Quero falar com você”, de Lauro “Gradim” dos Santos,lado A de seu primeiro disco, o Odeon 10950, gravado em 19 de outubro de 1932 e lançado para o carnaval de 33, em janeiro, matriz 4526. Na faixa 12 está o verso do disco, um verdadeiro clássico do samba: “Até amanhã”, de Noel Rosa, matriz 4528. Noel o compôs durante uma excursão que fez pelo Sul do pais, como integrante do grupo Ases do Samba,inspirado em uma moça de cabaré por quem se apaixonou, na passagem por Porto Alegre. Sucesso estrondoso na folia de 1933, “Até amanhã” foi executado durante anos para encerrar os bailes carnavalescos. Na faixa 2, temos a valsa “Último sonho”, de Afonso Teixeira e Ari Monteiro, gravação Victor de 12 de maio de 1942, lançada em julho do mesmo ano, disco 34942-A, matriz S-052515. A faixa 3, “Canção ao microfone”, é um fox de Custódio Mesquita em parceria com o jornalista e médico Paulo Roberto, gravação Odeon de 15 de agosto de 1933, lançada em outubro do mesmo ano, disco 11058-A, matriz 4714. “Você prometeu”, a faixa seguinte, é um samba do mestre Ismael Silva em parceria com o jornalista Dan Mallio Carneiro, e João Petra o gravou na Odeon em 12 de junho de 1935, com lançamento em novembro seguinte para a folia de 36, disco 11281-B, matriz 5069. O lado A, que você vai encontrar na faixa 15, tem uma curiosidade. Trata-se da marcha-rancho “Linda pequena”, parceria de João de Barro, o Braguinha, com Noel Rosa, e que já estava gravada desde o dia 8 de dezembro de 1934, matriz 4965, ficando engavetada por quase um ano, e obtendo pouca ou nenhuma repercussão na folia de 36. Após o falecimento de Noel, em 1937, Braguinha, não entendendo o porquê da não-aceitação da música,  decide relançá-la para o carnaval de 38, com uma ou outra alteração na letra, e o novo título de “Pastorinhas”, na voz de Sílvio Caldas, obtendo desta vez o êxito merecido, e vencendo o concurso da prefeitura carioca na categoria marcha. A faixa 5, “Sou eu quem volta”, é um fox de Olga  Maria e Ribeiro Filho, e João Petra o imortaliza na Victor em 5 de junho de 1943,com lançamento em setembro do mesmo ano sob n.o 80-0111-B, matriz S-052787. O lado A, matriz S-052786, é justamente a faixa seguinte, a valsa ‘Quem será?”, de Custódio Mesquita e David Nasser. Para o carnaval de 1944, “a voz de dezoito quilates” grava dois sambas na mesma Victor, em 2 de dezembro de 43, e que são lançados bem em cima da folia, em fevereiro, com o n.o 80-0159: o lado A, sétima faixa desta edição, é “Depois de um longo inverno”, de Francisco Malfitano e Humberto deCarvalho, matriz S-052898. O lado B está na faixa 9: “Agora é tarde”, da parceria Alcyr Pires Vermelho-Pedro Caetano, matriz S-052899. A faixa 8, “Conto da carochinha”, é um samba-canção também de Custódio Mesquita, agora sem parceiro, gravação Victor de 14 de junho de1933 e lançado em agosto do mesmo ano, disco 33692-B, matriz 65776. Também de 1933 são dois foxes que João Petra grava na marca do cachorrinho Nipper em 25 de julho e são lançados em setembro seguinte com o n.o  33693. No lado B, faixa 10, ‘Sonho bonito”, de Joaquim Medina e Monte Branco, matriz 65822. Na faixa 23, você vai encontrar o lado A, “Dor de uma saudade”, matriz 65821, também de Joaquim Medina (e com ele em dueto com João Petra), agora tendo como parceiro nada mais nada menos que o Poetinha Vinícius de Moraes, então dando seus primeiros passos na MPB. A faixa 11 traz o maior hit da carreira de João Petra de Barros: a valsa “Última inspiração”, do alagoano  Peterpan (José Fernandes de Paula), imortalizada na mesma Victor em 16 de abril de1940 e lançada em junho seguinte sob n.o 34615-B, matriz 33382. É um clássico até hoje e tem várias regravações. Na faixa 12, o fox-canção “Cantor do rádio”, da parceria Custódio Mesquita-Paulo Roberto, gravação Odeon de 17 de agosto de 1933, lançada em setembro do mesmo ano, disco 11056-A, matriz 4713. O lado B está na faixa 18:  “Veio d’água”, canção de Francisco Alves e Luiz Iglésias, matriz 4712. A faixa 14 é um outro clássico do samba: “Feitiço da Vila”, da parceria Noel Rosa-Vadico, aquele da famosa definição “São Paulo dá café. Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”. Gravação Odeon de 22 de outubro de 1934, lançada em dezembro seguinte para o carnaval de 35, disco 11175-A, matriz 4938, na qual Noel faz a segunda voz, porém não foi creditado no selo como intérprete.  A faixa 16, “Santo Antônio amigo”, é um samba junino, como às vezes também se fazia, em gravação Victor de 9 de maio de 1941, lançada em julho seguinte sob n.o 34766-A, matriz 52208, nela ouvindo-se a inconfundível  flauta do mestre Benedito Lacerda  no acompanhamento.  Na faixa 17, outra bela valsa, ‘Teatro de revista”, de Marino Pinto e Pandiá Pires, gravação Victor de 28 de janeiro de 1942, lançada em abril do mesmo ano, disco 34889-A, matriz S-052467. A faixa 19 é o fox “Ninon  (Quando tu sorris)”, de Bronislau Kaper e e Walte Jurman, em versão de João ‘Braguinha” de Barro, gravação Odeon de 21 de setembro de 1934, lançada em novembro do mesmo ano, disco 11163-A, matriz 4917. É do filme alemão “Uma canção para você (Einlied fur dich”), de 1933, sendo nele cantado por Jan Kiepura.  A faixa 20, “Isso não se faz”, é outro samba do mestre Ismael Silva, agora em parceria com Noel Rosa e Francisco Alves, gravado na “marca do templo” em 2 de maio de 1933 e lançada em julho do mesmo ano, disco 11031-B, matriz 4661. Na faixa seguinte está o lado A, ‘Sorrindo sempre”,  outro samba dos mesmos autores mais Lauro “Gradim” dos Santos, matriz 4660. Na faixa 22, o fox “O que o teu piano revelou”, da parceria Custódio Mesquita-Orestes Barbosa, gravação Odeon de 12 de janeiro de 1935, lançada em maio do mesmo ano, disco 11222-A,matriz 4995. O lado B é a faixa de encerramento desta seleção, a canção “Tapera”, também de Custódio Mesquita, agora em parceria com Alberto Ribeiro, gravada em 11 de agosto de 1934 e que ficou nove meses engavetada, matriz 4892. Enfim, uma seleção vasta e primorosa que dá uma visão panorâmica da curta carreira de João Petra de Barros, e representa uma digníssima homenagem ao centenário de seu nascimento. Simplesmente imperdível!


* Texto de Samuel Machado Filho

terça-feira, 24 de junho de 2014

Alvarenga & Ranchinho - Seleção 78 RPM Do Toque Musical Vol. 105 (2014)



O Grand Record Brazil está de volta, após uma semana de recesso, desta vez trazendo de volta os “milionários do riso”: Alvarenga e Ranchinho, sem dúvida uma das duplas sertanejas mais famosas e queridas do Brasil. A dupla era formada por Murilo Alvarenga, nascido na cidade mineira de Itaúna, em 22 de maio de 1912, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista de Jacareí, nascido em 23 de maio de 1913. Após o falecimento de sua mãe, Murilo passou a residir no Brás, bairro italiano de São Paulo. Trabalhava em circos como trapezista ao lado de seus tios, e ainda cantava tangos. Diésis atuava como cantor na Rádio Clube de Santos, apresentando um repertório romântico, e uma de suas músicas prediletas era “No rancho fundo”, de Ary Barroso e Lamartine Babo, sendo por isso apelidado de “Rancho”. Em 1928, durante uma seresta em Santos, Murilo e Diésis resolveram cantar juntos. Murilo aproveitou o sobrenome Alvarenga, e Diésis, conhecido como “baixinho” em função do porte físico, aproveitou o apelido das serestas e pôs no diminutivo – Ranchinho.  De início apresentavam-se em circos, com um repertório variado (valsas, modinhas, tangos, chorinhos), contando “causos” e piadas entre uma  música e outra, sempre garantindo o riso e a diversão do público.  É em 1933 que a dupla começa efetivamente sua carreira, atuando no Circo Pinheiro, em Santos. Mais tarde, seguem para São Paulo, apresentando-se na Companhia Bataclã. Um ano depois, ingressam na PRA-5, Rádio São Paulo (“a voz amiga”), a convite do maestro da orquestra da emissora, Brenno Rossi.  Em 1935, Alvarenga e Ranchinho venceram o concurso de músicas carnavalescas  da prefeitura de São Paulo com a marchinha “Sai, feia”, gravada por Raul Torres. Mais tarde, conhecem o compositor Silvino Neto e formaram o trio Mosqueteiros da Garoa, de curta duração. Um dia, a dupla passeava pelas ruas de violas na mão, quando foi vista pelo Capitão Furtado e, a convite deste, participou  do primeiro filme falado produzido em São Paulo, “Fazendo fita”, substituindo Mariano e Caçula, que desistiram de atuar no mesmo em virtude do atraso nas filmagens. Em 1936, a dupla chega ao Rio de Janeiro para uma temporada na Casa de Caboclo,uma casa noturna erguida no lugar do antigo Teatro São José,e ingressam na Rádio Tupi, com apresentações no programa “Hora do Guri”. Nesse ano, gravam seu primeiro disco, na Odeon,  com a moda de viola “Itália e Abissínia” e o cateretê “Liga das Nações”.  Em 1937, já consagrados, Alvarenga e Ranchinho são contratados pelo Cassino da Urca, onde permanecem até a proibição do jogo no Brasil, em 1946. Em 1938, obtêm êxito no carnaval com a marchinha “Seu condutor”, deles com Herivelto Martins, e nesse ano Ranchinho se desliga pela primeira vez da dupla. Alvarenga passa a cantar com Bentinho e forma o grupo Alvarenga e sua Gente. Mas, em 1939, Alvarenga e Ranchinho recompõem a dupla, que um ano mais tarde grava um de seus maiores hits, “Romance de uma caveira”. Em suas apresentações, o forte da dupla eram as sátiras políticas, com a diversão do público e o consequente descontentamento de alguns políticos atingidos. Inclusive o então presidente Getúlio Vargas, e a dupla passou a enfrentar problemas com o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de censura do Estado Novo. Porém, certa vez, no dia do aniversário de Getúlio, 19 de abril, sua filha Alzira Vargas  convidou Alvarenga e Ranchinho para cantar no Palácio do Catete. Após ouvir a dupla, inclusive as sátiras que o atingiam diretamente, Getúlio acabou gostando e decidiu liberar suas músicas. Após uma excursão pelo Rio Grande do Sul, são contratados pela Rádio Mayrink Veiga, onde recebem o título de “Milionários do Riso”, tendo atuado também na lendária Rádio Nacional. Em 1950, apresentaram-se no Cassino Estoril, dePortugal, e, nessa época, são contratados pela Rádio e Televisão Tupi, juntamente com seu descobridor, o Capitão Furtado, “a trinca do bom humor”. Na década de 50, Diésis novamente deixa de cantar com Alvarenga por dois meses, desta vez substituído por Delamare de Abreu,  irmão de Alvarenga por parte de mãe, que mais tarde deixou a carreira artística e virou pastor protestante. Em 1965, Diésis, o primeiro Ranchinho, abandona definitivamente Alvarenga, sendo substituído por Homero de Souza Campos, que já integrara o Trio Mineiro, ao lado de Bolinha (Euclides Pereira Rangel) e Cosmorama. A 18 de janeiro de 1978, em São Paulo, Alvarenga falece, encerrando definitivamente a dupla. Diésis dos Anjos Gaia, o primeiro Ranchinho, continuou a se apresentar solo, inclusive participando, em 1981-82, do programa “Som Brasil”, apresentado por Rolando Boldrin na TV Globo. Diésis faleceu em 5 de julho de 1991. Nesta edição do GRB, apresentamos alguns dos melhores momentos da vitoriosa carreira de Alvarenga e Ranchinho, perfazendo um total de dezesseis faixas, todas em gravações Odeon. Abrindo esta seleção, justamente o lado A do primeiro disco da dupla, a moda de viola “Itália e Abissínia”, deles mesmos mais o Capitão Furtado, abordando o conflito entre os dois países, que precederia a Segunda Guerra Mundial.  Histórica gravação de 16 de março de 1936, lançado em maio do mesmo ano, disco 11342-A, matriz 5286. “O divórcio vem aí”, de Alvarenga, Ranchinho e mais ninguém, reflete uma das muitas ocasiões em que o tema estava na pauta das discussões, em gravação datada de 11 de julho de 1939 e lançada em setembro do mesmo ano sob n.o 11757-A,matriz 6153. Em seguida temos o lado B desse disco, o cateretê “Nóis em Buenos Aires”, também de composição própria, matriz 6154, concebido após uma temporada de sucesso na capital argentina.  A moda de viola “Racionamento de gasolina”, de Palmeira e do Capitão Furtado, retrata uma situação decorrente da Segunda Guerra Mundial, com o uso pelos automóveis de gasogênios (aparelhos que substituíam gasolina por gás).  Alvarenga e Ranchinho a gravaram na ”marca do templo” em 13 de julho de 1942, com lançamento em setembro do mesmo ano sob n.o 12195-B, matriz 7013. Também do Capitão Furtado e Palmeira, agora com a companhia de Piraci (Miguel Lopes Rodrigues), é a moda de viola “Você já viu o cruzeiro?”, outra crônica musical  em que se aborda a implantação do cruzeiro como moeda nacional (após frustrada tentativa no governo de Washington Luís), gravação de 15 de setembro de 1943, lançada em novembro do mesmo ano, disco 12376-B, matriz 7384. Uma das muitas homenagens musicais prestadas à capital paulista, o samba “Eh! São Paulo”, da própria dupla, é conhecido até hoje, e foi gravado em 13 de dezembro de 1943, com lançamento em março de 44, disco 12423-B, matriz 7449. A divertida moda de viola “Liga dos bichos”, dos próprios Alvarenga e Ranchinho mais o Capitão Furtado, foi lançada originalmente  na Victor, em 1936. Aqui,a segunda gravação, feita na Odeon em 27 de fevereiro de1948 e só lançada em maio de 49 sob n.o 12933-A, matriz 8322. Composta e gravada na época do Estado Novo, a moda de viola “História de um soldado”, de Alvarenga  sem parceria,  foi vetada pela censura na época. Mas, em  5 de fevereiro de 1953, Alvarenga e Ranchinho fazem nova gravação, esta sim lançada em disco, em maio do mesmo ano, com o n.o 13437-B, matriz 9615, e com o título alterado para “História de um palhaço’ (!).  “Dança do chegadinho” é uma marchinha do carnaval de 1942. Assinada pelos próprios Alvarenga e Ranchinho, foi por eles gravada em 19 de novembro de 41, com lançamento pela  “marca do templo” um mês antes dos festejos de Momo, em janeiro, sob n.o 12102-A, matriz 6857. A rancheira “As três festas”, também composição própria da dupla, é gravada em 16 de abril de 1941, mas só chega as lojas em março de 42, no disco Odeon 12124-B, matriz 6614. Em seguida, temos o clássico “Tico-tico no fubá”, “choro sapeca” de Zequinha de Abreu, originalmente lançado em 1932 pela Orquestra Colbaz, apenas instrumentalmente. Com o subtítulo de “Vamos dançar, comadre” e com letra de Alvarenga, é por ele gravado com Ranchinho na Odeon em 27 de julho de1942, com lançamento em outubro do mesmo ano sob n.o  12202-A, matriz 7021 (a letra mais conhecida, porém, é a de Eurico Barreiros, gravada no mesmo ano por Ademilde Fonseca). A “Valsa do assobio”, dos próprios Alvarenga e Ranchinho, é por eles gravada em 16 de abril de1941, mas só sai em março de 42 sob n.o 12124-A,matriz 6615. O cateretê “Fogo no canaviar”, outra composição própria da dupla, é gravação de 13 de dezembro de 1943, só lançada em junho de 44, disco 12449-B, matriz 7450. “Vamos arrastar o pé”, de Alvarenga e Chiquinho Sales, é uma marchinha do carnaval de 1943, que os “milionários do riso” gravam na “marca do templo”  em 13 de novembro de 42 com lançamento um mês antes da folia, em janeiro, sob n.o 12248-B, matriz 7140. As duas últimas faixas mostram a veia romântica de Alvarenga e Ranchinho.   A rancheira “Adeus, Mariazinha”, de Fausto Vasconcelos, é gravada pela dupla em 25 de janeiro de1944,com lançamento em maio do mesmo ano, disco 12442-B, matriz 7480. E, por fim, encerrando esta seleção do GRB, a valsa “Aquela flor”, da própria dupla, gravação de 13 de julho de 1942, lançada somente em outubro de 44, disco 12498-A, matriz 7011. Enfim,uma retrospectiva bastante expressiva da carreira de Alvarenga e Ranchinho, os eternos e insubstituíveis “Milionários do Riso”!  -

*Texto de SAMUEL MACHADO FILHO